CAPÍTULO 1 – (MULTI) LETRAMENTOS, MULTIMODALIDADE E
1.3 Gêneros discursivos: uma perspectiva multimodal
Esta pesquisa, além dessas teorias que discorrem sobre os (multi) letramentos e a multimodalidade, também se baseia numa concepção de linguagem como atividade social e interativa (MARCUSCHI, 2008) que se materializa através dos gêneros discursivos. Logo, parte-se do pressuposto bakhtiniano (1997) de que a linguagem humana é essencialmente dialógica, por isso, sempre que alguém diz algo, por exemplo, essa fala se dirige a outro sujeito que também é responsável pela construção e pelo compartilhamento de sentidos. No caso de não haver um interlocutor real, este é projetado, nesse processo de interação, considerando-se as condições reais nas quais os interlocutores estão inseridos.
Bakhtin (1997), ao reforçar a natureza social, dialógica e ideológica do uso prático da língua, também concebe que a comunicação verbal só é possível via algum gênero discursivo. De acordo com Rojo e Barbosa (2015), o emprego de gêneros de discurso/discursivos em detrimento de gêneros de texto/textuais ocorre devido à ênfase que é dada, na abordagem bakhtiniana, aos temas e à significação dos discursos realizável pelos textos e não às formas linguísticas ou textuais.
Ainda segundo Rojo e Barbosa (2015), foram os filósofos Platão e Aristóteles que inauguraram a discussão a respeito do conceito de “gênero” ao refletirem sobre poética e retórica na Grécia Antiga. Tais reflexões foram ampliadas, no século XX, por Mikhail Bakhtin, Valentin Volochinov, Pavel Medvédev, entre outros que, juntos, integraram o que se denomina de Círculo de Bakhtin, isto é, “uma escola do pensamento russo do século XX, centrada na obra de Bakhtin” (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 39). Para Marcuschi (2008), no Ocidente, há pelo menos vinte e cinco séculos, os gêneros já são objeto de estudo, porém o que temos, na atualidade, é um novo olhar para esta temática que está para além da discussão literária e presente em várias perspectivas disciplinares, como a sociologia, a etnografia, a antropologia, a retórica, a linguística etc.
Sobretudo após a difusão mais ampla dessas ideias bakhtinianas, vários autores, como Dionísio (2011), Marcuschi (2003, 2008, 2011), Rojo (2013a) e Rojo e Barbosa (2015), destacaram, ainda que não totalmente de modo convergente, a importância de se
compreender os gêneros discursivos em sua relação com as práticas sociais. Nas palavras de Bakhtin (1997, p. 279):
A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos, gramaticais –, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional.
Nesse sentido, os gêneros discursivos são elaborados em cada esfera da atividade humana e entendidos, portanto, a partir do conteúdo temático, isto é, o conteúdo do texto acompanhado da apreciação de valor do locutor; do estilo verbal, que são as escolhas relativas ao vocabulário, à sintaxe e a outros aspectos gramaticais; e da construção composicional, que, conforme Rojo e Barbosa (2015), refere-se às formas de organização e acabamento do texto, como coesão, coerência e progressão temática. Quanto às esferas de atividade humana, também segundo Rojo e Barbosa (2015), na teoria bakhtiana, elas não são estáticas nem estaques, uma vez que se alteram tendo em vista as questões históricas, sociais e culturais; e estão em constante processo de relação e influência.
Ao abordar esse conceito de gêneros discursivos, Marcuschi (2011, p. 22) afirma: “hoje se reconhece que não é apenas a forma stricto sensu que resolve a questão do gênero e sim sua funcionalidade e organicidade”, ou seja, como eventos textuais flexíveis, os gêneros caracterizam-se mais pelos aspectos sociais e discursivos. Dessa forma, ao defender essa dinamicidade e adaptabilidade dos gêneros, este autor também entende que, na ideia de que os gêneros são “tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2006, p. 279), o que merece destaque é o termo “relativamente”, tendo em vista a historicidade, a funcionalidade e a fluidez decorrente da natureza social dos gêneros.
Além de Estética da criação verbal, segundo Brait e Pistori (2012), outras produções de Bakhtin ou do Círculo de Bakhtin (dada a dificuldade de atribuição autoral) também abordam os gêneros discursivos, para além da caracterização relativa ao conteúdo temático, composição e estilo, e colaboram, nesse sentido, no melhor entendimento deste conceito que é muito relevante para se pensar a leitura e a produção de textos no espaço escolar. Ao citarem a obra Problemas da poética de Dostoiévski, por exemplo, cuja 2ª edição data de 1963, as autoras apontam que nela há:
importantes afirmações sobre gênero que respondem questões colocadas hoje em relação aos gêneros próprios das novas formas de comunicação, viabilizadas pela tecnologia e, especialmente, por novos valores assumidos pelo homem contemporâneo em relação a tempo/espaço, público/privado, efêmero/duradouro (BRAIT; PISTORI, 2012, p. 376).
Essas considerações, em alusão a tal obra, referem-se aos gêneros surgidos recentemente que se ancoram em gêneros anteriores. Tal ancoragem se dá pelo fato de que os gêneros se desenvolvem a partir de práticas sociais em transformação, logo, eles não surgem do vácuo, mas de práticas existentes na sociedade. Brait e Pistori (2012) ressaltam que essa tradição na qual o gênero se insere precisa ser levada em consideração e exemplificam essa discussão ao evidenciarem a ligação entre gêneros, típicos de suportes digitais, como o blog e o chat, e aqueles que foram antecessores a estes, como o diário íntimo e a carta. As autoras ainda reforçam que as proposições do Círculo de Bakhtin não se referem apenas às obras literárias, mas também às diversas produções de linguagem do dia a dia. No caso desta pesquisa, entende-se que, embora a multimodalidade não seja novidade, os gêneros surgidos nas práticas atuais carregam em si um arranjo multissemiótico mais expressivo, tendo em vista a “nova paisagem semiótica” (KRESS; VAN LEEUWEN, 2001a).
De acordo com Brait e Pistori (2012), o Círculo defende que o estudo do gênero não pode considerar somente as formalidades linguísticas, mas a totalidade do enunciado. Tal constatação é possível graças à leitura que estas autoras realizam da obra do Círculo: O método formal nos estudos literários: uma introdução crítica e uma poética sociológica, cuja publicação na Rússia é de 1928. Dessa forma, neste livro, no qual a problemática em torno do gênero também não se restringe à literatura, fica evidente a importância de o gênero ser entendido na interioridade, como as estruturas linguísticas e o tema; e na exterioridade, como os aspectos temporais, espaciais e interacionais que o circunstanciam (BRAIT; PISTORI, 2012). Essa denominada “dupla orientação na realidade”, uma interior e outra exterior, conforme é citado pelas referidas autoras, na qual o gênero se estabelece, é inerente aos aspectos ideológicos.
Rojo e Barbosa (2015), fundamentadas na teoria do Círculo de Bakhtin, também afirmam que aquilo que falamos, pensamos, escrevermos e digitamos, através das linguagens, concretiza-se em textos que se dão via algum gênero discursivo. Para elas, os textos (orais, escritos ou multimodais) são: “os enunciados concretos que ocorrem sempre se valendo, de diferentes maneiras, dos gêneros para dizer o que têm a dizer (discurso) e permitir a interação com os outros” (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 32).
Nota-se que tais autoras, assim como Brait e Pistori (2012), dissertam sobre os gêneros numa perspectiva mais recente, já que salientam a ação de digitar, isto é, o uso de gêneros digitais, embora seja necessário salientar que as proposições de Bakhtin (1997) não ignoram a possibilidade do surgimento de novos gêneros (como os digitais), já que este teórico considera a questão da diversidade dos gêneros existentes e o processo de assimilação de um gênero por outro. Dessa forma, para Bakhtin e seu Círculo, os novos gêneros surgem à medida que a vida social se modifica, reorganiza e carece de novas formas de comunicação.
Tendo em vista esse pressuposto, mesmo que estejamos inseridos em novos tempos repletos de mudanças sociais, essa teoria dos gêneros discursivos do Círculo de Bakhtin, segundo Rojo e Barbosa (2015), continua atual e contempla os diversos enunciados multimodais contemporâneos. Nas esferas de atividade humana, ainda na visão das autoras citadas, são utilizados determinados gêneros de discurso que, compreendidos de modo aberto e dinâmico, irão se modificar e haverá também aqueles que irão surgir e até desaparecer.
Ao pontuar a necessidade de se entender a comunicação verbal relacionada intrinsecamente com as condições concretas, Bakhtin (2006, p. 126) evidencia a relevância de outras linguagens que não somente a verbal:
A comunicação verbal entrelaça-se inextricavelmente aos outros tipos de comunicação e cresce com eles sobre o terreno comum da situação de produção. Não se pode, evidentemente, isolar a comunicação verbal dessa comunicação global em perpétua evolução. Graças a esse vínculo concreto com a situação, a comunicação verbal é sempre acompanhada por atos sociais de caráter não verbal (gestos do trabalho, atos simbólicos de um ritual, cerimônias, etc.), dos quais ela é muitas vezes apenas o complemento, desempenhando um papel meramente auxiliar.
Sendo assim, verifica-se que a comunicação verbal está, inseparavelmente, ligada a outras linguagens e, inclusive, ela pode desempenhar um papel secundário em detrimento de outros modos de comunicação. A respeito disso, Jakobson (1997), autor do prefácio de Marxismo e filosofia da linguagem, apontou que as considerações de Bakhtin antecedem as investigações semióticas. Isso evidencia que a teoria dos gêneros discursivos de Bakhtin permite o entendimento da constituição dos enunciados numa perspectiva multimodal e, além disso, sem a supremacia de uma modalidade sobre outra.
Segundo Rojo (2013a), o conceito bakhtiniano de texto recobre as variadas linguagens, conforme se percebe no trecho abaixo, no qual Bakthin (2006, p. 329)
evidencia a amplitude dessa concepção: “Se tomarmos o texto no sentido amplo de conjunto coerente de signos, então também as ciências da arte (a musicologia, a teoria e a história das artes plásticas) se relacionam com textos (produtos da arte)”. Referente a isso, Fiorin (2006, p. 52) também defende que o texto, na teoria de Bakhtin, não é expresso apenas pela linguagem verbal, porque se manifesta por “qualquer conjunto coerente de signos”, por exemplo, os visuais e os gestuais.
Vieira (2015a) assinala a reconfiguração da linguagem dado o contexto da globalização e das novas tecnologias e, nesse sentido, para ela, as variadas semioses, como a imagem, estão mais próximas da realidade circundante e têm, portanto, papel essencial nesse processo de reconfiguração que se vislumbra, por exemplo, nas práticas sociais e nos gêneros discursivos.
Dionisio (2011) também acredita nessa perspectiva multimodal dos gêneros. De acorda com esta autora:
Se as ações sociais são fenômenos multimodais, consequentemente, os gêneros textuais falados e escritos são também multimodais porque, quando falamos ou escrevemos um texto, estamos usando no mínimo dois modos de representação: palavras e gestos, palavras e entonações, palavras e imagens, palavras e tipográficas, palavras e sorrisos, palavras e animações etc. (DIONISIO, 2011, p. 139).
Nesse sentido, conforme salienta Dioniso (2011), a concepção de que os gêneros são sempre multimodais não se refere apenas à existência de imagens, gestos, sons etc; mas envolve considerar também a disposição gráfica dos textos, seja em materiais impressos, seja em suportes digitais. Por esse motivo, como já apresentamos, em todos os textos há, pelo menos, dois modos de representação (KRESS, 2006). Ao tratar da necessidade de se repensar a linguagem como fenômeno multimodal, para Kress (2006), a fala e a escrita não podem ser compreendidas esquecendo-se da ligação com outros modos de representação que também as compõem. Logo, não é possível se comunicar sem ser por meio de um gênero discursivo multimodal.
Rojo e Barbosa (2015) também endossam a multimodalidade intrínseca aos gêneros discursivos ao exemplificarem a presença da imagem via diagramação nos textos escritos sem ilustração e os gestos nos textos orais, mas não deixam de pontuar que um livro de romance, por exemplo, não é um gênero prototípico para reflexão de gêneros multimodais. Por isso, há de se ponderar que “há diferentes níveis de manifestação da organização multimodal” (DIONISIO, 2011). Isso significa que, em determinados gêneros, há um emprego mais expressivo de uma modalidade, por exemplo, visual, como ocorre, geralmente, com a charge, a tirinha e o anúncio
publicitário; que, somada a linguagem verbal, torna tais gêneros mais multimodais. Por outro lado, uma redação do ENEM, enquanto gênero multimodal, é construída com traços predominantes de um modo de representação, o verbal, e, em um nível menos informativo, de escolhas tipográficas, como o formato das letras. Van Leeuwen (2006), por exemplo, argumenta que a tipografia é um modo semiótico que se sobressai a partir do tamanho e o tipo da letra, a espessura, os contrastes de cor, a inclinação etc.
Quanto a essa questão de que um gênero pode ser mais multimodal do que outro, Ribeiro (2016, p. 32) trata-o como “composição de alto nível de multimodalidade” ou como “texto multimodal por excelência” (RIBEIRO, 2016, p. 31). Ela exemplifica que o infográfico é um gênero em que se observa isso, uma vez que ele é constituído de palavras, imagens e layout, e, em ambientes digitais, pode agregar sons e movimentos, por exemplo. Nesta investigação, seguimos esse entendimento discutido por Dionisio (2011) e Ribeiro (2016): todos os gêneros discursivos são multimodais, mas há alguns que carregam um arranjo multissemiótico mais expressivo que outros.
Segundo Dionisio (2011, p. 136), apesar de existirem investigações relevantes, no Brasil, em relação aos gêneros, “a multimodalidade discursiva da escrita ainda é uma área carente de investigações”. Tal autora, conforme exposto, também defende que todo enunciado é multimodal, logo, a multimodalidade é constituinte mesmo do texto verbal, oral e escrito, pois o layout, por exemplo, carrega sentidos e colabora no reconhecimento do gênero.
No que se refere às relações entre o conceito de gêneros discursivos e o ensino de Língua Portuguesa, Rojo e Barbosa (2015) salientam o quanto o ambiente escolar não considera os gêneros circulantes atualmente na cultura de massa e em ambientes digitais, mas valoriza aqueles da cultura considerada erudita. Ainda para estas pesquisadoras, o estudo predominante da forma do gênero discursivo proposto comumente pela escola e pelos materiais didáticos não auxilia muito o percurso formativo de “um leitor/interlocutor/autor crítico e cidadão” (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 83). Por essa razão, elas defendem que é relevante, no ensino de Língua Portuguesa, fazer com que os alunos entendam que a forma do gênero está a cargo do tema ou significação textual.
Para Rojo (2009), o professor, ao selecionar os gêneros discursivos e as esferas de circulação destes, pode organizar uma proposta de ensino de forma progressiva. Dessa forma, valendo-se dos conceitos de Bakhtin, é possível elencar o que será objeto de estudo nas aulas tendo em vista a enorme quantidade de práticas e de textos que estão
presentes na sociedade. Nesse processo de seleção, a autora também cita a necessidade de se considerar as especificidades e as necessidades do grupo e da localidade onde se vive.
Nesse processo necessário de se aprimorar a produção e a recepção de gêneros multimodais, é preciso que:
o professor esteja atento ao seguinte fato: de acordo com a sofisticação e a especialização dos gêneros de cada disciplina, diferentes especificações de multimodalidade textual são apresentadas e, consequentemente, diferentes letramentos são exigidos (DIONISIO, 2011, p. 151)
Diante disso, concebe-se, nesta pesquisa, que esse conceito de gêneros discursivos, numa perspectiva multimodal, pode subsidiar a seleção dos textos constituintes dos usos da leitura e da escrita no âmbito escolar (ROJO, 2009). Proposta similar a essa, e que também tem fundamentos na teoria dos gêneros discursivos de Bakhtin (1997), já aparece, desde 1998, nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998) para o ensino de Língua Portuguesa, ao sugerir que o trabalho com o texto deve ser feito com base nos gêneros do discurso. Marcuschi (2011) também defende que eles são uma excelente maneira de se trabalhar com os usos reais da língua.
A partir desse embasamento teórico, podemos afirmar que os usos da leitura e da escrita multimodais, em sala de aula, são mediados na interação de/com/nas linguagens entre os atores do contexto escolar através de gêneros discursivos, já que não é possível se comunicar sem ser por meio deles. Além disso, fica evidente o quanto ler apenas o texto verbal escrito não é suficiente, já que é necessário relacioná-lo com um conjunto de signos de outras modalidades de linguagem que o cercam, na formação de um leitor crítico. Nesse mesmo sentido, a escrita também requer um produtor proficiente e criativo que consiga produzir os sentidos objetivados através de uma combinação semiótica.
1.4 A leitura e a escrita de gêneros discursivos multimodais no ensino de Língua