Esta pesquisa é de abordagem qualitativa, muito embora utilizemos de dados quantitativos para referenciar/apontar alguns dos aspectos cruciais as análises qualitativas dos dados.
Tomando por base os escritos de Devechi e Trevisan (2010, p. 157), referenciamos a defesa de que as relações entre os dados qualitativos com os quantitativos não são totalmente dissociados:
A pesquisa qualitativa não é contrária à pesquisa quantitativa, pois não se trata de posições antagônicas, mas desiguais e complementares. (...) O que muda nas abordagens qualitativas em relação às quantitativas é o modo de perceber o objeto, que deixa de ser o centro, para se lhe apreender a subjetividade ou intersubjetividade.
Portanto, corroboramos com o entendimento da complementaridade entre esses dois métodos de pesquisa e afirmamos tratar, prioritariamente, de uma pesquisa de cunho qualitativo, pois segundo Bogdan e Biklen (1994) a investigação qualitativa atende a cinco características que, como será possível observar, são contempladas nas formas de coleta e análise dos dados desse estudo.
A primeira característica, apontada pelos referidos autores, refere-se ao deslocamento do pesquisador ao local de estudo, nos quais “os dados são recolhidos em situação e complementados pela informação que se obtém através do contato directo” (p. 47 - 48). A segunda característica diz respeito ao caráter descritivo e, portanto, fiel a forma como os dados foram registrados e transcritos. Já a terceira característica revela que o pesquisador possui maior interesse no processo do que no resultado propriamente dito.
A penúltima característica refere-se à tendência dessa abordagem em sugerir informações a partir da inter-relação entre os dados obtidos. E a quinta e última característica, por sua vez, valoriza os significados e diferentes perspectivas dos sujeitos participantes em relação aos aspectos investigados.
Segundo esses pressupostos, acreditamos obter reflexões consistentes a respeito da apropriação dos casos regulares da norma ortográfica por alunos do primeiro e segundo ciclo do ensino fundamental.
4.1 Participantes da investigação
Participaram desse estudo 60 alunos, sendo 20 do 3º ano, 20 do 4º ano e 20 do 5º ano do Ensino Fundamental de redes municipais de ensino da região metropolitana do Recife.
A delimitação por discentes do último ano do primeiro ciclo (3º ano) respalda- se nos Parâmetros Curriculares Nacionais da Língua Portuguesa (BRASIL,1997), os quais preveem como um dos principais objetivos para a aprendizagem construída no primeiro ciclo à emergência de dúvidas ortográficas e “preocupação com as regularidades da norma” (p. 70), de forma que os alunos sejam auxiliados a realizarem inferências dos princípios geradores das regularidades ortográficas, bem como a “constatação” da ausência de regras para os casos irregulares da norma.
Além desse respaldo, vale fazer referência aos direitos de aprendizagem no ciclo de alfabetização elencados pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (BRASIL, 2012), o qual defende que o trabalho inicial com as regularidades contextuais seja realizado durante o segundo ano, passando a ser aprofundado e consolidado no terceiro ano, embora deva ser alvo de ensino durante anos sequentes ao referido ciclo.
A escolha por discentes do segundo ciclo do ensino fundamental (4º e 5º anos), também se embasounos Parâmetros Curriculares Nacionais da Língua Portuguesa (BRASIL,1997), os quais preveem que os alunos nesse ciclo já tenham se apropriado do SEA e, por isso, orientam a maior explicitação da norma ortográfica nesse ciclo da aprendizagem, uma vez que algumas regularidades da ortografia já devam ser trabalhadas durante o curso do primeiro ciclo do ensino fundamental, mesmo que de forma insipiente.
4.2 Estratégias de investigação
Fundamentados nos referidos pressupostos, o primeiro momento dessa pesquisa foi destinado à seleção de seis turmas, sendo duas turmas do 3º ano,
duas turmas do 4º ano e duas turmas do 5º ano, focos de nossa investigação.
A escolha das turmas considerou o contato com as coordenadoras de diferentes municípios da região metropolitana do Recife, as quais participam do PNAIC e revelaram interesse em indicar escolas e professores que se
disponibilizariam a cooperar com essa investigação. Deste modo, considerando a facilidade de acesso ao campo de pesquisa, empreendemos esse estudo em escolas situadas no município de Paulista/PE e no município de Igarassu/PE.
Em um segundo momento, todos os alunos das duas turmas selecionadas do 3º ano do primeiro ciclo e das duas turmas do 4º e 5º anos do segundo ciclo foram submetidos a um ditado de texto com lacunas (VER APÊNDICE 1 E APÊNDICE2), o qual teve de ser completado com palavras regidas por seis regularidades diretas, dezenove contextuais e nove morfossintáticas. Este procedimento, então,objetivou a seleção de uma amostra de 60 alunos, sendo 10 de cada turma, para participar das entrevistas clínicas.
A seleção da amostra de alunos, desse modo, ocorreu conforme o resultado obtido através da aplicação do ditado de texto com lacunas. Assim, 10 (dez) alunos de cada turmaforam selecionados, de modo que 5 (cinco) deles foram os que apresentaram maior quantidade de acertos quanto à notação ortográfica das palavras e os outros 5 (cinco)foram aqueles que cometeram a maior quantidade de erros ortográficos.
Ressaltamos que o texto com lacunas foi aplicado tendo em vista as diversas possibilidades de análise para o emprego dos casos regulares, pois entendemos que a compreensão contextual do texto auxilia o processo de reflexão e decisão quanto ànotação das palavras e grafemas.
Sendo assim, as regularidades enfocadas nessa investigação foram:
• Diretas: P, B, T, D, F e V.
• Contextuais: M/N, Z em início de palavras; E/I em final de sílaba; O/U em final de sílaba; CA, CO, CU/QUE, QUI; GA, GO, GU/ GUE, GUI; JA, JO, JU; SA, SO, SU em início de palavra e os diferentes contextos de uso do R (Início de palavra, final de sílaba, em encontro consonantal, R brando, RR e R depois do N, L e S).
• Morfológico-gramaticais: ÃO/AM quando usados em verbos da terceira pessoa do plural no futuro e nos demais tempos verbais, respectivamente; o emprego do U quando usado para indicar o passado dos verbos; o emprego do R para indicar o infinitivo dos verbos;EZA/ EZ;ESA/ÊS; e o emprego do AL em final de coletivos.
Como é possível inferir, após a realização do ditado, os erros e acertos, cometidos pelos alunos de cada ano, foram contabilizados de acordo com a regra ortográfica e, desta forma, foi possível selecionar uma amostra das crianças que notaram corretamente e incorretamente uma maior quantidade de palavras; bem como foi possível identificar quais tipos de regularidades tendem a apresentar maiores erros e acertos quando grafados por alunos do 3º ano do primeiro ciclo e do 4º e 5º anos do segundo ciclo do Ensino Fundamental.
Logo depois, demos início ao terceiro momento de nossa pesquisa, o qual destinou-se à realização de uma entrevista clínica com a amostra dos sessenta alunos selecionados a partir do ditado.
Nesse momento, cada aluno recebeu o texto com lacunas que haviam preenchido e, a partir dele, foram questionados sobre quais palavras eles consideraram mais fáceis e mais difíceis de grafar; sobre os porquês de tais palavras terem sido consideradas mais fáceis e mais difíceis de serem grafadas; sobre o porquê de haverem grafado determinada palavra com determinada letra e sobre o porquê de não haverem utilizado outra letra para grafar aquela mesma palavra. Desta forma, então, buscamos descobrir as estratégias construídas pelos alunos para definir com quais letras devem ser grafadas as palavras regidas pelas regularidades da norma.
Todos os momentos foram registrados por meio de equipamentos de gravação de áudio e a análise dos dados ocorreu pela transcrição dos registros das falas dos alunos. Portanto, as transcrições de todas as falas dos participantes serviram de protocolos, os quais permitiram a seleção de comentários relacionados aos objetivos dessa pesquisa.
Após a transcrição das falas de todos os alunos, confrontamossuas respostas com vistas a identificar semelhanças e diferenças de conhecimento das regularidades da norma em relação à escolaridade.
Portanto, tendo em vista a análise da progressão dos aprendizados ortográficos ao longo dos anos e entre os anos de ensino, também confrontamos os resultados (identificados através da análise do ditado e da entrevista clínica) dos alunos de um mesmo ano e, depois, comparamos tais resultados com as turmas dos diferentes anos. Ou seja, as duas turmas dos 3º, 4º e 5º anos tiveram seus dados confrontados para conseguirmos analisar o conhecimento dos casos regulares entre os alunos do primeiro e segundo ciclo do ensino fundamental.