O milenarismo tinha começado em meados do século XVI e se difundiu durante o século XVII. Seus partidários acreditavam que a chegada do milênio – o reinado de mil anos de Cristo na terra, de acordo com Apocalipse 20,1-5 –anunciaria a Utopia final: o céu na terra e o governo dos santos.
Nessa época, o sentimento milenarista situava a vinda do Messias e os acontecimentos a ela relacionados em torno de 1656, naquele mesmo ano. Muitos matemáticos, como Napier no século XVI e Isaac Newton no século XVII, baseavam seus cálculos em Daniel e no Apocalipse, e o consenso era que o milênio ocorreria 1260 anos depois do Anticristo estabelecer o seu poder. Os protestantes achavam que o Anticristo era o papa, cujo ascensão datava de 390 a 396 d.C., o que situava a data do milênio entre 1650 e 1656. Outros cálculos somavam 1290 anos a Juliano o Apóstata e à destruição do Templo de Jerusalém, o que dava o mesmo resultado. (Em um dos cálculos, o Anticristo era a usurpação do Bispo de Roma, em 400-6 d.C., sendo então 1666 a data do milênio. Em outro cálculo, o Anticristo era o infiel turco, o que fixava o milênio mais no futuro.)[111]
Acreditava-se que o Dilúvio de Noé começara em 1656 anno mundi (ou seja, depois do começo
da terra). Mateus tinha dito: “Como nos dias de Noé, será a Vinda do Filho do Homem.” Isso era interpretado em termos de datas e, assim, o milênio – o Juízo Final e o fim do mundo – era situado em 1656 d.C. Esse argumento foi usado pela primeira vez por Osiander, cujo livro foi traduzido para o inglês por George Joyce, em 1548. Thomas Goodwin, que escrevia nos Países Baixos, expôs a mesma ideia em 1639. Em 1651, ninguém mais do que Samuel Hartlib publicou uma tradução de Clavis Apocalyptica, que estabelece 1655 anno mundi para o Dilúvio de Noé e 1655 d.C. para o Juízo Final e o fim
do mundo.
Assim, 1656 tinha se tornado a principal data do milênio quando o milenarista Peter Sterry pregou no Parlamento em 1651, dizendo que o ano era o de 1656. Os milenaristas John Tillinghast, John Rogers, Henry Jessy, Nathanael Homes, Robert Gell, William Oughtred e os Quakers adotaram, todos eles, o ano de 1656.
A teoria do milênio era acompanhada de todos os tipos de previsões: a derrubada do papa, que era para os protestantes o Anticristo e cuja queda estava prevista para acontecer logo antes do milênio; a oposição ao Anticristo pelos pobres da Inglaterra; a reunião dos gentios no Cristianismo espalhado pelo mundo; a conversão dos judeus; o retorno dos judeus a Sião, na Palestina; a Segunda Vinda de Cristo; o Juízo Final; o reinado de mil anos de Cristo e seus santos; o fim do mundo.
Muitos pregadores situavam o fim do mundo em 1650-6, incluindo John Archer, Raphael, Hartford, John Cotton, Stanley Gower, William Reyner, Thomas Shepard, James Toppe e Mary Cary. John Canne dizia que Cristo “apareceria da maneira mais notável” em 1655 e que haveria “grandes revoluções [...] em toda parte na Europa”. (Um panfleto de 1648 se refere a “todos esses Milenaristas Cabalistas e restauradores de Judeus”.)
A dispersão dos judeus através do mundo e sua conversão ao Cristianismo devia terminar por volta de 1650-6. Muitos escritores mencionavam a conversão dos judeus: a Bensalem da Nova Atlântida
de Bacon, por exemplo, é povoada por judeus convertidos. Em 1641, Comenius expôs um plano para a conversão dos judeus. O senso de urgência dos milenaristas foi tratado de forma galhofeira por Marvell na mensagem “À Amante Recatada”: “E deves, se te agrada, recusar / Até a conversão dos judeus.” Esse cronograma era anunciado na Inglaterra desde os anos 1550, especialmente pelos protestantes Martin Bucer e Peter Martyr de Strasburgo. Calvinistas como Beza exigiam a conversão dos judeus. Assim como Wycliffe e Hus.
seu retorno a Sião, na Palestina, eram importantes porque possibilitavam a Segunda Vinda e o reino dos santos na terra, agora o mais importante era realizar o reino dos santos numa Comunidade, e os judeus eram uma consideração secundária. Assim, Gerrard Winstanley, o Digger comunista, igualava os
ingleses aos israelitas. Winstanley e Everard chegaram a dizer a Sir Thomas Fairfax que eram “da raça
dos judeus”.
A equivalência entre Inglaterra e Israel viera do Deuteronômio. A dispersão dos judeus terminaria quando atingissem o ângulo ou limite da terra: a Inglaterra. Assim, os ingleses tinham que ser mostrados como israelitas para que a dispersão dos judeus terminasse e o milênio pudesse começar. Vestindo-se como israelitas, os milenaristas podiam demonstrar que o estilo israelita chegara à Inglaterra. Isso aceleraria a chegada do milênio, a Segunda Vinda e o reinado dos santos.
Os milenaristas ingleses adotaram deliberadamente uma aparência judaica para assumir uma identidade israelita e participar do primeiro reino dos santos. (Eram israelitas ingleses, por assim dizer.) Assim, o estilo de vida dos puritanos era baseado no dos judeus ortodoxos. Usavam roupas pretas com chapéu de aba larga, como os judeus. Jejuavam e defendiam a simplicidade no alimento e nas roupas, como os judeus. Guardavam o Sábado, como os judeus. Aceitavam literalmente o Antigo Testamento e cantavam salmos, como os judeus. Acreditavam em uma vida sóbria e evitavam álcool (exceto em ocasiões religiosas), como os judeus. Em Décima Segunda Noite de Shakespeare, o puritano
Malvolio se veste de preto, vive com simplicidade e desaprova o comportamento desordeiro de Sir
Toby Belch. Os judeus também desaprovavam a folia e o comportamento desordeiro. Os puritanos fecharam os teatros e se puseram contra a corrupção da Igreja. Tais atitudes eram encontradas também entre os judeus.
Os puritanos milenaristas eram versados em Judaísmo, nas escrituras do Antigo Testamento e usavam roupas iguais às dos judeus ortodoxos. Os familistas holandeses de Hendik Niclaes (que Jaime I considerava a fonte do Puritanismo) podem ter iniciado essa tendência na indumentária entre 1540 e 1560, quando judeus e cristãos viviam alegremente juntos na Família do Amor, ou Família de Deus, mas dentro do corpo de Cristo. Muitos puritanos propuseram a adoção da Lei de Moisés na Inglaterra e aguardavam o Messias judeu. Essa imitação da indumentária israelita começou em meados do século XVI. Os milenaristas Bucer, Peter Martyr e Beza na década de 1550, a igreja particular de Sitz em 1567-8 (que via a Inglaterra como Israel agraciada por Deus), Andrew Willet em 1590 e Perkins e Hooker na virada do século – todos eles tinham preparado o caminho.
Os milenaristas puritanos primitivos, que se vestiam de maneira diferente, também tomavam os judeus como modelo. Na época elisabetana, William Cecil, Walshingham e Bacon não usavam o gibão e as calças justas então em voga, mas roupas negras iguais às do rabino holandês Menasseh ben Israel (num retrato de 1642). Ao usá-las, é possível que estivessem expressando sua simpatia pelos objetivos internacionalistas da Família de Deus, “amantes da verdade de todas as nações”. Na Franco- Maçonaria, Bacon se remetia ao Templo de Salomão em Israel, como já vimos. William Cecil, provavelmente um judeu marrano, que chegou a ser a pessoa mais poderosa do país depois da rainha,
nada fez para impedir a ascensão dos puritanos e talvez simpatizasse em segredo com a entrada de judeus na Inglaterra como marranos. Para favorecer a readmissão dos judeus, é possível que tenha
endossado a indumentária judaica milenarista – que Shakespeare (que parecia desprezar Lorde Burghley) satirizou através de Malvolio. De acordo com pessoas bem informadas, como G. W. Phillips,[112] mais tarde Shakespeare satirizou Cecil como Shylock.
Pouco antes de 1650, os quipás de estilo judaico estavam em uso. O ministro presbiteriano que visitou Carlos I depois do julgamento, o Reverendo Edmond Calamy, foi retratado usando um quipá e, na manhã de sua execução, Carlos I escolheu o quipá que usaria e pediu a Herbert que o deixasse à
mão no cadafalso. O Bispo Juxon se encarregou do assunto. Isso teve um uso prático: Carlos usou o quipá para prender os longos cabelos e deixar a nuca à mostra. Nos anos 1650, muitos puritanos foram pintados usando quipás bem menores, incluindo Henry Marten (o político republicano), John Owen (capelão de Cromwell durante a expedição à Irlanda) e o poeta Andrew Marvell (pintado por um artista desconhecido por volta de 1655-60, vários anos depois de escrever “The Garden”).
Os puritanos foram financiados pelos judeus, mas muitos se consideravam neoisraelitas apenas no sentido de esperar a Segunda Vinda. Cada puritano tinha que viver uma vida pura, pronto para participar da congregação dos santos. Muitos queriam acabar com a ostentação da religião, que associavam ao Anticristo. Alguns judeus expulsos da Espanha e de outros lugares, que se juntaram a congregações cristãs como marranos, aproveitaram a oportunidade para usar roupas judaicas. Mas a
indumentária judaica não foi um complô marrano para dividir a Cristandade como vingança pelas
expulsões: foi escolhida livremente pelos puritanos ingleses, que gostavam de se ver como futuros santos neoisraelitas.
Roupas puritanas: quipás no estilo judaico. Marten (esquerda), Owen (centro), Marvell (direita)
A reunião dos gentios, que precederia o milênio, seria favorecida pelas viagens inglesas e pela aquisição de territórios no Novo Mundo. Os territórios católicos espanhóis do Novo Mundo tinham difundido o Anticristo e cabia aos viajantes ingleses protestantes neutralizar essa influência do mal, fazendo com que índios, crioulos e negros se voltassem contra os espanhóis. (Os índios eram considerados descendentes das dez tribos judaicas perdidas.) As viagens ao Novo Mundo tornariam o milênio mais provável por “reunir” os gentios na Cristandade, na Virginia e em outras partes do Novo Mundo. Essa reunião, por sua vez, anteciparia a época da conversão dos judeus, que possibilitaria a Segunda Vinda de Cristo. (O mesmo sentimento estava presente no Palatinado rosacruciano.) O major-general Harisson disse: “Os holandeses precisam ser destruídos para que tenhamos um céu na terra”. John Rolfe, o marido de Pocahontas, disse em 1616 que os Ingleses eram “um povo peculiar, marcado e escolhido a dedo por Deus” para possuir a América do Norte.
Muitos milenaristas falavam de voltar à Palestina. Dizia-se que o Zohar previa um retorno dos
judeus a Israel em 1648. Richard Farnham e John Bull, que morreram em 1642, tentaram ir para Israel num barco de junco. John Robins o Ranter (nome dado aos metodistas primitivos) teve a inspiração de
conduzir 144.000 homens à Palestina (o número de Eleitos segundo Apocalipse 7,4 e 14, 1-3, sendo 12 mil de cada uma das 12 tribos de Israel) e começou a treinar alguns homens para essa tarefa; seu associado Thomas Tany assumiu o título de “Rei dos Judeus” em abril de 1650. Houve muitos falsos relatos sobre a volta dos judeus à Palestina.
comandante das forças escocesas na Inglaterra queria marchar até Roma e incendiar o quartel-general do Anticristo. Foram também aventadas ações similares contra os turcos.
Mas no centro do pensamento milenarista estava a vinda de um Messias judeu. Assim como a Cabala tinha passado por uma mudança durante o exílio dos judeus na Babilônia, a noção de Messias também tinha mudado. O Messias esperado nos anos 1650 não era o Messias espiritual dos essênios e da verdadeira Cabala (ver Apêndices B, Apêndice 3), mas o Messias político da falsa Cabala e dos fariseus, um Messias que conduziria os judeus a um novo reino na terra, uma nova Terra Prometida: a Israel na Inglaterra.
Com tudo isso acontecendo, vemos que o Messias era esperado em 1656 para reconduzir os judeus à “Angle-land” (Inglaterra) e possibilitar assim a sua volta a Israel (a carta do Lorde Balfour ao Lorde Rothschild em 1917 anunciaria essa volta em 1948). Vemos também que as duas correntes por trás da revolução puritana – a rosacruciana e a judaica – se juntaram em 1656, numa época que Milton chamou de “um Paraíso”. As esperanças perdidas e as expectativas frustradas do milênio resultaram numa profunda decepção para os milenaristas, que se conformaram então com uma época em que ingleses e judeus afundavam de novo numa vida de comercialismo secular.