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“Assim, por várias razões, o algodão causava profundas alterações nas estruturas produtivas do Nordeste oriental, modificava o processo de conformação de classes na sociedade colonial, ao permitir a súbita expansão de uma dinâmica agricultura familiar, e provocava uma crise sem precedentes no delicado equilíbrio dos diversos setores da economia, colocando em risco a autoridade do Estado e a preeminência da escravidão – e do açúcar, em menor grau – como eixo principal da organização sócio-econômica. Sua adaptabilidade aos esquemas produtivos dos agricultores pobres e livres havia desatado um crescimento alarmante desse seguimento de produtores e propiciado um virtual confronto entre esse novo “modelo” de expansão agrícola e o sistema central escravista. Consequentemente, as mesmas forças que haviam determinado a incorporação das comunidades camponesas do Nordeste oriental ao mercado exportador começavam, na conjuntura do início da grande crise alimentar do final do século, a operar em sentido contrário, isto é, na busca de mecanismos econômicos, sociais e políticos que permitissem frear o florescimento da atividade agrícola e subordinar os pobres e livres, como vitais produtores de gêneros de primeira necessidade, aos interesses do complexo agroexportador escravista” – Fonte: Palacios (2004, p. 157-158).

A exposição da epígrafe acima é uma boa forma de iniciar essa seção. Foi a partir da leitura e releitura desse trecho que me inspirei, desde a época em que cursei as disciplinas do Mestrado em Ciências Sociais (2009-2010), para pensar o projeto de pesquisa que originou essa tese. Como tratei na introdução, meu interesse era fazer uma análise semelhante à de Palácios direcionada às partes mais interioranas (mais ocidentais) das Províncias de Pernambuco e Paraíba para compreender a formação de grupos de camponeses, no passado, como forma de entender a composição da agricultura familiar do presente, residente nas áreas sertanejas.

Mas me dei conta de que essa escolha poderia redundar numa substancialização e muito mais obscurecer do que ajudar a solucionar esse problema. O recurso ao tratamento dessas áreas, sob uma perspectiva de longa duração, encarando-as como áreas de fronteira, surgiu desse esforço de evitar a substancialização e me trouxe a perspectiva de tentar compreender, para além da formação de um pretenso campesinato, o próprio processo de ocupação/povoamento dessas áreas a partir de um ponto de vista diferente do que a “historiografia tradicional” criou e legitimou como verdade inconteste, a origem sesmarial, latifundiária e pecuarista do sertão nordestino, em torno do construto da “civilização do couro”.

E além disso, fruto dessa compreensão do processo de ocupação/povoamento, tentaria, como estou tentando com essa tese, elucidar o processo de formação dos diversos grupos sociais e de suas respectivas disposições incorporadas ou estruturas de personalidades. Mapeando a mudança dos vínculos de interdependência entre esses diversos grupos de indivíduos, na área dos “Sertões da Borborema”, poderei, quem sabe, um dia, me aproximar de uma descrição (ou

formulação teórica) do que seria o habitus caatingueiro, ou dos habitus sertanejo, borboremeiro, caririzeiro, pajeuzeiro, etc., que deram uma amálgama à pretensa “sociedade sertaneja”, habitante das caatingas nordestinas.

Não há dúvida de que o advento do algodão foi um aspecto que causou profundas alterações na estrutura produtiva do Nordeste oriental e no processo de conformação das classes na sociedade colonial, sendo responsável, inclusive, por promover a expansão (ou empoderamento) da agricultura de base familiar. Mas chamo a atenção para o risco de se cair num determinismo exacerbado, se se segue essa tese colocada por Palacios (2004) de maneira absoluta. Apesar de o texto desse autor ter informado muito sobre a região como um todo, ela só foi testada para sua parte oriental. Além disso, apesar de ter sido um fenômeno sine qua non, se encarado como determinante, o boom do algodão, poderá dar um tom de simplificação ou mesmo obscurecer outros processos que envolveram a ocupação/povoamento do semiárido.

Por isso, assumi o caminho de tratar o semiárido como área de fronteira até o início do século XX. Porque assim, posso dar visibilidade a outros aspectos, que apesar de poderem estar relacionados com essa dinâmica de fronteira, estão para além da expansão do algodão. Assim, levo em consideração o quadro mais amplo, da ocupação do espaço na região como um todo, em que em freguesias e municípios mais a leste, como o de Cimbres, o algodão se instalou em detrimento da pecuária e em que as proibições do criatório livre foram sendo efetivadas mais cedo, já nas primeiras décadas do século XIX. Pois, não deixa de fazer sentido que ocorreu, nesse período, migrações – para os “Sertões da Borborema” – não só de cultivadores interessados em plantar algodão em consórcio com culturas alimentares, mas também, migrações de fazendeiros que foram forçados a criarem seus gados nas localidades mais interioranas (vide requerimento de moradores da vila de Cimbres anteriormente transcrito), onde ainda não existia regulação no sentido de definir áreas exclusivas de cultivo e áreas exclusivas do criatório135.

O fato é que essa ocupação gradativa, por parte dos lavradores de algodão, de leste à oeste das Províncias de Pernambuco e Paraíba e as respectivas regulamentações/proibições do criatório livre (que tratarei mais à frente), promoveram o deslocamento de famílias que antes se dedicavam prioritariamente à pecuária, o que pressionou não só as comunidades de agricultores (algumas de origem indígena ou quilombola) já estabelecidos em áreas de tradição mais agrícola – como nas serras e brejos de altitude, em Teixeira e Triunfo, por exemplo – mas também as famílias de criadores mais antigas (como as dos rendeiros das fazendas vinculadas

135 Mais à frente tratarei, de forma mais detalhada em relação ao município da Ingazeira-PE, no Pajeú, desse

à Casa da Torre, no Pajeú ou como as de beneficiários de sesmarias de menor porte, do Cariri Ocidental) estabelecidas em épocas anteriores, em finais do século XVIII.

Esse contexto (que sob inspiração da bibliografia sobre frentes de expansão posso encarar como gerando processos de fricção interétnica) promoveu uma espécie de “reboliço” na estrutura social, ou como já falei uma “fissão do núcleo social” – constituído com os caracteres que a “historiografia tradicional” atribuiu à “civilização do couro” – que foi capaz de alterar a composição dos estratos sociais, os padrões de uso e acesso à terra, as relações de poder, os padrões de comportamento, o conjunto das disposições incorporadas pelos indivíduos e as estruturas de personalidade que mobilizavam determinados grupos sociais. Essas mudanças serão mais evidenciadas nos próximos capítulos.

3.6 AVANÇO DE FRONTEIRAS E FRICÇÃO INTERÉTNICA: FUGA DE