Escravidão no Século XXI?
Uma reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo, em 06 de outubro de 2002, assinada por Fátima Fernandes e Claudia Rolli, apresentou um dado surpreendente e assustador: a Comissão Especial para o Combate ao Trabalho Escravo, vinculada ao Ministério da Justiça, anunciou que, somente neste século XXI, o número de trabalhadores descobertos em condição de escravidão chegara a 10 mil, concentrados no Norte e no Nordeste. A matéria apontava para a ocorrência de inúmeras denúncias de trabalho escravo, quase a totalidade em fazendas. Somente no Pará, foram registrados 75 casos em 2002, envolvendo mais de 3.000 trabalhadores,
Trabalhadores rurais alvos de operação da Polícia Federal que investiga denúncias de trabalho escravo, em Tucuruí, PA. Bernardo Gutiérrez/Folhapress
segundo dados da Comissão Pastoral da Terra – CPT, ligada à Igreja católica.
As práticas de manutenção do “trabalho forçado”, ou de trabalhadores reduzidos à condição de escravidão, são “justificadas”, segundo a reportagem, pelo desemprego elevado, pela falta de punição para quem escraviza (que, na maioria das vezes, mantém relações bem próximas com políticos locais e influentes – quando não são os próprios), e pelas péssimas condições de trabalho das equipes de fiscalização do Ministério do Trabalho, com pouco pessoal, falta de verba, ausência de apoio policial, atuando sob forte pressão política e ameaças de morte, feitas por grandes pecuaristas.
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No caso citado do estado do Pará, grande parte dos trabalhadores escravos é utilizada na derrubada de florestas, para posterior criação de pastos para o gado.
Sem alternativas de emprego, os trabalhadores são recrutados nas cidades mais pobres do interior, principalmente do Nordeste, através de um carro de som comandado por “gatos” – como são chamados os empreiteiros que trabalham para os fazendeiros. Segundo a reportagem, os empreiteiros “oferecem R$ 400,00 de abono e, como os traba- lhadores estão na miséria, acabam aceitando a oferta sem entender que já saem de lá com dívidas de passagem”, além de outras dívidas que vão contraindo no trabalho, por consumir os produtos colocados à venda pelos fazendeiros.
Após 2002, as notícias são de que houve aumento na fiscalização que é feita através do GERTRAF – Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado, que reúne sete ministérios, sob a coordenação do Ministério do Trabalho. Este fato – o aumento na fiscalização – é que teria provocado um aumento alarmante do número de casos que são divulgados a cada ano, segundo afirmam os estudiosos. Só para se ter uma ideia, a OIT – Organização Internacional do Trabalho – estimava que, apesar das ações do GERTRAF, ainda existiam no Brasil, em 2008, entre 25 mil e 40 mil trabalhadores escravos.
O diretor de cinema suíço Stéphane Brasey, que filmou o documentário- denúncia A Lenda da Terra Dourada, sobre a prática do trabalho escravo no Pará, recolheu depoimentos de trabalhadores e fazendeiros. Estes últimos, contra todas as leis trabalhistas e contra os direitos humanos, reclamavam: “O problema é ainda termos que pagar 13º salário, férias remuneradas e licença- -maternidade; por isso o Brasil continua um país de Terceiro Mundo” (Repórter
Brasil, 17/06/2008).1
Segundo outra reportagem, a agricultura canavieira, produtora de açúcar e álcool, liderou em 2008 o ranking de denúncias de trabalho escravo, segundo a CPT, com 36% do total das denúncias apuradas, o que significava, nesse ano, um total recorde de 280 casos registrados (Folha Online, 29/04/2009).2 No caso desse setor da
economia, as denúncias não atingem somente o Norte e o Nordeste do Brasil, onde persiste a maior incidência de trabalho escravo, mas também a região Sudeste, com essa prática podendo ser encontrada nas usinas do interior de São Paulo e de Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro. Estas “recrutavam” trabalhadores no Vale do Jequitinhonha, a região mais pobre do estado de Minas Gerais.
Como você pode observar, a história relatada acima, infelizmente, ainda faz parte da realidade atual do nosso país. Você sabia? Tinha essa informação? Seria possível imaginar que, ainda hoje, trabalhadores estão sendo submetidos a trabalhos forçados, como se ainda vivêssemos na época da escravidão? Por que será que isso acontece?
Esse tipo de violência que nos causa indignação, no entanto, já foi um dia considerada como “natural”... Por quê?
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Nem sempre tivemos
fábricas, salários, Facebook, futebol e...
Desde as eras mais remotas – aquelas que aprendemos nos livros didáticos a identificar como “pré-história” –, os seres humanos precisaram enfrentar os diferentes meios físicos da natureza na sua luta pela própria sobrevivência. Esse conflito entre o homem e a natureza, através dos tempos, deu origem a diversas e distintas formas de organização e cultura dos seres humanos entre si.
O contato entre os homens esta- beleceu regras de convívio e fez surgir diferentes agrupamentos, identificados por características comuns entre os membros do grupo, tais como, por exemplo, uma determinada crença sobrenatural ou a solidariedade neces- sária à caça de um animal selvagem de
O nível econômico: a forma pela qual a sociedade se organiza para produzir
os seus bens materiais.
O nível jurídico-político: o estabelecimento de normas e a sua transfor-
mação em leis que devem ser obedecidas por todos os seus membros, com a consequente criação de instituições que garantam o seu cumprimento.
O nível ideológico: a invenção de tradições, costumes e ideias que devem
ser entendidas como “naturais” e que, por isso, devem ser seguidas por todos aqueles que pertençam a uma determinada coletividade. Representa a forma pela qual aquela sociedade vê e analisa o mundo.
grande porte. São esses pequenos grupos que vão estabelecer o surgimento, mais tarde, de coletividades maiores e mais complexas que podemos chamar de
sociedades humanas.
Ao longo da História, diversos tipos de sociedades se formaram e também desapareceram. As diferentes sociedades humanas, entretanto, po- dem ser classificadas de acordo com a presença de algumas características comuns. Estas podem ser sintetizadas através do conceito teórico de modo
de produção, ou seja, a maneira
como a sociedade é organizada como um todo para garantir a sua própria sobrevivência e a sua continuidade (= a sua reprodução).
O conceito de modo de produção engloba três níveis diferentes:
Como as sociedades se organizam para produzir os seus bens materiais? Na foto, trabalhadores no mercado Ver-o-Peso, Belém (PA).
Tarso Sarraf/Folhapress
Entre os diversos tipos de sociedades que marcaram a História da humanidade, vamos destacar, neste capítulo, alguns aspectos de quatro distintos modos de produção: o primitivo, o asiático, o
escravista e o feudal. Antes,
porém, vamos procurar compreender alguns conceitos básicos que ajudam a explicar essas diferentes maneiras que o homem encontrou para se organizar coletivamente.
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Neste capítulo, o nosso principal objetivo é o de esclarecer conceitos referentes ao chamado nível econômico dos modos de produção. Os níveis
jurídico-político e ideológico, que nos
preocupamos apenas em definir, serão tratados com maior profundidade em outros capítulos deste livro.
Mas eu não entendo nada de economia...
Quando se fala em economia, a maioria das pessoas – e principalmente os jovens – geralmente “torce o nariz”. E nem poderia ser de outra forma, já que nos habituamos a escutar nos te- lejornais termos aparentemente incom- preensíveis, tais como inflação, juros,
déficit, com destaque para notícias
importantes, como a “queda do índice
da Bolsa de Valores” ou ainda “a mais recente alta do dólar”...
Quando falamos em bens estamos nos referindo a qualquer coisa ou maté-
ria produzida pelo homem: automóveis,
roupas, calçados, gêneros alimentícios, cadernos, cadeiras etc.
Serviços referem-se a atividades
desenvolvidas pelo homem, tão diver- sas como uma aula de Sociologia ou de Matemática, uma consulta médica, o atendimento ao público num estabeleci- mento bancário ou no posto do INSS, e assim por diante.
Bens e serviços são desenvolvidos pelo homem a partir da sua capacidade física e intelectual, a qual chamamos de
força de trabalho.
É através do trabalho que o homem transforma e domina a natureza, contri- buindo para a melhoria da sua qualidade de vida (a construção de uma hidrelétri- ca ou de uma ponte sobre um rio) ou até mesmo para a sua destruição (a poluição atmosférica provocada por uma fábrica ou a invenção da bomba atômica).
Todas as vezes em que os elemen-
tos da natureza são apropriados econo-
micamente pelo homem, eles se trans- formam em recursos naturais. Assim podemos chamar as árvores (matéria
bruta) que são cortadas em toras de ma-
deira (matéria-prima) para a fabricação de móveis (produto final).
Instrumento de produção é
qualquer bem utilizado pelo homem na transformação da matéria-prima e produção de outros bens e serviços. Definimos dessa forma as ferramentas de trabalho, as máquinas e os equipamentos (instrumentos de produção diretos), assim como o local de trabalho e a energia elétrica que utilizamos (instrumentos de
produção indiretos).
Como se pode perceber, tanto as matérias-primas como os instrumentos de produção citados acima formam o conjunto de “meios materiais” necessários à produção de qualquer tipo de bens ou de serviços. A esses meios
Image Source/Shannon Fagan
Será a economia tão complicada e assustadora como a maioria das pessoas pensa?
Na verdade, entender economia é muito mais simples do que parece.
Podemos defini-la como a forma
pela qual o conjunto de indivíduos existentes em uma sociedade participa da produção, da distribuição e do consumo de seus bens e serviços.
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materiais damos o nome de meios de
produção.
Uma característica que vai distin- guir os diversos tipos de sociedades que se constituíram historicamente é, exatamente, a forma pela qual o homem, através do trabalho, utilizou os meios de produção que lhe estavam, então, disponíveis. A essa associação entre o trabalho humano e os meios de produção damos o nome de forças produtivas. Cada sociedade, portanto, apresenta o seu conjunto de forças produtivas.
Por fim, um último conceito, que define a forma pela qual os diversos
homens ou agrupamentos se relacionam entre si em todo o processo de produção
material existente na sociedade: as relações de produção.
As relações de produção, como veremos a seguir, é que vão condicio- nar, juntamente com as forças produti- vas, a organização e o funcionamento da sociedade como um todo, estabele- cendo as distinções entre os diferentes modos de produção que caracterizaram a humanidade.
O trabalho e as
desigualdades sociais através da História da humanidade
É importante ressaltar que, nas diferentes sociedades humanas, ao mesmo tempo em que todos os in- divíduos procuravam lutar pela sua própria sobrevivência, alguns grupos sociais conseguiam se destacar e im- por a sua vontade e os seus interesses sobre o restante da coletividade.
Assim, dependendo do tipo de organização material que se impunha historicamente em cada sociedade, esses grupos sociais dominantes po- deriam ser identificados como com- postos majoritariamente por donos de
terras, por chefes militares ou por sacer- dotes. É claro que este tipo de “domina- ção” entre grupos sociais diferenciados dentro de uma mesma sociedade não acontecia, por exemplo, entre os povos indígenas encontrados pelos portugue- ses por ocasião da descoberta do Brasil. Mas, se pensarmos na grande maioria dos diversos tipos de sociedade que encon- tramos ao longo da História da humani- dade, identifica-se essa característica de apropriação do poder por determinados grupos, como estamos destacando.
Uma característica importante é que havia quase sempre uma coincidência de interesses entre o poder político, ou seja, aqueles que governavam a sociedade, determinando as leis que deveriam ser obedecidas por todos, e o
poder econômico, isto é, aqueles grupos
sociais que acabavam acumulando privilégios do ponto de vista material, em relação ao restante da sociedade.
Quando falamos em grupos sociais
dominantes e os identificamos com
aqueles que detinham algum tipo de poder, fosse ele militar, econômico ou
Pintura de Portinari: “Colheita de café”, (1951).
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religioso, fica subentendida a existência de grupos sociais dominados, ou seja, aqueles que se submetiam ao poder do primeiro grupo. Podemos destacar algumas características importantes, que aconteciam em quase todas as formas assumidas pelos modos de produção na História da humanidade.
Os grupos sociais dominantes são compostos quase sempre por uma parcela minoritária da população, que se destaca exatamente por exercer algum tipo de poder sobre a maioria. Por isso podemos chamá-los de elites. O sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto, no início do século XX, classificou-as como elites governantes, em oposição às massas não governantes (cf. RODRIGUES, 1984).
Outro italiano, Gaetano Mosca, já afirmara um pouco antes que, em todas as sociedades, existiam duas classes de
pessoas – uma classe que governa e uma classe que é governada. Mosca e Pareto,
juntamente com outros pensadores, como o inglês Robert Michels, são os responsáveis por aquela que ficou conhecida na Sociologia e na Ciência Política como a teoria das elites.
Karl Marx, porém, desde o século XIX, demonstrara que, na origem da divisão das sociedades em classes
sociais antagônicas (dominantes X dominados), havia um elemento comum:
a propriedade privada dos meios de
produção. Ou seja, a existência de uma
classe social que se apoderava, em um determinado momento, das terras férteis ou das riquezas minerais existentes.
O poder, a autoridade e a riqueza dessas classes dominantes poderiam ser mantidos através da força – daí a necessidade da constituição de forças policiais ou de poderosos exércitos, responsáveis pela “manutenção da ordem pública” – ou através do convencimento – para o qual foram fundamentais a criação de leis e de uma ideia de justiça, assim
como a submissão a uma “vontade divina”, determinada por uma religião. Dessa forma, as classes dominadas aceitavam e até defendiam a “superioridade” dos seus chefes, entendidos como mais “capazes”, mais “fortes”, mais “inteligentes” ou simplesmente “escolhidos” ou “ungidos” por um ser sobrenatural, um “deus” criador de tudo e de todos, responsável pelo estabelecimento de uma dada “ordem” (ou o status quo), sem a qual a sociedade não poderia sobreviver... Esse tipo de dominação é que está diretamente relacionado aos níveis jurídico-políticos e ideológicos, característicos dos diversos tipos de sociedades que se constituíram ao longo da História da humanidade.
Segundo um dos principais soci- ólogos do século XX, o alemão Max Weber, a afirmação do poder e da auto-
ridade em uma determinada sociedade
é identificada com uma importante ins- tituição: o Estado. Como o Estado e as suas instituições componentes (governo, polícia, justiça etc.) são reconhecidos por toda a população como responsá- veis pela manutenção da “ordem” detêm a legitimidade do monopólio do uso da força, impondo a vontade de um deter- minado grupo sobre a vontade de todos os outros indivíduos. Entendeu? O que Weber quis dizer quando se referiu à essa ideia de legitimidade e monopólio, por parte do Estado, em relação ao uso da força na sociedade, significa a exis- tência de um reconhecimento geral – ou seja, por parte de todos –, de que este é o papel que o Estado tem que cumprir, em determinadas situações de “crise” ou de “violência”. Esse reconhecimento as- sume um caráter legal, ou melhor, está respaldado nas leis, reconhecidas pela população, já que são elaboradas pelos seus representantes políticos. Todos são obrigados a cumprir as leis – teorica- mente, em benefício da “boa convivên- cia” e da “harmonia” entre todos.
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...para que esses antagonis- mos, essas classes com intereses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a so- ciedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da so- ciedade, chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da “ordem”. Este poder, nascido da sociedade, mas pos- to acima dela e se distancian- do cada vez mais, é o Estado.
(ENGELS, 2005, p. 191)
grande parte delas. Você poderá reparar que essa organização dos homens se dá principalmente em torno do trabalho, ou seja, a forma pela qual os homens reproduzem a sua própria existência como um todo.
A organização dos homens em sociedade através da História a) Sociedades tribais, “primitivas” ou
“sociedades sem Estado”
As primeiras formas de organi- zação social dos seres humanos se caracterizaram quando deixaram de ser nômades e se tornaram sedentários, isto é, fixaram-se em um lugar para cultivar a terra e praticar o pastoreio.
Nesse tipo de sociedade, os homens trabalhavam coletivamente, repartindo entre si o resultado da pesca, da caça e da coleta de frutos e de raízes. Não existia nenhuma forma de propriedade privada e as relações de produção eram caracterizadas pela ajuda mútua entre todos os membros da coletividade.
Não existia o Estado e a sociedade não era dividida em classes sociais, mas nessas comunidades tem origem a especialização de funções: uns caçam, outros plantam, uns fabricam cestos, outros dominam os ritos religiosos...
Apesar da utilização, por diver- sos autores, do termo “primitivo” em relação a essas sociedades, devemos chamar a atenção para algumas ques- tões importantes:
Outro autor, Friedrich Engels (2005), o principal parceiro de Karl Marx em muitas obras, afirmou que o Estado é um produto da sociedade quan- do esta chega a um determinado grau de desenvolvimento, apesar da sua compo- sição por classes sociais que têm inte- resses antagônicos e que, portanto, de- veriam se apresentar permanentemente em situação de conflito. Friedrich Engels (1820-1895), teórico revolucionário alemão, principal colaborador de Karl Marx com o qual fundou o marxismo.
AKG-Imagens/LatinStock
Segundo Engels:
Assim, partindo dessas primeiras reflexões, vamos conversar brevemente sobre a forma como distintas sociedades se organizaram através da História da humanidade, procurando perceber e entender algumas características que podemos definir como comuns a uma
• Não devemos considerá-las como “atrasadas” em relação a outras formas de organização social. Essa ideia conduziria à adoção de uma “teoria evolu- cionista”, como se um certo tipo de sociedade pudesse suceder
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Nas comunidades indígenas brasileiras não existe a divisão de classes sociais. Na maioria delas, uns caçam, outros pescam, outros plantam e outros dominam os ritos religiosos. Na foto, índios Kayapó jogam o Ronkrã, tradicional esporte entre eles, onde duas equipes batem com um bastão (Akêt) em um coco usado como bola (Paragominas, PA).
Janduari Simões/Folhapress
a outro tipo através da História – o que não corresponde à re- alidade, já que, até hoje, esse modo de produção pode ser en- contrado em povos ou nações em regiões tão distantes e dis- tintas como a América, a África e a Oceania.
• Trata-se, na verdade, de socie- dades extremamente comple- xas, principalmente do ponto de vista da sua cultura – o que foi demonstrado amplamente por inúmeras pesquisas efetua- das no campo da Antropologia. O antropólogo francês Pierre Clastres (1934-1977), inclusive, popularizou nas Ciências Soci- ais – em um texto publicado em 1974 – o termo sociedade con- tra o Estado que ele elaborou a partir das diversas pesquisas que desenvolveu na América Latina, na década de 1960 e início dos anos 1970 (cf. CLAS- TRES, 2003). Outro antropólo- go, o norte-americano Marshall Sahlins, pesquisando em so- ciedades que habitavam ilhas do Pacífico Ocidental, também formulou outro termo que con- tribui para entendê-las porque, segundo ele, essas seriam as
sociedades de abundância (cf. SAHLINS, 1976).
• Dentro desta forma de clas- sificação que aqui adotamos encontram-se sociedades com- pletamente distintas entre si sob o aspecto cultural, o que se reflete na sua forma de or- ganização social. Assim, que- remos registrar que a ideia de “sociedades tribais, primitivas ou sem Estado” está sendo uti- lizada apenas para destacar principalmente os elementos
econômicos comuns que estão presentes nessas diferentes so- ciedades.
b) Sociedades escravistas
Vamos recordar o texto de abertura deste capítulo, extraído de reportagens publicadas pela imprensa brasileira e da internet: afirmar que existem trabalhadores submetidos à escravidão significa dizer que há seres humanos obrigados a executar trabalhos forçados, sem receber nada em troca. Homens