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DO ENSINO MÉDIO EM MINAS GERAIS

3.3. Fundamentos e estrutura da nova proposta curricular

Os fundamentos teóricos da “Proposta Curricular - Química” foram organizados a partir de uma avaliação da tradição que se estabeleceu no ensino de Química em nosso

País, apontando os aspectos que se pretende ultrapassar. Poderíamos assim sintetizar esses aspectos:

1) abordagem exclusivamente conceitual (normalmente se confundem conceitos com definições), abstraindo o conhecimento químico de seus contextos de aplicação e de suas relações com as esferas social, ambiental e tecnológica;

2) abordagem em uma seqüência linear de pré-requisitos, com desarticulação dos focos de interesse da Química (propriedades, constituição e transformações de substâncias e de materiais) e dos aspectos estruturais do conhecimento químico (fenomenológico, teórico e representacional).

Na perspectiva da nova proposta curricular, por sua vez, o ensino de Química deverá ser orientado pela associação de aspectos conceituais com aspectos contextuais relacionados à produção e ao uso da Química. O número de conceitos químicos a serem abordados deve diminuir e eles deverão ser tratados sempre em relação a contextos de aplicação. Os focos de interesse da Química, bem como os seus aspectos estruturais, deverão comparecer de modo cooperativo na abordagem dos temas, que deverá seguir um aprofundamento progressivo.

O Artigo 6º da Resolução CEB/CNE 03/98 (BRASIL, 1998b) indica "identidade, diversidade e autonomia", "interdisciplinaridade" e "contextualização" como os princípios pedagógicos estruturadores dos currículos do Ensino Médio no Brasil. As DCNEM e a nova proposta de Química de Minas Gerais guardam muitas convergências em seus pressupostos.

A contextualização é um conceito que aparece em destaque tanto nas DCNEM quanto nesta nova proposta curricular. Consideramos que é preciso, no entanto, estarmos atentos às diferentes alternativas para tratar este conceito. A contextualização pode ser vista exclusivamente como a correlação entre os conhecimentos químicos e os fenômenos que ocorrem em nossas vidas cotidianas e nos diversos tipos de transformações industriais. Dessa forma, a Química continua operando como sistema

racional separado, independente, que vai ao encontro da resolução de problemas técnicos e da produção de novos materiais, sem a explicitação de mediações políticas e éticas, por exemplo. Por outro lado, a contextualização da Química poderá se dar de modo mais radical, de tal forma que a racionalidade técnica e a suposta neutralidade científica sejam postas em discussão e a Química seja problematizada como parte da estrutura cultural e política em que vivemos. Desse modo, iríamos em busca de uma articulação entre a abordagem internalista e a externalista dos conhecimentos químicos, partindo, de acordo com a última alternativa para tratar a contextualização, de uma definição de Química desde o início plantada em um sistema mais amplo de relação dos homens com a realidade.11

Em relação à definição dos conteúdos de Química a serem tratados no Ensino Médio, o texto da nova proposta curricular vai lançar mão do princípio da flexibilidade.

O professor não deve ter a obrigação de trabalhar com todos os temas relacionados. A idéia é que ele possa compor seu currículo a partir desses temas, adaptando suas escolhas às preferências e condições de trabalho. Mesmo dentro de um tema, o professor não precisa esgotar todos os assuntos propostos. Essa flexibilidade permitirá que o professor possa elaborar um currículo que tem por eixo temas conceituais ou, se preferir, temas contextuais. É importante ressaltar que a escolha de um ou outro eixo não implica a ausência do outro. (p. 13)

A flexibilidade é um princípio que se coloca de forma harmônica junto com aqueles que aparecem no artigo 6º da Resolução que instituiu as DCNEM – identidade, diversidade e autonomia. No entanto, na passagem do nível das proposições textuais para o das realizações sociais, entramos em contato com uma grande tensão colocada sobre esse conjunto de princípios. Dentre os aspectos da renovação curricular que não estão sendo tratados pelo PRÓ-MÉDIO tem-se a natureza da formação inicial de professores, realizada nas universidades e faculdades, e os exames realizados após o Ensino Médio (vestibulares e ENEM). Esses aspectos, na prática, como já apontamos, exercem uma forte influência sobre o que é trabalhado e de que modo são trabalhados os conteúdos químicos na escola. Desse modo, a orientação para uma prática flexível vai contar com

11

Os termos internalista e externalista são usados aqui significando, respectivamente, a tomada do desenvolvimento da ciência segundo a dinâmica interna de mudanças acarretadas pela renovação epistêmica de objetos, métodos e/ou objetivos ou segundo a influência de elementos sociais e culturais mais amplos.

a oposição da rigidez e da uniformidade próprias daqueles dois aspectos, e mais a da tradição editorial que subsidia o trabalho dos professores de Química (marcada por pouca diversidade temática e contextualização insipiente). Vale salientar, em adição, que a organização e o funcionamento espaço-temporal das escolas também parecem-nos bastante desfavoráveis à flexibilidade.

A interdisciplinaridade, o outro princípio estruturante do Ensino Médio, de acordo com as DCNEM, aparece contemplada de modo bastante significativo, ainda que sem uma formulação explícita de destaque a este princípio, na nova proposta curricular de Química de Minas Gerais. A proposta de abordagem de temas dos contextos tecnológico, produtivo e social, que ultrapassam os limites disciplinares, faz com que os conteúdos químicos se articulem com outros vindos de diferentes ciências.

Tomando por base o texto da "Proposta Curricular - Química", organizamos um quadro que traça um paralelo entre o ensino de Química na perspectiva do “ensino tradicional” e o na perspectiva desta nova proposta curricular. Para cada tema, correspondendo às linhas do Quadro 1, são apresentadas duas categorias: a primeira indicando uma característica do currículo tradicional e a segunda caracterizando a inovação curricular proposta.

QUADRO 1: O ensino de Química na perspectiva do ensino tradicional e na perspectiva da nova proposta curricular para o Estado de Minas Gerais

CURRÍCULO TRADICIONAL INOVAÇÃO CURRICULAR

1- Ênfase apenas em aspectos conceituais.

1- Além de aspectos conceituais contempla aspectos contextuais relacionados à produção e ao uso da Química.

2- Conceitos são confundidos com definições.

2- A aprendizagem de conceitos dá-se em contexto de aplicação.

3- A aprendizagem de estruturas conceituais antecede qualquer possibilidade de aplicação de conhecimentos químicos.

3- Abordagem dos conceitos químicos em sua relação aos contextos de aplicação.

É nas aplicações que se explicitarão as relações entre os conceitos (os alunos tendem a recuperar conceitos a partir dos contextos de aplicação e não no vazio). 4- Quantidade exagerada de conceitos

(definições), requerendo a memorização .

4- Abordagem menos superficial de um menor número de conceitos, enfatizando relações entre eles.

5- Tendência classificatória e ritualística (aprendizagem de procedimentos sem

5- Conhecimento de princípios, "orientado para o entendimento de como os procedimentos e os processos

atenção para os princípios adjacentes) funcionam". 6- Abordagem em uma seqüência linear

de pré-requisitos.

6- Os conceitos devem ser abordados com

aprofundamen-to progressivo: "abordagem de conceitos mais horizontal e qualitativa no 1º ano, e (...)

verticalização e aprofunda-mento no 2º e 3º anos (incluindo aspectos quantitativos)".

7- Ênfase em "classificações que se baseiam na idéia de que os conceitos podem ser definidos através de atributos essenciais e acessórios" ("tratamento atributivo dos conceitos").

7- Propõe evitar-se o excesso de esquemas

classificatórios na configuração do currículo. Buscar deixar evidente o caráter relacional dos conceitos químicos e a não rigidez da fronteira entre certas classes (como é o caso da ligação iônica e da ligação covalente). 8- Os tópicos do conteúdo são abordados

numa seqüência linear.

8- Os focos de interesse da Química - as propriedades, a constituição e as transformações de substâncias e de materiais - devem ser abordados de forma

interrelacionada. 9- Ênfase no aspecto representacional,

em detrimento dos aspectos teórico e fenomenológico.

9- Os três aspectos do conhecimento químico (fenomenológico, teórico e representacional) devem comparecer de modo cooperativo na abordagem dos temas.

10- Resolução de exercícios de acordo com modelos bem definidos.

10- O enfoque contextual sugerido nesta proposta pretende privilegiar a resolução de problemas abertos nos quais o aluno deverá considerar não só aspectos teóricos como também sociais, políticos, econômicos e ambientais.

Como podemos perceber no Quadro 1, boa parte da discussão centra-se na maneira como se dá a conceituação em Química. Conforme apontam os itens 1, 2, 3 e 4, tradicionalmente, os conceitos químicos são tratados de maneira descontextualizada e superficial (na forma de definições). Eles são abordados em grande quantidade mas sem articulações entre si e com os contextos de produção e de aplicação da Química. Como se vê, grande destaque é dirigido pela nova proposta à contextualização dos conteúdos químicos. No item 6, é criticado o encadeamento linear com que os conceitos químicos são abordados. Em 5 e em 7, destaca-se o uso intensivo de classificações centradas em atributos fixos e a supremacia de procedimentos sobre princípios no ensino tradicional da Química no nível médio. Muitas vezes aprende-se a montar fórmulas ou configurações eletrônicas mas sem a compreensão devida dos princípios subjacentes. Os itens 8 e 9 referem-se a questões mais amplas, com sugestões de esquemas de organização estrutural do conteúdo químico escolar como um todo. Na Proposta, tais esquemas aparecem representados em dois triângulos:

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