5 (VISÃO) UMA EXPERIÊNCIA
4. É basicamente, mas não apenas, o registro do
5.11 UM GRUPO TEMÁTICO, UM QUESTIONÁRIO E ENTREVISTAS SEMI-ESTRUTURADAS.
5.11.1 Primeiro elemento da consciência efetiva sobre a EC:
Dificuldade conceitual.
Como resultado das conversas oriundas do primeiro grupo temático, das entrevistas e da análise do questionário, observou-se desde o início, um certo constrangimento com o tema proposto, tendo em vista a percepção de dificuldade e complexidade da categoria estética. Essa percepção de complexidade está relacionada à pouca intimidade dos entrevistados com o tema, sendo que noção de estética preponderante foi a de estética como Teoria do Belo e não como experienciação crítica da totalidade vivencial. Maiores complicações ainda se colocavam quando da tentativa de relacionar essas concepções ao cotidiano escolar:
Pergunta do entrevistador: “Qual seria teu conceito de Estética?”
Resposta da professora Matemática:
“Então, eu ia te pedir pra conceituar pra mim estética na educação, pra eu saber do que estás falando, porque até responder o teu questionário eu nunca tinha pensado em estética relacionada a educação. Quando se pensa em estética se relaciona com beleza, mas eu nunca tinha relacionado com a educação.” (Apêndice A, p. 222)
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Pergunta do entrevistador para o professor Engenheiro Eletricista:
“Sobre tua visão e vivência pessoais da Arte/Estética. Por exemplo, imaginando cinema, fotografia, jardinagem, culinária, moda, enfim, pensando arte como permeando nossa vida cotidiana, na tua vida pessoal, tu te consideras um apreciador, um produtor, ou um estudioso da arte (ou tudo isso, ou nada disso)?
Resposta do professor Engenheiro Eletricista: “Termos complicados ou pomposos: apreciador, produtor ou estudioso...” (Apêndice B, p. 226)
Entrevistador pergunta da vivência da arte pelo entrevistado.
Resposta do Professor Designer Engenheiro: “Minha vivência da arte é como expectador. Sempre gostei muito do teatro e da música. São o campo da arte que sempre gostei mais de sentir e de ver. Cinema também. Mas nunca como estudioso. Sempre gostei muito de sentir, de ver, de ouvir, mas sem querer saber muito os porquês, quais as fases, qual o trabalho, qual foi o contexto político que aconteceu naquela história, né. (Apêndice C, p. 233)
Essa dificuldade inicial com o conceito incitou uma certa
desmotivação para a participação em grupos focais ou temáticos em que se aprofundaria o tema, ou seja, o tema “Estética Crítica” é entendido ou de forma apropriada do senso comum, ou não faz parte significativa das preocupações teóricas e pedagógicas cotidianas dos professores.
A motivação e o envolvimento são elementos fundamentais na efetividade da metodologia quando se quer ampliar para o grupo o processo de descodificação.
[...] os camponeses somente se interessavam pela discussão quando a codificação dizia respeito, diretamente, a aspectos concretos de suas necessidades sentidas. Qualquer desvio na codificação, como qualquer tentativa do educador de orientar o diálogo, na descodificação, para outros rumos que não fossem os de suas
necessidades sentidas, provocavam o seu silêncio e o seu indiferentismo (FREIRE, 2005, p. 128). O relativo silêncio e indiferentismo poderiam significar que a estética crítica como abordada ou entendida pelo pesquisador, não se constitui de imediato parte das necessidades sentidas dos professores da EPT do IFSC. Mas parar nessa conclusão seria fatalista e precipitado.
A partir dos encontros, conversas, entrevistas, troca de impressões, imagens e vivências, a pesquisa apontou para uma existência como que subterrânea do estético, desprezado cognitivamente, mas vivido quase de forma distraída.
No questionário realizado, conforme pode-se observar no apêndice E, apresentaram-se, as seguintes definições rápidas de Lógica, Ética e Estética:
“A Lógica lida com a noção de Verdadeiro e Falso. Preocupa-se em estabelecer o pensamento correto, o raciocínio coerente e eficaz.”
“A Ética lida com a noção do que é adequado nas relações humanas e com o mundo, com o que é Bom e Direito. Respalda os conceitos morais.”
“A Estética lida com as sensações, percepções, noções sobre a beleza, feiúra, atratividade, repulsividade e também com as dimensões artísticas.”
Em seguida, perguntou-se nos itens 13, 14 e 15 do questionário, qual a importância dos raciocínios baseados na lógica, na ética e na estética nas disciplinas ministradas.
A importância da lógica e da ética se distribuem igualmente bem acima da média, ou seja, a maior parte dos professores consideram fundamentais a lógica e a ética em suas disciplinas. A Estética é considerada muito importante nas disciplinas por pouco mais da metade dos professores. Quase um terço considera que não seja um tema significativo para exigir formação ou que apenas professores de áreas específicas deveriam lidar com o tema.
Ao mesmo tempo, nas perguntas seguintes, se observa a significativa consciência dos docentes sobre o caráter educacional, pervasivo e interdisciplinar da dimensão estética.
O que esses dados aparentemente dicotômicos apontam? A maioria dos professores coloca em segundo plano a dimensão estética, 179 179
em relação aos outros aspectos da educação, mas admite facilmente a importância da estética, entendida como a Filosofia da Beleza, não necessariamente como a vivenciação experiencial plena, sem se dar conta da diferença ou da proximidade entre essas abordagens. O que parece se aproximar de uma concepção de estética como algo no limite da racionalidade. Algo fugidio, indeterminado, perigoso se não controlado.
Com isso, em muitos aspectos, temos a impressão de brotar dos discursos dos professores um certo temor ou restrição precavida em relação à estética crítica. Nossa impressão pessoal é de que os docentes falaram em sua maioria de um ponto de vista preocupado com a viabilidade da manutenção do fazer escolar.
Nos pareceu evidente que há uma resistência cultural ou intelectual ao tema, fruto do estilo de pensamento pedagógico hegemônico. A essa resistência denominamos dificuldade conceitual.
Em algum nível, percebe-se ainda a alienação ou reificação do estético, consequentemente da EC. Percebe-se que uma ruptura, um hiato se apresenta entre a vivenciação da estética no dia a dia dos professores e a prática docente. Muitos docentes afirmam perceber estética em tudo (pervasividade), inclusive nos aspectos cotidianos de sua vida profissional, mas por alguma razão não transbordam essa vivência para a sala de aula como projeto pedagógico. Ou seja, o estético está ali, mas não é apropriado como experiência revolucionária na práxis escolar pela maioria dos professores. Talvez por que a sua práxis não tenha esse objetivo? O que se percebe é a supervalorização dos elementos racionais e daqueles relacionados ao mundo do trabalho como centro da atividade educacional em EPT.