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4.2 DESENVOLVIMENTO DA BANDA

4.2.4 O percurso do trabalho

O desenvolvimento do trabalho pode ser marcado por momentos bons, ou por dificuldades de adaptação.

A gente fez tudo errado! Até pra gente, não sabemos como chegamos a este ponto. Quando a gente começou a tocar, eu falei assim: “Ah, isso vai durar dois anos no máximo”, e é incrível que já tem dez anos e a banda está crescendo. A sequência de números de shows que a gente vem fazendo,

principalmente de 2015 pra cá, está aumentando. A gente está “quebrando” nosso

próprio recorde assim, de shows por ano. E é incrível, pois Salvador tem uma cultura meio de enjoar das coisas, de lugares, de bandas. Salvador é uma coisa meio que da modinha, a gente está na modinha do momento. (Ted, 07/11/2017

grifo nosso)

No percurso de seu trabalho, apesar das razões e das experiências ao tocar, os covers tendem a ter uma jornada que superam os limites pré-estabelecidos. Ted demonstrou ter um modo de pensar negativo no início da carreira da banda, dizendo que isso iria durar “dois anos no máximo”, pois para ele, tudo havia começado “errado”. Porém, ocorre uma mudança. Portanto, ao considerar o nível fundamental, nota-se que há uma oposição semântica presente neste depoimento, que fica da seguinte forma:

Expectativa (disfórica) vs. Realidade (eufórica)

Isso é perceptível através dos seguintes trechos: “A gente fez tudo errado”, “vai durar dois anos no máximo”, “já tem dez anos”, “a banda está crescendo”, “a gente está na modinha do momento”. Dessa forma, o depoimento retrata, com relação à banda, uma expectativa frustrada e sem esperança de dar certo – por constatar que “Salvador tem uma cultura meio de enjoar das coisas, de lugares, de bandas”. Mas, ao desenvolver do trabalho, quando eles passaram a levar a sério, Ted percebeu que eles acabaram “quebrando” o “próprio recorde de shows”. Isso soa como algo positivo, uma realidade não esperada, anteriormente.

Assim, a realidade, ou seja, o resultado daquilo que é feito pela Cavern Beatles, superou as expectativas disfóricas de Ted, tornando-se uma surpresa – principalmente quando diz que a banda “já tem dez anos”. No entanto, ocorre uma transformação sobre a situação do sujeito Ted, quando aquilo que ele imaginava se projetou de forma diferente durante o percurso da banda. Verifiquemos a continuação de seu depoimento:

Então a gente foi fazendo tudo meio que nas “coxas” assim, sem pensar: “Vamos fazer isso porque isso aqui é o caminho certo”. E entramos também nesse

mercado de casamento, formatura, muito por acaso. Tocava no casamento de

um conhecido e tal, chama, leva e aí vai levando. O que a gente sempre tem que

fazer é cultivar a forma profissional de trabalhar, porque tem assessoria, tem

empresas de som, empresa de buffet e tal. Casamento é uma indústria né, meio

que a gente começou a entender como funciona, então é um lance muito mais profissional do que tocar em barzinho, por exemplo. Então, com isso, a gente começou a tomar alguns cuidados de imagem, de postura, coisas assim… Pois a gente começou a perceber que realmente era uma profissão, então nós que somos músicos temos que prezar um pouco por isso, essa coisa da profissão, de saber que você está indo ali trabalhar, não está indo se divertir. Então a gente foi aprendendo no meio do caminho a lidar com certas situações. (Ted,

07/11/2017 – grifo nosso)

Com isso, Ted mostra a realidade (resultado do trabalho, que superou as ideias frustradas de antes) como algo mais instigante e sério para ele e a banda. E a função deles foi a de “cultivar a forma profissional de trabalhar”, assim como “tomar alguns cuidados de imagem, de postura”. Pois, devido a transformação que ocorreu, com relação ao que era antes (no começo da banda), para o que é agora, eles se aventuraram em “formaturas” e “casamentos”, tendo, portanto, que “amadurecer” profissionalmente.

Esse relato também projeta uma relação persuasiva entre enunciador e enunciatário, mostrando que é possível começar algo, que mesmo sem muitas expectativas de crescimento, pode surpreender no futuro. Pois, ao longo do tempo, bons valores podem ser adquiridos com a iniciativa. Mas, ao fim de seu texto, Ted também revela uma outra possível realidade a ser vivenciada, o fato de ter que “lidar com certas situações”, isto é, com as dificuldades que surgem. Isso será explicado melhor, com o trecho a seguir:

Eu acho que é mais interna mesmo. Os cinco entenderem o trabalho, entenderem a missão, e aí é mais difícil você lidar com pessoas. E aí, eu acho que isso é mais difícil, você colocar na cabeça das pessoas: “Isso aqui não pode”; “Não pode fazer isso aqui”; ou, “Vamos fazer isso aqui, a gente precisa

de compreensão, precisa passar o som”. As pessoas acham que é só chegar lá e

tocar, mas a gente tem que passar o som. Durante a semana tem que resolver coisa, tem que ligar para a empresa de som, saber se o som vai estar pronto, se não vai... saber se o gerador tá ligado pra gente poder passar o som. Então essas coisas se

tornaram um negócio maior do que a gente imaginava, com coisas que até hoje a gente vai aprendendo, sabe? Até hoje isso é novo pra gente, então como é que vai lidar com essa situação? (Ted, 07/11/2017 – grifo nosso)

Diante desta última parte do discurso de Ted, percebe-se que as maiores dificuldades encontradas pela banda ocorrem internamente – entre os integrantes. Novamente, por meio da relação com o enunciatário, Ted pontua que durante o processo de mudança de uma situação (mesmo sendo para algo melhor, especificamente, dentro de uma banda), podem ser estabelecidas duas perspectivas: de compreender a importância de levar uma atividade a sério, e saber se reconhecer como músico – principalmente quando se faz cover. Por isso ele enfatiza que, para o grupo pensar assim, em sua completude, é preciso que entendam o “trabalho” e a “missão” deles. E apesar de toda transformação obtida, e o acolhimento de valores como o da felicidade, Ted ainda se mostra um enunciatário preocupado e especulativo, ao relatar que “essas coisas se tornaram um negócio maior do que a gente imaginava, com coisas que até hoje a gente vai aprendendo. Até hoje isso é novo pra gente, então como é que vai lidar com essa situação?”.

No final de sua fala, Ted deixa um questionamento referente ao próprio processo de mudança e aprendizado. Seja entre eles, com o público, ou como profissionais do ramo musical, as incertezas e dúvidas ainda pairam sobre como agir. Então, como lidar com a situação do novo? Essa é ainda uma pergunta sem respostas concretas para Ted, no entanto, para as mulheres da Garotas de Liverpool, uma pergunta similar também pode ser formulada: como lidar com situações discriminatórias? Pois, o fato de serem mulheres trouxe a elas alguns tipos de ocorrências.

Os assédios. Algumas vezes [os homens] são agressivos. Mas ao mesmo tempo que rola o assédio, os caras também têm um pouco de receio de chegar assim na gente, entendeu? Não é preconceito, mas eles ficam intimidados.

Porque é como eu disse, não é falta de modéstia, é pé no chão. Eu acho que nós

somos boas no que fazemos, mas as pessoas percebem isso ou não, ou acham outras coisas, mas respeitam. Então quando chegam, chegam com um certo respeito. Quando não são agressivas, elas chegam com certo respeito. (Juliana, 13/11/2017 – grifo nosso)

Apesar de apresentar, no tópico sobre o público, uma relação de amizade entre a banda e os espectadores, Juliana também demonstra uma outra “face” disso. O respeito seria a parte eufórica dessa relação, ou seja, algo positivo; já o assédio seria o contrário, algo disfórico. Temos, portanto, uma nova contradição formada, só que dessa vez relacionada ao público da Garotas de Liverpool. Isso pode ser visto através de: “Quando não são agressivas, elas chegam com certo respeito”, “Algumas vezes [os homens] são agressivos”. Com base nisso, faremos a utilização do quadrado semiótico, para mostrar a relação que há entre essa contradição:

S1 S2

assédio respeito

S2 S1

não-respeito não-assédio

Relação entre contrários

Relação entre contraditórios Relação entre complementares

Este procedimento apresenta a oposição presente entre assédio e respeito existente na fala de Juliana, onde entende-se que pode haver uma passagem do assédio para o respeito (“quando eles ficam intimidados”). Portanto, apesar de mencionar a existência do assédio e sua possibilidade de ocorrer durante os shows, em seu relato, Juliana concorda que ela e a banda são “boas” no que fazem – o que pode gerar um não-assédio, assim como um não-respeito. Então, apesar dessas situações indesejadas, Juliana percorre o caminho de uma expectativa positiva, ao afirmar que as pessoas “chegam com um certo respeito”, mas sempre atenta a possibilidade de um “não-respeito”.

Sobre como é feito esse assédio, ela explica da seguinte forma:

Os caras falando coisas de baixo calão, ou desmerecendo a gente como banda, por sermos mulheres. A gente tá lá, eu tô lá fazendo um solo bacana e aí o cara “Mas é gostosa”. Ele me tira do lugar de guitarrista, pra me colocar no lugar de uma pessoa inferior por ser mulher. Eu estou abaixo dele, eu sou submissa porque eu sou do sexo feminino. Pode até ser de uma maneira inconsciente da parte dele, de tentar deslegitimar um trabalho que a gente tá fazendo. Então

quando eles não são agressivos, eles são desse jeito: chegam na brodagem, na amizade, e se tornam nossos amigos. (Juliana, 13/11/2017 – grifo nosso)

Dessa forma, Juliana relaciona dois tipos de público masculino que as assistem: os agressivos e os que se tornam amigos delas. E ao classificá-los dessa forma, seu discurso traz elementos que ancoram sua fala no contexto em que vivem durante as apresentações, ou seja, termos que os caracterizam assim, para dar veracidade à informação compartilhada. Com relação aos agressivos ela relata: ficam “falando coisas de baixo calão, ou desmerecendo a gente como banda”, e tendem a colocar ela “no lugar de uma pessoa inferior por ser mulher”. Os termos desmerecendo, inferior, abaixo, submissa e deslegitimar ancoram a versão de Juliana nessa perspectiva de agressão verbal vinda de alguns homens. Enquanto as palavras brodagem e amizade, ancoram ou melhor, caracterizam aqueles que desejam ser amigos.

Assim, notamos que o desenvolvimento de bandas covers ou tributo trilha um caminho particular, voltado ao seu crescimento próprio, assim como aprendizado – o que não difere com relação a bandas de outros estilos. Ted, da Cavern Beatles, se surpreende com o avanço do grupo, apesar dos desafios vividos entre os integrantes. Enquanto isso, as mulheres da Garotas de Liverpool vivem em meio a aceitação ou não de seu trabalho. Portanto, isso pode ter relação com o contexto onde se vive, o que podem fazer para se relacionar consigo e com as pessoas que os acompanham.