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para o conceito de valor, como apontado por Adam Smith (2007, p.26): valor de troca, que se refere ao potencial econômico do bem decorrente da relação comutativa, ou seja, de quanto uma pessoa está disposta a ceder para incorporar o bem em seu patrimônio; e valor de uso, que diz respeito ao potencial econômico decorrente da relação utilitária do bem, derivando da satisfação de uma necessidade ou desejo humano específico, relacionado a quanto uma coletividade se dispõe a pagar para poder utilizar o bem. O valor de uso de um bem, portanto, está ligado à utilidade do bem; o valor de troca tem por base a capacidade de detentor do bem em obter outros bens no mercado. Não há necessariamente uma relação entre valor de uso e valor de troca, como Adam Smith aponta no que ficou conhecido como o paradoxo da água e do diamante:

Não há nada de mais útil que a água, mas ela não pode quase nada comprar; dificilmente teria bens com os quais trocá-la. Um diamante, pelo contrario, quase não tem nenhum valor quanto ao

seu uso, mas se encontrará frequentemente uma grande quantidade de outros bens com o qual trocá-lo (SMITH, 2007, p. 26).24

O valor de uso vem se sobrepondo ao valor de troca quanto ao estabelecimento do potencial econômico dos bens, como se verifica diante da importância que os bens imateriais vêm adquirindo na sociedade contemporânea. É a utilização desses bens intangíveis e, portanto, seu valor de uso, que tem garantido a eles o predomínio valorativo frente aos bens tangíveis.

No caso da Administração Pública, amplia-se a percepção de que o valor de uso de um bem se sobrepõe ao valor de troca, pois é a função do bem, diante das finalidades da atuação do Estado, que exerce ponto central no estabelecimento da valoração – potencial econômico – daquele bem, além do próprio papel do bem no acervo público.

Porém, diferentemente dessa concepção, o regime jurídico dos bens públicos foi elaborado sobre a premissa oposta, e se pautou na visão de que o valor da propriedade partiria da aptidão do bem para a troca (correspondente à concepção vigente à época de elaboração das normas que formam o regime dos bens, na qual a presença de um corpo físico, ou seja, a tangibilidade do bem, é que o tornava relevante, inclusive financeiramente), e não predominantemente em função da sua capacidade para uso.

Portanto, o regime jurídico criado sob a prevalência do valor de troca sobre o valor de uso dificulta que se dê o tratamento correto aos bens públicos sob a ótica do interesse público, pois não é a função pública do bem o eixo a definir o tratamento que se deve dar ao acervo que compõe o Patrimônio Público, mas sim a aptidão do bem para troca. Somente colocando o valor de uso no centro da questão é que se pode buscar um regime jurídico que privilegie a finalidade pública do bem.

Outras duas premissas, segundo Marques Neto, pautaram a elaboração do regime jurídico dos bens públicos: “(i) a relação jurídica entre proprietário e bem conferiria aqueles direitos plenos de disposição, uso e gozo; (ii) o objeto de propriedade seria predominantemente pensado como objeto dotado de materialidade”. Esses pressupostos também trazem consequências negativas ao regime jurídico aplicável

24 Tradução do original em inglês: “Nothing is more useful than water: but it will purchase

scarce anything; scarce anything can be had in exchange for it. A diamond, on the contrary, has scarce any use-value; but a very great quantity of other goods may frequently be had in exchange for it”

aos bens públicos diante da realidade contemporânea, como prossegue Marques Neto (2009, P. 387):

[..] nos dias de hoje a noção de propriedade, mesmo no Direito Civil ou na teoria geral do Direito, sofre profunda transformações. Dois são os vetores principais destas mudanças.

De um lado há a crescente ‘desmaterialização da propriedade’, entendida como o deslocamento de importância dos bens materiais para os bens intangíveis. Podemos dizer que vivemos um processo de ‘desmaterialização da riqueza’, na medida em que os ativos intangíveis passam a ter muito mais importância econômica do que os bens materiais. Tal processo não decorre apenas da imaterialidade ditada pela tecnologia ou pelo conhecimento, marcantes do processo produtivo contemporâneo. À ‘desmaterialização da riqueza’ corresponde um predomínio do uso em detrimento da comutação. Os bens, hoje mais do que nunca, valem muito mais pela utilidade que franqueiam à coletividade, do que pelo incremento patrimonial que conferem ao seu titular.

De outro lado está o que poderíamos chamar de ‘funcionalização da propriedade’, manifestada na crescente atenção do Direito para com a finalidade a ser cumprida pelo emprego dos bens, públicos e privados, e que tem como indicador mais patente a adstrição dos bens à função social. A esses vetores se somam as transformações no papel do Estado contemporâneo, com demandas crescentes e recursos escassos. (grifou-se) Dois fatores, portanto, afetam a aplicação do regime jurídico aos bens públicos no cenário contemporâneo. Primeiro, a importância que os bens imateriais têm assumido na sociedade, relevância essa que advém justamente do valor de uso associado a eles, ou seja, à utilidade que esses bens proporcionam à coletividade, muitas vezes intimamente ligada à tecnologia que permite a ampla fruição desse bem, além do caráter central que o conhecimento representa no processo produtivo moderno.

Em segundo lugar, o caráter de função social que cada vez mais tem moldado o conceito de propriedade, e em especial, o da propriedade pública. A propriedade não está presente apenas para preencher as necessidades individuais do ente detentor do bem, mas também para fazer com que o bem seja parte de um sistema – a sociedade – cujas peças se encaixam justamente pelas finalidades comunitárias existentes nesse próprio sistema.

Os bens públicos literários e artísticos, nesse contexto, refletem os vetores de mudança citados, pois a intangibilidade desses bens representa de modo direto a “desmaterialização da riqueza”, onde o valor de uso se sobrepõe ao valor de troca, e a finalidade a ser cumprida por esses bens, na esfera cultural, ressalta a relevância da função social dessa propriedade, sempre cabe ressaltar, pública.

2.8 CLASSIFICAÇÃO E BENS PÚBLICOS LITERÁRIOS E