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Tensão entre legalidade (facticidade) vs legitimidade (validade)

Capítulo 2 Raça, Poder e Representação Política

2.2 Conceitos introdutórios sobre representação

2.2.4 Tensão entre legalidade (facticidade) vs legitimidade (validade)

Ao elegermos representantes, não temos nenhuma garantia de que isto se converta em novas demandas políticas, por outro lado, ao elegermos pessoas substantivamente comprometidas com determinadas perspectivas, isto pode implicar em decisões mais legítimas por parte dos representantes. Ou seja, vontade substantiva.

É impossível garantir que a representação seja substantiva no sentido puro, pois a única forma de garantir isto seria com a representação delegativa, ou seja, o mandato imperativo. No entanto, toda mobilização que se faz para garantir responsividade por parte dos representantes, só pode ser feita até o limite em que exista autonomia para os mesmos. Por outro lado, toda a mobilização pela autonomia dos representantes tem seu limite na necessidade de se estabelecer algum vínculo entre representante e representados.

É importante perceber como ocorre esta transição da idéia de representação do âmbito privado para o âmbito público no sentido de que a típica delegação original, oriunda da esfera privada, agora é absorvida pelo governo e com isto, é imbuída de uma razão de Estado. Diante desta razão, se cria a necessidade de autonomia para o representante. A representação não serve apenas para representar os interesses dos membros da sociedade junto ao governo, mas serve também para que os representantes governem a sociedade, o que significa se deparar com novos problemas, com a administração de crises.

[...] se privilegiado o pólo formal-institucional do representante perde-se o conteúdo substantivo da representação como atuação para o interesse ou benefício do representado; se privilegiado o pólo substantivo de formação de vontade do representado, perde-se o conteúdo político da representação enquanto cristalização institucional arquitetada para organizar o governo da e sobre a sociedade. Assim, se a autonomia política do representante não pode ser perseguida a ponto de esgarçar definitivamente sua relação com o eleitorado, o fortalecimento da representatividade tampouco pode ser buscado às custas de anular tal autonomia. (LAVALLE, HOUTZAGER et al. 2006 : 57)

O modelo usual de representação política informa que o eleitor é o representado pelo sistema político, e não o interesse nacional. Neste sentido, as eleições produzem em suma, um mandato, e é por este mandato que o candidato vai apresentar um conjunto de propostas e seu diagnóstico do mundo. A idéia é que este modelo produza decisões representativas.

As críticas que recaem sobre esta perspectiva são vão desde o pensamento radical até dentre aqueles que aceitam o modelo. A crítica principal que pode ser feita a esta visão é a de que o modelo só funciona quando existem apenas duas opções a seguir. Ainda assim, deve-se excluir a possibilidade que fatores externos e internos exercem sobre a tomada de decisão das pessoas. Além das pessoas terem dificuldade em ordenar preferências, existe a grande problemática da formulação de uma agenda política e dos interesses envolvidos e do fluxo de informações.

Estas críticas estão relacionadas à mudança do perfil dos partidos políticos, o surgimento da mídia nas eleições, e como se formula hoje um mandato.

Se o mandato nos tempos dos partidos de massas era formado a partir um conjunto de interesses relacionados a formulações programáticas e os eleitores votavam em alguma destas formulações de sua preferência. Isto ocorria porque o papel do partido político na formação de preferências e discussão dos temas centrais da vida política era fundamental. Naquele modelo de organização de preferências, era possível algum tipo de controle sobre o governo, já que este possuía um maior comprometimento com normas programáticas definidas pelo partido e dependia fortemente do comprometimento dos partidos e de seus filiados para se manter no poder.

O discurso político atual está marcado pela pasteurização tanto de temas quanto de modelos discursivos. O impacto desta pasteurização faz com que os candidatos não procurem se adequar a um interesse geral, ou a um programa ideológico e de proposições específicas. O que ocorre é uma adaptação geral a modelos discursivos definidos previamente por pesquisas de opinião.

Um exemplo deste fenômeno foi o enorme apelo discursivo sobre temas relacionados à corrupção que marcou a política nacional a partir da segunda metade do primeiro governo Lula. Neste sentido, o papel da imprensa ao explorar o fenômeno da corrupção, teve papel central na definição desta prioridade por parte dos eleitores, e por conseguinte, dos candidatos.

O saldo desta transformação é lógico, os políticos passam dizer muito mais aquilo eles pensam que os eleitores gostariam de ouvir do que propriamente o que realmente gostariam de fazer, caso fossem eleitos. O que decorre é a dissolução de um mecanismo de controle sobre os políticos eleitos, já que não há promessas ou programas para serem cobrados.

A forma de construção do sistema representativo contemporâneo supõe que ao elegermos um representante, estamos escolhendo alguém para nos representar/defender diante do poder, esta

entidade mítica que é o Estado. Voltamos então ao modelo de representação civil originário para perceber que em termos de expectativas, a representação política de hoje não se alterou estruturalmente em relação ao passado.

O grande dilema para o sistema representativo hoje é gerir as expectativas de representação perante o poder, ou seja, proteger o cidadão do Estado13 e, ao mesmo tempo

representar os interesses do cidadão junto ao Estado, ou seja, governar o país. (LAVALLE, HOUTZAGER et al. 2006 : 8)

Uma visão rápida em relação ao parlamento vai evidenciar que há uma corrida por parte de políticos tanto de direita quanto de esquerda no sentido de se colocarem como os defensores da ética e contra a corrupção. Mas é interessante que sua abordagem sobre os fatos do cotidiano político segue a risca o que é agendado pela mídia.14