3 O PAPEL DO GOVERNO NA DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS DE SAÚDE E A CONSEQUÊNCIA DA MUDANÇA NA FORMA DE DISTRIBUIÇÃO DA SAÚDE
3.3 Gasto do governo no modelo simples de crescimento endógeno
Os modelos de crescimento endógeno assumem rendimentos constantes no conceito amplo do capital. Barro (1990) inclui, nesses modelos, os serviços do governo financiados pelos impostos, que afetam a produção ou a utilidade. O crescimento e as taxas de poupança caem com o aumento dos gastos em utilidade. Com relação aos gastos do governo em produção, esses dois fatores aumentam no início, vindo a diminuir posteriormente. Com a arrecadação de impostos, as decisões descentralizadas de crescimento e poupança são baixas. Mas, se a função de produção for do tipo Cobb- Douglas, o governo otimizador ainda satisfará a condição natural da produção eficiente. A evidência empírica entre os países suporta algumas destas hipóteses sobre o governo e o crescimento.
Diante desta intuição, Barro destaca a idéia de que os modelos recentes de crescimento econômico podem gerar o crescimento no longo prazo sem considerar mudanças exógenas na tecnologia ou na população. Alguns modelos estão baseados no progresso tecnológico, e outros, nas teorias da mudança populacional. Como característica geral, tem-se a presença de rendimentos constantes ou crescentes sobre fatores que podem ser acumulados.
O autor aponta que um segmento da literatura do crescimento econômico endógeno trata os modelos nos quais os rendimentos dos investimentos privados e sociais divergem, de modo que as escolhas descentralizadas levam a taxas sub-ótimas de poupança e crescimento econômico. Sob esse aspecto, os rendimentos de escala privados podem ser decrescentes, mas os rendimentos sociais, que refletem os gastos em conhecimento e em outras externalidades, como a saúde, podem ser constantes ou crescentes. Outra linha de pesquisa envolve modelos sem externalidades, nos quais as escolhas privadas de poupança e crescimento são Pareto-ótimas. Esses modelos consideram os rendimentos constantes do capital privado, definidos largamente por condizer tanto com o capital humano quanto com o não-humano.
A análise proposta pelo autor observa os dois aspectos da literatura, por incorporar o setor público em um modelo simples de rendimentos constantes do crescimento econômico. Por causa das externalidades familiares associadas aos gastos públicos e aos impostos, os valores de poupança e crescimento econômico considerados privados podem ser sub- ótimos. Portanto, existem escolhas interessantes de políticas de governo, assim como previsões empíricas sobre as relações entre o tamanho do governo, a poupança, e a taxa de crescimento econômico.
Após discorrer sobre a literatura que comporta uma série de estudos sobre a relação entre o governo e o crescimento econômico, Barro faz menção ao seu estudo de 19891, no qual são considerados 98 países no período após a II Guerra Mundial. O autor modifica os dados de gasto do governo apresentados por Summers e Heston em 19882, subtraindo as razões do PNB de gasto do governo em defesa e educação entre 1970 e 1985. O valor
1 BARRO, Robert J. Economic Growth in a Cross Section of Countries. Working Paper n. 3120. Cambridge:
NBER, set. 1989.
2 SUMMERS, Robert; HESTON, Alan. A New Set of International Comparisons of Real Product and Price
médio para cada país nesse período, denominado gc y, foi usado como uma proxy da
razão do gasto do governo h y, que entra diretamente na função utilidade no modelo
teórico. A identificação de c
g com y é imperfeita. Por exemplo, os serviços de polícia
(um componente de c
g ) influenciariam os direitos de propriedade e, portanto, afetariam o
investimento privado e o crescimento.
Barro mediu, ainda, a razão do investimento bruto público pelo PNB, denominada
y
gi . Este investimento público corresponde ao estoque de capital público g
k , que gera
um fluxo de serviços considerado pelo autor como comparável aos serviços produtivos g na teoria. Esta medida empírica identifica g com “serviços de infra-estrutura”, tais como transporte, água, energia elétrica e assim por diante, lembrando que hospitais e escolas também são componentes do capital público. Assim como na identificação de c
g com h , a
identificação do fluxo de serviços do capital público com os serviços produtivos do governo é imperfeita.
No modelo, onde o capital público é combinado ao capital privado, já que a produção desses dois setores é vista como governada pela mesma função de produção, o estoque de capital público corresponde à fração do estoque total k que produz os serviços públicos, isto é, kg
(
g y)
.k= . Então, g y pode ser medido pela razão kg k. Uma vez que os dados
de g
k e k não estão disponíveis para a maioria dos países, Barro aproximou kg k pela
razão dos investimentos brutos, onde gi i é a soma do investimento privado e público,
supondo-se que g y é constante no tempo para cada país, e que os capitais público e
privado têm as mesmas taxas de depreciação. De acordo com a teoria, a relação da taxa de crescimento γ com gi i depende do comportamento dos governos. Quando estes se
aproximam do ponto de crescimento máximo, γ e gi i mostram pouca correlação cross- section. Por outro lado, a associação variaria conforme a quantidade de serviços públicos
produtivos utilizados pelos governos.
Para os 98 países cujo gc y foi medido por Barro, uma regressão da taxa de
crescimento média anual do PNB real per capita de 1960 a 1985, em um conjunto de variáveis explicativas, levou ao coeficiente estimado de gc y de –0,12 (erro padrão =
0,03). Temos, portanto, a indicação de que um aumento dos recursos destinados aos serviços do governo não-produtivos (mas que possivelmente aumentem a utilidade) está associado ao menor crescimento per capita.
Nos 76 países cujos dados de investimento público estão disponíveis, o coeficiente estimado de gi i foi 0,014 (erro padrão = 0,022). Apesar de positiva, a estimativa foi
insignificantemente diferente de zero. Este resultado é consistente com a hipótese de que um país chega próximo à quantidade do investimento público que maximiza a taxa de crescimento.
Se a razão do investimento público com o PNB, gi y, substitui gi i como variável
explicativa na equação de crescimento, o coeficiente estimado é positivo novamente, porém, insignificante: 0,13 (erro padrão = 0,10). Além disso, se a variável i y estiver
incluída como um regressor, o coeficiente estimado de i y é 0,073 (erro padrão = 0,039), e
o de gi y é –0,015 (erro padrão = 0,119). Considerando a teoria, o coeficiente positivo de
y
i pode ser interpretado como influência comum das variáveis omitidas no investimento e
no crescimento. De qualquer maneira, uma vez que a razão do investimento total i y é
mantida constante, não há efeito separado do crescimento pela diminuição da relação do investimento total entre os componentes público e privado.
O autor conclui que estes resultados empíricos são representativos nas pesquisas sobre os determinantes do crescimento econômico entre os países. Além da ênfase no governo, esta pesquisa enfoca os efeitos do capital humano, das distorções de mercado e da estabilidade econômica.