CAPÍTULO IV – REVISÃO DO CONTRATO DE TRABALHO
2. FUNÇÃO SOCIAL
2.1. FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE E DA EMPRESA
Os conceitos de função social da propriedade e função social dos contratos encontram-se indissoluvelmente vinculados, o que exige uma análise conjunta de ambos. De um lado a função social da propriedade afeta necessariamente o contrato, já que este é o instrumento que a faz circular. Por outro, a função social do contrato tem como fundamento de validade a norma constitucional da função social da propriedade, contida no artigo 170, inciso III da Carta Magna de 1988, segundo a qual o exercício do direito de propriedade deverá respeitar a justiça social e os direitos individuais e sociais também esculpidos no texto constitucional.
A funcionalização da propriedade437 é o marco teórico da profunda alteração jurídica trazida pela Constituição Federal, pois rompe com o ideário de propriedade absoluta438 que caracterizava o direito liberal do Código Civil de 1916,
“transformando a propriedade capitalista, sem socializá-la.”439
Assim, para Tepedino, “a propriedade, todavia, na forma em que foi concebida pelo Código Civil, simplesmente desapareceu no sistema constitucional brasileiro, a partir de 1988. A substituição da idéia de aproveitamento440 pelo conceito de função de caráter social provoca uma linha de ruptura.”441
437 LUCAS, Javier de. El Concepto de Solidaridad, p. 30: “La solidaridad aparece así como fundamento de la redefinición de la propiedad (la famosa y caricaturizada función social), del deber de contribuir a las cargas públicas (y a su sostenimiento), o de otros deberes de los individuos hacia la comunidad (…).”
438 A não subsistência da propriedade como um direito absoluto é bem observada em ARRUDA, Kátia Magalhães. A função social da propriedade e sua repercussão na propriedade urbana, p. 315:
“Ocorre que, sendo a propriedade privada um direito subjetivo constitucionalmente garantido, há de se concluir que a antiga característica de direito absoluto, na qual o proprietário poderia livremente usar e dispor ao seu prazer individual, já não mais pode prevalecer, vez que ao impor direitos, a ordem jurídica também impõe deveres; portanto, o proprietário, seja urbano, seja rural, tem o direito de dispor de sua propriedade desde que atendendo a sua função social.” No mesmo sentido, vide MARTINS-COSTA, Judith. A Boa-Fé no Direito Privado, p. 351: “Se a esta não é mais reconhecido o caráter absoluto e sagrado, a condição de direito natural e inviolável do indivíduo, correlatamente ao contrato também inflete o cometimento – ou o reconhecimento – de desempenhar função que transpassa a esfera dos meros interesses individuais.”
439 BERCOVICI, Gilberto. O direito de propriedade e a Constituição de 1988: algumas considerações críticas, p. 69.
440 A função clássica da propriedade limitava-se à esfera econômica, sendo tal o posicionamento que a função social procura combater. A respeito do papel econômico da propriedade, vide MATTEI, Ugo.
Desenvolvimentos Institucionais do Direito de Propriedade, p. 104 e 105: “(...) sobre a função da propriedade responde-se que ela serve para garantir e formalizar juridicamente e a baixo custo a divisão entre classes sociais (...). O direito de propriedade serve para fundar estruturalmente o mercado. Ele é o sistema institucional mais simples e econômico para garantir o funcionamento do mercado.”
441 TEPEDINO, Gustavo. Contornos constitucionais da propriedade privada, p. 315.
Desta forma, somente é protegida com a tutela constitucional a propriedade que cumpre sua função social442, e, nas palavras de Ricardo Aronne, “uma propriedade somente pode ser vista como tal, à luz do todo, tanto no âmbito proprietário como não proprietário.”443
A formatação jurídica atribuída a este instituto impõe que a propriedade cumpra uma função na coletividade.444 Nas palavras de Kátia Magalhães Arruda, “a propriedade deve servir ao bem geral; portanto, não só os direitos daí inerentes como os deveres devem ser adequados para o alcance do equilíbrio na coletividade.”445 Portanto, o proprietário, assim reconhecido juridicamente, não tem apenas direitos mas também possui deveres para com a sociedade, “de tal modo que o conteúdo da propriedade há de configurar-se atendendo o interesse público, ou da ordem econômica e financeira.”446
Como se observa, somente é reconhecida à propriedade a condição de direito fundamental, com as proteções jurídicas daí decorrentes, quando a mesma satisfaz esta exigência ético-social, com bem explica André Osório Gondinho447:
442 BERCOVICI, Gilberto. O direito de propriedade e a Constituição de 1988: algumas considerações críticas, p. 75: “O descumprimento da função social, portanto, exclui a concessão de garantias ao proprietário que não estejam previstas ou autorizadas pelo texto constitucional. A propriedade que não cumpre com sua função social perde também a proteção possessória, ou seja, a Constituição de 1988 tornou inviável, constitucionalmente, a concessão de reintegração de posse por liminar judicial nestes casos.”
443 ARONNE, Ricardo. Por uma nova hermenêutica dos direitos reais limitados, p. 93. No mesmo sentido TEPEDINO, Gustavo. A nova propriedade - o seu conteúdo mínimo, entre o Código Civil, a legislação ordinária e a Constituição, p. 76: “Ora, se as considerações acima desenvolvidas são ABREU, Jorge Manuel Coutinho. Do Abuso de Direito. Ensaio de um Critério em Direito Civil e nas Deliberações Sociais, p. 33: “hodiernamente, são sobretudo as ideias de relações sociais mais justas, de igualdade real, de aumento e distribuição mais equitativa da riqueza socialmente útil que consubstanciam a função social da propriedade.” Na doutrina pátria, a noção do conteúdo da função social da propriedade pode ser extraída de VELÁZQUEZ, Victor Hugo Tejerina. A Função Social da Propriedade no Novo Código Civil, p. 50: “A função social se manifesta sobre o tríplice aspecto de 1) privação de determinadas faculdades, 2) a criação de um complexo de condições para que o proprietário possa exercer seus poderes e, 3) a obrigação de exercer certos direitos elementares de domínio.”
445 ARRUDA, Kátia Magalhães. A função social da propriedade e sua repercussão na propriedade urbana, p. 316.
446 VELÁZQUEZ, Victor Hugo Tejerina. A Função Social da Propriedade no Novo Código Civil, p. 49.
447 GONDINHO, André Osório. Função social da propriedade, p. 412 e 413.
A inserção da função social da propriedade no rol dos direitos e garantias fundamentais significa que a mesma foi considerada pelo constituinte como regra fundamental, apta a instrumentalizar todo o tecido constitucional e, por via de conseqüência, todas as normas infraconstitucionais, criando um parâmetro interpretativo do ordenamento jurídico. É interessante notar que a Constituição reservou à função social da propriedade a natureza de princípio próprio e autônomo.
Assim, a Constituição garante o direito de propriedade desde que vinculado ao exercício de sua função social.
O reconhecimento da propriedade legítima somente quando atendida sua função social significa que esta não surge no texto constitucional como simples limites ao exercício do direito de propriedade, mas sim como princípio básico incidente no conteúdo448 do próprio direito proprietário, enquanto parte integrante de sua estrutura. Portanto, não se pode compreender a própria noção de propriedade sem uma função social.449
Esta compreensão da função social da propriedade aplica-se também à empresa, visto que a mesma “é uma das unidades econômicas mais importantes no hodierno sistema capitalisma.”450 A relação entre função social da propriedade e função social da empresa é traçada primorosamente por Eros Roberto Grau451:
O que mais releva enfatizar, entretanto, é o fato de que o princípio da função social da propriedade impõe ao proprietário – ou a quem detém o poder de controle, na empresa – o dever de exercê-lo em benefício de outrem e não, apenas, de não o exercer em prejuízo de outrem. Isso significa que a função social da propriedade atua como fonte de imposição de comportamentos positivos – prestação de fazer, portanto, e não, meramente, de não fazer – ao detentor do poder que deflui da propriedade.
448 FACHIN, Luiz Edson. Função Social da Posse e a Propriedade Contemporânea, p. 17: “A função social relaciona-se com o uso da propriedade, alterando, por conseguinte, alguns aspectos pertinentes a essa relação externa que é o seu exercício.”
449 GONDINHO, André Osório. Função social da propriedade, p. 419: “A função social não é apenas mais um limite do direito de propriedade. Isto porque limite é o instrumento com o qual o interesse público ou privado circunscreve um direito, sacrificando a sua extensão ou determinando o seu conteúdo. Tradicionalmente, a noção de limite é negativa, voltada a comprimir os poderes do titular do direito atingido, nunca apta a promover os valores fundamentais do ordenamento, missão primeira da função social.”
450 DALLEGRAVE NETO, José Affonso. A Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho, p. 269.
451 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988, p. 269, citado por DALLEGRAVE NETO, José Affonso. A Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho, p. 269.
Este reflexo possui fundamental importância no direito trabalho, pois a identificação do empregador com a noção de empresa, assegurada pelo próprio artigo 2º da Consolidação das Leis do Trabalho452, implica irrefutavelmente a exigência de cumprimento de sua função social.453 Portanto, a empresa, aqui compreendida como concretização da iniciativa privada, somente receberá tutela jurídica quando atuar em favor de seus empregados, valorizando o trabalho humano454, respeitando o meio ambiente e o mercado de consumo.