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4.2 FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE E BENS PÚBLICOS

4.2.1 Função Social da Propriedade e Direitos Autorais

O conceito de propriedade, quando aplicado aos direitos autorais, se relaciona aos direitos patrimoniais, que garantem ao seu detentor a exclusividade para a exploração comercial dos usos da obra. É sobre essa propriedade que recairão as premissas de cumprimento da denominada função social no caso dos direitos autorais, como ressalta Allan Rocha (2006, p. 283):

O alcance desta função social é sobre todos os direitos patrimoniais que assemelhem-se às características proprietárias, incluindo aí os direitos autorais em sua vertente econômica. Esta é uma demanda constitucional e, portanto, obrigatória. [...] Os interesses essenciais da coletividade, constitucionalmente previstos, sobre a utilização das obras autorais são principalmente expressos através de três princípios fundamentais para o desenvolvimento social do país e a vida contemporânea: informação, cultura e educação.

A função social da propriedade está prevista constitucionalmente, como visto, nos artigos 5º, inciso XXIII, e também no artigo 170, encontrado logo no início do Título VII - Da Ordem Econômica e Financeira, CAPÍTULO I - Dos Princípios Gerais da Atividade Econômica. Este último dispositivo prevê outros princípios aplicáveis à ordem econômica:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

I - soberania nacional; II - propriedade privada;

III - função social da propriedade; IV - livre concorrência;

Esse artigo, além de reafirmar os princípios associados à regulamentação das relações de propriedade, inclui o preceito da livre concorrência, de contornos anti-monopolistas, de acordo com Denis Barbosa. Sendo o dispositivo constitucional de aplicação impositiva, que deve ser efetivamente aplicado, afeta diretamente as extensões dos direitos exclusivos do autor, em razão do ônus social associado a um monopólio, onde há um detentor de poder de influenciar de modo decisivo o estabelecimento dos preços e serviços por ele controlados. Prossegue Denis Barbosa (2003, p. 116) indicando que monopólios devem ser restritos e justificados, pois o sistema constitucional vigente realça a liberdade de concorrência; somente para defender essa concorrência, ou o interesse público, podem ser criadas barreiras a livre iniciativa alheia.

Diante da previsão da função social da propriedade nos preceitos constitucionais apontados, faz-se importante analisar questões relacionadas a hermenêutica e aplicação das normas constitucionais. Essa interpretação não pode ser meramente literal lógica; ela deve ser sistêmica e axiológica. Como aponta Allan Rocha (2006, p. 225), a interpretação sistêmica busca o conteúdo valorativo do sistema em que a norma está inserida, e esses valores podem se modificar no tempo em função da dinâmica social, enquanto na interpretação axiológica se procura o significado da norma observando-se os princípios que fundamentam o sistema na qual ela se insere.

O direito de autor tem por função social promover o desenvolvimento econômico, cultural e tecnológico, em contrapartida à exclusividade concedida ao detentor dos direitos patrimoniais sobre a obra, como aponta Guilherme Carboni (2011, p. 05). Essa função social não se exaure com as limitações previstas na LDA, razão pela qual deveria existir uma regulamentação mais abrangente da função social dos direitos autorais, abarcando limitações relativas à estrutura e ao exercício desses direitos. Continua aquele autor:

Portanto, a regulamentação da função social do direito de autor tem como base uma forma de interpretação, que permite aplicar a ele restrições relativas à extensão da proteção autoral (“restrições intrínsecas”) – notadamente no que diz respeito ao objeto e à duração da proteção autoral, bem como às limitações estabelecidas em lei –, além de restrições quanto ao seu exercício (“restrições extrínsecas”) – como a função social da propriedade e dos contratos, a teoria do abuso de direito e as regras sobre desapropriação para divulgação ou reedição de obras intelectuais protegidas –, visando a correção de distorções, excessos e abusos praticados por particulares no gozo desse direito, para que o mesmo possa cumprir a sua função de promover o desenvolvimento econômico, cultural e tecnológico.

A aplicação da função social da propriedade aos direitos autorais não deve ser entendida como algo danoso à propriedade intelectual, prossegue Carboni, mas sim como um aprimoramento desse direito, associado à coibição de usos abusivos. A função social da propriedade tem o papel de ajustar o direito autoral para que este de fato sirva como um instrumento para o desenvolvimento econômico, cultural e tecnológico, e não como um fim em si próprio.

O emprego efetivo da função social da propriedade nos direitos autorais passa, portanto, pela análise equilibrada dos distintos interesses sobre esses direitos. A LDA traz proteção por vezes excessiva ao detentor dos direitos autorais patrimoniais, prevendo, por exemplo, a interpretação restritiva dos negócios de jurídicos sobre direitos autorais. Essa proteção, que muitas vezes não beneficia o autor, mas sim um

terceiro detentor dos direitos autorais patrimoniais, também pode ser uma barreira para a aplicação concreta da função social aplicada na propriedade intelectual. Allan Rocha aponta, entre os elementos obrigatórios ao sistema autoral brasileiro, alguns pontos importantes para o atendimento da função social no que se refere aos direitos autorais, dos quais se destacam:

(j) a aplicação da interpretação restritiva em favor do autor apenas nas relações derivadas de negócios jurídicos, excluindo esta premissa das relações entre direitos de ordens diversas, como ocorre entre os direitos privados e coletivos; (k) aplicação da interpretação extensiva quanto às limitações legalmente estipuladas, de forma a incluir todas as situações não expressas onde o balanceamento entre os diversos interesses resulte na supremacia do interesse público da sociedade sobre os particulares dos titulares originais – autores – ou derivados – empresas.

(ROCHA, 2006, p. 293)

Portanto, afirmar que a propriedade intelectual – e, consequentemente, os direitos autorais – deve atender a sua função social, significa entender que sobre ela recaem limitações oriundas dos interesses públicos. Segundo Vladimir da Rocha França, o primado da função social dá legitimidade ao Estado para intervir na propriedade em todos os graus, desde a limitação do exercício do direito de propriedade, indo até mesmo à expropriação do bem. E conclui o autor:

[...] faz-se indispensável à sociedade brasileira reconhecer a função social da propriedade como um princípio essencial à própria existência da propriedade, bem como da Ordem Econômica, em outras palavras, concretizar o bem-estar social exigido pela Constituição Federal para preservar sua própria estabilidade. A função social da propriedade não constitui sacrifício à propriedade privada, mas sim a garantia mais sólida de sua manutenção pacífica. (FRANÇA,

Do mesmo modo se pode pensar para os direitos autorais: reconhecer as funções sociais dos direitos autorais deve ser entendido não como um sacrifício, mas como a garantia de existência pacífica desses direitos, elevando-os a elemento concreto para o bem estar social exigido constitucionalmente.