2. Quadro teórico
2.2. A compreensão da classe social em Jessé Souza
2.2.3 Gênese da “ralé” e os elementos de sua invisibilidade
A longa marcha do racionalismo ocidental, “instaura um novo padrão de institucionalização” da cidadania nos países centrais. Mas, é marcado na periferia pela partição do estatuto da cidadania – que compromete a ideia de igualdade generalizada – com a constituição da subcidadania. Ou seja, entre nós a noção de igualdade não se generaliza (SOUZA, 2003, p.153). A partir da obra de Florestan Fernandes sobre o período pós- abolicionista, Jessé Souza indica que os agentes e as instituições centrais da época – antigos senhores, igreja, estado e mercado – “jamais se interessaram pelo destino do liberto” (SOUZA, 2003, p. 154).
A mudança de ordem que exigia disposições sociais típicas de uma sociedade competitiva encontrava o ex-escravo sem os pressupostos sociais e psicossociais necessários à sua efetiva integração (SOUZA, 2003, p.154). Sua efetiva incorporação à emergente sociedade exigia esforços significativos que partiriam do reconhecimento desse sujeito como igual.
A ausência desses pressupostos somados ao abandono da sociedade como um todo destinava aos negros a marginalidade e a pobreza. A transformação produzida pela abolição se deu na esfera aberta pela empresa privada em expansão. O individualismo e a sorte de estar na hora certa, no lugar certo cria espaços para a formação de iniciativas bem-sucedidas. O agente principal nesse processo, em São Paulo – e no Rio Grande do Sul também – foi o imigrante europeu. Este eliminava a concorrência do ex-escravo em qualquer área ou função. Restava para os últimos
[...] os interstícios e as franjas marginais do sistema como forma de preservar a dignidade de homem livre: o mergulho na escória proletária, no ócio dissimulado, ou ainda, na vagabundagem sistemática e na criminalidade fortuita ou permanente (SOUZA, 2003, p.155).
O ponto de destaque de Jessé Souza nesse quadro é o drama do liberto às novas condições sociais pós-abolição: encontrava-se sem as precondições psicossociais para essa adaptação e sem qualquer suporte para construí-las. Sociologicamente, o foco está na questão da adaptação a uma determinada ordem social – seja ela qual for. Essa adaptação exige uma pré-socialização num determinado sentido que permita a assimilação dos pressupostos corporais e mentais contingentes que respondam às necessidades de tal ordem (SOUZA, 2003, p.155).
Uma série de empecilhos concorriam para criar barreiras a essa adaptação: a ânsia em libertar-se de condições humilhantes de trabalho e vida; a vulnerabilidade a comportamentos reativos às demandas por disciplina e a determinados trabalhos que a ordem competitiva impunha; o fascínio por ocupações prestigiadas, entre outras. “Todas conspiravam para o insucesso nas novas condições e para a confirmação do preconceito” (SOUZA, 2003, p.156).
Essa dificuldade de adaptação está na origem da marginalização continuada de ex- escravos. A incapacidade de agir segundo os modelos de comportamentos e personalidade exigidos pela ordem competitiva haviam sido forjadas em 350 anos de escravidão e formam a gênese da subcidadania entre nós.
O elemento familiar é um dos suportes importantes à ordem competitiva, pois é ela que constitui o modelo de personalidade básica e autocontrole dos impulsos egoísticos. A reprodução de uma ordem familiar típica da escravidão concorre contra a adaptação do liberto à nova ordem e, contra as formas de organização social necessárias para o reconhecimento dos interesses comuns do grupo e classe social (SOUZA, 2003, p.156).
“A pauperização, acarretada pela inadaptação social. E a anomia, causada pela organização familiar disfuncional, condicionam-se mutuamente” (SOUZA, 2003, p. 156). Frente a essa condição precária a escolha desesperada leva à marginalidade e aos códigos desviantes de afirmação da individualidade que impunham a permanência na marginalidade.
“A anomia familiar fecha o círculo vicioso” (SOUZA, 2003, p. 157). Souza em diálogo com Florestan Fernandes argumenta que hoje apenas duas dimensões da vida desse grupo social deixam margem para a expressão da liberdade do indivíduo: o sexo e o futebol. Nessa ordem os velhos e inválidos tornam-se um fardo pesado à família desorganizada (exclusão feita aos que conseguem se aposentar e por vezes acabam tendo a única renda regular da família); os jovens são compelidos desde muito cedo a conduzir as próprias vidas. As mulheres, chefes de casa e em muitos casos a única adulta da casa, sem as precondições necessárias às posições superiores de trabalho, sobravam o serviço doméstico em casas de classe média ou a prostituição. O uso do álcool e, mais recentemente diferentes tipos de outros entorpecentes, explicitam e aprofundam o quadro de desorganização e autodestruição frente a impossibilidade de vislumbrar algum destino diferente (SOUZA, 2003, p. 157).
Na base desses desequilíbrios está a desorganização do núcleo familiar que possibilite a transmissão afetiva das precondições de adaptabilidade à ordem social competitiva e impessoal. Não sendo aliada, a família vira obstáculo ao estimular a individuação ultra egoísta que instrumentaliza o outro, minando qualquer vínculo de solidariedade (SOUZA, 2003, p.158).
Esse processo coletivo – que é experenciado individualmente e com as peculiaridades de cada caso por milhões de pessoas – consolida a assimilação de um habitus característico:
[...] um esquema cognitivo e avaliativo transmitido e incorporado de modo pré-reflexivo e automático no ambiente familiar desde a mais tenra idade, permitindo a constituição de redes sociais, também pré-reflexivas e automáticas, que cimentam solidariedade e identificação, por um lado, e antipatia e preconceito, por outro (SOUZA, 2003, p.158).
A leitura que Jessé Souza faz de Florestan Fernandes é que a constituição e reprodução desse habitus – improdutivo e disruptivo – explica a marginalidade do negro na sociedade periférica. O núcleo do problema está na combinação da inadaptação com o abandono.
É precisamente o abandono secular do negro e do dependente de qualquer cor à própria sorte a ‘causa’ óbvia de sua inadaptação. Foi este abandono
secular que criou condições perversas de eternização de um ‘habitus precário’, que constrange esses grupos a uma vida marginal e humilhante à margem da sociedade incluída (SOUZA, 2003, p.160).
Esse abandono evidencia que a homogeneização e generalização de um tipo comum para todas as classes não foi uma meta institucionalizada na periferia. Ou, para não ser tão determinista, essa meta, se existiu na formatação de políticas públicas importantes, foi em diferentes momentos e por formas variadas, sabotada politicamente ao longo desses mais de 130 anos desde a abolição da escravatura.
A questão de Jessé Souza que sintetiza teoricamente esse quadro é exposta da seguinte forma:
(...) de que modo a transição do poder pessoal para o impessoal muda radicalmente as possibilidades de classificação e desclassificação social? O que está em jogo nessa passagem e nessa mudança tão radical que expele como imprestáveis os segmentos responsáveis fundamentalmente pela produção econômica no regime anterior? (SOUZA, 2003, p.161).
Para Souza, não é o apego à ordem escravocrata que explica esse paradoxo.
A ordem competitiva também tem sua hierarquia – implícita, opaca, intransparente – e é com base nela [...] que tanto negros quanto brancos, sem qualificação adequada, são desclassificados e marginalizados de forma permanente (SOUZA, 2003, p. 162).
A distância histórica da abolição e os conflitos cotidianos vivenciados junto aos diferentes grupos sociais que compõem a nova classe social periférica contribui para sua invisibilização, assim como também à insensibilização que conserva critérios pouco solidários na mediação das dificuldades das crianças e jovens provenientes dessa classe. O abandono se mantém como política permanente, pelas limitações ou pressões institucionais pela promoção dos mais aptos, em vez de promoção de todos.
A busca pelas referências de Taylor e Bourdieu atende ao interesse do autor em reconstituir as condições concretas da modernidade central e periférica sem cair numa análise subjetivista ou objetivista, possibilitando a consolidação de uma perspectiva hermenêutica, genética e reconstrutiva, estabelecendo as precondições da vida social na contemporaneidade. Já criticadas as unilateralidades de um ou outro autor, o desafio foi operacionalizá-las de “modo a perceber como moralidade e poder se vinculam de modo peculiar no mundo
moderno, e muito especialmente no contexto periférico” (SOUZA, 2003, p.164). O ponto em comum entre ambos é produção moderna de uma configuração formada pelas ilusões do sentido imediato e cotidiano (o naturalismo para Taylor ou doxa para Bourdieu), que produz um desconhecimento específico sobre as próprias condições de vida.
Pontualmente sobre os limites da análise bourdiana, Jessé Souza aponta o contextualismo do patamar inferior da sociedade investigada, a classe trabalhadora francesa, a partir do qual se avança para processos de distinção social. Esse patamar foi significativamente elevado a partir do Estado de Bem-Estar Social. Em contraste com as condições dos grupos negativamente privilegiados das sociedades periféricas, ele aponta para a “consolidação histórica e contingente de lutas políticas e aprendizados sociais e morais múltiplos de efetiva e fundamental importância, os quais passam desapercebidos enquanto tais por Bourdieu” (SOUZA, 2003, p.165)
Essa crítica faz Jessé Souza propor uma subdivisão da categoria habitus. A historicização da categoria permite acrescentar uma dimensão genética e diacrônica à constituição do habitus (SOUZA, 2003, p. 165). Para Souza:
Se o habitus representa a incorporação nos sujeitos de esquemas avaliativos e disposições de comportamento a partir de uma situação socioeconômica estrutural, então mudanças fundamentais na estrutura econômico-social deve implicar, consequentemente, mudanças qualitativas importantes no tipo de habitus para todas as classes sociais envolvidas de algum modo nessas mudanças (SOUZA, 2003, p.165).
As revoluções burguesas nos estados capitalistas centrais, que marcam a transformação das sociedades tradicionais (pautadas por códigos de honra) em sociedades modernas, buscaram a homogeneização de um tipo humano comum a partir da generalização de sua própria “economia emocional” a todas as classes. Essa foi uma meta consciente desses processos. Não se deixou, como entre nós acontece, como desdobramento de avanços econômicos. Esse processo homogeneizador não atingiu todas as esferas da vida social, mas permitiu avanços significativos também às classes sociais subalternas, fruto de um “gigantesco processo de aprendizado moral e político” (SOUZA, 2003, p.166).
A partir dessa tematização histórica, o habitus de Bourdieu é transformado por Jessé Souza em “habitus primário”. Ele diz respeito aos:
[...] esquemas avaliativos e disposições de comportamento objetivamente internalizados e ‘incorporados’ [...] que permite o compartilhamento de uma noção de ‘dignidade’ efetivamente compartilhada, no sentido tayloriano. É essa ‘dignidade’ efetivamente compartilhada por classes que logram homogeneizar a economia emocional de todos os seus membros numa medida significativa, que me parece ser o fundamento profundo do reconhecimento social infra e ultra jurídico, o qual, por sua vez, permite a eficácia social da regra jurídica da igualdade e, portanto, da noção moderna de cidadania. [...] para que haja eficácia legal da regra de igualdade é necessário que a percepção da igualdade na dimensão da vida cotidiana esteja efetivamente internalizada (SOUZA, 2003, p.166).
Para Jessé Souza, Bourdieu não tematiza o avanço que esse consenso valorativo transclassista representa. Ao tematizá-lo, Souza indica sua inexistência entre nós. Ele indica que o habitus em Bourdieu representa essa generalização das pré-condições sociais, econômicas e políticas do sujeito útil, ‘digno’ e cidadão. Uma vez que Souza (2003) identifica a inexistência desse consenso transclassista na periferia, o habitus produzido nesse tipo de sociedade exige um desdobramento teórico: o habitus bourdiano torna-se “habitus primário”; que se desdobra posteriormente, para Souza (2003), em habitus secundário (distinto, positivamente privilegiado) ou, no seu desdobramento entre os sujeitos negativamente privilegiados, “habitus precário”. Este o caracteriza como:
[...] tipo de personalidade e de disposições de comportamento que não atendem às demandas objetivas para que [...] possa ser considerado produtivo e útil em uma sociedade de tipo moderno e competitivo, podendo gozar de reconhecimento social com todas as suas dramáticas consequências existenciais e políticas (SOUZA, 2003, p.167).
O patamar de definição do habitus primário é dado pelas condições necessárias à participação socioeconômica dos sujeitos no mercado de trabalho – e anteriormente, na escola. Na sociedade global atual esse patamar exige progressivamente mais conhecimentos incorporados.
O outro desdobramento possível ao habitus primário é para cima. Este é categorizado por Jessé Souza como “habitus secundário”. Ele pressupõe a generalização do habitus primário, parte da homogeneização dos princípios operantes na determinação do ‘habitus primário’ e institui critérios de classificação social a partir do ‘gosto’ (SOUZA, 2003, p.167).
A essa “pluralidade do habitus” Jessé Souza acopla a discussão tayloriana das fontes morais ancoradas institucionalmente. Essa aproximação permite conceituar a ideia de dignidade do agente como fundamento de distinção social. Sendo o trabalho útil, produtivo e
disciplinar o fator que subjaz a avaliação do valor relativo das pessoas, então é a dignidade constitutiva que permite encobrir as desigualdades resultantes dos diferenciais de apropriação que os diferentes trabalhos viabilizam. É a opacidade da ‘ideologia do desempenho’ que se constitui como forma primordial de legitimação das desigualdades na contemporaneidade.
A ideia de Kreckel recuperada por Jessé Souza, indica a qualificação, a posição e o
salário como a tríade meritocrática que sustenta a ideologia do desempenho. Ela estimula e
premia a capacidade de desempenho objetiva e legitima o acesso diferencial a chances de vida e à apropriação de bens escassos. É a tríade meritocrática que sinaliza quem é o cidadão. Por isso, também, é o trabalho que assegura a identidade, a autoestima e o reconhecimento social. Nesse sentido, “o desempenho diferencial do ‘trabalho’ tem que se referir a um indivíduo e só pode ser conquistado por ele próprio” (SOUZA, 2003, p.169).
Vai ser o poder legitimador [...] da ideologia do desempenho que irá determinar, aos sujeitos e grupos sociais excluídos de plano, pela ausência dos pressupostos mínimos para uma competição bem-sucedida, desta dimensão, objetivamente, seu não-reconhecimento social e sua ausência de auto-estima. A ideologia do desempenho funciona assim como uma espécie de legitimação subpolítica incrustada no cotidiano, refletindo a eficácia de princípios funcionais ancorados em instituições opacas e instransparentes como mercado e Estado. Ela é intransparente posto que ‘aparece’ à consciência cotidiana como se fosse efeito de princípios universais e neutros, abertos à competição meritocrática (SOUZA, 2003, p.169-170).
Ainda no campo ideal, o habitus primário indica a presença da economia emocional e das pré-condições cognitivas incorporadas para o atendimento das demandas sociais. Concretamente, a ausência dessas pré-condições marca a constituição de um habitus precário, típico de um segmento expressivo da população brasileira conceituado como “ralé”, por Jessé Souza. A percepção desse grupo pelos agentes e classes sociais ‘incluídos’, que compartilham dos princípios do desempenho e da disciplina, é de fracasso pessoal. Os próprios membros da “ralé”, que também incorporam pré-reflexivamente o princípio do desempenho, percebem positivamente o próprio valor intrínseco, mas, negativamente, constituindo um estilo de vida reativo, ressentido ou abertamente marginal e até criminoso (SOUZA, 2003, p. 171).
Para cima, concretamente, o habitus primário que se desdobra em habitus secundário é associado ao desempenho diferencial positivo e estimula o jogo de distinção. Para além da dimensão da dignidade de Taylor, o habitus secundário se associa à dimensão da expressividade e autenticidade. É essa última dimensão que sinaliza o diferencial de gosto que
pode ser usada como “moeda invisível”, que traveste o desempenho diferencial como talento inato e repercute no capital econômico e cultural.
Essa diferenciação entre habitus precário e secundário se sustenta no acordo implícito, objetivo e ancorado institucionalmente do não valor humano. Ela expressa não uma intencionalidade, mas a intransparência objetiva que sustenta uma visão de mundo a partir de uma hierarquia moral,
[...] que se sedimenta e se mostra como signo social de forma imperceptível a partir de signos sociais aparentemente sem importância [...]. O que existe são acordos e consensos sociais mudos e subliminares, mas, por isso mesmo tanto mais eficazes que articulam, como que por meio de fios invisíveis, solidariedades e preconceitos profundos e invisíveis (SOUZA, 2003, p.175).
A distinção a partir do ‘gosto’ pressupõe um patamar de igualdade no compartilhamento de direitos fundamentais e respeito atitudinal que não é percebido por Bourdieu (SOUZA, 2003, p. 176). Nas sociedades periféricas, a produção e reprodução do habitus precário como fenômeno de massa, diferencia o contexto daquele investigado por Bourdieu. É a existência da “ralé” estrutural que diferencia as sociedades centrais das periféricas e condiciona um tipo diferente de conflito de classe em nosso contexto.
Ao se depararem com as manifestações do habitus precário e secundário na sala de aula os professores se veem frente ao desafio amplificado de coordenar o processo educativo. Como compreendem a presença dos sujeitos da “ralé” na escola e o que fazem a partir de então marca distinções relevantes sobre as perspectivas possíveis de compreensão e ação docente.
A síntese teórica proposta por Jessé Souza indica que o conceito de habitus acrescentado a uma concepção não essencialista de moralidade ancorada em instituições fundamentais permite tanto a percepção dos efeitos sociais de uma hierarquia atualizada de forma implícita e opaca, quanto a identificação de seu potencial segregador e constituidor de relações naturalizadas de desigualdade em várias dimensões (SOUZA, 2003, p.177-8). É essa síntese que permite ao autor conceituar a especificidade da desigualdade periférica e relativizar o quadro de resolução dos conflitos sociais possibilitado pelo Estado de Bem-Estar Social nos países centrais.
É nas desigualdades nas sociedades periféricas que a desigualdade social assume “proporções e formas particularmente virulentas” (SOUZA, 2003, p.178), atingindo até um
terço da população, relegando-as a uma vida marginal em múltiplas dimensões. A ideologia do desempenho reproduzida irrefletidamente como escolhas, distinções e distanciamentos torna opaca a dominação, constituindo-se como autodestrutiva para aqueles que progressivamente assimilam as características do habitus precário. A autorrepresentação e a autoestima levam às consequências da ausência de reconhecimento social: infligem feridas profundas, atingindo suas vítimas com um autodesprezo que aceita a precariedade como legítima, merecida, justa – fechando o círculo de naturalização das desigualdades.
Essa naturalização pelo próprio oprimido – no sentido freireano – da sua condição social, impediria que o agente articulasse politicamente sua posição de classe à ação para sua superação. Ou, em termos marxianos, superasse a condição de classe em si, para agir como classe para si. Para Souza:
[...] é a circunstância da ‘naturalização’ da desigualdade periférica que não chega à consciência de suas vítimas, precisamente porque construída segundo as formas impessoais e peculiarmente opacas e intransparentes, devido à ação, também no âmbito do capitalismo periférico, de uma ideologia espontânea do capitalismo que traveste de universal e neutro o que é contingente e particular [...]. É apenas a partir da percepção da existência dessa dominação simbólica subpolítica [...] no cerne de instituições fundamentais como mercado e Estado, permite, por meio de prêmios e castigos empíricos associados ao funcionamento dessas instituições [...] a imposição objetiva, independentemente de qualquer intencionalidade individual, de toda uma concepção de mundo e de vida contingente e historicamente produzida sob a máscara da neutralidade e da objetividade inexorável. Essa hierarquia valorativa implícita e ancorada institucionalmente de forma invisível enquanto tal é que define quem é ou não é ‘gente’, sempre segundo critérios contingentes e culturalmente determinados (SOUZA, 2003, p.180).
A ideia de ‘ser gente’ habita a consciência cotidiana na modernidade tanto no centro como na periferia. Ela marca a hierarquia valorativa “subjacente à eficácia institucional de instituições fundamentais como estado e mercado” (SOUZA, 2003, p.180). A versão moderna da “ralé” não está submetida a uma relação de dominação pessoal. No contexto impessoal, são as:
[...] redes invisíveis de crenças compartilhadas pré-reflexivamente acerca do valor relativo de indivíduos e grupos, ancorados institucionalmente e reproduzidos cotidianamente pela ideologia incrustada nas práticas do dia-a- dia que determinam, agora, seu lugar social (SOUZA, 2003, p. 182).
Em vez de uma ‘esquematização’ do processo de modernização brasileiro, por suas heranças personalistas e pré-modernas [...], acho que a determinação da singularidade deste tipo de sociedade tem a ver com a especificidade da forma como a modernização se produziu em combinação com a ‘esquematização’ produzida pela ubíqua herança escravocrata. Esta herança, que também condiciona a vida do dependente de qualquer cor, naturaliza a existência e a percepção de ‘subgente’, no sentido não-retórico que estamos usando neste livro, ainda que sob condições especificamente modernas (SOUZA, 2003, p.184).
A importação das práticas institucionais não encontrou um terreno ideal de fundo moral que permitisse a consolidação da necessidade de homogeneização e generalização de um tipo humano comum a todas as classes. Pelo contrário, aqui essas práticas foram acompanhadas por ideologias pragmáticas – como o liberalismo – que facilitasse a introdução do mundo dos contratos sem qualquer limite a sua expansão e sem a constituição do consenso transclassista, o que resulta em processos históricos de dominação virulenta das classes dominantes sobre as classes inferiores, com especial inferiorização à “ralé”.
Essa limitação do acesso à ideia moderna de cidadania condicionou e reprimiu historicamente a terceira instituição fundamental, a esfera pública. Mesmo incipiente, a articulação de ideias e sentimentos coletivos na esfera pública foi fundamental para a consolidação de grandes transformações – abolição, 1930, inclusão política, políticas sociais, etc.
A contradição mais importante na modernidade periférica, é que ela não articula e polariza os interesses da burguesia/elite de um lado e trabalhadores de outro, mas sim uma “ralé” de excluídos de um lado e todos os grupos incluídos de outro. Essa conclusão coloca