Capítulo 2 Raça, Poder e Representação Política
3.3 Funcionamento do sistema eleitoral brasileiro
O sistema eleitoral brasileiro tem um caráter misto, já que para eleição dos governos federal, estadual, municipal e Senado Federal, o sistema é majoritário. Por outro lado, para a eleição de Deputados Federais, Estaduais/Distritais e Vereadores, é o sistema proporcional que será utilizado.
Na Câmara dos Deputados as vagas são divididas entre os estados de acordo com definição em Lei, baseada em sua população, isto significa um mínimo de oito e máximo de setenta vagas. Estes números demonstram uma crescente desproporção em relação ao contingente populacional e o número de vagas destinadas a cada Estado. Por exemplo, São Paulo, está sub- representado, enquanto o Acre está sobre-representado em relação a sua população.
“a estrutura do voto proporcional no Brasil atribui maior valor à reputação individual do que à partidária. A modalidade de voto uninominal torna-se assim essencialmente ordinal, dentro de uma estrutura supostamente categórica. A fórmula brasileira de RP é um híbrido de um procedimento baseado em restos (quocientes) com um outro baseado em médias (divisores).” (PIQUET CARNEIRO e SCHMITT, 1995)
O sistema majoritário é de fácil compreensão, pois de acordo com as vagas disponíveis, ganha quem tiver mais votos, ou seja, vence a maioria. Por outro lado, o sistema proporcional privilegia os partidos e a representação substantiva, já que concede maior possibilidade aos pequenos partidos de elegerem alguns de seus candidatos. O sistema proporcional leva em conta o número de votos obtidos nas eleições pelo partido político ou coligação, ou seja, ao votar, o eleitor está destinando seu voto a um partido e não ao candidato. A opção que é dada ao eleitor é a de decidir qual candidato ele prefere dentro de um partido ou coligação, caso este partido/coligação alcance o coeficiente eleitoral.
O resultado das eleições origina-se do quociente eleitoral, obtido a partir da soma dos votos válidos (não entram no cômputo os votos nulos e brancos) divididos pelo número de cadeiras em disputa. Desse cálculo, surge o quociente partidário, que é obtido pela divisão dos votos do partido ou coligação pelos votos pelo quociente eleitoral, o que define o número de cadeiras destinadas a cada partido ou coligação e quais partidos estarão excluídos do pleito por não alcançarem o quociente eleitoral.
O cálculo das sobras no sistema brasileiro é realizado pelo critério da maior média, deste modo será beneficiado o partido que alcançar o maior valor médio na relação entre total de votos obtidos versus cadeiras ocupadas. Em termos de números isto significa dividir o número de votos obtido pelo partido ou coligação pelo número de cadeiras que já obteve mais um. Por exemplo, nas eleições de 2006, a coligação União por Brasília (PT / PV / PC do B / PSB / PRTB / PRB)
obteve 289.604 votos, o que gerou um quociente partidário para uma vaga, e sobras. Dividindo-se 289.604 por dois (número de vagas obtidas mais um) obteve-se média suficiente para eleger mais um parlamentar. Neste sentido, a coligação União por Brasília elegeu os dois candidatos mais votados dentro da legenda, respectivamente, Geraldo Magela e Rodrigo Rollemberg.
3.3.1 Coligações
A coligação é uma figura criada pelo sistema político multipartidário para agregar os votos de diversos partidos de modo que o quociente eleitoral fosse calculado a partir da coligação e não apenas do partido. O resultado disso, é que se torna mais fácil vencer uma eleição estando coligado, já que é reduzido o chamado “desperdício” de votos, ao qual Lessa (idem) se refere, em partidos que não alcançariam o quociente eleitoral.
Historicamente, no Brasil, esse recurso foi constituído como um uma maneira de se aliviar o peso do quociente eleitoral e permitir o acesso dos menores partidos. Entretanto, o recurso tem se convertido cada vez mais em uma desvirtuação da proporcionalidade, já que os grandes partidos, que possuem os principais candidatos dentro de uma coligação, se beneficiam dos votos alcançados pelos pequenos partidos participantes da coligação. Isto ocorre porque não há controle do número de candidatos e partidos dentro das diversas coligações. Estudos recentes comprovam que a organização das coligações não obedece aos princípios norteadores dos partidos, pois há um nível muito baixo de vinculação ideológica. (Machado, 2007)
Por fim, nas eleições de 2002, o Tribunal Superior Eleitoral editou uma norma chamada de verticalização das coligações, que obrigava os partidos a respeitarem as alianças a nível nacional.
"§ 1º Os partidos políticos que lançarem, isoladamente ou em coligação, candidato à eleição de presidente da República não poderão formar coligações para eleição de governador de estado ou do Distrito Federal, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital com partido político que tenha, isoladamente ou em aliança diversa, lançado candidato à eleição presidencial (Lei nº 9.504/97, art. 6º; Res. - TSE nº 21.002, Consulta nº 715, de 26.2.2002)."
É importante perceber como as brechas criadas na legislação eleitoral abrem espaços para os grandes partidos e seus principais candidatos, que acabam se beneficiando duplamente, primeiro porque se aproveitam da credibilidade de líderes locais, que angariam os votos de
pequenas localidades a custos baixos, sem ameaçar os grandes candidatos com uma votação expressiva. Além disso, monopolizam os recursos, a estrutura partidária e o HGPE em torno de suas candidaturas, algo que será revertido em resultados eleitorais.
Neste sentido, é importante salientar que ao analisar a distribuição do tempo de exposição no HGPE se estará partindo da premissa de que ela ocorre de maneira diretamente proporcional aos recursos disponíveis dentro do partido político. Além disso, é importante lembrar que a coligação permite aos partidos ampliar seu tempo no HGPE, já que a legislação trata a coligação como se fosse um partido.