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Gênero, interseccionalidade e lugar de fala

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CAPÍTULO 1. CAMINHO TEÓRICO-METODOLÓGICO

1.1.2 Gênero, interseccionalidade e lugar de fala

Os estudos feministas, hoje mais comumente denominados estudos de gênero, têm, em sua gênese, a militância social feminista que, em tempos de perseguição política, década de 1970, se refugiou na academia. Assim, o discurso da militância passou a ser alvo de reflexão e construções teóricas. No entanto, sua gênese militante fez com que o mundo acadêmico olhasse com reservas para os estudos feministas, tendo em vista a perspectiva política e prática do mesmo. No entanto, para Louro, “o caráter político de tais estudos constitui-se uma das suas marcas mais significativas” (Guacira Lopes LOURO, 1998, p.19). Corrêa também destaca que é impossível se pensar em estudos feministas sem a dimensão política como parte de sua história (Marisa CORRÊA, 2001, p.25).

Estes estudos surgem como fruto de uma luta política por dar visibilidade às mulheres, que por causa da segregação histórica eram invisíveis à filosofia e à ciência. Para fazer valer esse movimento de visibilidade, os estudos iniciais se constituíram, num primeiro momento, em descrições das condições de vida e de trabalho das mulheres nos mais diferentes espaços (Guacira Lopes LOURO, 1998, p.17-18).

No início desse movimento acadêmico a palavra gênero, cujo conceito extrapola a designação das palavras e firma-se como categoria de análise da história e das relações sociais, não era utilizada. O que se utilizava era categoria mulher mostrando que o homem universal não incluía as questões que eram específicas da

mulher (Joana M. PEDRO, 2003, p.80). Este processo de afirmação da identidade

tinha nas narrativas das mulheres o seu veículo de sustentação e fortalecimento. A categoria mulher foi questionada por ser limitada, porque as reflexões levavam mais em conta as demandas das mulheres brancas, desconsiderando demandas específicas das mulheres negras, indígenas, mestiças, etc. A homogeneização não providencia a igualdade, ela acaba por visibilizar o sujeito dominante. Embora todas sejam mulheres, há outros marcadores de diferença que ao serem hierarquizados em uma sociedade masculinizada e branca, colocam as mulheres em posições diferentes.

A hierarquização das diferenças não atinge apenas as mulheres, os homens também sofrem essa hierarquização. E nessa construção social, mulheres e homens negros estão em desvantagem, sendo as mulheres negras, por não serem nem brancas nem homens, as menos privilegiadas. Por isso, há necessidade de romper com a universalização das categorias, pois ela acaba servindo para a exclusão de quem não é parte da norma. Todas as realidades precisam ser nomeadas para serem visibilizadas é o que afirma Djamila Ribeiro: “se não se nomeia uma realidade sequer serão pensadas melhorias para uma realidade que segue invisível” (Djamila RIBEIRO, 2017, p.41).

Não se falava mais de mulher, mas de mulheres; no entanto, essa categoria, ainda que na militância respondesse a boa parte das necessidades dos movimentos de luta, era uma categoria que reafirmava o binarismo e privilegiava o sexo em detrimento do gênero, palavra que passaria a ser utilizada de forma bem abrangente no discurso acadêmico feminista20.

A historiografia que havia se apropriado da categoria mulheres, passa a utilizar a categoria gênero. O texto de Joan SCOTT (1995) “Gênero: uma categoria útil para análise histórica”, publicado em 1990 no Brasil torna-se um importante aporte teórico.

Neste texto a autora apresenta o itinerário semântico da palavra gênero e a sua configuração dentro do movimento feminista:

As que estavam mais preocupadas com o fato de que a produção dos estudos femininos centrava-se sobre as mulheres de forma muito estreita e isolada, utilizaram o termo “gênero” para introduzir uma noção relacional no nosso vocabulário analítico. Segundo esta opinião, as mulheres e os homens eram definidos em termos recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um

20 O livro de Eleni Varikas “Pensar o sexo e o gênero” traz a problematização do conceito gênero como substituição ao conceito de diferença sexual e sua aceitabilidade no cenário acadêmico, destacando a rejeição do cenário acadêmico francês a essa mudança; além disso, aponta a mudança como uma forma de apropriação e legitimidade acadêmica de uma discussão nascida nos movimentos sociais, o que não é bem visto na academia, especialmente a eurocêntrica. Segundo Varikas: “as objeções relativas ao gênero concerniam menos à sua validade teórica, que até recentemente quase não era discutida, do que ao seu caráter ‘intransferível’ na pesquisa francesa. O próprio termo parecia abstrato e obscuro, percebido como uma noção especificamente anglo-saxã que, diziam, mais semeava a discórdia do que oferecia um enquadramento analítico para as relações de sexo [...]. Desse ângulo semear a discórdia não é uma desvantagem, mas, pelo contrário, a maior virtude desse campo conceitual: ele permite desestabilizar os automatismos em ações e nas maneiras como se percebe, se interpreta e, portanto, se reconstrói o mundo segundo distinções conformes às diferenças dos sexos. [...] O Gênero adquiriu muito rapidamente um direito de cidadania no vocabulário científico americano e britânico: de um lado sua ressonância mais neutra em inglês choca menos diretamente as certezas da “diferenças dos sexos”; percebendo, por outro lado, mais ao lexo científico do que à linguagem corrente, o termo atribuiu certa respeitabilidade científica a uma reflexão que, conduzida com a denominação women studies ou feminist studies, desperta a suspeita de parcialidade e de militantismo” (Eleni VARIKAS, Pensar o sexo e gênero. Campinas/SP: Editora Unicamp, 2016, p.20-21, 56).

poderia existir através de estudo inteiramente separado (Joan SCOTT, 1995, p.3).

Em seguida descreve as posições teóricas da época para o conceito de gênero e defende a necessidade de ir um pouco mais além de um caráter descritivo. Além de perguntar o que é gênero, é preciso saber como ele opera e interfere nas relações de poder. Após a análise crítica das posições teóricas existentes na época, ela apresenta sua proposição conceitual que se divide em duas partes e diversas subpartes que precisam se relacionar na análise:

Elas são ligadas entre si, mas deveriam ser distinguidas na análise. O núcleo essencial da definição repousa sobre a relação fundamental entre duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder”. (SCOTT, 1995, p.4) As reflexões teóricas não param em Joan Scott, a opção de citá-la se firma por ser dela um texto clássico e convidativo para repensar a história, especialmente em relação às mulheres, suas narrativas e seus papéis sociais.

Ao longo do tempo os estudos feministas se complexificaram e diversificaram. A categoria gênero se mostrou instável e dinâmica, mas Sandra Duarte de SOUZA (2015, p.20) adverte que isso não quer dizer que não se tenha ancoragem teórica, apenas indica a multi/interdisciplinaridade que caracteriza o pensamento feminista contemporâneo, que demanda uma forma mais plural de abordagem, a partir de variadas ancoragens teóricas.

Há uma profícua produção acadêmica sobre gênero e ela não se restringe aos campos da teologia e da educação. Neste movimento, a produção se diversificou e, à medida que ampliou sua reflexão, surgiu o entendimento de que a categoria gênero para análise da realidade, precisava se articular com outros marcadores da diferença para que os sujeitos pudessem ser pensados de forma mais completa e, ao mesmo tempo, diversa. É neste contexto que surge o conceito de interseccionalidade.

Este conceito surge a partir das reflexões e demandas das mulheres negras a respeito do movimento feminista vigente nos EUA que, ao subsumir as questões raciais em meio às discussões feministas, invisibilizavam as demandas das feministas não brancas, mantendo-as em condições subalternas.

O tema da interseccionalidade está presente na produção acadêmica de Kimberly Crenshaw, que define interseccionalidade como uma forma de pensar sobre

as discriminações e opressões levando-se em conta a interação de dois ou mais eixos de subordinação. Segundo a autora, a interseccionalidade:

Trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento (Kimberlé CRENSHAW, 2002, p.177).

Ao pensar sobre as opressões que as mulheres sofrem, ela conclui que a categoria de gênero se torna limitada. Daí a necessidade de promover uma intersecção com raça e classe. A pesquisadora afirma que a interseccionalidade busca:

Capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras (CRENSHAW, 2002, p.177)

A consolidação deste conceito no cenário dos estudos de gênero não foi isento de luta, como bem nos lembra Adriana Piscitelli (2008) no artigo “Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras”, quando destaca a tensão na trajetória dos estudos feministas. A autora relembra que na história deste conceito algumas reflexões teóricas afirmavam que ao articular gênero com outros marcadores de diferença, se enfraqueceria a identidade das mulheres, por isso gênero devia se manter como o maior e mais relevante pressuposto político da luta feminista.

O renomado texto de Joan SCOTT, já citado aqui, apontava uma corrente de historiadoras(es) que se preocupava em articular gênero, raça e classe, destacando este grupo com uma visão política mais global e uma preocupação em evidenciar a história de grupos oprimidos porque “levavam cientificamente em consideração o fato de que as desigualdades de poder estão organizadas segundo, no mínimo, estes três eixos” (SCOTT, 1995, p.4). Este grupo de pesquisadoras(es) já dialogava com o que viria se transformar no conceito chamado interseccionalidade.

A crítica de Scott é de que a postura das pesquisadoras(es) que levavam em conta tais categorias, sugeria uma paridade entre raça, classe e gênero que, segundo ela, não há. De fato, não existe.

A interseccionalidade não se limita a reconhecer a existência dos marcadores de diferença (classe, raça, gênero, idade etc.), não afirma a paridade entre as categorias, mas também recusa a divisibilidade e hierarquização das mesmas. Ela afirma que estes marcadores não agem em separado porque estão em constante interação para a produção das desigualdades e opressões (Silma BIRGE, 2009).

Se gênero como categoria surge como expressão da segunda onda do feminismo, a interseccionalidade, junto ao feminismo pós-colonial/ descolonial, tem sido considerada um dos paradigmas dos estudos feministas contemporâneos (POCAHY, 2011). Este conceito surge nos EUA como fruto de contestações de feministas chicanas21, latino-americanas, afro-americanas em relação a um feminismo

universalista que privilegiava as mulheres brancas, contestação muito ancorada na militância e na teoria feminista das mulheres negras.

Atualmente, o feminismo pós-colonial pode ser considerado mais uma expressão de reflexão no campo dos estudos de gênero. Ele é o deslocamento do feminismo interseccional para o exercício de descolonizar o gênero que, como afirma Maria Lugones, não viaja para fora da modernidade colonial; portanto, o que significa este difícil exercício de descolonizar gênero?

Descolonizar o gênero é necessariamente uma práxis. É decretar uma crítica da opressão de gênero racializada, colonial e capitalista heterossexualizada visando uma transformação vivida do social. Como tal, a descolonização do gênero localiza quem teoriza em meio a pessoas, em uma compreensão histórica, subjetiva/intersubjetiva da relação oprimir  → resistir na intersecção de sistemas complexos de opressão. Em grande medida, tem que estar de acordo com as subjetividades e intersubjetividades que parcialmente constroem e são construídas “pela situação”. Deve incluir “aprender” sobre povos. Além disso, o feminismo não fornece apenas uma narrativa da opressão de mulheres. Vai além da opressão ao fornecer materiais que permitem às mulheres compreender sua situação sem sucumbir a ela (Maria LUGONES, 2014, p.939).

O feminismo descolonial promove a crítica ao “sexismo, racismo e ao etnocentrismo epistêmico da modernidade colonial e tem se somado aos reclamos da interseccionalidade nos Estudos Feministas” (Sandra Duarte de SOUZA, 2015, p.21).

21 O feminismo chicano se constrói como uma corrente teórica oriunda das reflexões sobre a luta e trajetória de mulheres mexico-estadunidenses. Glória Andaluza é uma referência para esse tema. Assim ela afirma a luta das mulheres mestizas: “É imperativo que as mestizas apoiem umas às outras no processo de mudança dos elementos sexistas na cultura índio-mexicana. Enquanto as mulheres forem diminuídas, o/a índio/a e o/a negro/a em todos/as nós são diminuídos/as. A luta da mestiza é, acima de tudo, uma luta feminista. Enquanto los hombres pensarem que têm que chingar mujeres e uns aos outros para serem homens, enquanto forem ensinados que são superiores e, portanto, culturalmente favorecidos em relação a la mujer, enquanto ser uma vieja for motivo de escárnio, não poderá haver uma cura real de nossas psiques.” (Glória ANDALUZA, 2005, p.711)

Ainda que essa proposição seja instigadora, optamos pela interseccionalidade como referencial teórico deste trabalho.

Se a interseccionalidade como conceito nasce das reflexões acadêmicas, a interseccionalidade como prática, é fruto da luta de mulheres negras feministas, evidenciando as opressões e discriminações por elas sofridas cotidianamente e, também, os movimentos de resistência e combate a tudo isso.

O artigo “Se perdeu na tradução? Feminismo negro, interseccionalidade e política emancipatória” de Patricia H. Collins (2017) situa a história do conceito de interseccionalidade desde antes de ser apropriado pela academia.

Se a autoria deste conceito é atribuída comumente à Kimberlé Crenshaw em seu artigo de 1991: “Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color”, publicado na Stanford Law Review (Crenshaw, 1991), Collins (2017) problematiza essa atribuição ao afirmar que a origem militante deste conceito não está na década de 1990, mas no movimento feminista negro das décadas de 1960, 1970, 1980, anteriormente chamados como estudos de raça/gênero/classe. Se Crenshaw é a acadêmica legitimada pela academia como referência para esse conceito, Collins evoca Audre Lorde, bell hooks, Angela Davis, e as militantes do coletivo negro feminista afroamericano Combahee River22 como

protagonistas do uso das intersecções dos marcadores de diferença, especialmente raça, gênero e classe. No entanto, adverte Collins:

Dada a diminuição histórica de mulheres de ascendência africana, é tentador conferir às afro-americanas a descoberta de uma interseccionalidade ainda não nomeada. No entanto, é evidente que nos Estados Unidos as mulheres afro-americanas faziam parte de um movimento mais amplo de mulheres, em que mexicanas e outras latinas, mulheres indígenas e asiáticas estavam na vanguarda de reivindicar a inter-relação de raça, classe, gênero e

22 “As fundadoras do coletivo Combahee River (CRC) se encontraram pela primeira vez na conferência regional da Organização Feminina Negra Nacional (NBFO) em 1973. Um ano depois, as mulheres começaram a se reunir regularmente em Boston, Massachusetts. Em uma dessas reuniões, elas escolheram seu nome baseado na invasão do Rio Combahee de 1863, liderada por Harriet Tubman. Elas escolheram o nome não só porque centenas de escravos conseguiram escapar, mas porque essa foi a primeira estratégia militar criada por uma mulher. No verão de 1974, o coletivo se separou do NBFO para se tornar um grupo feminista negro separado. Os fundadores do CRC sentiram que o NBFO não transmitiu a importância do lesbianismo negro e sentiu que eles não eram radicais o suficiente para fazer com que o impacto que sentiam fosse necessário para a mudança. As crenças do Coletivo eram sobre igualdade, separatismo não lésbico, paz e união junto com o reconhecimento da interseccionalidade de homens e mulheres de cor. Essas crenças mostravam como o feminismo negro era poderoso, mas nunca era sobre estar no topo da hierarquia pelo poder e controle de outro grupo de pessoas. A interseccionalidade é importante porque é a raiz central do motivo pelo qual o Coletivo estava lutando por seus direitos devido a múltiplos tipos de opressão” In: https://combaheerivercollective.weebly.com/history.html acesso em 02/06/2018. Tradução livre.

sexualidade em sua experiência cotidiana. O coletivo Combahee River não estava sozinho ao propor essas ideias. Nos Estados Unidos, por exemplo, latinas estavam engajadas em lutas intelectuais e políticas similares, ao criarem espaço para seu empoderamento dentro dos limites dos movimentos sociais que, como na política afro-americana, eram moldados por um nacionalismo patriarcal. O feminismo latino veio na mesma década de 1980, com o trabalho de Gloria Anzaldua, especialmente seu clássico Borderlands/La Frontera, que marcou uma importante contribuição na construção dos estudos de raça, gênero e sexualidade (Anzaldua, 1987). (Patrícia H. COLLINS, 2017, p.8-9)

O conceito de interseccionalidade entrou e se solidificou na academia de diversas partes do mundo e em várias áreas do saber. Ao reconhecer e evidenciar este movimento, Collins afirma que isso aconteceu dentro de uma luta de poder na qual, a perspectiva de transformação social inerente ao conceito de interseccionalidade à época da sua evidência no cenário político e social, subsumiu diante de uma perspectiva descritiva, portanto, nem tão incômoda ao projeto de mudança social presente na militância feminista negra.

Ironicamente, assim como a estruturação dos movimentos sociais nos anos de 1960 e 1970, retornaram ao passado, a incorporação da interseccionalidade à academia nos anos 1990 e no início dos anos 2000 se tornaram um novo normal que cada vez mais separou o conhecimento emancipatório da política emancipatória. Interseccionalidade como projeto de conhecimento deslocou dos projetos de conhecimento bottom-up refletidos na habilidade de Crenshaw a partir de políticas de base, a projetos de conhecimento top-down cujos contornos estruturais foram cada vez mais moldados pelas práticas normativas da academia e cujos contornos simbólicos refletiam os objetivos, o conteúdo temático e as abordagens epistemológicas dos campos de estudo existentes (Patrícia H. COLLINS, 2017, p.12).

A interseccionalidade como um projeto de conhecimento top-down, isto é, de cima para baixo, ou seja, estabelecendo-se em conformidade com o saber hegemônico e, ao invés de questioná-lo, abrindo concessões a ele, esvazia o conceito de interseccionalidade. Os estudos que a utilizam apenas na perspectiva descritiva, valorizando mais a verdade que a justiça, depreciam o valor conceitual e transformador da interseccionalidade:

Estudos interseccionais que parecem mais dedicados a descrever a verdade do que criticá-la e reescrevê-la deterioram inadvertidamente o propósito da interseccionalidade em si. Ironicamente, esse afastamento da justiça social tem sido tão incremental que muitos assumem que a interseccionalidade está fundida inerentemente com a justiça social, apesar de evidências decrescentes para essa convicção. A interseccionalidade pode servir como uma ferramenta teórica e metodológica para estudar qualquer coisa e não precisa estar conectada às experiências das pessoas com a injustiça ou a justiça social. A verdade importa, porém, quando os estudos interseccionais

privilegiam a verdade sobre a justiça, entrando no terreno escorregadio do conluio com hierarquias de poder. (Patrícia H. COLLINS, 2017, p.14)

Se “a promessa inicial do feminismo negro e a ideia de interseccionalidade que a acompanhou consistia em promover políticas emancipatórias para as pessoas que aspiravam a construção de uma sociedade mais justa” (Patricia H. COLLINS, 2017, p.15), o uso deste conceito nos estudos acadêmicos não pode perder o seu compromisso com a visibilidade dos sujeitos historicamente em situação de opressão. Para isso, não basta apenas descrever, é preciso estudar e denunciar as opressões e, sobretudo, garantir o lugar de fala desses sujeitos, que ainda continuam objetificados na academia, como afirma Grada Kilombo 23:

These questions are importante to ask because the centre, which I refer to here as the academic centre, is not a neutral location. It is a white space where black people have been denied the privilegie to speak. Historically, it is a space where we have been voiceless and where white scholars, have developed theoretical discourses that formally constructed us a the inferior ‘Other’, placing Africans in absolute suboordination to the White subject. Here we have a been described, clasified, dehumanized, primitivized, brutalized, killed. This is not a neutral space. Within these rooms we were made the objects “of predominantly whiteaesthetic and cultural discourses” (Hall 1992: 252), but we have rarely been the subjects.

This position of objecthood that we commonly occupy, this place of ‘Otherness’ does not, as commonly believed, indicate a lack of resistance or interest, but not that we have not been speaking, but rather our voices – thougth a system of racism – have been either systematically disqualified as invalid knowledge; or else represented by whites who, ironically, become the ‘experts’ on ourselves. Either way, we are caught in a violent colonial order24. (Grada KILOMBA, 2010, p. 27-28).

23 Tradução na íntegra da citação: Essas perguntas são importantes para perguntar, porque o centro,

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