2.3 Aspectos externos do texto
2.3.5 Gêneros textuais
Antes de produzir seu texto, o/a autor/a identifica (com base na sua intenção comunicativa) em que agrupamento de textos seu dizer se enquadra, ou seja, identifica o gênero ao qual ele pertence. Pertencer a um dado agrupamento determina a forma como a produção textual deve ser apresentada aos/às leitores/as. Desse modo, cada gênero apresenta um propósito específico e circula em determinado setor da sociedade.
A partir do princípio de que todo texto pertence a um conjunto maior de textos (que se agrupam em gêneros), o ISD usa a expressão gênero de texto no lugar de gênero de discurso, empregada por Bakhtin (1992). Para Bronckart (2009, p. 75), os gêneros de texto têm uma “relação de interdependência com as atividades humanas”. As sequências linguísticas que compõem os gêneros (o modo semiótico
de estruturar os dizeres) são finitas e isso permite identificar suas características linguísticas e sociodiscursivas.
Como explica Marcuschi (2008), os gêneros textuais “são parte integrante da sociedade” (p. 156), sendo “nossa forma de inserção, ação e controle social no dia- a-dia” (p. 161). Por isso eles possuem um caráter sócio-histórico. O autor ainda destaca que,
desde que nos constituímos como seres sociais, nos achamos envolvidos numa máquina sociodiscursiva. E um dos instrumentos mais poderosos dessa máquina são os gêneros textuais, sendo que de seu domínio e manipulação depende boa parte da forma de nossa inserção social e de nosso poder social. (MARCUSCHI, 2008, p. 162)
É sob essa perspectiva sócio-histórica que apresentamos os gêneros de texto como componente do campo externo de observação dos textos. Conforme afirma Bazerman (2011, p. 32), os gêneros
emergem dos processos sociais em que as pessoas tentam compreender umas às outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas a seus propósitos próprios. Os gêneros tipificam muitas coisas além da forma textual. São parte do modo como os seres humanos dão forma às atividades sociais.
O autor entende que o sistema de gêneros atua em conjunto com o sistema de atividades, focalizando “o que as pessoas fazem e como os textos ajudam as pessoas a fazê-lo” (BAZERMAN, 2011, p. 35).
Ao fazer uma releitura da obra de Bakhtin, Bronckart (2009) explica que, sob uma abordagem sócio-histórica, as produções textuais resultam do funcionamento constante da atividade de linguagem nas formações sociais. Essas formações produzem modalidades de textos conforme seus objetivos, interesses e especificidades. Essas diversidades de textos são, por sua vez, parcialmente estáveis (chamados no ISD como gêneros de texto) e ficam no intertexto como
modelos indexados disponíveis para as gerações seguintes (BRONCKART, 2009).
Também seguidora da teoria bakhtiniana, Rodrigues (2005, p. 165) ressalta que cada gênero de texto está relacionado a uma “situação social de interação”, inserido em meio social; e apresenta um propósito discursivo, bem como uma compreensão própria de autor/a e destinatário/a (leitor/a, ouvinte). Rodrigues (2005) explica ainda que, como há muitas possibilidades de atividade humana e qualquer
que seja a esfera social apresenta diferentes gêneros particulares, adaptando-se e crescendo ao passo que essa esfera se desenvolve, acabam existindo numerosos gêneros na sociedade. Dois dos exemplos citados pela autora situam-se na esfera do trabalho, com os gêneros de ordem, que remetem a normas e padrões e o gênero pauta jornalística, para orientação e delimitação do trabalho de jornalista. E na esfera íntima, ela exemplifica com o gênero conversa, que é estabelecida pela relação de igualdade entre interlocutores/as. Quando identificamos um enunciado como pertencente a um gênero, segundo Bazerman (2011, p. 109), “engajamo-nos numa forma de vida, juntando falantes e ouvintes, escritores e leitores em relações particulares de um tipo familiar e inteligível”.
Sob a perspectiva interacionista, Koch (2003) diz que os gêneros se caracterizam por serem tipos relativamente estáveis de enunciados, apresentando uma forma específica de composição. Além dessa composição, eles se diferenciam entre si pelo conteúdo e pelo estilo. Citando Bronckart, Koch explica que a escolha do gênero é uma das tantas decisões que o/a agente-produtor/a precisa tomar para realizar uma ação de linguagem. Além dessa escolha, há decisões quanto à constituição dos mundos discursivos, à organização sequencial ou linear do conteúdo temático, à seleção de mecanismos enunciativos e de textualização. Como alude Bazerman (2011, p. 111),
os gêneros moldam as intenções, os motivos, as expectativas, a atenção, a percepção, o afeto e o quadro interpretativo. O gênero traz para o momento local as ideias, os conhecimentos, as instituições e as estruturas mais geralmente disponíveis que reconhecemos como centrais à sua atividade.
Sob o olhar de Marcuschi (2008, p. 163), “a vivência cultural humana está sempre envolta em linguagem, e todos os nossos textos situam-se nessas vivências estabilizadas em gêneros”. Em síntese, o/a agente-produtor/a escolhe um gênero a partir de seus objetivos, do lugar social e dos/as participantes (leitores/as, ouvintes), pensando, assim, na recepção do texto, assunto abordado no próximo tópico. Desse modo, o/a autor/a adapta sua produção ao gênero de texto mais apropriado, tendo em vista o que pretende transmitir ao/à leitor/a, bem como insere seu estilo a esse gênero.
Uma vez que os gêneros surgem conforme a atividade de linguagem dos indivíduos, cabe salientar que, com os avanços da tecnologia, hoje, temos os
gêneros digitais (e-mail, Twitter, blogs, posts de redes sociais, entre outros). Esses gêneros aparecem como resultado de “novas necessidades de interação verbal” nos meios digitais (PINHEIRO, 2010, p. 52). Pinheiro (2010, p. 53) explica:
características específicas e exclusivas dos gêneros digitais − como a interatividade simultânea a qualquer hora e em qualquer lugar, por exemplo, proporcionada pela velocidade de trânsito das informações na rede que acontece não só de internauta(s) para com texto(s), mas também de internautas entre si, ou mesmo a influência de outras formas de comunicação (oral, visual, sonoro, musical) na modalidade escrita − resultam em mudanças de fatores de ordem funcional, formal e estrutural, que são, por conseguinte, responsáveis por transformações de gêneros.
Nessa perspectiva, a internet abre portas a uma diversidade de gêneros que, para o contexto da revisão de textos, são fundamentais. Nas palavras de Silva (2011, p. 7), “com a revolução tecnológica, o que se observa é a mudança significativa nos suportes de comunicação e interação, considerando a tela do computador como novo canal, a fusão de mídias, a criação de ambientes virtuais, etc”. Sendo assim, a internet é um espaço de interação verbal que, dada a sua complexidade, acolhe diferentes esferas, visto que abrange diferentes condições de comunicação discursiva (PINHEIRO, 2010). E, por isso, ela se configura como instrumento de trabalho do/a revisor/a, não só em se tratando de seu papel enquanto ferramenta de aquisição de conhecimentos e pesquisa, mas também porque o/a profissional pode especializar-se na revisão de textos para a Web, o que exige domínio dos gêneros digitais.
Além dos gêneros textuais, da história e da cultura, do contexto social, do conhecimento de mundo dos indivíduos e do entorno do/a autor/a, compreendemos a recepção do texto, ou seja, o público-alvo, como aspecto importante à revisão. Uma vez que se trata de um fator externo do texto, a seguir, apresentamos uma síntese acerca desse tema.