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O entorno como definidor do olhar do/a autor/a

2.3 Aspectos externos do texto

2.3.4 O entorno como definidor do olhar do/a autor/a

Os mundos formais descritos por Bronckart (2008) são representações sociais disponíveis ao aprendizado dos indivíduos. No entanto, o que cada indivíduo aprende por meio desses mundos representados é utilizado por ele a partir de sua compreensão, daquilo que interiorizou. Nesse sentido, o/a agente-produtor/a de um texto dispõe de um olhar particular no que diz respeito aos três mundos, porque age conforme a informação interiorizada. Isso quer dizer que há uma situação de linguagem externa, equivalente às características dos mundos formais de senso comum, e essas são passíveis de descrição. E há também uma situação de linguagem interna, ou efetiva, que consiste nas mesmas representações, mas compreendidas (utilizadas) conforme foram interiorizadas pelo/a agente (um ser social). É essa situação de linguagem interna que influencia na produção textual (BRONCKART, 2009), bem como na revisão de um texto.

Segundo o autor supracitado, os/as pesquisadores/as (e também os/as revisores/as) não têm acesso à situação de linguagem interna do/a agente- produtor/a, podendo somente levantar hipóteses sobre as condições de produção do texto. É difícil saber quais são as representações específicas que o/a autor/a tem de si mesmo, do tema abordado e do quadro comunicativo. No entanto, através das

informações dadas pela situação de linguagem externa, é possível pressupor mecanismos usados na situação de linguagem interna.

Ao falar de texto, Bronckart (2009) explica que o/a agente pode mobilizar as representações de dois modos. De um lado, as representações caracterizam o contexto da produção, que se trata da situação de interação, de comunicação, na qual o/a autor/a se enquadra. De outro, as representações remetem ao conteúdo temático ou referente, que diz respeito à escolha dos temas que farão parte da produção textual.

O ISD define o contexto de produção como “o conjunto de parâmetros que podem exercer influência sobre a forma como um texto é organizado” (BRONCKART, 2009, p. 93). O estudioso da linguagem divide esses parâmetros em dois conjuntos: um deles composto pelo mundo físico e outro pelos mundos social e subjetivo. Todo texto resulta de uma ação que se dá em um meio físico, visto que é uma materialidade criada por um/a agente “situado nas coordenadas do espaço e do tempo” (BRONCKART, 2009, p. 93). Sendo assim, o contexto físico é determinado por quatro parâmetros: o lugar da produção (o lugar físico no qual se produz o texto); o momento da produção (equivalente ao tempo de duração da produção); o emissor (agente-produtor/a, o/a autor/a, a pessoa que produz o texto); e o/a receptor/a (aquele/a que lê/ouve o texto).

Bronckart (2009) explica que o segundo conjunto da produção textual concerne ao cenário das atividades de uma determinada formação social, isto é, está inserido em uma interação comunicativa que envolve o mundo social (normas, regras, convenções, valores etc.) e o mundo subjetivo (imagem que o agente tem de si ao agir). O pesquisador estabelece quatro parâmetros para o contexto sociosubjetivo: o lugar social (referente à formação social, à instituição ou, de forma genérica, ao modo como o texto é produzido); a posição social do/a produtor/a (autor/a do texto), visto que esse desempenha um papel social na interação; a posição social do/a receptor/a (destinatário/a, ou seja, o/a leitor/a, ou ouvinte), que corresponde a seu papel social; e o objetivo da interação (são os efeitos que o texto pode produzir).

Em suas pesquisas sobre o agir no trabalho, Bronckart (2009) faz as seguintes observações:

a) Tanto emissor/a (produtor/a) como receptor/a não têm um único papel social, mas a autoridade (o/a autor/a) responsável pela produção de um texto é única

(com exceção de casos de coautoria) e constituída por seu ponto de vista físico e por seu ponto de vista sociosubjetivo. Desse modo, “enquanto um mesmo emissor pode produzir um texto, desempenhando seu papel de pai, ou de professor ou de aluno, etc., um texto pode ser dirigido a um mesmo receptor, como pai, como vizinho, como receptor, etc.” (BRONCKART, 2009, p. 96).

b) A noção de enunciador/a é relativa às faculdades sociosubjetivas do/a emissor/a e, portanto, são constatadas através de uma análise externa da situação de ação.

c) O/A emissor/a passa uma mensagem (texto empírico) a um/a receptor/a em um canal (lugar e momento da produção). Esse dizer contempla uma ou várias funções da linguagem (objetivos). E, por fim, a situação comunicativa é completada com a compreensão das propriedades física e sociosubjetiva, assim como com a explanação da problemática dos objetivos.

d) Os objetivos da ação de linguagem são, teoricamente, infinitos, portanto, também são infinitos os objetivos dos textos.

e) É necessário ressaltar que o contexto influencia na produção textual por meio das representações individuais do/a autor/a. As representações do contexto físico são baseadas na identidade do indivíduo e nas coordenadas do espaço-tempo14, ou seja, em duas capacidades cognitivas construídas na primeira infância. Já as representações do contexto sociosubjetivo se constroem através de uma longa e complexa aprendizagem, que diz respeito aos lugares sociais, às normas pertencentes a esses, bem como aos papéis que eles assumem e aos conhecimentos de “exibição-proteção da nossa imagem” (BRONCKART, 2009, p. 96). Esse saber se constrói lentamente e se modifica conforme as experiências adquiridas. Nesse ínterim, o/a agente- produtor/a pode se deparar com obstáculos para representar as características da interação social na qual está inserido/a. Assim, o/a analista (no caso desta pesquisa, o/a revisor/a) também pode encontrar dificuldades

14 Na visão do ISD, a aprendizagem do indivíduo ocorre por meio de interações entre ele e o seu

entorno (a sociedade que o rodeia). Há uma interação entre o ser e o ambiente, daí a importância do tempo-espaço. E a identidade trata-se do fenômeno constituído desse diálogo entre indivíduo e meio. Para Ciampa (1977, p. 19), seguidor da teoria de Vygotsky, “compreender a identidade é compreender a relação indivíduo-sociedade”, considerando que a identidade é um processo de construção do eu.

em identificar as representações dos três mundos, usadas pelo/a agente- produtor/a.

Para Bronckart (2009), o contexto temático, também chamado de referente, é o conjunto de informações apresentadas de forma explícita num texto. Consistem nas representações construídas pelo/a agente-produtor/a, pelos conhecimentos que adquire na experiência e que estão organizados na sua memória. Nessa perspectiva, compreender como se dá a ação de linguagem significa identificar os valores atribuídos pelo/a agente a cada parâmetro, do contexto ao conteúdo temático. Ainda segundo Bronckart (2009, p. 99),

o agente constrói uma certa representação sobre a interação comunicativa em que se insere e tem, em princípio, um conhecimento exato sobre sua situação no espaço-tempo; baseando-se nisso, mobiliza algumas de suas representações declarativas sobre os mundos como conteúdo temático e intervém verbalmente.

Por fim, um texto é fruto das construções mentais resultantes do agir do indivíduo (autor/a) no seu meio. Nesse sentido, no processo de revisão textual, esses aspectos também devem ser considerados. Além disso, a produção textual se constitui inserida em determinada organização de textos, assim, para dar continuidade ao nosso estudo, discorremos sobre os gêneros de texto.