Pequenas informações produzidas por cada “célula”, (o mais simples
funcionário da fábrica, operários escravos, cegos e surdos), são enviadas por meio do terminal (microcomputador) existente em cada ponto do organismo para outros setores após a produção da mensagem. Cada uma dessas regiões menores produz e envia – também recebe – informações percebidas ou captadas através de sinais químicos e ou elétricos. Desse modo, tudo o que está ocorrendo na sua cela, isto é, numa parte isolada do “subterrâneo” da fábrica, é informado (comunicado) a outros setores para ser investigado (processado) e, em seguida, aproveitado ou não.
As áreas do cérebro maciçamente associadas à execução de certas funções são, na realidade, estações intermediárias no processo de transmissão de informação neuronal (tálamo, amígdala, hipocampo, hipotálamo, córtex frontal etc.); lugares onde as informações convergem de outras áreas do corpo total, inclusive de outras estações cerebrais, entre elas, as encarregadas de produzirem emoções, cognições, lembranças, percepções etc. Essas e outros setores do cérebro são estações que recebem as informações que vieram dos microcomputadores e podem retransmiti-los para outros pontos. As estações filtram, modificam, analisam e sintetizam as informações
chegadas antes de reenviá-las para as partes mais sofisticadas do cérebro. As regiões finais do cérebro, as coordenadores, córtex frontal, parietal, temporal, com a ajuda do occipital, irão examinar o conjunto de informações recebidas (já semi-processadas) para escolher ou determinar que ações mais complexas (comportamentos) deverão ser usadas.
Portanto, à medida que as estações são alimentadas pelo fluxo de
informações oriundas de vários pontos do organismo, circuitos são ativados, um limiar é transposto e um determinado movimento ou comportamento é executado, como por exemplo: Maria vai à cozinha; percebe um inseto voando; focaliza este; identifica-o como uma barata; grita e corre.
Deve ser lembrado que as informações funcionam não numa só via, mas sim em duas, a de ida e volta. Por conseguinte, de lá de cima (das subestações e da Central), são reenviadas (retransmitidas) também informações para as celas existentes na parte de baixo da fábrica, isto é, aos setores controlados, cada um, pelas secretarias ou estações especiais dos andares mais altos. Por tudo isso, o funcionário, mesmo o mais simples, deve estar atento quanto às informações que dele devem partir e das mensagens recebidas de cima, lhe dando uma idéia geral do ocorrido; sempre buscando a harmonia do setor. Esse operário, aparentemente sem poder, pode e deve, caso for necessário, avisar e ser avisado, através de informações químicas e elétricas, acerca do que se passa em algum setor vizinho ou relacionado a ele. Assim, por exemplo, o setor “músculos da perna” pode receber informações de sua chefia que ele deve se preparar para correr para fugir da “terrível barata” voadora que passeia pela cozinha de um lado a outro; a barata está parecendo querer pousar em cima da cabeça de Maria. A perna que recebeu ordens de se movimentar não tem acesso à informação geral dos motivos da ordem que ela deve cumprir, pois uma perna não enxerga e nem pensa acerca de baratas; apenas obedece a comandos neurais e químicos; essa é sua linguagem, e para correr a perna precisa de energia, que será liberada e enviada por outros setores, conforme o Comando Geral.
Os operários quase-escravos, moradores eternos dos porões durante toda a vida da fábrica, só se comunicam diretamente com alguns vizinhos; os próximos deles e com funções semelhantes. Portanto, eles são proibidos de entrar em contato diretamente com a maioria dos outros empregados, muito menos com as chefias centrais, pois são raras as secretarias que têm acesso direto ao córtex pré-frontal e às subestações mais sofisticadas; locais onde se realiza a reunião de informações e, posteriormente, um balanço geral e pormenorizado do estado corporal e acerca das decisões que devem ser tomadas. Um operário/neurônio não pode decidir por si só receber estímulos de um determinado operário e não de outros aos quais ele estiver ligado, como também, o operário-neurônio não pode escolher enviar uma mensagem para somente um ramo do operário/axônio e não para outro; também, o operário/neurônio não representa um mecanismo que pode ser
manipulado diretamente por forças externas; só indiretamente através dos elos das regiões diretoras.
Os operários e grande parte dos chefes, excetuando a Central Cortical, estão impedidos de se comunicarem com o mundo exterior. Como esses operários não sabem o que se passa lá fora, a não ser indiretamente, eles agem diante de um perigo, ou de uma atração, forçados pelas secretarias superiores a agirem de certo modo. A estimulação do neurônio/operário é determinada por estímulos internos, modificações nas conexões entre um determinado operário-neurônio e os outros (sinapses). Portanto, esse mecanismo demonstra o importante papel das conexões entre determinados operários- neurônios e ou entre diversos deles na produção de respostas significativas para a fábrica total.
Nota-se que os operários-neurônios de certas regiões da fábrica, como os que atuam próximos à Central Decisória da fábrica já adulta, tendem a formar muitas conexões idiossincráticas com outros operários-neurônios da mesma região. Portanto, em certos locais da fábrica, como na região da Central, são desenvolvidas e construídas pontes (conexões informativas) mais sofisticadas e complexas ligando partes importantes com outras, visando a percepção e a tomada de decisão mais sábia e eficiente diante do problema. Essa sofisticação do organismo ocorre principalmente onde se centralizam as coordenações gerais e complexas (ações, contrações musculares, comparações, recuperação de memória, emoção, tradução para palavras do fato, sínteses etc.), isto é, nos córtices cerebrais, especificamente, nos córtices associativos (zona de ligações entre áreas diversas).
Além disso, é preciso impedir a entrada de estímulos não pertinentes ao planejado ou imaginado (tálamo, que age como peneira ou filtro, parte do lobo parietal e cíngulo que permitem que nós possamos nos distrair de certos estímulos apesar de ficarmos prontos para algo novo que possa surgir). Também precisamos interligar os movimentos com as emoções (coordenação do córtex orbitofrontal, reunindo, ao mesmo tempo, o estímulo percebido com o teor – valência – da emoção que ele provocou).