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Capítulo 1 O tema religioso em Pennacchi

1.3 Fuga para o Egito

Figura 3 – Fulvio Pennacchi, Fuga para o Egito, 1935, óleo sobre tela, 60 x 90 cm. Localização desconhecida

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O tema Fuga para o Egito [FIG. 3], recorrente na produção de Pennacchi, trata do episódio bíblico em que José, Maria e Jesus Cristo, menino, fogem para o Egito em razão da perseguição ordenada pelo Rei Herodes com o intuito de matar o menino. Relatado no Evangelho de São Mateus:

“[...] um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar’. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e a sua mãe e partiu para o Egito.” (Mt 2, 13-14)

Se fizermos um levantamento da tradição iconográfica, encontraremos diferentes modos de representação iconográfica deste episódio30; porém Pennacchi sempre opta pela representação da Fuga para o Egito da mesma forma, retratando o momento em que os três personagens acompanhados pelo jumento estão a caminho do Egito. Assim temos sempre, em primeiro plano, Maria segurando o menino Jesus no seu colo, sentada sobre um jumento e José, representado com hábito franciscano, caminhando. Em segundo plano, a paisagem é sempre árida, dominada por montanhas, algumas árvores e uma cidade singela constituída por poucas construções onde não se nota a presença humana.

A relação entre o grupo formado pelas três pessoas e o jumento em primeiro plano, e a paisagem ao fundo é de distanciamento, como se houvesse

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Temos, na tradição iconográfica, a representação do episódio em quatro momentos distintos: o aviso do anjo a José; a fuga de Maria, José e o menino Jesus; a parada ou o descanso dos viajantes; a chegada ao Egito. Na Idade Média, o tema aparece nos conjuntos de pinturas que contemplam a vida de Jesus e a de Maria e também é representado por narrativas encontradas nos textos apócrifos, em que há o relato de acontecimentos extraordinários da natureza ocorridos de modo a auxiliar os viajantes em sua árdua trajetória. Por trazerem episódios da natureza, a paisagem, ao se tratar deste tema, toma um valor predominante, ao longo da história da arte (DUCHET-SUCHAUX; PASTOUREAU, 2002, p. 165-166).

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um total desprendimento dos três em relação ao seu entorno. A natureza árida e inóspita, com suas árvores singulares, solitárias, reflete tal ideia, uma natureza em que as almas dos transeuntes não encontram repouso. Este dado só enfatiza ainda mais o sentimento de solidão, além do cansaço que percebemos ao observar as três figuras humanas.

Realmente, os ombros arqueados dos três personagens, as feições abatidas, em especial a de José, a cabeça baixa do jumento, a falta de calçados nos pés dos viajantes, a ausência de ornamentos nas roupas realçam ainda mais a ideia de despojamento, de solidão em razão da fuga. Mas se de um lado percebemos o cansaço, de outro lado as feições plácidas e serenas recordam o desprendimento dos três em aceitar tal empreitada, a humildade em aceitar a vontade de Deus.

A dificuldade da trajetória, a solidão e o cansaço dos viajantes, uma atitude de resignação e humildade diante de tal empreitada aparecem retratados não somente nesta obra, mas em todos os trabalhos em que o artista trata deste episódio. São sentimentos que refletem também a vida de imigrante de Pennacchi, como percebemos nestes trechos de seu diário (PENNACCHI - 100 ANOS. op. cit., 2006, p. 109-115):

“4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 de novembro [1929]

Dias parecidos aos outros. Crise econômica e espiritual. [...]”

“13,14,15,16,17 de novembro [1929]

Dias inconcludentes, por mais que procure, não consigo encontrar nem o mais humilde dos trabalhos [...].”

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Não tenho boa nova alguma. A verdade é triste e assustadora. Há vinte dias, no Brasil, fazem a revolução e eu não faço nada de nada. Esse é um dos períodos mais graves da vida vivida até hoje. [...]”

Aqui fica evidente a crise espiritual, a solidão, o cansaço, a tristeza de Pennacchi, recém-chegado à sua nova pátria, sua condição de imigrante e é nesta condição que o artista se relaciona com o tema da Fuga para o Egito.

São sentimentos que também encontramos ao ler o poema que escreveu em março de 1942 (PENNACCHI - 100 ANOS, 2006, p.119):

Fuga in Egitto

Giorno d’inverno, per aspre montagne di viva roccia senza un filo d’erba, vento freddo tagliente, un saliscendi di strade strette, conche profonde, vette alte, solenni.

Aspro cammino, invaso di tristezza. Umilmente Giuseppe a capo chino dirige l’asinello che è già stanco di tanto affanno,

Maria raccolta siede col Bambino sopra la dura groppa del giumento, e adora il figlio con amore materno: Il doloroso amore dell’emigrante, che cerca sconsolato, in tutto il mondo il pane necessario di ogni giorno.

Fuga para o Egito

Dia de inverno, por ásperas montanhas de rocha viva sem um fio de erva, vento frio, cortante, num sobe-e-desce de estradas estreitas, vales profundos,

cumes altos, solenes. Áspero caminho, invadido de tristeza. Humildemente José, cabisbaixo, conduz o burrico, já cansado de tanto trabalhar, Maria, ensimesmada, com o Menino, vai na dura garupa do jumento, e adora o filho com amor materno: o doloroso amor do emigrante, que busca sem consolo, pelo mundo, o necessário pão de cada dia.

34 Umile donna che copri col manto

il figlio tuo, che guardi com dolor povero il mondo,

che grande hai il cuore, di pietà di affetto

e benevolo amore di perdono: Madre Santa che porti ad ogni cuore che t’invoca, pietosa l’amor tuo. Son giunti gli emigranti ora sul monte dal sol avvolti al par di luminosa fiaccola ardente che fa luce al mondo, risplende sulla oscura immensa valle. Dorme Gesú sereno clamo il sonno senza sapere quanto sia infido il mondo, e il sol or bacia la sua testa bionda.

Humilde mulher que cobres com o manto o filho teu, que olhas com dor pobre o

mundo, que grande tens o coração, de piedade,

de afeto e benévolo amor de perdão: Santa Mãe que levas a todo coração

que te invoca, piedosa, o amor teu. Estão os emigrantes já no monte pelo sol envolvidos em luminosa chama ardente que enche de luz o mundo, resplandece sobre o imenso e escuro vale. Dorme Jesus sereno e calmo o sono sem saber que traiçoeiro é o mundo, e o sol já beija sua cabeça loira.

Neste poema, percebemos pelas palavras empregadas para descrever a vida e as dificuldades de um imigrante (“áspero caminho”, “invadido de tristeza” ou ainda “doloroso amor do emigrante, que busca sem consolo”), uma identidade nos sofrimentos e nas dificuldades de sua vida de imigrante.

A procura por trabalho, a falta que a família lhe fazia, a escassez de amigos, a ausência de suas referências, enfim, as adversidades que como vimos no início do presente capítulo aparecem descritas no seu diário e no poema e que perduraram nos primeiros anos da vida de Pennacchi em São Paulo, são para o artista intrínsecas a este tema de modo que o artista relaciona o episódio da Fuga

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