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3.5 GRUPOS SELECIONADOS

3.5.1 Garotas de Liverpool

Fotografia 1: Formação atual da banda Garotas de Liverpool. Fotógrafo: Felipe Varão (2016)

Formada em março de 2012, a banda teve o propósito de levar algo novo para o cenário musical de Salvador: um cover feminino dos Beatles. A proposta foi

idealizada pela professora de música, Rosamélia Leone11, que compartilhou seus

planos com uma amiga do mesmo curso, chamada Cecília Sumaia, e ambas passaram a estruturar um caminho para o nascimento do grupo. Posteriormente, outras duas mulheres completaram aquela que seria a primeira formação da banda.

O nome foi inspirado no título brasileiro do filme Nowhere Boy, traduzido como “Garoto de Liverpool”, que mostra a juventude de John Lennon e o início dos Beatles. Após seis meses no cenário musical, as meninas lançaram seu primeiro EP (sigla de "extended play", que se refere a um CD com poucas músicas – sendo mais estendido do que um “single”), onde gravaram três músicas do grupo britânico e duas autorais. Afinal, este também é um objetivo das meninas – fazer músicas próprias, com o ritmo similar ao de seus ídolos.

No ano de 2014, com apenas dois anos de carreira, elas gravaram um DVD ao vivo no Beatles Social Club – Companhia da Pizza, que é bastante conhecido em Salvador por proporcionar o show de bandas covers que homenageiam os Beatles. Após algumas trocas de integrantes, além de Mel Leone (voz e violão), o grupo atualmente é formado por Juliana Levita (voz e guitarra), Daniela Ribeiro (voz e baixo) e Carol Pepa (voz e bateria).12

Elas se caracterizam com um figurino similar àqueles usados pelos britânicos no início da carreira – camisas brancas e coletes pretos. A banda sugere criar uma nova concepção de música, tendo o ídolo como ponto de partida. Já se apresentaram em rádios e TVs de Salvador, no intuito de falar sobre sua história e levar aos beatlemaníacos um tributo diferenciado.

A banda se considera um exemplo próprio de empoderamento, por não ter desistido de mostrar sua arte, devido às críticas e desrespeitos sofridos por parte do público masculino – principalmente no início da carreira. Tudo isso afeta, mesmo que ligeiramente, a imagem das garotas como musicistas e cantoras. Afinal, desde sempre escutamos que o rock é um estilo masculino, por ser algo mais rígido e “pesado”, mas, aos poucos, as mulheres estão driblando as dificuldades no intuito de conquistar seu próprio espaço.

11 Rosamélia prefere ser mencionada pelo seu apelido, Mel. Portanto, ao longo do trabalho, “Mel” nomeará esta cantora e violonista.

12 As informações dos três primeiros parágrafos deste tópico, foram baseadas no conteúdo existente na sessão “Sobre” da página do Facebook do grupo –

O preconceito de gênero no rock se manifesta de diversas formas, às vezes velado ou bastante explícito, sob a forma de insultos e xingamentos. Mas o que parece mais incomodar as musicistas é o descrédito da sociedade em geral e no próprio meio musical, o que faz com que elas tenham que se empenhar arduamente para provar que podem ser tão boas quanto os homens, seja compondo, empunhando uma guitarra ou tocando bateria. (DE PAULA, 2015, p. 13)

No início da popularização do rock, seus representantes masculinos costumavam apelar para a sensualidade – no intuito de “mexer” com os sentimentos das meninas. Com base nisso, o papel da mulher com relação a este gênero se resumia, a princípio, ao ato de ser fã, caracterizadas pela histeria. Como relatamos anteriormente, o período inicial da beatlemania foi algo marcado por esse desespero aparente, que, de acordo com Ferreira (2008), marcou a figura feminina na época.

Nessas circunstâncias tão desfavoráveis ao exercício da função de instrumentista, restou para a mulher o secundário papel de fã. Iniciada na década de 50 com Elvis Presley, a adoração ao ídolo masculino teve sua expressão máxima nos anos da “Beatlemania”. O forte apelo sexual desses ícones do rock potencializou as manifestações de apreço desencadeando uma atitude histérica sem precedentes. Não tendo a chance de participar ativamente da produção dessa cultura musical, a dedicação aos ídolos, a gritaria e o desespero tornaram-se uma espécie de válvula de escape para as angústias que afligiam as mulheres num período de intensa repressão. (FERREIRA, 2008, p. 21)

Com o passar dos anos, esse perfil de fã foi adquirindo uma relação mais firme com a música. No cenário musical de Salvador, são poucas as bandas formadas majoritariamente por mulheres, e no caso das covers, as Garotas de Liverpool são as únicas no estado. Apesar dessa escassez, as integrantes da banda acreditam que o trabalho delas se torna uma forma de incentivar outros grupos a continuarem, sem desistir de tentar alcançar grandes conquistas.

Atitudes como esta refletem o papel da mulher atualmente na sociedade. Uma se apoia na outra para tornar válida e significativa a luta contra o preconceito e o machismo no ambiente em que vivem. Esse movimento vem sendo intitulado como empoderamento feminino, onde segue pela busca do reconhecimento de seu trabalho, assim como autonomia nas atividades que realiza. Seja na música ou no cargo que tem numa determinada empresa, as mulheres não estão exercendo um papel único e monótono – como as fãs da década de 1960 –, pois querem mostrar que podem ser tão boas quanto eles.

No entanto, é preciso compreender que:

“é dentro desse contexto, no debate sobre as relações de poder, que é possível pensar na questão do empoderamento, como desafio das relações de poder entre homens e mulheres” (MARINHO e GONÇALVES, 2016, p. 82).

E é diante deste desafio, que a Garotas de Liverpool está construindo sua história em Salvador e região metropolitana. Pois, apesar de serem um grupo mais focado no tributo aos Beatles, em meio a esta representação, elas também proporcionam um debate significativo sobre a função da mulher na sociedade atual.

Consideramos que todo artista, seja ele cover ou autoral, exerce, mesmo que involuntariamente, algum tipo de influência em seu público apreciador. Pelo fato de tocarem para um conjunto de pessoas, passam mensagens musicais, e também corporais, através dos diálogos com seus espectadores. Dessa forma, esta banda feminina possui propostas sociais que mais adiante serão aprofundadas, durante a análise greimasiana do discurso.