1.2. O que é aprender a ler
1.2.1. Funcionalidade e natureza da leitura
Para que as crianças revelem vontade para aprender a ler é necessário que conheçam a funcionalidade, os seus objetivos e a sua natureza.
No processo de apropriação da leitura existem duas grandes competências a desenvolver, uma relacionada com a interação da criança com o texto lido e com as suas tentativas para o conseguir interpretar, retirando-lhe significado e outra relacionada com a leitura de histórias e outros textos (Mata, 2008, p. 81). Tal como afirma a mesma autora “no seu dia-a-dia, a criança está atenta à escrita envolvente, procurando activamente atribuir-lhe significado e reconhecendo algumas palavras em contexto (nome próprio, nomes, ou outras palavras familiares)”, revelando que a criança se encontra constantemente em contacto com a linguagem escrita que poderá vir a ser lida, quer por adultos, quer por crianças nas suas tentativas de leitura.
Existem, desta forma, três vertentes relacionadas com a apropriação por parte das crianças para a natureza e funcionalidade da leitura, são elas: a disponibilidade e curiosidade pela escrita, a capacidade de atribuição de uma mensagem à escrita e a existência de um conjunto de palavras que fazem parte do seu vocabulário visual.
24 A primeira vertente – disponibilidade e curiosidade pela escrita – encontra-se relacionada com a curiosidade demonstrada pela criança e pela disponibilidade, para que, de forma autónoma e natural, lhe comece a atribuir significado.
A segunda vertente – capacidade de atribuição de uma mensagem à escrita – revela-se na atribuição de uma mensagem particular do texto escrito, com o qual a criança se vai confrontando, existindo, gradualmente e cada vez mais consistente, uma adequação entre o tipo de mensagem, o suporte escrito e a sua função.
A terceira vertente – existência de um conjunto de palavras que fazem parte do seu vocabulário visual – é um importante elemento, no sentido em que, a criança vai reconhecendo, de forma global, determinadas palavras, pelas suas características gerais ou pela identificação das letras que a constituem.
As vertentes acima mencionadas são essenciais para o desenvolvimento da funcionalidade e natureza da linguagem escrita, pelo facto de se ler o que está escrito. Desta forma, segundo Mata (2008, p. 83) “ouvir atentamente e com prazer histórias, rimas, poesias e outros textos, extraindo as suas ideias principais, fazendo comentários e/ou levantando questões em relação ao que ouviu”, ou seja, é através do contacto constante com histórias que a criança vai conseguindo extrair da mesma significados, fazendo perguntas acerca do que ouviu.
Também nesta competência existem três vertentes: o desenvolvimento de atitudes positivas e prazer face à leitura, a compreensão do que é lido procedendo à seleção da informação mais pertinente e a apreensão da informação selecionada, que permite refletir e estabelecer relações com outras informações e vivências anteriores.
A primeira vertente encontra-se sobretudo relacionada com a participação das crianças em situações positivas e agradáveis de leitura e pelo envolvimento das mesmas nestas situações. Sendo que também constitui um fator importante no desenvolvimento da funcionalidade da leitura os sentimentos e atitudes de outras crianças ou adultos, que se revelam mediadores das interações da criança com a leitura, o prazer e a satisfação que conseguem transmitir às interações partilhadas de leitura.
A segunda vertente relaciona-se com a capacidade de compreender o conteúdo de um texto, onde se pretende que se selecione a informação mais relevante, que se a organize e sequencie. Onde, para o desenvolvimento desta capacidade, se torna
25 fundamental a qualidade e frequência das interações da criança com o texto. Neste sentido, o papel do adulto (educador ou pais) é fundamental, pois vai realçando as ideias principais de uma história lida, vai relembrando a informação apreendida através de questões que vai colocando ao longo da leitura, vai lendo cuidadosamente e com a entoação apropriada, fazendo pausas quando se revelar necessário, consoante o ritmo das crianças, permitindo que as mesmas desenvolvam a capacidade de seleção de informação, levando, consequentemente, à compreensão do que é lido, bem como a funcionalidade da leitura.
A terceira vertente relaciona-se com a reflexão aprofundada da informação recolhida anteriormente, estabelecendo relações com outras informações e vivências anteriores.
Como se verifica, as três vertentes acima mencionadas não atuam sozinhas, no entanto são independentes e contribuem para a promoção das outras, ou seja, encontram-se interligadas e influenciam-se umas às outras.
Numa fase inicial, as crianças não atribuem qualquer significado à escrita, no entanto, vão-se apercebendo que existe uma mensagem e que essa mensagem se pode revelar diferente consoante o suporte de escrita utilizado. Ao passo que, numa fase inicial, a mensagem que é atribuída à escrita é muito simples, limitando-se apenas ao nome de objetos, pessoas ou animais, numa fase mais avançada, a criança irá alargar o conteúdo da mensagem a verbos, artigos e outros elementos de ligação.
Também os processos para que consigam identificar a mensagem por detrás do que está escrito, a criança também vai evoluindo, ainda que de forma gradual, pois no início os indicadores são basicamente relativos ao contexto e à grafia, ou seja, o local onde a escrita se encontra e a perceção global da mesma. Numa fase mais avançada, a criança começa a ter consciência do tamanho da palavra ou da frase escrita, passando a atribuir uma letra ou uma sílaba a cada letra ou palavra.
Estes indicadores, à medida que a criança vai evoluindo, vão-se tornando mais consistentes e estruturados, pois o reconhecimento de algumas letras e o seu respetivo nome, e a identificação de algumas diferenças e semelhanças entre palavras, facilitam a mobilização de estratégias mais elaboradas e diversificadas para tentativas de leitura.
26 Paralelamente à vertente escrita, desenvolve-se a componente afetiva em relação à leitura, onde, os leitores, para além de compreenderem a utilidade e o valor da leitura, sentem-na como uma coisa positiva e agradável, acabando por se desenvolver sentimentos de competência, de curiosidade e de capacidade na decifração do que está escrito e que pode ser lido.