8 ALGUMAS ILAÇÕES
8.1 Fumus boni iuris e periculum in mora como notas complementares
Na prática cotidiana do foro, o Poder Judiciário tem instituído entre o fumus boni iuris e o periculum in mora uma ligação de complementaridade. É como se esses dois pressupostos estivessem solidarizados sob uma lógica de compensação mútua: na ausência de periculum in
mora, o julgador poderá conceder a tutela se houver um sobrepujamento da presença do fumus boni iuris; faltante o periculum in mora, poder-se-á conceder a providência liminar se o fumus boni iuris estiver exageradamente presente161162. Portanto, o fumus boni iuris e o periculum in mora acabam atuando num regime de integração e de complementação recíproca. Isso elide a
afirmação de que a verificação do fumus boni iuris é logicamente independente da verificação do periculum in mora.
Em verdade, a vida real comprova que não se trata de duas operações mentais estanques e incomunicáveis dentro do processo de concessão de tutelas liminares. Ou seja, os dois pressupostos são sempre analisados em conjunto. Entre eles existe um vínculo de
conjugação funcional. Eles são a face e a contraface de uma mesma moeda.
Pode-se afirmar, assim, que a concessão de todo e qualquer provimento liminar é sempre a “síntese relacional” de uma tensão situacional e concreta existente entre o fumus
boni iuris e o periculum in mora. Não se cuida, porém, da “síntese superadora” (Aufhebung)
das dialéticas de Hegel e Marx, em que os contraditórios perdem suas identidades à medida que convergem.
Trata-se, na verdade, da “síntese aberta” à qual alude Miguel Reale, em que os opostos se conservam, conquanto se impliquem reciprocamente. Logo, não obstante relacionados
161 A vida prática parece desmentir, portanto, a afirmação – lançada por José Roberto dos Santos Bedaque – de
que “a tutela sumária fundada na evidência somente é admitida se expressamente prevista no sistema”. Para esse processualista, geralmente, a evidência “é insuficiente à concessão da medida, sendo necessária a presença do perigo de dano” (Tutela cautelar e tutela antecipada, p. 331). Posição similar à de Bedaque é tomada por Helena Najjar Abdo (O abuso do processo, p. 212-213).
162 Se a vivência prática do direito processual civil aceita a exeqüibilidade imediata da tutela provisória fundada
puramente em quase-certeza [= “tutela de evidência extremada pura”], não há razão para não que não se aceite a exeqüibilidade imediata de toda e qualquer sentença, que é tutela definitiva fundada em certeza. Isso mostra que o art. 520 do CPC – ao tornar excepcional o recebimento de apelação apenas no efeito devolutivo – impinge uma descontinuidade lógico-jurídica ao sistema positivo vigente. No mesmo sentido, v.g.: ASSIS, Araken de. Efeito suspensivo dos recursos, p. 1.180; BUENO, Cássio Scarpinella. Execução provisória e antecipação de tutela, p. 14-15 e 48-50; FERREIRA FILHO, Manoel Caetano. Comentários ao Código de Processo Civil. v. 7, p. 169- 174; JORGE, Flávio Cheim. Teoria geral dos recursos cíveis, p. 286; MARINONI, Luiz Guilherme. A execução imediata da sentença, p. 9-38; idem. Tutela antecipatória e julgamento antecipado, p. 175 e ss.
dialeticamente em dependência mútua, não se resolvem um no outro: são diferentes e irredutíveis. Enfim, entre o fumus boni iuris e o periculum in mora existe um laço de polaridade, de modo que, embora distintos, são complementares: eles se condicionam ou reclamam reciprocamente163.
Ilustrativamente, tem-se o seguinte esquema:
(a) modelo tradicional analítico-hermenêutico:
[fumus boni iuris + periculum in mora] → concessão de liminar
(b) modelo pragmático:
[fumus boni iuris ↔ periculum in mora] → concessão de liminar
Logo, a tutela de evidência extremada pura e a tutela de urgência extremada pura nada mais são do que aspectos distintos de um mesmo e único fenômeno. Teoricamente, sempre se sustentou que a concessão da liminar pressupunha a presença cumulativa de fumus boni iuris e periculum in mora. Porém, na verdade, a prática forense demonstra a existência de um único pressuposto, que é o resultado da valoração que o juiz faz a respeito do estado de tensão entre o fumus boni iuris e o periculum in mora, tal como configurados in concreto164.
163 Sobre a dialética de complementaridade, v., e.g.: REALE, Miguel. Experiência e cultura, p. 162 e ss.; idem.
Fontes e modelos do direito, p. 79-85; idem. Teoria tridimensional do direito, p. 71-74. Para Abbagnano, são
denominados complementares dois conceitos opostos que se corrigem e se integram reciprocamente na descrição de um fenômeno (Dicionário de filosofia, p. 156, “Complementaridade”). O estudo da complementaridade tem a sua origem nas pesquisas quânticas do físico dinamarquês Niels Böhr. Sobre o tema, v.g.: MORA, José Ferrater.
Dicionário de Filosofia, p. 244-245, “Complementaridad (Principio de)”.
164 É importante ressaltar que jamais se pretendeu com o presente estudo “entrar na cabeça dos juízes”. Isso seria
reprovável psicologismo. Quis-se apenas detectar, a partir da prática forense, uma “tendência central” em matéria de concessão de liminares. Aqui e ali, poderá haver comportamentos judiciais isolados e discrepantes – que farão parte das amostragens de “desvio” e de “variância” – em que o fumus boni iuris e o periculum in mora não sejam tratados sob um regime de integração e de complementação recíproca. Embora o presente trabalho tenha por fim encontrar um padrão de repetitividade nos atos de concessão de liminar, a variabilidade é um dado ineliminável em todo e qualquer estudo comportamental que se pretenda empírico e indutivo. De toda maneira, é interessante mencionarem-se as palavras do Richard A. Posner, juiz federal norte-americano e ícone da Análise Econômica do Direito, sobre a previsibilidade do comportamento dos membros do Poder Judiciário, “[...] a questão não é que o especialista ou o adulto conheça o conteúdo da mente de outra pessoa melhor do que a própria pessoa – uma sugestão irrelevante, talvez até mesmo absurda –, mas que o especialista, o pai ou a mãe tem um método de previsão que a pessoa cujas ações estão sendo previstas não domina, por falta de treino ou da experiência necessários, ou não pode usar em si mesmo devido a seu envolvimento emocional; é mais fácil ser analítico em relação aos outros do que a nós mesmos. E há uma coisa mais profunda. As pessoas sistematicamente falseiam suas motivações para si mesmas. Quase todos fingem para si mesmos que são menos preocupados com dinheiro e status, menos egoístas, mais corajosos e mais éticos do que na verdade são. O que Regan disse sobre Lear aplica-se a todos: ‘Ele sempre se conheceu muito mal’. Os juízes não constituem exceção. Sua auto-imagem de autodisciplina e abnegação inflexíveis, de rigorosa imparcialidade – uma imagem estimulada por fatores psicológicos discutidos mais adiante – talvez não seja consistente com a realidade. A perspectiva interior de julgar pode não fornecer a melhor explicação do que os juízes fazem. Um modelo behaviorista simples talvez
As diferentes espécies de liminar nada mais são do que pontos de tensão ao longo da corda esticada entre o fumus boni iuris e o periculum in mora. Quanto mais a tensão se encaminha para o fumus boni iuris, mais se está próximo da concessão de uma tutela de
evidência extremada; quanto mais a tensão se encaminha para o periculum in mora, mais se
está perto da concessão de uma tutela de urgência extremada. Em meio a essas duas extremidades, existe um conjunto infinitesimal de possibilidades de medidas liminares, todas elas ligadas entre si por uma conexão vital. Elas são os diferentes resultados da valoração que o juiz faz in concreto da tensão fundamental que há entre fumus boni iuris e periculum in
mora. Elas são como as diferentes notas que se pode extrair dos diferentes pontos de vibração
de uma corda de instrumento musical.
É interessante registrar que, conquanto não haja ainda teorização séria a esse respeito, muitos juízes já estão se compenetrando dessa realidade e mencionando-a, expressamente, nos seus julgados. Exemplo notável é dado pelo Eminente Desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Cantarina Newton Trisotto. De inúmeros acórdãos por ele relatados é possível extrair a seguinte assertiva (tão surpreendente!):
À luz do princípio da proporcionalidade é forçoso concluir que: a) quanto mais denso o fumus boni juris, com menos rigor deverá o juiz mensurar os pressupostos concernentes ao periculum in mora; b) quanto maior o risco de perecimento do direito invocado ou a probabilidade de ocorrer dano de difícil reparação, com maior flexibilidade deverá considerar os pressupostos relativos ao fumus boni iuris. 165
Essa mesma surpresa é provocada quando um jurista do quilate intelectual de Agustín Gordillo, ao estudar no direito argentino as tutelas cautelares possíveis no controle judicial da Administração Pública, afirma haver uma “balanza entre el periculum y la verosimilitud”:
“Los dos requisitos para otorgar una cautelar – el fumus y el peligro en la demora o la gravedad o irreparabilidad del daño – funcionam en vasos comunicantes: a mayor verosimilitud del derecho cabe exigir menor peligro en la demora; a una mayor gravedad o irreparabilidad del perjuicio se corresponde una menor exigencia en la verosimilitud prima facie del
tenha maior força explicativa. A maioria dos juízes pode ser bastante previsível, ainda que nenhum juiz se considere previsível” (Problemas de filosofia do direito, p. 251).
165 Primeira Câmara de Direito Público, AI 2008.031776-5, j. 24.03.2009; Grupo de Câmaras de Direito Público,
Ag-AR 2007.039303-0, j. 08.01.2009; Segunda Câmara de Direito Público, AI 2005.017279-1, j. 06.09.2005; Segunda Câmara de Direito Público, AI 2008.001347-2, 10.02.2009; Segunda Câmara de Direito Público, AI 2008.005007-8, j. 05.06.2008; Primeira Câmara de Direito Público, AI 2008.030634-6, j. 17.03.2009; Primeira Câmara de Direito Público, AI 2007.035864-1, j. 09.06.2008; Primeira Câmara de Direito Público, AI 2007.035871-3, j. 17.03.2009; Primeira Câmara de Direito Público, AI 2007.006750-6, j. 18.07.2008. Todos disponíveis em: <http://ap.tjsc.jus.br/jurisprudencia/>. Acesso em: 16 jun. 2009.
derecho. Dicho en otras palabras, tales requisitos se hallan relacionados en que a mayor verosimilitud del derecho cabe ser menos exigente en la gravedad e inminencia del daño y viceversa, cuando existe el riesgo de un daño extremo e irreparable, el rigor acerca del fumus se debe atenuar.”166 Trata-se, porém, de constatação que, no direito brasileiro, não se retira de interpretação meramente hermenêutica do inciso II do art. 7º da Lei 1.533/51, do inciso I e do caput do art. 273 do CPC, e do inciso IV do art. 801 do CPC. E nem por isso se há de reprovar a redação de tais dispositivos. Ora, não há neles nenhum defeito de técnica legislativa. Ao contrário: para esculpi-los, o legislador utilizou os mais bem-sucedidos procedimentos de elaboração formal de textos normativos.
Todavia, como se não bastasse a inevitável distância que sempre há entre o enunciado pensado pelo legislador e a enunciação do pensamento plasmada na lei, a fluida interação entre o fumus boni iuris e o periculum in mora não é fácil de ser reproduzida em um texto que – pelos imperativos do Estado de Direito – tem de ser geral, abstrato e circunspeto. Por mais que o legislador se valha dos melhores esquemas e fórmulas de articulação de idéias no trabalho de expressão legislativa, é praticamente impossível designar – em uma linguagem formal e lapidar – a estrutura fina e pouco mecânica que rege a concessão de tutelas liminares. Quanto mais o legislador se aproximasse lingüisticamente dessa complexa relação entre fumus
boni iuris e periculum in mora, mais intricada seria a redação do dispositivo produzido e, por
conseguinte, mais distante estar-se-ia do princípio da segurança jurídica. Daí a importância de uma visão pragmática do Direito: só ela é capaz de, encarando o mundo empírico-sociológico, recuperar o que se perdeu no trabalho legislativo de expressão textual; só ela tem o condão de trazer à tona conteúdos imprescindíveis que jamais fizeram parte do círculo de discussão dos juristas.