1.2 CONCEITOS OPERACIONAIS
3.4.3 Furto qualificado
Por não se tratar do objeto principal do trabalho, tem-se que o furto qualificado será tratado de forma superficial.
O furto qualificado encontra-se disposto no artigo 155, § 4º, do Código Penal:
I – com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; II – com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; III – com emprego de chave falsa;
Todas elas são reveladoras de maior audácia do agente no cometimento do ilícito, emprego de recurso que facilite a consecução do delito ou traduzem inclinada propensão ao crime (ESTEFAM, 2017, p. 455).
Passa-se à análise do furto famélico, espécie que será analisada em capítulo específico, por se tratar do tema central do presente trabalho.
4 FURTO FAMÉLICO
Adentrando ao tema principal do trabalho, cabe dar início ao estudo do furto famélico, sendo que este é aquele em que o agente comete o fato em estado de extrema penúria e, não possuindo outra forma de buscar alimentos para si ou para seus familiares, acaba por subtrair pequena quantidade de alimentos ou ainda um animal para se alimentar (GONÇALVES, 2017, p. 353).
Ao analisar o furto famélico, tem-se que este não constitui um crime, visto se tratar de uma causa excludente de ilicitude, qual seja, o estado de necessidade, onde o sujeito, por falta de alimentação acaba por ferir o patrimônio de outrem para resguardar a sua vida, sendo que nesta situação o bem patrimonial falece em detrimento da vida, sendo o último sobreposto ao primeiro, sendo este um dos requisitos do estado de necessidade, ter uma ponderação entre dois bens (GONÇALVES, 2017, p. 353).
Entretanto, não está amparado pelo furto famélico o sujeito que tinha outros meios de conseguir se alimentar naquele instante e optou pelo furto. Quando se analisa o verbo nuclear da conduta, a palavra “famélico” está ligada à fome, ou seja, o furto famélico é caracterizado pela fome do agente, esta que põe em perigo a sua vida (GONÇALVES, 2017, p. 353).
Estefam (2017, p. 448) leciona que, “quando o fato é cometido para saciar a fome ou satisfazer necessidade vital do sujeito, constituindo o único recurso que lhe resta, ter-se-á́ o furto famélico ou necessitado, ao qual se aplica a excludente de ilicitude prevista no art. 24 do CP”.
Assim, aplica-se o estado de necessidade justamente pelo fato de o sujeito estar sacrificando o patrimônio de outrem como única alternativa para salvar outro bem, qual seja, sua própria vida, existindo assim o juízo de ponderação supramencionado, onde o sujeito salva um bem de igual ou maior importância (ESTEFAM, 2017, p. 448).
Capez (2017, p. 443) complementa ao lecionar que o furto famélico “é aquele cometido por quem se encontra em situação de extrema miserabilidade, penúria, necessitando de alimento para saciar a sua fome e/ou de sua família. Não se configura, na hipótese, o crime, pois o estado de necessidade exclui a ilicitude do crime”.
Em decisão de Habeas Corpus, o Supremo Tribunal de Federal afirmou que o furto famélico está umbilicalmente ligado ao estado de necessidade, citando os ensinamentos de Nélson Hungria e Heleno Cláudio Fragoso:
Furto necessitado. Desde a Idade Média, por influência do direito canônico, se reconhecia a impunibilidade do furto famélico, isto é, do furto praticado por quem em estado de extrema penúria, é impelido pela fome (coactus fame), pela inadiável necessidade (propter necessitatis vim) de se alimentar. Discutiam os doutores sobre o fundamento de tal impunibilidade: ora se dizia que a necessidade excluía o dolo específico do furto, ora que fazia retornar as coisas ao primitivo estado de comunhão (necessitas legem). A Carolina expressamente isentava de pena o furto quando premido o agente pela necessidade de se alimentar a si próprio e à sua família. Na França, ao tempo do bom juge MAGNAUD, o furto necessitado foi um tema rumorosamente debatido, e como o Código de Napoleão não contemplasse, como excludente de crime, o estado de necessidade, a isenção de pena foi admitida, em famosa decisão do Tribunal de Chateau-Thierry, porque ‘a fome é suscetível de privar parcialmente a todo ser humano o livre-arbítrio e reduzir nele, em grande parte, a noção do bem e do mal’. Presentemente, o estado de necessidade figura nos códigos penais em geral como descriminante, e na sua órbita se inclui o furto famélico, o que vale dizer que é um fato penalmente lícito. (Grifo no original). (BRASIL, 2013).
No presente caso, foi negado o habeas corpus com o principal fundamento de que o fim visado com a res furtiva – no caso em comento, o furto de 4 galinhas – não era somente o de saciar a fome, diante da falta de outros meios para conseguir alimentos, afastando, assim, o estado de necessidade (BRASIL, 2013).
Estefam (2017, p. 448), ainda leciona que não se pode confundir o furto famélico com o “estado de precisão”, sendo que o doutrinador dá o seguinte exemplo: “agente que, por achar-se desempregado, subtrai de estabelecimento comercial, além de gêneros alimentícios, eletrodomésticos, artigos que não podem ser considerados imprescindíveis à sua sobrevivência – hipótese de estado de precisão”. Desta forma, verifica-se que o estado de precisão está relacionado com o que o agente precisa para sobreviver de forma digna, já o furto famélico não, está ligado à necessidade de o agente manter a sua vida através de sua alimentação, daí a diferença (ESTEFAM, 2017, p. 448).
Destaque ainda se faz pelas “dificuldades financeiras, desemprego, situação de penúria, por si só, não caracterizam essa descriminante, do contrário estariam legalizadas todas as subtrações eventualmente praticadas por quem não estiver exercendo atividade laborativa”. (CAPEZ, 2017, p. 443)
Portanto, necessário o preenchimento dos requisitos do estado de necessidade, quais sejam, a atualidade do perigo, involuntariedade do agente, inevitabilidade por outro modo e ainda a inexigibilidade de sacrifício de um direito ameaçado, sendo que o furto deve ser inevitável, ou seja, ser uma ação extrema, o agente não tinha outra opção se não aquela. Caso o agente possuísse plenas condições de exercer um trabalho honesto, mas por vontade própria não o fez, não se caracterizará o furto famélico (CAPEZ, 2017, p. 443).