2 (TATO) SOBRE A CATEGORIA ESTÉTICA
2.6 FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE (1844 – 1900)
Martelando em contraponto, sobre nossa preocupação com a tríade VBB, ouviríamos de Nietzsche que, “[...] é uma futilidade para o filósofo dizer 'o bom e o belo são um'; se acrescenta 'o verdadeiro também', ele deveria ser espancado” (NIETZSCHE apud AERTSEN, 2008, p. 3).
Essa forma de repelir fortemente uma proximidade algo simplista das categorias está ligada à fenomenologia de Schopenhauer e ao por assim dizer 'pessimismo' existencial desses filósofos, o qual à guisa de recolocar o humano em seu formato mais original, que é também dramático, grotesco, abjeto e torto, quer ir além do 'belo' do 'bom' e da 'verdade' convencional.
Distanciando-se da tradição platônica, Nietzsche buscou negar a lógica aristotélica, que ao seu ver representou o fechamento do espírito da filosofia. Ele tinha nos antigos gregos pré-socráticos anteriores à razão sistemática um modelo, em virtude de eles estarem mais conectados aos aspectos mitológicos e não apenas cognitivos da filosofia. Por isso, merece ser entendido como um dos precursores da crítica à racionalidade tradicional29.
Haveria que se entender a admiração de Nietzsche pela tragédia grega e pela arte como demasiado humana, pois é na transformação da vida e na consequente afirmação redentora da vida mesma como ela é, e não como se nos apresenta, na autoconfiguração do ser a partir da poesia vital cantada pela alma livre, na reconciliação do ser com o real que se poderia intuir e talvez fazer juz à uma noção de 'beleza' em Nietsche. E até mesmo intuir uma noção de 'verdade'. Para ele, “O homem científico é a continuação do homem artístico.” Nietzsche (1983, p. 105). Além disso:
29 Observe-se que Heidegger também criticava a linearidade da história da ontologia.
À pergunta sobre o que é a verdade, Nietzsche responderia: uma convenção, um acordo, no fundo uma mentira em sentido extra-moral. Para que a verdade? Com Nietzsche, pode-se responder: para podermos nos orientar no mundo. E o que torna a verdade tão significativa? Precisamos dela a fim de nos comunicar com os outros, fazê-los entender nossos pontos de vista. E por que temos que nos comunicar com os outros? Porque sem eles não sabemos se isso que nós tomamos como verdadeiro o é também efetivamente. Verdade é um acordo, do qual nós nos certificamos involuntariamente quando nos comunicamos com os outros através de nossos pontos de vista e opiniões. Como se poderia caracterizar melhor essa espécie de compreensão da verdade do que como "alegre pessimismo"? (WISCHKE, 2005, p. 42-43).
Encontram-se ainda neste filósofo alguns indícios expressivos de uma crítica à ciência como forma de saber com paixão incontrolável por saber e sem parâmetros claros sobre até onde ir por essa paixão. Essa crítica tenta resgatar o papel da filosofia como reguladora:
O impacto da crítica de Nietzsche à Ciência vem do fato de ela ter uma função sistemática em diversos planos argumentativos. Partindo das questões de em que medida o esforço cognitivo científico em geral tem sentido e de quais são as conseqüências de sua dinamização, a crítica científica forma o modelo para a metafísica da arte, a partir da qual ela passa ao perspectivismo da concepção da linguagem de Nietzsche. No plano do perspectivismo, Nietzsche atenta, com o conceito da estimativa de valor, não apenas para a multiplicidade de valores possíveis, mas também para um problema genuinamente teórico- cognitivo: a constituição de objetos possíveis de conhecimento através da relação a valores (WISCHKE, 2005, p. 41).
Esse quase pragmatismo nietzscheano é questionado por Habermas, conforme pode-se constatar em Julião (2008, p. 172), que 63 63
nos indica que:
[...] a filosofia de Nietzsche oscila entre duas estratégias: por um lado, sugere a possibilidade de uma observação artística do mundo levada a cabo por meios científicos, porém numa atitude antimetafísica, anti-romântica, pessimista cética. Uma ciência da história dessa espécie, por estar a serviço da vontade de poder, poderia escapar da ilusória fé na verdade. Todavia teria de pressupor a verdade dessa mesma filosofia.
Pensar a arte e o estético como Nietzsche é pensar uma fisiologia da utopia em ação. Mas que utopia seria essa?
Por mais desnecessário e impossível para o momento esclarecer por completo essa questão, cumpre avaliar que para Friedrich Wilhelm Nietzsche essa utopia não seria uma sociedade ou estado que buscasse oportunidades iguais para todos, como no modelo socialista.
Os socialistas desejam instaurar um bem-viver para o maior número possível. Se a pátria duradoura desse bem-viver, o Estado perfeito, fosse definitivamente alcançada, então, por esse bem-viver, o chão de que cresce o grande intelecto, e em geral o indivíduo forte, estaria destruído: refiro-me à grande energia. A humanidade se teria tornado demasiado débil, se esse Estado tivesse sido alcançado, para poder ainda gerar o gênio. Não se teria, portanto, de desejar que a vida conservasse seu caráter violento e que sempre de novo fossem suscitadas forças e energias selvagens? (NIETZSCHE, 1983, p. 107).
Pode ser possível separar cirurgicamente a filosofia nietzschiana do fascismo de que muitas vezes é diagnosticada, mas é uma tarefa complicada demais. Há elementos que nos impelem a dizer que há uma filosofia em Nietzsche que talvez possa ser lida como convite à superação. Talvez.
[...] Nietzsche não é um bom aliado para quem prima por um discurso emancipatório, que possibilite uma interação racional entre os
homens, a sua filosofia é desagregadora e crítica de todo discurso com pretensões de universalidade e, também, de plausibilidade, desse modo, deve ser abandonado e afugentado dos limites da razão (JULIÃO, 2008, p. 173).
Sigamos em frente, que paramos apenas para nos despedir do 'filósofo com o martelo'.
Deixemo-lo em dificuldades com sua energia das 'bestas feras do campo'. Caminhemos rápido antes que nos alcance seu irracionalismo30, sua revolta ou sua loucura. E não saibamos – ou queiramos - mais lecionar como bons, belos e verdadeiros professores31.
2.7 KARL MARX (1818 - 1883), FRIEDRICH ENGELS (1820 -