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Se a bibliografia especializada sobre a expansão do espaço geográfico e/ou ocupação econômica e demográfica de “novas áreas” no interior do Brasil teve a capacidade de, através dos estudos sobre fronteira, elucidar a emergência de novos processos sociais, culturais e ambientais, dentre eles conflitos étnicos e agrários, migração e desmatamento decorrentes da

71Além desses dois movimentos, com o subsidio das perspectivas sobre etnicidade de linhagem barthiana seria

rentável demonstrar a possibilidade de articulação entre os estudos sobre fronteira (com as devidas contribuições da sociologia figuracional) e os estudos sobre o processo de construção de identidades étnicas, a partir da perspectiva da antropologia em fronteiras defendida por Faulhaber.

expansão de dinâmicas econômicas sobre áreas tidas como “despovoadas ou desabitadas”72,

especialmente no século XX, não foi capaz de conectar adequadamente esses processos atuais com os processos de ocupação, exploração e consolidação do território brasileiro ocorridos desde o descobrimento, nem de olhar para o passado dessas áreas de modo a visualizar as relações sociais que lá se desenvolviam e relacioná-las com o aparecimento de estruturas de personalidade (ELIAS, 1994) e esquemas de disposições incorporadas (BOURDIEU, 1994 e 2007) forjadas naqueles ambientes em que se mesclavam invasão (mascarada de descobrimento) e conflito e que sedimentaram as bases dos variados tipos de formações sociais73 (em contínuo processo de mudança) que hoje encontramos nas diversas regiões brasileiras, especialmente nos ambientes rurais.

Como Joe Foweraker (1982) escreveu, em 1979, no prefácio de seu livro intitulado “A luta pela terra”, o tema da fronteira no Brasil, à primeira vista, pode parecer obscuro e de interesse restrito ao mundo acadêmico. No entanto, essa temática seria de interesse mais abrangente, como o próprio Foweraker já apontava, se a fronteira fosse entendida como algo que “media o homem em confronto com a natureza” ao mesmo tempo em que exigia deste o domínio do ambiente físico (ação esta e ambiente este, bases de qualquer atividade econômica) e, necessariamente, gerava encontros e confrontos entre seres humanos e tinha a capacidade de revelar relações políticas e sociais que se ocultavam na pax da sociedade nacional brasileira que à sua época se desenvolvia economicamente a passos largos sob a égide do “milagre econômico”. Essa elaboração de Foweraker já revelava que o estudo sobre “novas áreas” envolvia questões outras que estão para além dos aspectos econômicos e geográficos de ocupação de novos territórios.

Nesse sentido, é verdade que o tema da fronteira foi e é conceituado a partir de abordagens disciplinares distintas. Enquanto os geógrafos construíram o conceito a partir da categoria espaço e os economistas enfocaram nas relações entre rendimento do capital e do

72 Desde já, é importante assumir que falar da fronteira em termos de locais desocupados ou desabitados não é

correto. Na história do Brasil e das Américas, em geral, nunca tivemos dessas áreas. Tratar nesses termos não passa de eurocentrismo e reflete um desrespeito às populações indígenas que já se encontravam no “Novo Mundo” e o não reconhecimento do processo genocida promovido pela colonização europeia nas Américas. Nesse sentido, prefiro, como Donald Sawyer (1984), entender a fronteira (para ele, agrícola, para mim, não necessariamente agrícola, mas que envolve também outros processos sociais, econômicos e políticos como extrativismo, mineração, colonização e imigração dirigidas) como áreas que abrangem todo tipo de deslocamento populacional que não se dê no sentido campo-cidade, como o contrário de urbanização, embora que um dos resultados desses deslocamentos possa ser a formação de centros urbanos.

73 Aqui, utilizo o termo ‘formação social’ com o sentido dado por Roger Chartier (1990) quando define, a partir

de Elias, a noção de figuração social. Para Chartier, uma figuração “é uma formação social cujas dimensões podem ser muito variáveis (...), em que os indivíduos estão ligados uns aos outros por um modo específico de dependências recíprocas e cuja reprodução supõe um equilíbrio móvel de tensões”.

trabalho, produtividade e renda diferencial, os antropólogos e sociólogos focalizaram a problemática da fronteira nas implicações simbólicas, identitárias, culturais e na crítica da estrutura e dinâmica social e os historiadores, preocuparam-se com esses aspectos em momentos diferentes do tempo (FAULHABER, 2001).

No Brasil, entre as décadas de 1940 e 1960, ocorreu um predomínio da geografia nos estudos sobre fronteira em torno da descrição das zonas pioneiras. Essa tendência foi dominada, posteriormente, pelas pesquisas em economia política e história econômica, responsáveis por constituírem um monopólio das questões econômicas nos estudos sobre fronteira e particularmente, como afirmou Faulhaber (2001), em torno das “relações entre centros urbano- industriais e o ‘interior’, da incorporação de terras ainda não consideradas economicamente ocupadas e do avanço de correntes migratórias”.

Assim, ainda hoje, se estamos localizados no campo dos estudos sobre o meio rural, os primeiros marcadores teórico-metodológicos que acessamos quando falamos em fronteira (dada a herança que recebemos dos geógrafos, economistas políticos e historiadores econômicos) são aqueles relacionados com a dimensão espacial e econômica. Basicamente, quando nos reportamos aos termos fronteira agrícola, fronteira da soja, fronteira da cana-de-açúcar ou fronteira do boi, estamos nos referindo a processos de dinamismo econômico ligados a um produto, ou produtos (geralmente commodities) ou a um setor produtivo que se expande sobre “novas áreas”74. Essa é uma leitura que, no Brasil, remete principalmente a partir ao campo da

geografia, ganha vigor com a absorção da terminologia por parte de cientistas sociais (sociologia, antropologia e história) e se estabelece como conceito definitivo para as ciências econômicas, agrárias e agronômicas em torno do termo “fronteira agrícola”.

Esse predomínio, apesar de ter sido questionado pelos estudos sócio-antropológicos que se desenvolveram, entre 1960 e 1980, em torno da noção de frentes de expansão, repercutiu e repercute intensamente, ainda hoje nas ciências sociais, principalmente no campo voltado aos estudos rurais. Com a formulação dessa noção, pretendia-se dar visibilidade a relações e a atores sociais negligenciados pelos estudiosos das zonas ou frentes pioneiras, como as sociedades indígenas e as “sociedades tradicionais” e, a partir daí, refletir sobre dinâmicas sócio-culturais que se desenvolviam através do contato desses atores com a sociedade nacional. Porém, após animação inicial, os estudos antropológicos e sociológicos sobre frentes de expansão se

74 A concepção de fronteira como espaço desabitado a ser ocupado influenciou não só os geógrafos/economistas

das frentes pioneiras, mas chegou a se constituir como um mito/ideologia absorvido e difundido pelos agentes estatais e transformado em plano de governo desde a ideia de “Marcha para o oeste”, do Estado Novo, até as políticas de colonização no Centro-Oeste e Amazônia pelos governos militares.

renderam novamente a um “economismo metodológico” comum à abordagem sobre frentes pioneiras que subordinava toda análise social aos processos de expansão econômica sobre “novos territórios”.

Em certo momento, os estudos de fronteira, especialmente os preocupados com a Amazônia, interpretada por Wagley (1984) como sendo a última grande fronteira do mundo, se ocuparam com questões geopolíticas e se empenharam em fazer a crítica à expansão dos estados nacionais e às políticas públicas de integração e de desenvolvimento regional implementadas desde os governos militares que ocasionavam conflitos sociais entre segmentos com interesses opostos (Schimink e Wood, 1992; Becker, 1986). Esses estudos, de certa maneira, incrementaram à perspectiva sobre fronteira com as preocupações em torno da urbanização, mobilidade do trabalho, apropriação monopolista do espaço incentivada pelo Estado e da implantação de redes de integração, mas também não foram capazes de olhar para o passado em busca de compreender a conformação de figurações sociais e de interdependências que num processo de longa duração constituíram diferentes grupos sociais e forjaram estruturas de personalidades e habitus nacionais e/ou regionais.

A partir da década de 1990, os estudos sobre fronteira, frentes pioneiras e frentes de expansão, apesar não terem desaparecido, arrefeceram e restringiram-se a estudar as transformações sócio-ambientais, conflitos sociais e processos de migração que se estabelecem com o avanço do “capitalismo no campo” ou “agronegócio” (como recentemente tem se preferido tratar) ocorrido principalmente no século XX sobre áreas de floresta e/ou áreas ocupadas por comunidades tradicionais. Ou seja, mantêm-se o enfoque nas transformações produzidas por processos econômicos (DINIZ, 2003).

Outros trabalhos se empenharam em fazer uma revisão da temática da fronteira sob uma visão evolutiva, mas nenhum se ocupou em revisar esse tema sob a ótica de uma perspectiva figuracional. Trabalhos como os de Becker (1982), Sawyer (1984), Martins (2009) e Faulhaber (2001) demonstraram como os estudos sobre fronteira puderam evoluir das observações sobre zonas ou frentes pioneiras, passando pelos estudos sobre as frentes de expansão até chegarem nas noções e nos recortes de pesquisas particulares aos seus trabalhos, que eram, respectivamente, fronteira geopolítica, fronteira agrícola, fronteira do humano e antropologia em fronteiras, mas nenhum procurou adaptar essas visões à perspectiva da sociologia histórica de Norbert Elias, de caráter figuracional, que considera os processos sociais a partir de interdependências entre indivíduos e entre grupos desenvolvidas num espaço temporal de longa duração.

Da mesma forma, não se vê trabalhos que se empenham no tema da fronteira para as áreas nordestinas, com exceção das que foram e são, desde a década de 1980, foco da expansão da sojicultura como o sul do Maranhão, sudoeste do Piauí e extremo oeste da Bahia. Toda as outras áreas nordestinas são tidas, por essa tendência de estudos de fronteira, como sendo de ocupação antiga. Apenas o trabalho de Guilhermo Palacios (2004) fez referência ao avanço da fronteira, abordagem que ficou restrita ao leste da província de Pernambuco, no final do século XVIII e início do XIX. O que reivindico, com esse trabalho, é que as áreas do sertão nordestino sejam tratadas como áreas de fronteira, que passaram por um processo de devassamento e de constituição das fronteiras políticas a partir de entradas, bandeiras e instalação de currais de gado (porém sem ocupação e povoamento efetivos) desde o final do século XVII, mas que continuaram em situação de fronteira pelo menos até o primeiro quartel do século XX.

Mas o realce que será dado nesse trabalho refere-se ao momento de ápice de forte atração de grupos de indivíduos e famílias destinadas a serem cultivadoras de algodão, a partir do boom econômico por que passou essa cultura, nos “Sertões da Borborema”, na segunda metade do século XIX.