Legenda: (1a) Barra do Rio das Velhas; (1b) Santana do Rio das Velhas; (2) Porto da Espinha (Porto de Custódio Antunes); (3) Porto de Frutal; (4) Ponte Alta; (5) Jaguara (Jaú-Guará); (6) Santa Bárbara.
378 Existiriam outros caminhos de Minas Gerais para Goiás, como a “Picada de Goiás” passando por Pitangui.
(cf. CUNHA MATOS, Raimundo José da. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas províncias de
Minas Gerais e Goiás. Belo Horizonte: Instituto Cultural Amílcar Martins, 2004, passim; CARVALHO, Estudos e Depoimentos, pp. 83-89; GUIMARÃES, Eduardo Nunes. “A influência paulista na formação econômica e
social do Triângulo Mineiro”. XI Seminário sobre a economia mineira (Anais; CD-ROM). Belo Horizonte: UFMG/Cedeplar, 2004, pp. 4-5).
379 Vide SILVA, Sebastião Fonseca; MACHADO FILHO, Aires da Mata. História do Araxá. Belo Horizonte:
s.e., 1946, pp, 19-20, 37-46, 51-69.
O primeiro posto fiscal mineiro na região do atual Triângulo foi o registro da Barra do Rio das Velhas, herdado da capitania de Goiás (vide ponto 1a na mapa 7.1). 381 A exploração e colonização do sudeste de Goiás (além do rio Paranaíba) foram feitas por mineiros nas primeiras décadas do século XIX,382 o que justifica a existência do registro em 1818/19 que taxava a importação goiana por meio de Minas Gerais, que viesse de qualquer parte (São Paulo e Rio de Janeiro). 383 Este registro não aparece na listagem das exportações em 1828, mas ele existia e gerava querelas com a província de Goiás, pois ambas províncias reclamavam o direito de nomear um fiel para o registro:
“[O] Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca de Paracatu, entrando [em Minas Gerais, vindo de Goiás / CCR] (...) com o Juiz Ordinário e o de Órfãos, com o Fiel do Registro do Rio das Velhas da parte da província de Goiás, seis soldados da mesma Província, e muitos outros, proclamara que esse teritório não pertence ao Termo da Vila de Paracatu, nem à Província de Minas Gerais, e declarando ter ali vindo para castigar os funcionários públicos nomeados pela Câmara de Paracatu, atacou com ameaças e palavras decompostas ao Fiscal Dezidério Mendes dos Santos, prendeu sem culpa formada em prisão por dez dias ao Procurador Simão Ferreira de Figueiredo, e mandou prender ao Porteiro pelo fato de publicar Editais da Câmara de Paracatu.” 384
Em 1839 existe o registro de Santana do Rio das Velhas (vide ponto 1b no mapa 7.1); neste ano é oficialmente extinto. São criadas recebedorias na fronteira com São Paulo: Ponte Alta, próxima a Uberaba, e Santa Bárbara próxima a Desemboque. 385 A abertura do porto de Ponte Alta foi um importante melhoramento para o comércio, constituindo uma nova rota
381 CARVALHO, Estudos e Depoimentos, p. 84. No porto de S. Anna no rio das Velhas, atual rio Araguari,
afluente do rio Paranaíba; arraial de Santana, atual Indianópolis (não confundir com o arraial da Barra do Rio das Velhas, afluente do São Francisco que faz barra na atual Guaicuí).
382 WIRTH, O Fiel da Balança, p. 73.
383 ESCHWEGE, “Notícias e Reflexões Estadísticas”, pp. 748-749. Segundo a segmentação da fronteira mineira
por regiões de destino do Barão de Eschwege, as exportações no registro de Santana destinavam-se a “São Paulo e Rio de Janeiro”.
384 Representação enviada pelo Juiz de Paz Suplente do Julgado de São Romão ao Conselho Geral da Província
de Minas Gerais, sessão de 11 de dezembro de 1830. Apud SILVA, Ana Rosa Cloclet da. “De Comunidades a Nação. Regionalização do poder e construções identitárias em Minas Gerais (1821-1831)”, Almanack
Braziliense, número 2, novembro de 2005, pp. 61-62.
385 “Regulamento nº15” anexo à Lei 154 (MINAS GERAIS. Livro da Lei Mineira, 1839. Tomo V, parte 2ª – fl.
1). O Regulamento nº15 lista a recebedoria da Barra do Rio das Velhas dentre as recebedorias criadas pela lei 154 de 1839, sem menção a localização. A recebedoria da Barra do Rio das Velhas arrecadou 14$274 em agosto de 1839 e foi suprimida (MINAS GERAIS, Falla... 1840, mapa s.n.). Suspeitamos que a recebedoria corresponda ao registro de Santana. Dos poucos registros pré-existentes não recriados como recebedorias em 1839, todos foram substituídos por instalações em novos pontos. Entretanto, não solucionamos a dúvida quanto à exata localização da recebedoria da Barra do Rio das Velhas. Existe o arraial da Barra do Rio das Velhas (atual Guaicuí) às margens do rio São Francisco. Na relação das recebedorias criadas que consta no Regulamento nº15 a recebedoria deste nome é listada a seguir da de Morrinhos, sabidamente localizada no São Francisco, porém nas proximidades da fronteira com Pernambuco,e uma linha acima da “Da Ponte Alta, no municipio de Uberaba”. O arraial da Barra do Rio das Velhas no São Francisco foi descrito pelo viajante Johann Emanual Pohl como lugar famoso por seu “amplo tráfego comercial, principalmente pelos seus consideráveis depósitos de sal”, ou seja, centro de importação (apud BARBOSA, Dicionário Histórico Geográfico, p. 142).
salineira. Não havia ponte atravessando o rio Grande, como o nome sugere; era um porto fluvial. Para este porto destinava-se o sal transportado do rio Mogi Guaçu desde o porto de São Bartolomeu, que descia o rio Pardo e subia o rio Grande até Ponte Alta. Sobre carros de bois seguia do porto para Uberaba, de onde “abriram-se estradas novas em direção ao Sul de Goiás onde o sal e outros gêneros procedentes do porto de Santos, em escala por Uberaba, tiveram franca entrada”. 386 Ponte Alta foi o principal posto fiscal na região de Uberaba (tabela 7.1). Em 1869 os portos de Frutal, da Rifaina e da Espinha eram estações de vigia da Ponte Alta; neste ano a recebedoria de Santa Bárbara foi extinta, tornou-se vigia das novas instalações em Jaguara, onde, sim, haveria uma ponte. 387 Na recebedoria do Jaguara os trilhos da Estrada de Ferro Mogiana chegariam à divisa de Minas em 1890.
Apenas parte da exportação das sobreditas regiões de Minas Gerais e Goiás é registrada nos postos fiscais da fronteira de Uberaba. Grande parcela dirigia-se à Corte, especialmente o gado vacum, saindo de Minas, portanto, via fronteira fluminense. 388 Por exemplo na região de Araxá havia “importante produção de toucinho e bovinos que era exportada para fora”. 389 Ou seja, para fora do termo ou para o Rio de Janeiro, dada a exigüidade do valor exportado nas recebedorias nesta fronteira.
Na década de 1850, intensifica o comércio com São Paulo (vide gráfico 7.1). Em 1850/55 passam anualmente cerca de 300 bestas com exportações e ao menos 600 com importações.390 Ambos os números dobram em 1855/62. Entre 1856 e 1859 “quadruplicou a
386 PONTES, Hildebrando. História de Uberaba e a civilização no Brasil Central. Uberaba: Academia de Letras
do Triângulo Mineiro, 1970, pp. 90-91. Cf. GUIMARÃES, “A influência paulista”, pp. 7-8.
387 MINAS GERAIS, Relatorio... 1870, mapa s.n. “O curso do Rio Grande, que mede oitenta leguas do Jaguára á
confluencia do Paranahyba, não tem uma unica ponte para o transito do gado em direcção a S. Paulo” (MELLO,
Pecuaria no Brazil, p. 47).
388 “Tendo dois terços de suas terras como pastagens, Minas é ecologicamente adaptado à pecuária extensiva,
principalmente acima do paralelo 19 e no Triângulo. O gado do Oeste, do Triângulo e Goiás seguiam em velhas trilhas para as feiras de gado no sul, onde era vendido a compradores cariocas” (WIRTH, O Fiel da Balança, p. 48).
389 PAIVA, População e economia, p. 122. Na década de 1830, “a Comarca do Paracatu exporta couros, peles e
sola, gado vacum, cavalar e cerdal [suíno], principalmente dos distritos de Araxá e Desemboque” (CUNHA MATOS, Corografia Histórica, Vol. II, p. 78) A produção local era comercializada por intermediários de São João Del Rei, que em 1819 “percorriam as fazendas da região para comprar gado”, e de Formiga, que compravam “principalmente algodão e bovinos, para ser revendido para o Rio de Janeiro” (SAINT-HILAIRE,
Viagem às nascentes do Rio São Francisco. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1975, p. 130). As
saídas do famoso queijo canastra da região do Araxá eram diminutas em Uberaba, máximo de 800 unidades anuais exportadas na década de 1850.
390 Ou o volume equivalente sobre carros de bois ou barcas. Somente consideradas importações excetuados os
gêneros de primeira necessidade (taxas de 3$920 cobradas sobre animais carregando importações não inclusas na 4a exceção, gêneros designados por Portaria de 9/6/1847).
venda do sal cuja importação subia a 135 mil sacas ou alqueires”. 391 O saldo favorável às importações é explicado pela demanda local e goiana desde São Paulo e estrutura do mercado de exportação para o Rio de Janeiro. 392 Enquanto as exportações dirigiam-se à capital, o abastecimento local estava mais articulado a São Paulo e ao porto de Santos, por comunicações mais fáceis, por comércio e intercâmbio cultural. 393 Fosse para a importação desde Santos ou exportação ao Rio de Janeiro, era a praça comercial de Uberaba intermediária das pequenas praças do interior do Triângulo Mineiro, do sul de Goiás e de uma pequena zona do Mato Grosso. 394
Gráfico 7.1 – Exportações anuais na Fronteira Oeste, 1818-84 (milhares de libras)
Apesar de o sal ser artigo de importação, 6.407 sacas foram exportadas para a província de São Paulo em 1860/62, provavelmente excedentes do comércio, ou seria salitre computado como sal. Nesta época diminuía a centralização do comércio em torno da Ponte Alta e da vila de Uberaba: o sal transportado do rio Mogi Guaçu ao rio Grande desviava-se
391 PONTES, História de Uberaba, p. 91.
392 O comércio de Goiás (e da região do Triângulo e Araxá, por extensão) com os portos fazia-se primitivamente
via São Paulo, porém motivos fiscais, contingências políticas e a vantagem de comunicação direta com o Rio de Janeiro faziam preferir o caminho por território mineiro. Cf. PRADO JÚNIOR, Formação do Brasil, pp. 254- 255.
393 Cf. WIRTH, O Fiel da Balança, p. 67; LEITE, Mário. A Região da Mantiqueira: ensaio descritivo. Lisboa:
Sociedade Industrial de Tipografia, 1951, p. 79. Por exemplo, um viajante passando por Campinas (SP), em 1861, relata que seu “comércio é ativo e florescente, porque é aqui o entreposto de Goiás, Uberaba e Franca com os portos. Asseguram-me, porém, que já foi muito mais importante e ativo com estes pontos; e assim mesmo trazem toucinho, algodão, queijo e feijão, que permutam por ferragens e sal em grande quantidade” (ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo, 1860-61. São Paulo: Edições Cultura, 1945, p. 138). Em 1860 as exportações destes gêneros na fronteira de Uberaba perfaziam mil e quinhentas libras esterlinas, 43% do valor em gêneros transportáveis e 24% do valor incluindo-se o trânsito de gado solto. Com o mesmo valor em libras esterlinas, as principais exportações exceto o gado bovino eram vaquetas (meios de sola – couros curtidos macios), 24% do total e 44% dos transportáveis.
394 “As regiões mais distantes eram visitadas por comerciantes ambulantes que levavam, em tropas, as
mercadorias adquiridas aqui [Uberaba]. Estes últimos negociantes, em troca de mercadorias, traziam numerosas boiadas. Eram os boiadeiros. De modo que assim havia duas classes de comerciantes – uns fixos, que tinham suas transações nesta praça, e outros ambulantes que tinham suas operações nos centros de atividade pastoril sertaneja” (PONTES, História de Uberaba, p. 382).
para o porto de Frutal, abria o trânsito na ponte do Jaguara e intensificava a navegação do rio Araguaia desde o norte de Goiás. 395 Ainda na década de 1860 o comércio local foi estimulado pela guerra do Paraguai, pelo constante trânsito e estacionamento de tropas militares e tropas de animais de carga para seu abastecimento.
A expansão do comércio por esta rota durante a década de 1850 coincide com o de maior expansão demográfica na região de Araxá demandando importações. Em 1852 é achado diamante de 254,5 quilates (50,65 gramas e valor muito superior a mil libras esterlinas) no termo de Patrocínio e aí criado o distrito de Bagagem, elevado a paróquia em 1854, a município em 1856 e a cidade em 1861. Bagagem, atual Estrela do Sul, “crescendo sempre, chegou a ser dos principais centros comerciais da província, segundo declarou o deputado Padre Mestre Modesto Caldeira em 1872”. 396 Na estimativa populacional para 1831/35 de Clotilde Paiva, as populações do “Triângulo” e “Araxá” eram 10.287 e 22.006, respectivamente. Aplicando a mesma regionalização aos distritos do Censo de 1872, suas populações eram, então, 42.059 e 118.908, terceiro e sexto desempenhos de crescimento dentre as 17 regiões de Paiva. 397
O avanço da economia escravista teria sido mais intenso no Triângulo até 1850; em 1855-73, Prata e Uberaba são exportadoras líquidas de escravos. No Alto Paranaíba no mesmo período, no Araxá e, especialmente, por larga margem, em Patrocínio (inclui Bagagem), há importação líquida de escravos. A partir de 1873, até a abolição, o declínio da escravidão ocorre em toda a região. 398 Segundo Alcir Lenharo, a partir de 1866 haveria uma "diversificação das zonas produtoras de alimentos em Minas, como o Triângulo”. 399 Não corroboramos a afirmação de Lenharo através da observação do comércio com São Paulo; entretanto os relatos da produção local registram a presença da cultura de cereais. A partir de meados da década de 1860 as exportações locais para São Paulo estão estagnadas, com
395 PONTES, História de Uberaba, p. 91.
396 BARBOSA, Dicionário Histórico Geográfico, p. 129.
397 PAIVA, População e economia, pp. 49-52 (regionalização própria, vide Anexo I). Maiores taxas anuais
1833/73: Sertão do Rio Doce, 10,95%; Mata, 4,76%; Araxá, 4,31%; Mineradora Central Leste, 4,06%; Sertão, 3,91%; Triângulo, 3,58%.
398 MARTINS, “Minas e o tráfico de escravos”, p. 122; MARTINS, Growing in silence, pp. 360-361. O grande
crescimento demográfico de Patrocínio no período 1855/73 está estreitamente relacionado ao desenvolvimento de Bagagem. Em contando-se tão-somente os distritos já existentes em 1835, a dinâmica populacional de Patrocínio é discreta (PAIVA &; BOTELHO, “População e espaço”, p. 99).
tendência a decréscimo. 400
Em valor absoluto, para todo o período, predominam produtos da pecuária, 75% do volume em libras, com destaque para o gado vacum em pé (50% do total) e couros diversos (15%). Do volume restante, algodão e derivados (especialmente panos grossos) perfazem 43%. A pecuária e atividades relacionadas, também o algodoeiro e os teares manuais, caracterizam a economia das regiões sertanejas de Minas Gerais e do Brasil Central. A cultura do algodão era mais forte no termo de Prata (porção oriental do Triângulo). Em 1854 os “principais meios de vida” em Uberaba, Araxá e Desemboque eram a criação de vacuns, depois de suínos, e o cultivo de cana, cereais e fumo. 401 A partir de 1864 há estímulo para exportação de algodão cru, que atinge bons preços por motivo de guerra civil no país principal produtor mundial, os Estados Unidos, mas a produção local estava em desvantagem às zonas mais próximas do litoral.
Tabela 7.1 – Fronteira Oeste: Participação por recebedorias, 1818-84 (libras esterlinas totais) Recebedorias Período Anos Participação Principais produtos
Ponte Alta 1839-84 29 71,8 % Gado vacum 38,0% Couros 17,7% Panos 13,1% Jaguará 1868-84 10 19,2 % Gado vacum 59,3% Couros 14,3% Açúcar 6,3% Santa Bárbara 1840-69 21 5,7 % Gado vacum 45,1% Couros 16,2% Panos 12,6% Portos de Frutal e Rifaina 1857-69 5 1,9 % Gado vacum 32,5% Toucinho 31,5% Fumo 12,8% Santana do Rio das Velhas 1818-39 2 0,7 % Gado vacum 68,5% Algodão 10,9% Panos 8,5% Porto da Espinha 1881-83 2 0,7 % Gado vacum 76,0% Couros 13,5% Gado eqüídeo 3,9%
Tabela 7.2 – Fronteira Oeste: Participação nas exportações mineiras, produtos selecionados,1839-84
Gênero Participação Gênero Participação
Algodão com caroço 64% Açúcar 5%
Solas 63% Doce (qualquer qualidade) 5%
Carros de madeira 46% Couros de boi 4%
Couros de veado, cabra, etc. 37% Tábuas 4%
Sal 27% Amendoim 3%
Cristal 11% Chapéus de palha inferiores 3%
Aguardente 8% Farinha de milho 3%
Poaia (ipecacuanha) 8% Fubá 3%
Chapéus de pelo, seda ou lã 7% Fumo pixuá 3%
Couros curtidos de bezerro 6% Pólvora 3%
Selas e selins 6% Selotes de liteira 3%
400 Na década de 1860 há queda vertiginosa das exportações de gado bovino, transitando 80% menos boiadas que
no auge de 1855-58, devido talvez à criação de uma estrada ligando diretamente Mato Grosso a São Paulo, sem passar pelo Triângulo.
401 MINAS GERAIS. “Relatorio da Inspectoria de Industria”. In: MINAS GERAIS. Relatorio referente ao anno de 1906 apresentado ao Dr. Manoel Thomaz de Carvalho Britto, Secretario das Finanças, pelo Engenheiro Arthur da Costa Guimarães, Director Geral de Agricultura, Viação e Industria. Bello Horizonte: Imprensa
Official do Estado de Minas, 1907, p. 216. O Triângulo é descrito por Auguste de Saint-Hilaire como extensão da economia de Araxá. “As atividades realizadas nos arredores de Uberaba eram muito semelhantes àquelas da região vizinha” (PAIVA, População e economia, p. 120).
A fronteira de Uberaba foi porta de saída de apenas 0,3% das exportações mineiras em 1839/84. O gado compõe a maior parte em todas as recebedorias nesta fronteira, como vemos na tabela 7.1, mas não representam parcela significativa das exportações mineiras, apenas 1,2% da quantidade exportada em 1842-84, não constando, portanto, da tabela 7.2 que enumera as mais significativas exportações locais em relação às totais.
As exportações desta fronteira compõem a maior parte das exportações provinciais de algodão com caroço e meios de sola, e parte não desprezível das de carros de madeira, couros de animais selvagens, sal, cristal e aguardente. São gêneros característicos do sertão do planalto central, de Goiás, do norte de Minas. Dos gêneros da tabela 7.2, em 1839-84 os meios de sola responderam por 49% do valor exportado, o sal por 16%, açúcar 11%, couros de boi 9%, algodão com caroço 4%, couros de veado 3% e cristal, poaia, e selas 2% cada. Ou seja, dos gêneros típicos desta fronteira, os artefatos de couro (solas, selas, couros crus e de animais selvagens) representaram 62% do valor exportado.
Mercadoria relevante na pauta de exportações via Uberaba é o pano de algodão, 49.041 metros anuais e 19% do valor em 1854-70 (vide evolução nas tabelas 7.3 e 7.4). A instabilidade nos Estados Unidos estimulou exportações do algodão com caroço do termo de Prata (máximo 10 toneladas em 1872/73), num período de excedentes – a confecção caseira de panos enfrentava a concorrência da fábrica.
A partir de meados da década de 50 principia-se observar exportações de açúcar para São Paulo. 402 O declínio das exportações de açúcar na década de 1880 é aparente – deve-se à extinção da cobrança de taxas sobre o açúcar, cuja exportação estava em baixa na província como um todo, mas certamente não na região do Triângulo e Araxá, pois doze mil litros de aguardente anualmente exportados em 1881-84 confirmam sua permanência.
O fluxo de gado bovino comanda nova curva ascendente das exportações totais entre as décadas de 1860 e 1870, com aumento de 150%. As exportações exceto bovinos revelam-se pouco dinâmicas, ou mesmo decadentes, até a década de 1880. Em 1889 uma extensão da Estrada de Ferro Mogiana ao Triângulo marca o início de uma nova fase. A região passava
402 Em 1860, “o cultivo da cana-de-açúcar é registrado em toda a região Triângulo/Alto Paranaíba, embora
somente para Uberaba se tenha registro de plantio destinado ao comércio” (MARTINS & SILVA, “Produção econômica”, p. 23).
orbitar definitivamente a via paulista. 403 Contribuições historiográficas recentes têm corroborado a antiga percepção da vocação mecantil da região do Triângulo como típica área de trânsito de boiadeiros sertanejos e carreiros ou tropeiros carregados de valiosas importações. 404
Tabela 7.3 – Fronteira Oeste: Participação por produtos, 1818-84 (libras esterlinas, média anual) Gênero 1818/19 1842-48 1850-58 1858-62 1866-70 1871-78 1881-84 1818-84 % Recebedorias Gado vacum 660 438 2.732 2.189 992 3.481 911 50,2% Ponte Alta 64,3% Couros 0 549 929 1.400 988 706 287 14,8% Ponte Alta 77,0% Panos 82 163 764 1.514 1.093 143 0 13,1% Ponte Alta 91,0%
Toucinho 38 125 355 322 256 90 29 4,2% Ponte Alta 72,6%
Sal 0 0 0 1.769 0 0 0 3,7% Ponte Alta 92,6%
Fumo 0 7 150 88 95 258 409 3,0% Ponte Alta 49,3%
Açúcar 0 0 45 135 178 493 74 2,9% Ponte Alta 56,6%
Gado suíno 0 63 224 250 62 72 15 2,3% Ponte Alta 76,2%
Gado eqüídeo 0 1 82 96 9 103 246 1,5% Jaguara 54,5%
Algodão 105 33 67 95 126 81 19 1,4% Ponte Alta 61,4%
Cereais 0 0 14 143 54 32 1 0,6% Ponte Alta 45,5%
Outros 78 116 81 146 120 49 423 2,3% Ponte Alta 70,0%
Total 964 1.497 5.442 8.146 3.974 5.509 2.414 100% Ponte Alta 71,8%
Tabela 7.4 – Fronteira Oeste: Participação por produtos, 1818-84 (quantidade média anual) Gênero Unidade 1818/19 1842-48 1850-58 1858-62 1866-70 1871-78 1881-84 Gado vacum 576 285 1.222 778 411 1.025 353 Gado suíno 0 66 176 185 63 46 12 Gado eqüídeo 0 1 19 17 2 18 60 Outros Cabeças 125 25 69 88 4 0 5 Couros Unidades 0 2.401 2.901 3.434 2.830 1.330 749 Panos Metros 1.964 6.153 24.555 50.706 47.527 4.774 0 Toucinho Quilos 1.000 5.171 10.898 7.800 7.590 1.830 811 Sal Quilos 0 0 0 64.070 0 6 0 Fumo Quilos 0 431 5.626 1.900 3.199 6.551 15.527 Açúcar Quilos 0 0 1.956 5.495 9.975 18.599 12.130 Algodão Quilos 1.380 825 2.642 4.230 5.841 2.481 659 Cereais Litros 0 180 2.512 28.747 8.807 2.620 93 Outros Quilos 1.375 2.087 773 2.801 491 1.108 8.664 Cabeças de gado 701 377 1.486 1.068 481 1.088 430 Total Bestas carregadas 34 156 324 1.078 437 320 339
O volume das exportações de derivados de bovinos – solas (couros meio curtidos), couros de boi (crus) e queijos – acompanha as variações do fluxo do gado em pé, ou seja, compõe-se de excedentes eventuais. As exportações de couros e solas para São Paulo estão presentes em todo o período, com pico em 1854-56 (9.428 meios de sola, 1.265 couros de boi
403 Segundo John Wirth, “O Triângulo tomou forma como uma moderna economia agropecuária a partir de
década de 1880. Cultural e economicamente, era uma zona nova. (...) Exportou gado para o sul (...) Suas cidades interligavam-se por meio de velhas trilhas de gado” (WIRTH, O Fiel da Balança, p. 43).
404 Cf. GUIMARÃES, “A influência paulista”, pp. 3-8; MARTINS, Humberto E. de Paula. “Formação e
e 1.067 couros de veado), acompanhando a expansão das boiadas, e 1869/70 (4.540 meios respondendo por 35% das exportações mineiras no ano). Estes couros destinavam-se ao mercado paulista ou voltavam a Minas na fronteira mais ao sul. No Consulado de Santos eram computadas exportações ínfimas de meios de sola e couros secos e salgados.
A suinocultura é importante característica da economia provincial mineira. Sua participação nas trocas com São Paulo por esta fronteira é pequena, todavia. As exportações máximas de toucinho são 22,8 toneladas em 1853/54 e 15,1 toneladas em 56/57 e reduzem-se a níveis mínimos a partir da década de 70. O auge das exportações de suínos em pé ocorre também na década de 50, em momento de crise da suinocultura paulista, quando, em 54-61, são enviados apenas 353 porcos por ano, em média. Antes de 1854 o movimento é inverso; em 50-53 as exportações inexistem e há importações de porcos paulistas da ordem de 371 por ano, em média. As entradas de suínos paulistas são quantificáveis na cobrança de taxa itinerária diferenciada para o gado suíno a partir de 1850 (5ª exceção). A correlação entre as entradas e saídas de gado suíno nesta fronteira no período 1850-84 é negativa (-0,435), como