AS FRONTEIRAS DA PROVÍNCIA
6. FRONTEIRA NORTE
Mais extensa que as demais, a fronteira norte de Minas era a mais desguarnecida de fiscalização. Os sertões do norte constituem imensa região de planaltos, grande extensão de terrenos planos ou pouco ondulados, elevados e cortados por chapadas e vales. Diferentemente da fronteira sul, retalhada por serras e matas, a fronteira norte facilitava o trânsito entre as províncias de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Rios largos delimitavam a fronteira, como o Cariranha e Verde, não merecendo a atenção da administração provincial o melhoramento dos caminhos. As trilhas marcadas por cascos de bovinos e eqüídeos não prestavam à fixação de recebedorias fronteiriças, pelo pouco trânsito e prontidão dos sertanejos em tomar rumos alternativos uma vez instalado um posto fiscal. As recebedorias que funcionaram nesta fronteira estavam em portos de rios navegáveis, como São Francisco, Jequitinhonha e Mucuri; exceto a do Rio Pardo e seus vigias, na vila deste nome, um dos mais importantes arraiais da região, no termo do município de Minas Novas.
Observamos no gráfico 6.1 que as exportações totais nesta fronteira eram pequenas e superaram 20 mil libras esterlinas tão-somente em 1818-28 e a partir de meados da década de 1870, com exceção para o ano de 1858/59.
Gráfico 6.1 – Exportações anuais na Fronteira Norte, 1815-84 (milhares de libras)
As 65 mil libras exportadas no ano de 1818/19 deveram-se à excepcional passagem de 6,3 mil cabeças de eqüídeos, entre cavalares e muares, conforme os dados do Barão de Eschwege. Além do período inicial, identificamos claramente três momentos de expansão nas exportações. Os dois primeiros, nas décadas de 1840 e 1850, são seguidos de declínio a nível pouco superior a 5 mil libras anuais. O último período de expansão, a partir da década de 1860, perdura durante as décadas de 1870 e 1880. Ainda, o volume é exíguo quando
comparado ao início do século. Entretanto devemos anotar que a proporção de extravios era grande e não estamos longe da realidade quando falamos que as exportações totais eram, na realidade, no mínimo o dobro das computadas nas recebedorias. Segundo o engenheiro Henrique Gerber, a proporção de extravios na fronteira norte era elevada na década de 1850, chegando a 93% do valor registrado no segmento do Rio São Francisco e a 72% do valor registrado no segmento de Minas Novas (tabelas 6.1 e 6.2).
Tabela 6.1 – Extravios das exportações no segmento do Rio São Francisco em 1854-59 Recebedorias Gerber Extravios
Rapaduras (unidades) 52.730 90.000 71% Outros (arrobas) 519 1.000 93%
Bovinos (cabeças) 107 200 87%
Eqüídeos (cabeças) 139 300 116% Outros gados (cabeças) 7 0 -100% Total (libras esterlinas) 1.932 3.728 93%
Fonte: GERBER, Noções Geográficas, p. 44. Nota: As exportações que Gerber agrega “em direção à comarca do Urubu, na província da Bahia” referem-se às exportações nas recebedorias de Morrinhos, Pontal do Escuro e Barra do Rio Verde.
Tabela 6.2 – Extravios das exportações no segmento de Minas Novas em 1854-59 Recebedorias Gerber Extravios
Toucinho (arrobas) 1.359 2.000 47% Fumo (arrobas) 1.382 2.000 45% Outros (arrobas) 344 2.000 481% Bovinos (cabeças) 1.273 2.000 57% Eqüídeos (cabeças) 747 1.200 61% Outros gados (cabeças) 3 0 -100% Total (libras esterlinas) 11.186 19.197 72%
Fonte: GERBER, Noções Geográficas, p. 44. Nota: As exportações que Gerber agrega “em direção às comarcas do Caeteté e Porto Seguro na província da Bahia” referem-se às exportações nas recebedorias de Rio Pardo e Salto Grande.
Os extravios eram generalizados para todos os gêneros. Para estimular o pagamento da taxa de exportação, a taxas sobre o gado bovino, cavalar e eqüino nas recebedorias do norte da província eram cobradas a 50% do valor original. Ainda, Gerber calcula um grande número de bovinos e eqüídeos (cavalares e muares) extraviados anualmente na década de 1850. As exportações nos segmentos que compõem esta fronteira eram bem distintas quanto ao fluxo de mercadorias, como as tabelas 6.1 e 6.2 adiantam. Representamos esta diversidade na tabela 6.3. Dividimos a fronteira Norte em três segmentos: Minas Novas, Mucuri e São Francisco. A recebedoria do Rio Pardo foi responsável pela maioria absoluta (56,5%) de todas as exportações registradas na fronteira Norte entre 1815 e 1884 (tabela 6.3). Antes de proseguir com a análise específica da evolução das exportações em cada um destes segmentos, vejamos os movimentos gerais de exportação da fronteira Norte nas tabelas 6.4 e 6.5.
Tabela 6.3 – Fronteira Norte: Participação por recebedorias, 1815-1884 (libras esterlinas totais) Recebedorias Segmento Período Anos Participação Principais produtos
Rio Pardo Minas Novas 1815-84 37 56,5 % Gado eqüídeo 44,4% Gado vacum 33,9% Toucinho 6,3% Malhada São Francisco 1816-28 5 12,6 % Rapaduras 39,2% Gado cavalar 14,6% Gado vacum 10,6% Filadélfia Mucuri 1872-84 7 9,2 % Café 73,7% Sal 15,0% Gado vacum 5,2% Pontal do Escuro São Francisco 1856-78 15 6,7 % Rapaduras 34,5% Gado cavalar 22,5% Gado vacum 14,1% Januária São Francisco 1868-84 10 6,1 % Rapaduras 39,7% Fumo 16,7% Cereais 14,0% Salto Grande Minas Novas 1858-84 15 5,0 % Gado vacum 34,2% Panos 12,3% Algodão 11,9% Morrinhos São Francisco 1845-56 9 3,8 % Rapaduras 40,0% Gado cavalar 20,0% Gado vacum 16,8% Barra do Rio Verde São Francisco 1853-56 3 0,1 % Toucinho 43,3% Gado vacum 27,7% Gado suíno 13,0%
Tabela 6.4 – Fronteira Norte: Participação por produtos, 1815-1884 (libras esterlinas, média anual) Gênero 1815-28 1842-48 1850-57 1858-62 1866-70 1871-78 1881-84 Total Segmento % Recebedoria % Gado eqüídeo 10.261 4.768 2.774 6.680 2.407 2.573 3.480 29,1 % M. Novas 81,2 Rio Pardo 79,7 Gado vacum 7.042 1.898 2.309 2.081 2.065 5.774 5.501 24,4 % M. Novas 87,2 Rio Pardo 77,3 Rapaduras a 1.185 557 737 393 1.370 1.784 2.343 11,4 % S. Francisco 99,1 Malhada 44,1 Café 25 45 29 29 104 4.307 5.861 8,4 % Mucuri 90,5 Filadélfia 90,5 Algodão 3.592 24 21 51 559 816 36 5,0 % M. Novas 77,7 Rio Pardo 63,6 Toucinho 1.187 163 657 625 340 1.290 954 4,8 % M. Novas 79,9 Rio Pardo 67,7 Fumo 34 166 551 937 764 1.273 1.061 3,9 % M. Novas 57,2 Rio Pardo 52,4 Couros 2.596 114 84 181 262 529 5 3,4 % S. Francisco 68,7 Malhada 56,0 Cereais 482 90 166 250 310 623 1.152 2,4 % S. Francisco 80,8 Januária 36,2 Panos 1.095 64 211 364 123 387 141 2,3 % M. Novas Rio Pardo 62,6
Sal 0 0 0 73 30 1.555 0 1,7 % Mucuri 91,5 Filadélfia 91,5
Redes e mantas 1.225 31 0 68 5 40 36 1,4 % S. Francisco 68,0 Malhada 52,7 Outros 390 87 96 245 299 341 574 1,8 % M. Novas 54,0 S. Grande 28,4 Total 29.110 8.009 7.635 11.975 8.638 21.293 21.145 100 % M. Novas 61,5 Rio Pardo 56,5
(a) Inclui açúcar.
Tabela 6.5 – Fronteira Norte: Participação por produtos, 1815-1884 (quantidade média anual) Gênero Unidades 1815-28 1842-48 1850-57 1858-62 1866-70 1871-78 1881-84 Gado eqüídeo 2.339 1.388 635 954 557 445 718 Gado vacum 6.360 1.242 1.143 739 882 1.717 2.122 Outros Cabeças 37 8 13 61 42 57 373 Rapaduras Unidades 110.149 62.718 71.781 30.439 133.465 132.720 215.867 Açúcar Quilos 9.766 461 1.162 831 2.748 4.273 20.345 Café Quilos 234 2.126 1.067 715 3.169 82.045 173.313 Algodão Quilos 57.701 585 469 940 12.484 13.526 752 Toucinho Quilos 36.490 6.648 21.129 15.155 9.810 27.894 26.514 Fumo Quilos 1.616 8.808 17.153 20.325 23.008 26.582 42.196 Couros Unidades 24.713 580 247 422 1.055 1.200 25 Cereais Litros 131.184 15.930 27.917 41.953 49.738 76.690 180.989 Panos Metros 32.744 2.580 7.504 13.276 5.441 13.626 6.741 Sal Quilos 0 0 0 2.600 1.358 48.636 0
Redes e mantas Unidades 7.866 253 0 453 13 62 70
Outros Quilos 7.668 3.513 2.707 4.791 8.231 6.965 4.872
Cabeças de gado 8.736 2.637 1.792 1.754 1.480 2.220 3.213 Total
Bestas carregadas 7.853 1.089 1.452 1.054 2.512 3.935 6.073
O segmento de Minas Novas concentrava a maior parte das exportações no norte de Minas, com destaque para as partidas de gados bovino, cavalar e muar, além dos tradicionais gêneros mineiros algodão, fumo e toucinho e gêneros específicos do trânsito com a Bahia como carne seca, redes, lã, sabão, patos, marrecos, gansos e perus. O segmento do Mucuri, cuja única recebedoria componente, Fildélfia, principia suas atividades tão-somente no ano de
1872, apresenta exportações significativamente diferentes das demais, pelo grande vulto, relativamente, de café e sal. Já as rotas fluviais do São Francisco são caracterizadas pelo açúcar, especialmente as rapaduras, com partidas superiores a 100 mil unidades em todos os anos exceto na década de 1840 (há grande falha nos dados das recebedorias do São Francisco), no período 1855-62 e em 1876/77. Além das rapaduras e algum açúcar branco e aguardente, constituem exportações características da navegação do São Francisco abaixo canoas novas de madeira, couros curtidos de bezerro, farinha de mandioca e gengibre.
6.1 MINAS NOVAS: ALGODÃO E TRILHAS DE GADO
O segmento de Minas Novas consiste de duas recebedorias nos caminhos desde o termo de Minas Novas em direção às comarcas do Caeteté e Porto Seguro na Bahia. A recebedoria do São Sebastião do Salto Grande localizava-se no rio Jequitinhonha, cerca de 20 a 25 km acima da freguesia de mesmo nome (vide mapa 6.1). Nos princípios do século foi construída “uma estrada ao longo do rio, de Minas Novas até o Quartel de Salto, na divisa da capitania, onde, depois de contornadas as cachoeiras, se embarcava a mercadoria.” 336 A recebedoria do Rio Pardo, no rio e vila de mesmo nome, distava cerca de 50 a 60 km da fronteira (mapa 6.1). Era guarnecida por nove estações de vigia nos caminhos alternativos, embora todas não definitivamente providas ou não oficialmente criadas em 1869. 337