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As Diversas Faces do Homem

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Academic year: 2021

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AS DIVERSAS FACES DO HOMEM

GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

www.galenoalvarenga.com.br

Tags:

Cérebro e Mente, Comportamento / Condutas, Crenças antigas / Mitos / Superstições, Educação e Conhecimento, Emoções Sentimentos Controle, Informação Linguagem e comunicação, Livros Neurociência, Livros Online Grátis, Livros Psicologia, Livros Psiquiatria, Memória e Indivíduo, Percepção Estímulo, Sociedade: Valores e Cultura

Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo

Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que

pode ser adquirida através do site do autor.

Visite www.galenoalvarenga.com.br e saiba mais sobre:

Publicações do Autor

Transtornos Mentais

Testes Psicológicos

Medicamentos

Galeria de Pinturas de Pacientes

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Índice

Introdução

Minha luta, meu desabafo

Pensamentos em consonância ao discutido

Refletindo sobre o homem O Sonho Distante

A outra face da verdade

Quatro Amigos, Quatro Destinos Os homens ainda enxergam fantasmas Duas classes de homens: Cultos e Incultos Homem: Anjo ou Demônio?

Aprisionamento do Homem Homem: Animal engraçado e tolo Vivendo um conto de fadas A miopia do Homem

Homem: Controlado externa e internamente Normopatas: A chatura dos Homens Normais Emoções e a Fábrica/Organismo

Histórias diversas e função cerebral Para mim você está errado

Como sabemos as coisas que sabemos?

O filhote de pardal e os sistemas emocionais inatos

Euler e Aldegundes – Dois comandos: Cortical e subcortical O Dilema de Jonas

Discussão do Caso Jonas

Explicação sofisticada do caso do abacaxi e de Jonas: Regiões subcorti-cais e cortisubcorti-cais

Desenvolvimento e função do cérebro: a fábrica/organismo Afinal, que é o Cérebro?

Algumas funções do encéfalo 5 13 20 24 37 46 49 51 55 58 61 62 64 67 70 75 79 82 85 86 91 94 98 100

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Setores e função: a fábrica/organismo O Organismo/Fábrica e os Genes Desenvolvimento do Organismo/Fábrica Setor de inteligência da Fábrica

Defesa da Fábrica: Imunologia

Memória: As lembranças da Fábrica/Organismo O Hemisfério Esquerdo x Direito

A importância de uma Fábrica/Organismo íntegra

Cenas da fábrica/organismo

A Fábrica e a gordura abdominal de José Antônio escapa do assalto

Altamiro não escapa do assalto Alguns eventos na vida de Maria Tranquilizando o leitor

Maria vai à cidade comprar um presente

O organismo/fábrica e o meio ambiente O Organismo/Fábrica e o meio ambiente Informação: Curiosidade e Atenção Os dois comandos

Sistema límbico e as emoções Palavras finais 103 106 111 117 120 122 125 130 137 140 143 148 150 157 159 170 178 180

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Minha luta, meu desabafo

“As intoxicações pela instrução são muito mais graves que as intoxicações pelos subprodutos da indústria. Os estorvos de informação são mais graves que os estorvos de máquinas e de utensílios. As indigestões de signos mais graves que as intoxicações alimentares”.

R. Ruyer

Minha burrice e ignorância inicial

Desde criança julgava-me como sendo um perfeito ignorante, um ser humano que nada sabia. Tinha dúvidas e inúmeras dificuldades para resolver quase todos, ou mesmo todos os problemas. Mesmo assim, após um teste idiota, consegui entrar para o primeiro ano primário do Grupo Escolar Barão de Macaúbas e lá continuei até terminar o curso primário. Minha professora, D. Edina, com sua simpatia, tolerância e timidez, conseguiu conquistar-me e tornar as aulas suportáveis durante o aprendizado. Não foi difícil aprender a ler e a escrever mal. Entretanto, jamais consegui agradar a professora acerca das interpretações de textos. Eu interpretava de um modo; a interpretação “correta” era outra. Assim, no Grupo Escolar continuei minha jornada de idiota.

Diante dos colegas e da professora – acho que todos percebiam minha idiotia – continuei lutando contra minhas dificuldades. Como não melhorei minha doença crônica – ignorância familiar – após os quatro anos de curso, burramente, continuei a tentar acabar com minha idiotia e, para isso, matriculei-me no Colégio Batista Mineiro. Lá, aos trancos e barrancos, fiz os quatro anos do Curso Ginasial da época. Como aconteceu no grupo escolar, no colégio, me sentia como um incapaz diante dos problemas da vida que observava curioso e confuso.

Juventude: A bobice continua. Primeiros

companheiros

O tempo foi passando. Assim, como sempre acontece, também fui me acostumando com minha bobeira. Mas, perplexo, percebi que alguns de

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meus colegas sofriam do mesmo mal; eu tinha colegas semelhantes. Como minha doença, ou seja, minha bobice, não melhorou, decidi ir adiante. Fui para o Colégio Marconi fazer o curso científico. Diante de um grupo de alto gabarito, gente da elite, muito mais poderosa economicamente que eu, julguei-me derrotado. Naquele lugar cheguei a imaginar que seria expulso por incapacidade mental, intelectual, prática e, além disso, por falta de poder, dinheiro, elegância, nome familiar famoso e muito mais. Naquele meio, senti-me como o pior de todos.

Entretanto, como aconteceu antes com o crescimento de minhas observações, fui percebendo, aos poucos, que tinha vários colegas tão idiotas quanto eu, mesmo tendo boas roupas e poder social e econômico. Em cada lugar, matriculado para tentar diminuir minha idiotice, mais e mais companheiros ia encontrando; eles cresciam. Pouco a pouco, extremamente desnorteado, enlouquecido, ia descobrindo que o grupo dos idiotas era maior que pensava. Eu não estava sozinho. No Marconi não aprendi o desejado para conhecer melhor minha estupidez crônica; eu, um nada, continuava burro e cada vez mais desiludido.

Adulto-jovem e medicina: professores entram

para o grupo

Entrei no ano seguinte na Faculdade de Medicina para testar, mais uma vez, minha capacidade mental e intelectual. Estava bastante seguro de que lá eu, cada vez mais, iria confirmar minhas suspeitas: não sabia resolver corretamente, e de maneira segura e eficiente, quase nada colocado à minha frente.

Atravessei os seis anos de Medicina e me formei junto com inúmeros companheiros. Mas, cada vez mais, ia me certificando que a doença era maligna – talvez contagiosa-, atingia a quase todos ou a todos: agora o grupo de idiotas era colossal, entre esses estavam muitos professores da saudosa faculdade. Alguns tentavam mascarar suas idiotices com um verniz de sabedoria; eram os “Idiots Savants” (Idiotas Sábios) dos franceses.

Fui percebendo, a duras penas, que minha burrice não tinha cura e que eu, junto com amigos, colegas e familiares, desde o grupo escolar, curso ginasial e científico, formávamos um batalhão de ignorantes sobre quase tudo existente. Ninguém sabia nada! Ninguém conhecia ninguém! Ninguém sabia pensar com profundidade! Todos nós éramos superficiais em tudo!

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Novas tentativas: o grupo de idiotas aumenta

Comecei minha profissão de médico. Como era um idiota, fui procurar uma especialidade – a psiquiatria – que me fornecesse uma melhor compreensão do meu caso particular, isto é, acerca de minha idiotia crônica, na época chamada de “Oligofrenia”.

Continuei sem respostas. Atendi pacientes e mais pacientes; notava agora que todos eles eram parecidos comigo. No confessionário do consultório psiquiátrico pude observar com maior profundidade que uma grande parte dos clientes sabiam que tinham a mesma doença ruim, a que eu era portador: idiotia humana crônica. Eles, como eu, a escondiam; camuflavam a doença deles, fingindo ser inteligentes, um termo que hoje não mais sei o que quer dizer.

Tentativa desesperada: buscando uma

resposta definidora

Desmiolado, tentei mais uma vez examinar e compreender melhor meus azares e minhas idiotices. Assim, fiz o vestibular e fui cursar Filosofia na UFMG. Quando entrei para Faculdade de Filosofia imaginei: Agora terei a resposta definitiva acerca de minha burrice bem como a dos outros. Quando comecei a estudar a história filosófica da humanidade, deparei com os “grandes” nomes da filosofia grega: Pitágoras, Zenon de Eléia, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, outros e outros e o famoso trio: Sócrates, Platão e Aristóteles. A base onde ergui minha coerência lógica ruiu; os grandes sábios eram muito parecidos com todos nós, idiotas na maioria das coisas e falavam pelos cotovelos como eu e você.

Ainda no curso, um pouco adiante, assisti belas aulas, li livros mais profundos, fui além das idéias socráticas, platônicas e aristotélicas. Comecei a ler os filósofos tidos como geniais e mais modernos: Descartes, Pascal, Kant, Bacon, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, David Hume, Heidegger e diversos outros. Mas, em lugar de me acalmar, fui ficando cada vez mais desesperado. Via que a estrutura do meu edifício mental estava prestes a desabar; tive um terrível e doloroso “insight”: estava na hora de parar de procurar a saída para minha burrice e dos outros.

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Cada vez mais claramente, dolorosamente, notava que o objetivo fundamental de meus estudos, compreender e conviver bem com minha idiotice, meu sonho e razão de todos os meus estudos, de meus esforços, leituras e cursos, foram em vão, pois não consegui ter uma compreensão melhor de mim mesmo, mas descobri que os outros seres humanos se assemelhavam ao que eu era. Nem os grandes filósofos foram o que se dizia. Todos eles, os tidos como “gênios”, falhavam frequentemente nas questões específicas. Esses senhores da sabedoria dominavam com arte e facilmente o geral: “o homem é”; “a natureza é”; “as crianças são” etc. Entretanto, fui observando que falhavam e se enrascavam quando trabalhavam com o particular: José da Silva, casado, pai de três filhos, morador da favela do Mato Dentro etc. Nesses casos ninguém acerta. Aplicamos o geral neste infeliz e isolado indivíduo; nada parece com ele; o tornamos um espectro.

Lista enorme de burrices comuns a todos

jovens e velhos

Quando nascemos não escolhemos nossos pais; por isso não tínhamos como errar. Eu, como vocês todos, adorava meus pais. Entretanto, logo no início da vida, começamos a usar nossa burrice natural para resolver os fatos de todo dia. Muito cedo escolhemos, quase sem pensar, nossos companheiros para brincar; apanhamos de uns, somos roubados por outros, rejeitados por alguns. E assim vai sendo construída nossa pesada jornada de idiotices: escolhemos mal, na puberdade e adolescência, nossos amigos e amigas mais íntimas. Continuamos nossa jornada: criticados por uns, agredidos por outros, passados para trás por alguns, abandonados pelos que mais nos dedicávamos. Os erros feitos nas escolhas, bem como nas avaliações dos companheiros, não teve começo e nem terá fim.

As tolices na juventude

As burradas continuam: o jovem estuda mal as matérias do curso e, o pouco que sabe, na hora da verdade, sente um “branco” na mente e nada faz; escolhe mal o médico para tratá-lo e mal o dentista, que acaba lhe tirando o dinheiro e um, dois ou mais preciosos dentes. Para piorar, contrata um serviço com o bombeiro, carpinteiro, pedreiro, que só recebe o dinheiro inicial e desaparece.

O jovem escolhe mal a profissão, os amigos da faculdade, os professores com quem nós tentamos nos ligar para aprofundar mais na área escolhida. A

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estrada, cada vez mais ampla, vai sendo percorrida, dirigida ou administrada por nossas mais diversas bobices: alguns se casam cedo; muitas engravidam ainda muito jovens; outros largam o curso ou a profissão que poderia ser chamada de uma escolha inteligente.

As burrices generalizadas continuam: muitos e muitos se casam com a pessoa errada, têm filhos que não queriam, os amigos de todos os dias cantam suas mulheres ou seus maridos; educam mal os filhos e, por isso mesmo, sofrem a vida inteira. Mas tem mais: alguns se separam na hora errada e voltam a morar com a mãe ou, sem terem aprendido, se casam com outra ou outro, no momento, logo após a separação, isto é, quando está mais idiota ainda. Planejam mal o dinheiro custoso; procuram lugares horríveis ou muito caros para morar; compram um automóvel que só dá defeito e desprazer; nas férias escolhem o apartamento na praia que não existe ou que é um lixo; avaliam mal sua brancura e queimam todo o corpo; comem o que não pode e têm uma disenteria. Decidem fazer um programa fora de casa, apanham uma doença venérea e passam esta para sua mulher; vão ao banco, saem com o dinheiro no bolso e são roubados; emprestam dinheiro para o amigo, afilhado e sobrinho e nunca mais vêem a cor de dinheiro.

As burradas da velhice

Vamos continuar com as bobices de todos nós. Mais tarde, já mais velho, o indivíduo se aposenta mal, sem recursos, também não cuidou do corpo, bebeu e fumou demais e não pensou no fígado ou no estômago; tem os músculos fracos por falta de exercícios e um pulmão cheio de fumaça e carvão que não aguenta subir a escada de onde mora. Diante disso, não lhe resta outra alternativa senão ficar assentado aprisionado num sofá furado e sujo, o dia todo, diante da TV assistindo como fazer macarrão ou transar com uma mulher que jamais o escolherá.

Continuando a morar com sua cara-metade, briga o dia todo, por qualquer motivo: a comida sem sal, a conversa dela que nada sabe de futebol e sua fala continuada no telefone, os gastos desnecessários, a água gasta demais na descarga da privada, os banhos demorados, o dentifrício apertado no meio, a tosse irritante, os casos contados chatos e demorados, cheios de detalhes e pior, todos eles há muito conhecidos, ouvidos dezenas de vezes; tudo irrita cada dia mais um e outro, que dá o troco.

Ainda mais tarde, a pessoa adoece, e, se tiver um dinheirinho guardado, os parentes, esperançosos, lamentam a demora da morte do grande amigo; uma

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morte que nunca chega. Sem se preparar adequadamente para morrer em casa, na própria cama e à noite, rodeado pelos parentes e amigos, como é o desejo de todos, o infeliz e desgraçado acaba morrendo, sem planejamento, estatelado na rua, tendo o corpo dilacerado, sujo de graxa, sangue e da poeira do asfalto.

Bobice dos desajustados

Alguns mais ousados e, talvez poderosos, formam grupos para assaltar, matar, organizar quadrilhas para roubos; outros falsificam documentos, compram juízes, desembargadores, políticos, atestados médicos, governos para ganhar mais dinheiro que depois não sabem o que fazer com ele; outros planejam, raramente o fazem, revoluções e guerras; tudo isso, na maior parte das vezes, acaba mal.

Palavras finais sobre a idiotia: afinal uma idéia

inteligente

Eu, triste, mas ao mesmo tempo alegre, percebi que meu mal era epidêmico, atingia a maior parte da população, quiçá, toda a humanidade. Após essa descoberta, decidi não mais procurar remédio para a doença. Entretanto, fui me interessando por uma outra área: entender a minha, a sua, a nossa burrice universal. Desejei ir além dos meus estudos formais e, para isso, compreender ou conhecer melhor nossa idiotice.

Foi desse modo sofrido que terminei os estudos e as observações realizadas. Não havia ainda obtido a resposta desejada para meu problema principal: minha burrice.

Aos poucos, entretanto, ao deixar de lado meus sonhos, fui percebendo que eu me julgava um idiota porque aprendi (inventaram e injetaram um mito) em minha mente que o homem era um animal inteligente e racional. Esta foi a grande descoberta: a afirmação estava errada.

Ao comparar o homem ideal inventado pelas ideologias políticas e religiosas com o homem que eu era, bem como todos os que conhecia, descobri que nem eu nem ninguém conseguiria nem mesmo aproximar-se desse ideal criado.

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emocional, e age quase sempre sem pensar, foi um grande “insight”: o meu “heureca de Arquimedes”. O homem-padrão descrito pelas teorias, o homem ideal a ser seguido, não existia. A proposição era falsa; ela era usada para encobrir o homem real ou verdadeiro.

O mapa do homem não se ajusta ao território

humano

Desse princípio inicial: “o mapa do homem pouco tem a ver com o território” (com o homem real), nasceram outros postulados derivados do primeiro. A “verdade” principal e mais geral é a que “frequentemente o mostrado pelas palavras não retrata a realidade existente”; de modo simples e metafórico: “não se deve comer o cardápio imaginando ser ele o filé com batatas desejado”, ou também, “a marca da roupa não veste ninguém”.

Uma coisa é o símbolo (som, palavra), a outra a coisa (filé, camisa). Eu fui dominado pelos símbolos escutados acerca do que era o homem inteligente; compramos, burramente, muitas coisas desnecessárias, devido aos símbolos a eles ligados.

O mundo conhecido por mim, descrito, arrumado e valorizado pelas crenças começava a ser destruído; fui enganado pelos diversos princípios (verdades) nele contidos.

As “verdades” antes aceitas e imaginadas como possíveis de sustentarem explicações posteriores eram falsas, ingênuas, idiotas, imprestáveis para viver no mundo onde fui lançado; elas atrapalhavam e impediam a entrada de modelos (princípios) mais ajustados à realidade vivida. Fiquei perturbado ao descobrir que grande parte de meu modo de compreender e explicar a realidade tinha sido construída a partir de suposições não possíveis de serem comprovadas, nem mesmo refutadas, devido a sua generalidade, abstração e superficialidade.

Desiludido, percebi que grande parte de meus estudos levou-me ao caminho oposto ao desejado; eu aprendia as teorias não ajustadas ao mundo

experimentado. Assim comecei a ter uma idéia mais realista acerca do homem.

O homem é mais intuitivo que racional; mais idiota que inteligente. Deduzi que não devia esperar nada de excepcional de mim, nem de meus

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conclui que poderia viver menos angustiado com meu fracasso e burrice, bem como, não me entusiasmar demais com possíveis sucessos e ganhos. Passei a esperar de mim apenas o que eu poderia dar; como todo ser humano, eu, humildemente, faço parte: “Cada um dá o que tem”.

Com lágrimas nos olhos conclui que a burrice percebida dos tempos de criança, que achava que fosse um privilégio meu, é inerente à natureza humana; é um dos seus atributos mais visíveis e escancarados, e, por isso mesmo, torna-se difícil de ser vista. Concluindo: a idéia do homem racional e inteligente é falsa; não há muito que fazer diante da nossa característica. Aconselho a todos vocês que procurem compreender nossa incompetência e irracionalidade como parte normal de nossa natureza e, por outro lado, não enaltecer esse ou aquele indivíduo pela “grande inteligência” demonstrada numa ou em outra rara ocasião. Aprenda não tendo medo de mostrar sua burrice; evite esconder a burrice debaixo do tapete.

Quem se julga um inteligente, segundo as definições de inteligência atuais, em todos os lugares e tempos, atire a primeira pedra. Estará mentido, para si e ou para os outros; fazemos parte de um enorme grupo de idiotas.

A única coisa que podemos fazer, e isso eu tenho tido grande experiência, é saber que somos assim e assim permaneceremos, pois esse atributo desprezado é transmitido pelo genoma de nossa espécie e, também, pelos diversos ensinamentos culturais esquisitos.

Não temos como fugir dessa marca natural, pois essa é nossa herança compartilhada com outros animais; somos farinha do mesmo saco. Somos descendentes de bactérias, algas, insetos (a formiga intrusa, o chato pernilongo, a barata asquerosa), de aracnídeos (os escorpiões agressivos), de vermes nojentos (tênias e lombrigas), de anfíbios (sapos e salamandras), de répteis (cascavéis, corais), aves (coruja, gavião) e, por fim, de mamíferos (onça, veado, macaco).

Herdamos desses nossos predecessores inúmeros aspectos; não só a semelhança entre os dois lados (a simetria), organização do organismo, o sistema nervoso controlando as funções, o acasalamento, a busca por alimentação, abrigo e parceiro, mas, fundamentalmente, os grandes objetivos da vida de todo animal: manter-se vivo e preservar a espécie da qual faz parte. Não temos como escapar de nossas origens, pois trazemos na alma os sinais visíveis e cicatrizes que não nos largam.

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Pensamentos em consonância

ao discutido

“Assim como os dominados sempre levaram mais a sério que os dominadores a moral que deles receberam, hoje em dia os nossos logrados sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso que os bem sucedidos”.

Adorno/Horkheimer

“Os fabricantes de cosméticos não vendem lanolina, vendem esperança”. Aldous Huxley

“Caminheiro: não há caminho. O caminho se faz andando”. Antônio Machado

“A liberdade de persuadir e sugerir é a essência do processo democrático”. Bernays

“Os sistemas tendem a subjugar o espírito humano. É subjugando o real que a idealização e a racionalização subjugam o espírito humano”.

Claude Bernard

“Sempre que vemos magnetismo no objeto das atenções, devemos suspeitar de uma apatia básica por parte do espectador”.

David Riesman

“A melhor definição de homem é: um ser que se habitua a tudo”. Dostoievski

“Quem possui uma Ideologia é também possuído por ela. Como os deuses, as ideologias não são unicamente dependentes e instrumentais, mas também possessivas e exigentes”.

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“Quando os humanos tomam os seus mitos e as suas idéias pela realidade, tendem a crer que os mitos e as suas idéias são o próprio mundo”.

Edgar Morin

“Não se dê ao homem, por Deus, mais poder antes que ele tenha aprendido a usar melhor o pouco que tem”.

Emerson

“O preto escravizado por sua inferioridade, o branco escravizado por sua superioridade: ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”.

Black Skin, (White Masks) Fanon

“E Deus viu que era grande a malícia dos homens sobre a terra, e que todos os pensamentos de seu coração estavam sempre voltados para o mal. Pesou então ao Senhor de ter criado o homem na Terra, e seu coração amargurou-se. E o Senhor disse: destruirei da face da terra o homem que criei; tanto o homem, quanto os animais, e os répteis e as aves do céu, pois, me pesa tê-los criado”.

Gênesis

“Os novos mitos fizeram seus ninhos no próprio coração das idéias abstratas; as estruturas arcaicas do mito apropriaram-se das estruturas evoluídas das idéias”.

Georges Bataille

“A descrição epistemológica completa de uma linguagem “A”, não pode ser dada na mesma linguagem “A” , porque o conceito de verdade das proposições de “A” não pode ser definido em “A”. De outro modo: um sistema explicativo não explica a si mesmo, pois um princípio de elucidação é cego em relação a si próprio, isto é, o que define não pode ser definido por si mesmo”. Gödel

“Seria o homem um erro da natureza: Mal adaptado, por ser excessivamente bem provido, nefasto ao equilíbrio biológico do planeta”.

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“Todo sistema aprisiona, produz cegueira, mesmo os que defendem e se assentam na liberdade”.

Isaiah Berlin

“A tragédia das democracias modernas é que elas ainda não conseguiram realizar a democracia”.

Jacques Maritain

“Tudo está em pedaços, foi-se toda a coerência”. John Donne

“Quanto mais conhecemos o homem, mais admiramos o cão”. Joussenet

“O esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outro”.

Kant

“O senso comum tende a afirmar que todo o acontecimento é causado por um acontecimento que o precede, de modo que se poderia prever ou explicar qualquer acontecimento… Por outro lado, o senso comum atribui às pessoas sãs e adultas a capacidade de escolherem entre várias vias de ações distintas…”

Karl Popper

“Os conceitos, como os indivíduos, têm suas histórias, e são tão incapazes de resistir – se opor – a devastação do tempo como são os indivíduos”.

Sören Kierkegaard

“Trouxemos a verdade, mas na nossa boca a verdade tinha todo o ar de mentira. Trouxemos a liberdade, mas nas nossas mãos a liberdade parece um látego. Trouxemos a verdadeira vida, mas onde se ouve a nossa voz as árvores secam, sussurram as folhas mortas. Trouxemos a promessa do futuro, mas esganiçamo-nos, gaguejamos, ao formulá-la…”.

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Arthur Köestler

“Se não há maneira alguma de julgar uma teoria a não ser avaliando o número, a fé, e a energia vocal de seus participantes, então a verdade se encontra no poder, a mudança científica transforma-se numa questão de psicologia das multidões e o progresso científico é, em sua essência, um efeito da adesão dos vitoriosos; é uma espécie de conversão religiosa”.

Kuhn

“A primeira lei de todo ser é conservar-se e viver. Semeais cicuta e queres que amadureçam espigas?”

Maquiavel

“Os homens sempre elaboraram falsas concepções de si mesmos, daquilo que fazem, daquilo que devem fazer e do mundo em que vivem”.

Marx e Engels

“Nós alimentamos o coração com fantasias e o coração bestializou-se com essa dieta. Vivemos numa Ilha dos Prazeres”.

Neil Postman

“Sempre que um homem almeja persistente e longamente parecer outro, acaba tendo dificuldade de ser ele mesmo de novo”.

Nietzsche

“Vivemos num tempo em que nossas únicas necessidades são as coisas desnecessárias”.

Oscar Wilde

“Ao homem foi dada a palavra para esconder seu pensamento”. Padre Malagrida

“Eles estudam o dia inteiro, não têm tempo para aprender”. Pascal

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conformismo absoluto”. Paul Feyerabend

“Dois perigos ameaçam constantemente o mundo: a ordem e a desordem”. Paul Valery

“As pessoas daqui viraram as pessoas que elas fingem ser”. Sam Shepard

“É tão mortal para o espírito ter um sistema como não ter nenhum. Portanto, este terá de resolver-se a reunir os dois”.

F. Schlege

“O homem só pode ser ele próprio quando está sozinho; se não gosta da solidão não gosta da liberdade”.

Schopenhauer

“O amor, como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do contato de duas epidermes”.

Sebastien Chanfort

“Nada existe de bom ou mau, mas o pensamento assim o decidirá”. (Hamlet) William Shakespeare

“Não se julgue um homem feliz, até que esteja morto”. Solon

“Nós vemos os outros não como eles são, mas como nós somos”. Talmud

“É proibido matar: todos os assassinos serão punidos salvo se matarem em grandes quantidades e ao som das trombetas”.

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“Os deuses não nos revelaram desde o princípio/Todas as coisas; mas, com o tempo, /Se buscarmos poderemos aprender, conhecê-las melhor/A verdade certa, contudo, ninguém jamais a conheceu/Nem a conhecerá”.

Xenófanes

“Nem sempre a verdade é fundamental para a felicidade. Há pessoas que morrem quando seus olhos são abertos”.

Wilhelm Stekel

“A ciência é ainda mais instável que a Teologia; entretanto, no meio da instituição científica reina a mais anticientífica das ilusões: considerar absolutos e eternos os caracteres da ciência”.

Whitehead

“A eliminação da magia (pela teoria) tem o caráter de magia”. Whitehead

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O Sonho Distante

A Bíblia fala que Adão e Eva viviam no jardim do Éden sem trabalhar,

comendo frutas do jardim celestial, sem guerrear e sem atividade sexual, em paz com a vida e os outros animais; sem roupas e sem se envergonharem disso.

Gênesis 2:25

Muitos jovens, outros nem tão jovens, anseiam ter a vida contada na Bíblia, enxertada pelas idéias de seus deusinhos (dois modelos- paradigmas-:

paraíso e da fama e diversão). Esses moços ambicionam no futuro, nada mais, nada menos, que o retorno ao mundo “bom, ordenado e belo”, imaginado, sonhado e descrito pelo mito do paraíso.

A rebelião dos jovens, que combate o estabelecido, explode ocasionalmente, conforme o tempo, o vento e tempestade passageira, na entressafra de suas “revoluções”; não ocorre um questionamento constante dos costumes por parte da juventude. O mal para a juventude sonhadora, pura e ingênua, é a sociedade e a vida atual; a infelicidade, para eles, está ligada à ordem social vigente formulada pelos seus pais.

Os mais idosos já desistiram, há muito, dessa luta inglória: transformar a atual sociedade imoral e corrupta numa decente e ordeira. A juventude sonha e luta, não de maneira eficaz, para salvar o homem “do mal do século”; transformar a história humana num conto de fadas com um final feliz.

Esses loucos utópicos – lembro ao leitor que todos nós já vivemos essa loucura durante nossa juventude – expressam de vários modos, conforme a época e a cultura, sua atração pelo paraíso: o uso de roupas grosseiras, desbotadas e rasgadas de fábrica, se possível, de marca; nudez diante dos outros, principalmente de uma câmera de TV ou de uma máquina fotográfica; exibição de coxas ou de seios entre as mulheres para mostrar o proibido pelas regras dos ordeiros e conformados. Mas a grande revolução contra o estabelecido não fica só nisso, outras estratégias inteligentes são usadas: badernas, gritos, urros e destruição durante jogos, formaturas, shows, missas, sermões e posse de presidente da república; colônias de nudistas para homenagear e defender o “naturalismo” numa praia ornamentada pela cultura de massa; ato sexual nos teatros, filmes e praças, para combater o

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moralismo tolo e ineficaz dos gagás.

Todas essas exibições teatrais, histéricas e misturadas a rituais religioso-pagãos, provocam em seus executores uma excitação tola e delirante: orgasmos demorados e aplausos da grande massa entusiasmada enquanto espera o retorno à Terra prometida.

Os outros seres humanos, surdos aos berros dos jovens, observam, afastados e incrédulos, o extraordinário entusiasmo enxertado à simplicidade hilariante. Para os jovens, lá, muito longe, no alto, bem acima de nossas cabeças de homens e da montanha, no céu azulado e estrelado, anjos decentemente enfeitados da nudez divina e primitiva, de mãos dadas, cantam e bailam alegremente, girando em volta do compenetrado, honrado e sempre vigilante Deus.

Entusiasmados com essa fantasia inebriante, em alguns lares desse mundo afora, pais não muito jovens, inoculados por essa pregação, passaram a cultivar o banho coletivo. Também, em algumas praias, como ocorre no paraíso, homens, mulheres e crianças despidas caminham; rapazes e moças desoladas exibem, diante da natureza viva, a natureza morta: seios e pênis tristonhos e abandonados; órgãos esperando por algum milagre produzido pelos que por ali caminham cabisbaixos.

Semelhante ao mito da nudez e do paraíso, de tempos em tempos, nasce o mito dos protestos estudantis cômicos. Estes, organizados por exploradores cobertos com disfarces de cordeiros, combatem com seus discursos

inflamados o poder que, sem notar, eles exibem: roupas de marca, palavras bem escolhidas e reveladoras de erudição, corte de cabelo moderno e relógios, brincos e outras jóias de alto custo. Seu poder escancarado através de informações sem-palavras mostra claramente existir uma classe estudantil bem diferente da outra; de uma desconsiderada desde o nascimento.

Frequentemente, o grupo, através de gritarias em público, de algumas

pedradas medrosas e cuidadosas, ataca o pobre policial que pertence à classe que, hipocritamente, os líderes, do lado de cima do limite, afirmam defender. Esta é a luta de classe deles: através de ações dificílimas, perigosíssimas, (jogar pedrinhas nos inimigos sonolentos) carregadas de emoções intensas, alcançar um mundo melhor ainda para eles, ou seja, o paraíso para um grupo especial e escolhido desde o nascimento.

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com esmero, com roupas típicas plantadas em desejos inconfessáveis de cada um, gritam, por instantes, com muita raiva, enquanto esperam a hora de ir jantar e beber no restaurante limpo, chique e caro, onde os pobres não entram.

Ninguém sabe com clareza o que se pretende, a favor de quê e contra quê se luta. Todos sabem que há um protesto contra alguma coisa; rebelam-se, talvez, contra eles mesmos, pelas prerrogativas que uns poucos têm sobre a maioria, pelo poder que detém, pela arrogância de um lado e a humildade do outro. Reclama-se contra o atual em todas as áreas. Tudo está errado! Exige-se um futuro melhor.

Entretanto, o que é este futuro melhor? Nenhum deles sabe, nem nós, os mais velhos. Tudo é vago, distante demais, impossível de ser até mesmo imaginado, representado e muito menos verbalizado; a única coisa que eles sabem fazer. Ninguém consegue definir o que se quer, nem mesmo os líderes dos movimentos. Quase sempre a maioria deles fez – ou faz – parte e defendeu, com o mesmo vigor, o “outro lado”, o lado do “estabelecido”; o agora “combatido” com veemência.

Este mundo imaginário e buscado, principalmente pelos jovens sonhadores e rebeldes, é nebuloso. Se não se conhece o fim desejado, logicamente, não será possível saber que instrumentos usaremos para alcançá-lo.

Provavelmente o que eles mais desejam é o retorno ao mundo antigo, calmo e ordeiro, sem lutas, com nudez e frutinhas naturais para serem saboreadas ao som singelo de harpas celestiais.

Lamentavelmente, os jovens são, ao mesmo tempo, apaixonados pelo mundo natural e atraídos pelo moderno, pelo desperdício do dinheiro na compra dos aparelhos de som e imagem ultra-sofisticados, pelo uso das últimas novidades em bebidas e drogas colocadas no mercado; tudo isso não tão natural assim.

Muitos discursos, artigos e livros dirigidos aos jovens buscam despertar crenças antigas, plantadas firmemente pelos pais quando eles eram crianças muito novas. Nós todos as temos. Essas histórias falam acerca de um mundo imaginário ordeiro, cheio de homens bons e honestos, igualdade e liberdade e direitos para todos.

Infelizmente esses ensinamentos existem nos discursos, nas teorias, mas nunca foram observados em nenhuma parte do mundo; essas pregações são mentirosas. Nossos pais as ouviram de seus pais e, de boca em boca,

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a história, teimosamente, continua a comandar nossas tolas cabeças. Este mundo imaginado nunca existiu e nem existirá. A juventude que procura alcançar essa utopia ainda acredita nela, mas, à medida que se torna adulto, o sonho vai desaparecendo.

Os jovens têm pavor de se transformarem em adultos; perceberem que o aprendido através das crenças defendidas com ardor não retrata a realidade vivida. Crescer para a juventude significa tornar-se igual aos pais, ao governo, assumir seu lugar nessa bagunça total, na farsa e corrupção desse estranho mundo habitado por anjos e demônios; metade céu, metade inferno. Talvez o sonho máximo desse grupo seja viajar para o paraíso; caso o combustível não desse, pelo menos até Marte, no novo ônibus espacial a ser construído; talvez, quem sabe, na nave dos Ets. Para fazer essa viagem fantástica, “numa boa”, “de repente”, “com certeza”, “né” e junto com toda a patota, todos vestiriam um uniforme superchique (como o brasileiro que deu um passeio na nave) e moderninho.

Mas, quando lá chegassem, prontamente, eles iriam se despir. Após cada um “ficar” rapidamente com o outro ou a outra, eles comeriam, abraçados, as frutinhas celestiais distribuídas por São Pedro, dançando e cantando, diante do som “louco” produzido por uma banda supermoderna; evidentemente após o consumo inebriante de cogumelos, coca, maconha e outras plantas do pomar celestial.

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A outra face da verdade

O homem, de modo geral, sendo um animal fisicamente fraco, por sorte ou azar, desenvolveu um grande cérebro. Estes dois fatores reunidos, fragilidade e cérebro grande, possivelmente, possibilitaram-no construir medidas

protetoras para se defender dos milhares de perigos que o ameaçavam. Entre as diversas estratégias para se resguardar dos ataques estão as idéias mais sagazes e eficientes, ou seja, nossa criatividade intelectual.

Provavelmente, se não fosse seu grande desenvolvimento cognitivo, principalmente a aquisição da fala, o homem já teria desaparecido como espécie e, por outro lado, se fosse muito forte, não precisaria desenvolver sua cognição.

Possuindo uma inteligência diversificada e complexa, que o possibilitou aprender continuamente e passar esta aprendizagem para os seus sucessores, o homem, pouco a pouco, acumulou conhecimentos úteis e, também,

inúteis; corretos ou viáveis e, outros, incorretos e inviáveis. Utilizando-se dos conhecimentos auxiliares o homem tem conseguido compreender, dominar e controlar o universo onde vive e, quando possível, sua própria vida. Entretanto, e por outro lado, usando os conhecimentos inúteis, incorretos e inviáveis, ele falha constantemente, pois o seu mapa, nesse caso, não retrata o complexo território onde ele atua.

Após ter “comido a maçã” e, em seguida, ser “expulso do paraíso”, o homem primitivo se viu livre de sua “prisão” quanto às prescrições do que fazer (do pode e não pode) da obrigatoriedade de certas condutas. Assim ele foi estimulado a pensar antes de agir e não se comportar como os animais mais inferiores: estimulou/reagiu.

Uma vez liberto da prisão “estímulo-resposta”, o novo homem pôde parar e refletir sobre si mesmo, isto é, examinar seu próprio pensamento e poder tomar consciência de si como diferente das outras coisas e de outros seres. O homem então começou a observar o mundo à sua volta e também a si próprio, a sistematizar as observações dos fatos e a categorizar fenômenos semelhantes. Desse modo o homem foi reconstruindo sua ontologia (estudo do ser em geral) no homem primitivo ainda muito rudimentar.

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esboços descritivos do meio ambiente e dele próprio, as primeiras teorias físicas e psicológicas. Seu conhecimento inicial visava à compreensão da natureza para que esta pudesse ser domada e, desse modo, aproveitada da melhor maneira possível.

O homem foi procurando soluções para diversos problemas que ocorriam no momento e, mais que isso, tentou prever ou antecipar, ao construir seus “modelos do mundo”, soluções para evitar a ocorrência de desgraças futuras. Nessa época, possivelmente, surgiram os primeiros trapaceiros (charlatães) que se diziam capazes de “ler o futuro” do outro indivíduo através da leitura dos astros, linhas da mão, revelações divinas etc.; tudo isso lorota criada por nosso hemisfério esquerdo ficcionista.

Possivelmente, a razão principal dos esforços do homem para aumentar seu conhecimento tenha sido uma busca incessante para prevenir ou exterminar as desgraças do dia-a-dia: enchentes, escassez de alimento, seca, terremotos, doenças, agressões de animais mais eficientes e grupos humanos mais potentes etc.

O desprezo pela natureza interna (mente,

espírito, alma)

Fascinado pela natureza externa a nós e tendo investido muito de sua capacidade nessa atividade, o homem abandonou, em parte, a sua própria natureza, a interna. O homem esqueceu do homem que é deslumbrado pelo exterior; essa sedução e interesse pelo mundo externo continuam até hoje; acredito que esteja aumentando.

A cada dia mais o homem se afasta dele próprio se examinado como ser natural; viemos do pó e a ele voltaremos. Nós, como a água e as rochas, bem como as bactérias, vírus, cobras, lagartos e elefantes, nascemos a partir da explosão inicial (bigue-bangue em português ou “big bang” em inglês ). Um fenômeno que ninguém se aventura a dizer o que havia antes dele. Seria o nada? Somos compostos por alguns poucos minerais (carbono, oxigênio, hidrogênio, cálcio, potássio, nitrogênio, cloro etc.). Observado como seres biológicos, o homem é semelhante, portanto, aos outros animais e mesmo aos vegetais e minerais.

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satisfatório nessa sua empreitada; entretanto, o progresso tem sido lento com respeito ao conhecimento de si mesmo, pois atarefados com os fatos externos não nos sobrou tempo para aprender um pouquinho acerca de nós mesmos: a mistura do biológico com o cultural.

Nas escolas o currículo continua a ser o das ciências Física, Biologia, Química e a língua materna. Não se estuda o homem e suas emoções, cognições e tomadas de decisões. A cada dia mais são descobertas técnicas sofisticadas para diversos campos do conhecimento do mundo exterior, entretanto, só recentemente, há aproximadamente vinte anos, houve um desenvolvimento de técnicas mais capazes de compreender como o homem pensa, sente e resolve seus problemas.

As antigas descrições do mundo e do homem precisam ser abandonadas. Em seu lugar precisa ser mostrado o novo homem descrito pelas teorias mais bem elaboradas pela neurociência.

Crenças tendenciosas invadem o espaço vazio

Não sairemos dessa possível involução que se encontram as diversas

sociedades (aumento da criminalidade, guerras continuadas, aumento de uso de álcool e drogas, o terrorismo, o domínio comercial da maioria pela minoria etc.) se não mudarmos a mente atrasada e infantil existente na maioria das cabeças que ocupam todos os espaços da sociedade (lavradores, operários, professoras primárias, profissionais liberais, políticos, governadores, presidentes e reis, jovens e velhos).

Por ignorância ou maldade, muitos dirigentes e formadores de opiniões injetam uma enxurrada de bobagens nas mentes moles dos assimiladores ingênuos e semi-analfabetos. Ninguém conhece em profundidade o homem. As inúmeras explicações popularizadas, aceitas sem discussões, há muito vêm sendo criticadas com argumentos e dados bem fundamentados; um esforço feito por um pequeno grupo de homens mais lúcidos e esclarecidos que os demais.

Para a ciência não há verdade alguma que dure uma eternidade. Apesar dessa afirmativa, muitos modelos do mundo, provadamente inadequados, construídos há centenas de anos, e inicialmente plantados em nossa mente, continuam a ser ensinados pelos pais aos filhos ou até mesmo nas escolas aos alunos, como dogmas que obrigatoriamente devem ser usados.

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Os modelos científicos modernos vão, frequentemente, contra as idéias contidas nas primeiras teorias do mundo, ou seja, nas histórias contadas e passadas, de geração em geração, pelos mitos. O prejuízo desses

ensinamentos, nos quais o mito não é mostrado como mito, mas sim como relato científico do universo, produz, desce cedo, uma considerável confusão na mente da criança e, pior que isso, impede a possível germinação de interpretações mais fecundas, mais justas, críticas, funcionais e bem feitas da natureza e dele próprio.

Os discursos muitas vezes não admitem a autonomia das palavras e da coisa. Eles constituem uma fala na qual não há uma distância entre a representação e o representado. São sistemas semelhantes aos elaborados pelas crianças, alguns pacientes psiquiátricos (esquizofrênicos e pacientes psicóticos deprimidos e maníacos, etc.); esses, frequentemente, não separam, em certos aspectos, a imaginação da realidade.

Algumas das crenças narradas pelos mitos são imaginadas como provenientes de divindades, entretanto, não devemos nos esquecer que as próprias

divindades, os diversos deuses se desenvolveram, de um ou outro modo, (eles não são descritos da mesma forma), e são alimentados pelas construções humanas. Entretanto os relatos dos mitos são ensinados às crianças como fatos “do além”, nascidos do nada, o que é impensável de acordo com a idéia de “causa” científica.

Para este pequeno grupo que aprendeu a criticar, é evidente que só podemos pensar com nossa mente e não com outra cabeça, com nossa limitação de um organismo construído de certa forma e não de outra. Na verdade, todas as idéias do universo foram construídas e descritas por mentes humanas, contadas na nossa linguagem de homem e não na linguagem da barata, do besouro ou do hipopótamo, como não poderia ser diferente.

Discursos: sementes de mentiras

Vivemos um período de imensa irracionalidade. Há uma recusa de encarar a realidade existente, principalmente quanto às questões relacionadas ao ser humano; é mais suportável conhecer a realidade física ou química: o copo caiu e se quebrou; a água sanitária queimou minha mão. Está ocorrendo uma substituição da realidade pelo mundo imaginário; evita-se enxergar claramente as causas reais da fome, dos despreparos, das doenças que atingem os mais humildes, as responsabilidades reais do poder político e econômico são substituídas por uma responsabilidade imaginária dos Deuses

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bem distantes de nós.

Instaurou-se uma espécie de fobia diante das leis da natureza concebidas como susceptíveis de impedirem nossas liberdades fundamentais, notadamente nossa liberdade espiritual, pois somos, quase sempre, determinados pelos nossos genomas e pelas idéias culturais que nos foram impostas.

Portanto, desde cedo, tem-se a impressão que o homem revoltou-se contra o mundo real; ele sempre teve uma imensa atração por mitos, e tudo indica que quanto mais falsa for a narração mítica, mais seguidores fanáticos ele terá. Desgostoso com a realidade existente, o homem tem criado um fantástico mundo de idéias (de si mesmo, de sua família, de seu povo, da natureza humana em geral, de uma outra vida e dos meios para alcançá-la, do perfil dos heróis e dos criminosos, e de muito mais). O ser humano é um grande admirador da descrição abstrata e simbólica dos fatos e situações e não é muito atraído pela observação do concreto (este parece dar mais trabalho) e do possível de ser focalizado e percebido pelos órgãos dos sentidos.

O mundo foi dividido em concreto e abstrato; vivido e teórico ou pensável. Percebe-se, inúmeras vezes, que a descrição popular (e muitas vezes a científica) de uma área do mundo pouco ou nada tem a ver com o mundo real ou bem observado, isto é, frequentemente o mundo teórico não está relacionado ao mundo real ou sensível. Inventamos símbolos, enchemos o mundo deles, para descrever a realidade e as nossas ações; inventamos símbolos, também, para descrever as nossas descrições de nossas descrições e continuamos a descrever as descrições das nossas descrições nos levando ao infinito. São os símbolos que vão intermediar o real com nossa história; a tartaruga, a borboleta e o mosquito, ao contrário dos homens, reagem ao meio existente num certo momento; não precisam dos símbolos para viver, parece que vivem felizes em contato direto com a realidade. Nós, confusos com tantos símbolos, ao que tudo indica, estamos infelizes. Construímos, sem parar, outros e outros mundos simbólicos diferentes, pois sempre achamos que os novos mundos por nós criados são mais certos que os antigos.

O ser humano, há cerca de 50.000 anos, adquiriu a linguagem que antes não possuíamos, pois emitíamos grunhidos e gestos para nos comunicar uns com os outros. Através da fala passamos a categorizar, primeiramente, os nomes das coisas (fruta, bicho). Depois aprendemos a ligar uma coisa conhecida com alguma ação (fruta boa; bicho perigoso). Aos poucos fomos construímos um

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tipo de ‘lógica’ e de raciocínio, numa tentativa vã de tampar com a peneira a nossa irracionalidade (incoerente; insensato; não razoável; burrice numa linguagem mais clara).

A fabricação dos raciocínios ilógicos cresceu, inundou nossa mente e inflacionou as explicações possíveis acerca de fatos reais e observáveis. A partir da fala e da escrita, construímos castelos de areia (entre eles o de que o homem é racional). Essas casas de palhas (redes, estruturas) têm resistido ao tempo. Muitos desses conjuntos de idéias interligadas se apóiam em crenças explicativas ingênuas, desgastados pelo tempo acerca do homem e do seu meio ambiente (princípios, regras, modelos).

O homem, portanto, tornou-se um grande admirador da descrição abstrata e simbólica de fatos e eventos, mostrando não ser muito atraído pelo concreto, da análise, do estudo profundo do real, isto é, do possível de ser observado, esmiuçado, comprovado ou refutado, usando os órgãos sensoriais e sintetizado pela lógica e teorias científicas.

Passamos então a viver num mundo de fantasias, de ícones aqui e acolá; burramente abandonamos exatamente o que nos fornecia suporte para viver decentemente. Abandonamos nossa origem biológica, passando a viver ludibriados pelo discurso; a outra tendência ou comando do homem, sua cognição. A fala, fácil de ser fabricada, muitas vezes mentirosa, outras vezes ingênua, inundou e dominou nossas fracas e moldáveis mentes infantis; cabeças prontas para aceitarem, inconscientemente, qualquer idéia que nos desse uma aparente segurança durante a infância.

As histórias são inventadas de qualquer modo; elas não exigem disciplina e rigor. O homem, como os outros animais, procura a solução mais fácil diante de um problema; se é complicado examinar seriamente a vida, a morte, a injustiça, a doença, o início do universo e da vida, a atração sexual ou pelo alimento, por que não inventar uma interpretação qualquer que sirva para tudo? E viveram felizes para sempre.

O alimento básico por trás das ideologias políticas e religiosas – dois grandes poderes que dirigem nossa vida – nada mais é que um bálsamo, um sonho, uma esperança, um alívio passageiro para o temor constante que inunda nossas cabeças inseguras; uma doença impossível de ser exterminada. Para aliviar nossa angústia crônica os “charlatães” (os que falam muito para enganar os incautos) usam conceitos incrustados de aspectos emocionais e

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igualdade, amor, justiça, democracia, razão, perdão, família, tolerância, homem, capitalismo, socialismo e diversos outros. Todos esses conceitos, bem como outros, escondem intenções que não podem ser explicitadas (reveladas) acerca do poder de alguém sobre outro “alguém” mais fraco e inocente. Muitos lutam, brigam ou morrem em defesa da suposição/idéia divulgada.

O povo, uma vez contaminado e domesticado pela ideologia existente e em moda, passa a ser consumido por ela. As ideologias são exigentes; elas obrigam seu servo a seguir o prescrito, pois, do contrário, não fará mais parte do grupo dos bons e escolhidos.

Ora, nada mais perigoso que se utilizar de mitos para se adaptar à realidade vivida, acreditar mais nos mapas construídos pelas palavras que no território pisado e observado. Não somos nada de extraordinário: apenas um corpo biológico enxertado com idéias em grande parte equivocadas acerca de nós mesmos e do mundo que nos cerca.

Nesse cipoal de idéias malucas fica muito difícil separar o joio do trigo, o real do irreal. Eu, talvez como vocês, me perdi nessa imensa desordem de explicações e explicações disso e daquilo, que faz uso, em abundância, de símbolos inventados sem lastro para suportá-los.

Uma grande parte da verborréia que lemos ou ouvimos tem servido, unicamente, para nos aprisionar mais e mais na nossa colossal burrice existente desde o nascimento. Agora, mais velho, noto que percorri um meio-mundo inutilmente, tudo para nada: a maioria das idéias que imaginei serem bons instrumentos de orientação foi inventada por cabeças humanas, tão tendenciosas e angustiadas como é minha e a sua mente; por sinal pouco conhecida.

Estamos inexoravelmente ligados à burrice universal até que a morte nos desligue dela e nos retorne à natureza não-viva. Enquanto isso, através das baboseiras que não param de ser lançadas, vamos suportando todo esse lixo que despejam em nossos cérebros entupindo-os até seu limite. Até quando suportaremos tanta informação desconexa e desarrumada?

Nosso destino nos obrigou a trabalhar, do nascimento à morte, com as ações determinadas pelo nosso “cérebro executivo”. Este, por sua vez, foi construído e é coordenado por dois grandes comandos: um irracional/ emocional e outro racional; de outra forma, uma região subcortical e outra cortical.

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Essa última região, a cortical, que tem sido tão exaltada e admirada – agora se sabe – é controlada quase que inteiramente pelos conhecimentos subcorticais, – que já nascemos com eles – pela nossa irracionalidade ou intuições. A parte subcortical, a que aparentemente aparece menos, foi duramente criticada e tida como a parte “inferior”, a que nos envergonhava, por muitos séculos. Agora sabemos que o setor subcortical do cérebro é o que fornece a energia, o material perceptivo, o controle dos movimentos, o suporte de um modo geral para a glória e pompa do metido cérebro cortical que agia como se não dependesse do chamado “cérebro inferior”, ou, para outros, “cérebro emocional”.

Os estudos têm mostrado que a “Coordenadoria Geral” só funciona corretamente caso o cérebro chamado de “inferior”, isto é, o subcortical, esteja funcionando adequadamente, pois é este último que “alimenta” a coordenação do “superior”.

Em resumo: somos comandados muito mais pelo comando “burro” e “emocional”, que pelo chamado “inteligente” e “lógico”. Na maioria das vezes, é o comando “baixo” e ou inferior que inicia e domina as ações, enquanto isso, o chamado comando mais “elevado” e “alto” cria palavras para descrever o que o outro está fazendo, ou melhor, já fez há muito tempo. E como cria!

Um esclarecimento ao leitor

Espero que o leitor aceite naturalmente, sem se desesperar, esse comando “inferior” ou irracional (o que não pensa, nem raciocina) como fazendo parte dele. Só assim, compreendendo melhor o ser humano, vocês sofrerão menos e ficarão menos frustrados diante das inúmeras besteiras que já fizeram e farão no futuro próximo e ou distante. Por tudo isso, não se espante com certas condutas suas, geralmente descritas, após a sua realização, mais ou menos assim:

— Não sei como pude agir desse modo. Como fui bobo! Parece até que não era eu quem estava agindo.

A maioria das pessoas sabe que nossos problemas, em grande escala, originam-se da incompatibilidade entre nossos desejos e paixões de um lado, e nossos objetivos aprendidos culturalmente de outro. Por exemplo: as pessoas comem exageradamente e engordam quando não queriam; envolvem-se em relações sexuais perigosas concebendo bebês indesejados.

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Num e noutro caso a pessoa obedeceu a impulsos (desejos) do organismo (subcorticais) que vão contra objetivos aprendidos culturalmente (corticais ou da cognição ou teorias). A todo o momento, uma ação (comer muito) determinada por impulsos (subcorticais) é assimilada, compreendida e explicada pelos conhecimentos aprendidos (corticais), geralmente através de nossas paupérrimas intuições mal-aprendidas.

Precisamos aceitar humildemente nossa bobice, compreendê-la como sendo um atributo próprio de nossa natureza, pois só assim poderemos diminuir nossas ações tolas. Esta é a teoria que parece ser a mais adequada atualmente. Para tristeza do mundo, o “homem, animal racional” está definhando; sua morte parece estar muito próxima.

Para viver satisfatoriamente o indivíduo necessita ser capaz de entender e predizer as propriedades gerais e comportamentais da realidade do meio ambiente. Entre as características gerais desses conhecimentos estão desde as simples categorizações (“Isso é um prego”; “aquilo é uma pulga”) até as deduções (inferências) complexas (“Creio que poderei ganhar um bom dinheiro abrindo uma sorveteria nesse verão”; “Esse vegetal é venenoso.”) O organismo de cada pessoa durante seu convívio com o meio ambiente interno e externo ganhou uma sabedoria (um aprendizado e memória) que o permitiu agir adequada e razoavelmente nas coisas práticas da vida, do contrário seria impossível viver.

Essa sabedoria intuitiva, aprendida naturalmente e sem esforço, inclui conhecimentos rudimentares de Física (tipo de corpo, dureza, movimento); Química (sabores, venenos); Biologia (animais e vegetais úteis e perigosos); Psicologia (relacionamentos, intenções); Economia (lucro, prejuízo, reserva) e diversos outros conhecimentos chamados de práticos (senso comum). Por outro lado, cada pessoa, além de sua prática intuitiva, recebe outros aprendizados, os denominados formais e ou teóricos. Esse segundo aprendizado auxiliar pode ser muito útil, mas, também, perigoso. A teoria atua como um instrumento mais geral e abstrato, “lentes” especiais para prever ações futuras e alargar o campo das observações.

Um médico, por exemplo, pode ter uma imensa sabedoria prática (experiência direta com questões concretas e possíveis de serem

observadas), mas, além da prática, ele terá também aprendizados abstratos adquiridos mais com a cognição e menos com a observação sensorial. A segunda aprendizagem, o conhecimento teórico, é assimilada, não por ter

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experimentado fatos concretos, mas sim devido às leituras feitas em livros e revistas especializadas, do escutado nas conferências e nas conversas informais; são idéias acerca de relações entre os fatos e, como pensamentos, impossíveis de serem experimentados, pois não estimulam nossos órgãos sensoriais e sim, a cognição (idéias).

Ora, um conhecimento intuitivo na profissão médica, ou em qualquer outra, é reformulado constantemente em virtude dos acertos e erros cometidos e, naturalmente, notado pela consequência imediata possível de ser percebida pelos nossos órgãos de sentido. Entretanto, e isso pode ser trágico, o segundo conhecimento, o aprendido mediante teorias, não permite (admite) avaliações críticas ou percepções de erros ou de acertos através de observações sensoriais. Desse modo, o conhecimento teórico adquirido, sendo geral ou amplo, não nos permite facilmente refutá-lo ou comprová-lo. Por exemplo: várias teorias psicológicas (há milhares delas, repito: milhares) são idéias vagas e amplas acerca do comportamento humano defendidas com muito ardor por seus admiradores, às vezes, fanáticos. Mas essas teorias, sem base sensorial, jamais poderão ser refutadas ou comprovadas empiricamente, isto é, por observações sistematizadas e científicas. Uma grande parte das chamadas “teorias”, ou “conhecimento teórico”, cai num grupo de questões que chamamos de filosóficas (metafísica). As teorias ditas não-científicas não apresentam estruturas possíveis de serem refutadas ou comprovadas. Portanto, cuidado com as teorias: muitas não têm nada a ver com a realidade que você deseja compreender.

A razão desse livro

Teimosamente, por todas essas considerações, decidi penetrar, com todas as minhas forças, no estudo das funções do cérebro humano, pois é ele que permite a produção e criação tanto das ações dos vendedores, como dos compradores de ilusões. Cabe ao cérebro perceber, através dos órgãos dos sentidos, o que está acontecendo no mundo interno e externo. É ele que assimila, organiza e armazena os conhecimentos que nele entram e passam a morar; é o cérebro que nos faz sentir alegre ou triste ao experimentar o vivido e, por fim, é ele que age, numa ou em outra direção, conforme o sentimento detonado e o pensamento elaborado.

Baseado em centenas de anotações decidi, pois sou um burro obsessivo – o que não me parece estranho aos burros – compor algumas explicações para que eu possa compreender melhor o meu e o seu cérebro; tudo de um

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modo simples e fácil. Para isso usei várias histórias inventadas por mim que visam a concretizar as explicações. Além disso, explico o organismo humano metaforicamente como uma fábrica com seus vários setores trabalhando em conjunto para a sobrevivência da fábrica particular e das fábricas semelhantes (a espécie).

O objetivo aqui é o de transmitir ao leitor idéias gerais e exemplos concretos capazes de esclarecer um pouco melhor a compreensão e a explicação da conduta humana e, ao mesmo tempo, criticar algumas suposições absurdas, às vezes, cômicas. Espero que mediante as informações contidas no livro adquira um novo conhecimento acerca do mundo animado e inanimado. Assim você poderá tirar conclusões mais ricas e eficientes acerca do mundo onde vive e, consequentemente, tomar medidas mais inteligentes diante dos problemas enfrentados.

Critico, em especial, inúmeras informações teóricas por nós aprendidas muito cedo e que, sem dúvida alguma, irão dificultar ou impedir uma compreensão mais realística do nosso universo.

Muitas dessas crenças, sem o apoio de fatos observáveis, nos acompanham do nascimento à morte, mesmo quando aprendemos outros princípios que vão contra os preconceitos aprendidos. Para ilustrar o descrito, um exemplo recolhido da mídia: “Maria Tereza afogou na banheira seus três filhos”. Após ser presa ela declarou à imprensa: “Meus filhos merecem uma vida melhor; agora, depois de mortos, eles irão viver no paraíso e não nesse inferno”. Maria Tereza se referia a uma possível existência feliz depois da morte, por isso os matou. Segundo a teoria de Maria Tereza seu objetivo foi reconduzir os filhos ao paraíso.

Cenas como essa, às vezes mais graves, outras vezes menos, são lidas ou ouvidas nos noticiários. Com frequência, espantados, assistimos adultos e crianças, homens e mulheres-bombas que obedecem cegamente a princípios aprendidos. Segundo seu aprendizado eles morrem por Alá, Maomé, Cristo ou outros Deuses. Em São Paulo, muitos homens matam e morrem em defesa dos seus “Deuses” (Marcola, Beira-Mar e outros) orientadores da conduta dos filiados ao PCC etc. Outros matam e morrem por amor; outros por dinheiro; alguns são mais corajosos ao praticar esportes radicais, usar drogas mais eficientes para ficar mais “alto” etc. Fica a pergunta: Quais idéias (princípios) subjacentes determinaram esses estranhos comportamentos? Como identificá-los?

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O poder dos princípios assimilados por nós

(receitas, mapas)

As nossas explicações de um e outro fato (matar os filhos, voar em asa-delta, usar cocaína etc.) são fabricadas conforme as premissas ou idéias básicas aprendidas cedo (nossos princípios, mapas, receitas ou paradigmas). Os “alicerces” ou pontos de sustentação para erguer outras idéias ou raciocínios foram implantados em nossa mente por nossos pais, parentes, professores, companheiros admirados, religiosos, governo, mídia e outros. Uma vez impressas as idéias básicas, obrigatoriamente, governados por elas, passamos a pensar conforme suas prescrições e, por outro lado, iremos rejeitar as explicações baseadas em princípios contrários às já aninhadas carinhosamente em nossa mente.

Espero que o leitor flexível (com algum espaço livre no cérebro para assentar outros princípios) possa apreciar outros modos, diferentes de seus atuais, de pensar e avaliar que caminho deve tomar com respeito à administração de sua vida.

Uma informação, por definição, é um novo conhecimento. Somente conhecendo idéias diferentes das armazenadas em nossas cabeças, isto é, informações novas, teremos chances de crescermos. Eu e você, bem como qualquer ser humano, não somos possuidores de nenhuma idéia certa (verdadeira) para tudo, em todos os lugares e épocas.

Este livro tenta não repetir o que você já conhecia. Acredito que certas idéias poderão surpreendê-lo. Antecipadamente peço desculpas pelo possível susto. Não é meu propósito defender nenhuma idéia para que você a siga. O objetivo é muito mais crítico que prescritivo (faça isso; não faça aquilo). Visa sua capacidade de pensar melhor, criticar seus próprios pensamentos conforme seus valores e respeitar o direito de seu companheiro pensar diferente. Defenda seu modo peculiar de viver, pois você é um indivíduo com singularidades (genoma e cultura) diferentes de todos os outros. Portanto, deve pensar um pouco diferente. Aprenda a cuidar de sua cabeça; ela é a única que você conhece mais ou menos.

Não acredito em idéias certas para sempre; há sim modos diferentes de conhecer a realidade conforme a época e o indivíduo. A seu modo de conceber e explicar, a sua realidade é sempre “certa” para você num certo momento. Mas há outros modos de assimilar os fatos. Esperamos que

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alguns outros modos de explicar a realidade possam ser incorporados ao seu estoque de saberes, aumentando-os e tornando-os mais produtivos. Caso haja um crescimento de suas ferramentas cognitivas, você, com mais opções, poderá viver de modo mais eficiente e feliz.

Isso é tudo que desejo para você, pois é o que busco fazer para ajudar a mim mesmo. Boa sorte!

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Quatro Amigos, Quatro

Destinos

Tempos atrás liguei a televisão e presenciei um repórter da TV entrevistando populares nas ruas de São Paulo. O diálogo foi mais ou menos como descrito abaixo:

Repórter da TV: A Câmara Municipal de São Paulo está propondo o fim da “lei da gravidade” para a Cidade de São Paulo. O que você acha disso?

O entrevistado respondeu esforçando-se para mostrar conhecimento: — É…concordo… Penso que a lei deveria ser estendida para todas as cidades do Brasil.

As diversas entrevistas continuaram com um e outro entrevistado:

Repórter da TV: Há uma lei tramitando no Congresso Nacional exigindo que todos os dinossauros do Brasil sejam transferidos para o Estado do Amazonas. Você é contra ou a favor dessa medida?

— Contra… Acho que, uma vez transferidos, eles serão mortos pelos caçadores.

Repórter da TV: Beethoven virá ao Brasil para dar um concerto de piano no Teatro Municipal. Você pretende ir ao concerto?

— Não tenho grana; se arrumar, irei.

Repórter da TV: O Coríntias está contratando Einstein para ser seu novo goleador. Você apóia essa contratação?

— É lógico, ele é um excelente jogador.

Estas perguntas e outras mais foram feitas e transmitidas através de um canal de TV. O repórter, sempre, ao finalizar as perguntas, perguntava aos entrevistados se eles tinham conhecimento da notícia relacionada à pergunta. Quase todos confirmavam tê-la escutado no rádio, lido nos jornais ou visto

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nas TVs; poucos foram os que criticaram as perguntas.

Não tenho informações se as “reportagens” foram montadas como piadas ou não. Creio que não.

Eu, pessoalmente, junto com colaboradores, realizei uma pesquisa acerca de crenças entre jovens pré-universitários. Foram testados milhares de vestibulandos candidatos a vagas nos cursos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Selecionamos 57 questões relacionadas a crenças jamais comprovadas empiricamente, algumas tão absurdas como as perguntas do repórter.

As questões foram apresentadas aos candidatos, nos moldes de qualquer prova de conhecimento. Pedimos ao vestibulando que marcasse, se a afirmativa fosse verdadeira (V) ou falsa (F), segundo sua opinião. Entre as 57 frases apresentadas aos candidatos estavam: “mulato de olhos verdes não é confiável”,“as mulheres loiras envelhecem mais depressa que as morenas”, etc. Os resultados da pesquisa, surpreendentes, foram publicados na Revista Ciência e Cultura. Foi constatado que crenças (ou preconceitos absurdos) fazem parte da maneira de pensar usual de um grande número de estudantes que haviam terminado o segundo grau.

Foi verificado que os vestibulandos ao curso médico, aprovados no vestibular, tiveram, no total, menos crenças absurdas que os não aprovados para o mesmo curso. Entretanto, os alunos da quinta série do curso de Medicina da UFMG, também avaliados com as mesmas perguntas, exibiram novas crenças, comparadas com os vestibulandos, e perderam outras. A hipótese é a de que durante o curso os alunos perderam algumas crenças, mas, também, adquiriram algumas poucas.

Que explicação existe para isso? Ignorância? Burrice? Incapacidade? De onde vem e como se desenvolve essa falta de conhecimento ou esse aprendizado de crendices sem comprovação? Seria devido ao país ter um sistema de ensino péssimo, fruto de centenas de anos de atraso? Seria o domínio de uma elite política e empresarial incompetente ou que deseja que assim continue para que eles tenham uma mão-de-obra barata e controlável? O leitor certamente terá outras perguntas e dezenas de hipóteses/afirmações como respostas.

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modo

Tentarei uma outra explicação fictícia através de histórias possíveis.

Imaginemos quatro pessoas e quatro destinos, que chamaremos de Samuel, Rose, Horácio e Dina.

Samuel, filho de judeus, começou a ler desde o início da adolescência, não só as matérias escolares, mas, também, a literatura atual, os clássicos, o Alcorão, poetas diversos, um pouco de Latim, teologia e filosofia, e, às vezes, até a Bíblia. Portanto, a vida de Samuel tem sido voltada para os grandes pensadores e escritores, para a leitura de grandes obras. Mas Samuel só tem uma vida, sendo assim, não tem tempo para ler a revista “Placar”, “Amiga”, “Querida”, “Sabrina”, “Veja”, “Isto é” ,“Época” e outras.

Ele caminha, obsessivamente, todos os fins de tardes. Após estas, toma seu banho, janta e lê um pouco antes de dormir. Com uma rotina dessas Samuel nunca pode desfrutar das novelas da Rede Globo e do SBT e sempre perde o programa Big Brothers, Gugu, Faustão e outros semelhantes. Com esse despreparo cultural diante dos companheiros, ele fica sem saber o que conversar. Durante os bate-papos com os amigos, ele, envergonhado, mais ouve que fala. Samuel nada ou quase nada sabe acerca do que é discutido pelos jovens instruídos e cultos de sua idade.

Não tendo noção da moda, Samuel é, constantemente, ridicularizado pelos companheiros por nunca vestir as roupas e calçados de “marca”. Ele, ingenuamente, quando compra uma camisa, não sabe que a “melhor” é a de “marca”, a da moda. Ao escolhê-la, ele, inocentemente, compra a que mais lhe agrada, exatamente a que não devia comprar. No dia seguinte, ele, orgulhoso, veste a camisa e a exibe para a turma. A risada é geral diante do seu mau-gosto, de sua incompetência para saber o que deve ser usado. Mas Samuel apresenta algumas condutas valorizadas pelo grupo. Ele é um bom rapaz, disciplinado, sério, estudioso, honesto e, por isso mesmo, seus companheiros o toleram e permitem sua participação na turma. Entretanto, o grupo impõe certas condições. Ele não pode abrir a boca diante de estranhos e não deve comparecer a lugares onde se exige maior conhecimento de etiqueta e de civilidade. Seus colegas, condoídos de sua ingenuidade e

incapacidade para adaptar-se ao mundo encantado dos jovens, permitem-lhe, envergonhados, é claro, participar apenas de algumas atividades grupais. Os amigos têm razão, pois Samuel é incapaz de fazer o que todos fazem

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