2. A INDÚSTRIA TÊXTIL E DE CONFECÇÃO
2.3. FUNÇÕES COMUNICATIVAS DO OBJETO E SUA REAÇÃO COM A
Tendo em vista a caracterização dos artefatos têxteis apresentada anteriormente, é possível afirmar que a indústria têxtil e de confecção deverá realizar dois tipos de pesquisa: a coleta de materiais tangíveis e práticos para sua coleção (como tecidos, adornos e botões), além de inspiração visual para ajudar na definição de aspectos intangíveis como tema, inspiração ou conceito, elementos fundamentais para construir uma identidade de uma coleção (FRINGS, 2012; SEIVEWRIGHT, 2012).
Dentre os elementos investigados, os tecidos são uma das mais importantes matérias-primas da indústria de moda que, assim como o vestuário com valor de moda, possuem aspectos tangíveis e intangíveis a ser investigados, para que profissionais consigam integrar no produto final aspectos funcionais, estéticos e simbólicos descritos e/ou propostos no projeto de uma empresa (UDALE, 2009; PEZZOLO, 2007).
Identificar a função para a qual esses tecidos serão destinados, bem como conhecer as qualidades estéticas, textura, cor, estampa, superfície, caimento e a maneira como deverá ser manuseado pela indústria e consumidores, são alguns dos elementos importantes para o desenvolvimento de inovações no setor têxtil que satisfaçam as necessidades e desejos do consumidor. Além disso, é útil para a indústria de moda conhecer o desenvolvimento histórico do uso de tecidos, ou seja, quais os tipos de tecidos e que técnicas se tornaram importantes e influentes na moda ocidental (UDALE, 2009).
Assim, a indústria utiliza o processo de design com o propósito de entender essas informações para desenvolver atributos que melhorem a percepção do usuário sobre os artefatos, promovendo a interação dos indivíduos com esses objetos de forma prazerosa, sem deixar de oferecer à empresa um bom desempenho
organizacional, além de produtos de grande aceitação no mercado para o qual ele foi configurado. A elaboração dessas informações, ou seja, o desenvolvimento de produtos que se comunicam com o consumidor, ocorre por meio da configuração das seguintes funções: indicativa (prática), estética, simbólica (QUEIROZ, ROCHA, 2013; BÜRDEK, 2010; LÖBACH, 2010; TREPTOW, 2007).
As funções indicativas dizem respeito às características práticas dos produtos, ou seja, aspectos ligados à utilidade como, por exemplo, o seu manejo ou manipulação. Nesse sentido, as interpretações individuais ou pontos de vista são menos significativos para o processo de configuração do produto, prevalecendo principalmente informações que permitam: uma segurança visual no manuseio do produto, a identificação das normalidades técnicas do produto, uso e conservação, além estabelecer indicações sobre a relação que esses produtos têm com o corpo humano de modo a considerar não apenas a adaptação antropométrica de um produto, mas todos os aspectos associativos (BÜRDEK, 2010).
Assim, essas funções referem-se a toda relação entre produto e usuário determinados por elementos fisiológicos do uso, ou seja, a facilidade de uso, prevenção de cansaço, oferta de conforto, segurança e eficácia de utilização do objeto, características que deverão ajudar a compor a base conceitual técnica (desdobrada, por sua vez, nas bases conceituais tecnológicas, dos materiais, do sistema construtivo e de fabricação), de normalização e, obviamente, à de criatividade (BÜRDEK, 2010; GOMES FILHO, 2006).
A função estética tem como objetivo tornar evidentes os aspectos práticos do produto, podendo, no entanto, ser, ao mesmo tempo, subordinada a aspectos socioculturais. Nesse sentido, é possível defini-la como sendo as impressões dos indivíduos sobre os produtos, obtidas através de processos sensoriais decorrentes de interações com elementos formais do objeto obtidos durante o uso do produto (BÜRDEK, 2010; GOMES FILHO, 2006; LÖBACH, 2010).
A estética de um produto promove o bem-estar aos indivíduos através do processo de uso, uma vez que essa é uma relação composta por racionalidade e pensamentos lógicos, bem como por sentimentos provenientes da experiência de cada pessoa. Assim, os aspectos estéticos têm o propósito de satisfazer as necessidades psicológicas e psíquicas do consumidor, fato que torna esse elemento
de fundamental importância para indústrias e consumidores (BÜRDEK, 2010; LÖBACH, 2010).
Geralmente, os fabricantes utilizam os aspectos estéticos como estratégia de diferenciação entre produtos do mesmo segmento para atrair a atenção de seu público-alvo, pois através deles é possível reconhecer e transmitir diversos estilos de vida e sentimentos, os quais indústrias e usuários desejam expressar por meio do consumo (BÜRDEK, 2010; LÖBACH, 2010).
O reconhecimento humano do entorno objetual é influenciado pelo intelecto e pelo sentimento. Todos os homens desenvolveram os dois fatores mais ou menos intensamente, predominando em alguns casos o intelecto e em outros o sentimento. O observador de produtos industriais dotado de capacidade intelectual, tende a alcançar a compreensão tão rapidamente quanto possível no processo de percepção, e a reduzir outro tanto o conteúdo em informações da aparência estética (LÖBACH, 2010, p. 177).
As características estéticas de um produto são denominadas de elementos configurativos, os quais são compostos por aspectos tangíveis como forma, material, superfície e cor. Por sua vez, esses elementos são distribuídos de acordo com o
objetivo do projeto - ou seja, as necessidades do consumidor, o método que será utilizado para fabricá-lo e os aspectos econômicos - para gerar uma figura ou imagem (LÖBACH, 2010; GOMES FILHO, 2006).
Entretanto, a figura originada apenas através desses elementos pode não ser suficiente para transmitir informações que influenciem o sentimento dos consumidores. Assim, os aspectos estéticos de um produto deverão ser projetados de modo a que a interação entre o indivíduo e o produto cause associações com suas experiências e sensações anteriores, fato denominado de função simbólica (LÖBACH, 2010).
Löbach (2010) explica que são os aspectos espirituais, psíquicos e sociais do uso que determinam a função simbólica de um produto, logo é indispensável que a configuração estética de um produto seja idealizada para transformá-lo em um símbolo.
Além do que já foi exposto no capítulo anterior, um símbolo pode ser definido como “um sinal que por meio de uma combinação (convenção) possui significado intercultural” que, em geral, acontece de forma associativa e nem sempre explícita.
Contudo, é possível afirmar quea interpretação de um símbolo depende não só dos aspectos qualitativos ou físicos dos objetos, mas também do fato de receber, principalmente, influência do contexto no qual o símbolo está inserido e de convenções socioculturais (BÜRDEK, 2010, p. 322).
Segundo Bürdek (2010), a função simbólica de um produto de design deverá, portanto, vincular os mundos simbólicos dos consumidores ao dos produtores de símbolos (as empresas), mas para isso é indispensável compreender detalhadamente os respectivos mundos simbólicos.
Sobre o significado do objeto obtido mediante o estudo desses dois universos, ou seja, consumidores e produtores, o autor estabelece ainda que eles são determinados pelos diversos contextos nos quais eles podem ou deverão aparecer. Assim:
Tudo o que se sabe sobre ele ou se pode mencionar – história, processo de fabricação, círculo de usuários, lógica das funções, valor econômico – são transmitidos pela linguagem. [Portanto] estabelecer qual significado um produto deverá ter para o usuário é o propósito do processo de design (BÜRDEK, 2010, p. 337).
Levando em consideração o que um produto deverá significar para o consumidor, definem-se as qualidades que aquele deve conter para despertar uma atração agradável e admiração imediata. O modo como as características dos produtos são utilizadas na configuração desses objetos determinará o estilo de um produto (GOMES FILHO, 2006; LÖBACH, 2010).
O estilo de um produto pode ser descrito como:
Uma qualidade intrínseca do produto e, preferencialmente, deve conter um algo a mais que concorra para provocar uma atração agradável e admiração imediata, chamando a atenção para sua aparência. Pode-se agregar uma série de valores ao produto, inclusive, dependendo de sua natureza, valores de ordem sensível e emocional que toquem o usuário. Semanticamente, o estilo pode denotar várias mensagens e significados diversos, sobretudo por meio da função simbólica (GOMES FILHO, 2006, p. 99).
Desse modo, sobre as funções comunicativas do objeto apresentadas por esse texto, até agora é possível entender que não só a função simbólica, mas também as demais (indicativa e estética) correspondem ao conjunto de conhecimento produzidos
ao longo da vida de cada indivíduo ou sociedade e, posteriormente, inscritos e transmitidos por meio do desenvolvimento de novos artefatos. O autor destaca ainda que para o desenvolvimento dos artefatos como instrumentos de comunicação deve- se considerar “os diferenciados canais de percepção e recepção sensorial da informação pelo usuário e a respectiva capacidade de assimilação de seus canais receptores” (GOMES FILHO, 2006, p. 87).
Além do universo simbólico do consumidor e das necessidades e/ou desejos identificados, a tecnologia é outro critério que deverá ser observado para a produção dos artefatos industriais. Por conseguinte, é fundamental atentar para os tipos de materiais, sistemas construtivos, métodos e processos de fabricação, tipos de acabamentos, entre outros elementos ligados ao desenvolvimento tecnológico (GOMES FILHO, 2006). Sãoesses elementos que deverão ser discutidos no próximo capítulo desta dissertação.