Quero declarar a minha satisfação pessoal em poder colaborar com este Projeto de História Oral do Exército Brasileiro sobre os acontecimentos relativos à Revolução de 31 de Março de 1964. Pelo que já foi dito na leitura de meu
curriculum vitae, na época eu era Major e servia no Estado-Maior do Exército, quando da eclosão da Revolução de 1964. Só tenho a dizer, nesse momento, que agradeço essa oportunidade de poder relatar tudo que for possível, que a minha memória ajudar, sobre o que pude colher como observação e ensinamentos, da-quilo que foi esta nossa Revolução de 31 de Março de 1964.
Qual a sua experiência pessoal nos pródromos da Revolução, na sua eclosão, e duran-te o seu desenvolvimento?
Queria me reportar inicialmente aos pródromos, porque, a partir daí, tenho também participação do que se deu durante a Revolução. Tinha feito o meu estágio de Estado-Maior em Campo Grande, capital do então Estado de Mato Grosso, após o Curso da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), e lá fiquei por dois anos, até ser transferido para o Rio de Janeiro, para a Diretoria de Instrução. Isso foi de 1960 para 1961, e, logo depois, aconteceu a renúncia do Jânio Quadros, que acabou por levar, a meu ver, ao Movimento de 1964.
Com essa renúncia, fui transferido da Diretoria de Instrução para a Secreta-ria Geral do Conselho de Segurança Nacional, que funcionava na esquina da Rua Uruguaiana com a Avenida Presidente Vargas, em um edifício cuja loja no térreo era a Casa da Borracha. Ali, recebi do Mário Andreazza as funções na Seção An-ticomunista (SAC).
Lembro-me dele falando: “Sampaio, você tem que guardar nomes: João Ama-zonas, Jover Telles.” Aqueles principais líderes, figuras daquele tempo, do comu-nismo, pertencentes à direção dos partidos ou organizações comunistas na época. O tempo foi passando e procurei desempenhar as minhas atribuições na Seção. Acredito que, naquele período, tenha agradado aos chefes a minha maneira de proceder, de escrever e de relatar fatos.
Posteriormente, eu e mais uns quatro companheiros fomos distinguidos com um curso de aperfeiçoamento de informações, na Alemanha.
Durante esse período, aconteceram muitas coisas aqui no Brasil. Começou a se desenvolver aquela tendência do Governo Goulart, que foi o substituto do Jânio Quadros, de deixar se empolgar pelos líderes marxistas, e a coisa começou a “degringolar”. Passamos a conviver com uma época que se tornou conturbada. Terminado o curso, voltei para a Secretaria do Conselho, continuando o meu serviço, até que, em agosto de 1963, senti que não “estava agradando”, e soube,
depois, que o General Assis Brasil, que era o Chefe da Casa Militar do Governo Goulart, tendo em vista informações que ele recebeu a respeito da minha atuação, achou por bem me tirar daquela Seção e me passar para outra, sem grande impor-tância, em um andar embaixo.
Ele se dizia o chefe do esquema militar do João Goulart.
Esquema militar, exatamente, do estamento militar, que poderia ser a defesa do Governo.
Então, fui para essa outra Seção e um mês depois fui surpreendido com um Boletim que me exonerava da função, desligava-me do Conselho, mas não me dava um destino. Todos nós militares sabemos que, para uma transferência ser executa-da, são necessários três atos: o primeiro é a transferência propriamente dita, dando um destino, o segundo é a exoneração da função e o terceiro é o desligamento da Organização Militar em que se está servindo.
Em seguida, recebi ordens de sair imediatamente do prédio da Casa da Borra-cha, e só retornar para apanhar a minha caderneta de vencimentos, na portaria, sem entrar no prédio. Quer dizer, fui expulso da Secretaria do Conselho de Segurança. Em vista disso, apanhei os meus pertences e fui embora.
Já na rua tomei uma condução para a minha casa, na Tijuca. No meio do caminho fiquei pensando: “Bom, estou indo embora para casa, mas não sei qual o meu destino, onde é que vou receber o dinheiro para comprar o pão no fim do mês, não tenho para onde ir, não me disseram para onde eu vou”.
Quando passei em frente ao hoje Palácio Duque de Caxias, onde naquela época funcionava o Quartel-General (QG) do Ministério da Guerra, desci da condu-ção e entrei, à paisana mesmo, no QG. Um colega até me viu e disse: “Sampaio, o que é que você esta fazendo aqui, à paisana.” Eu disse: “Ah, estou numa emergên-cia, vou me apresentar ao Estado-Maior do Exército (EME).” E fui.
Fui recebido por um coronel, cujo nome não me lembro, que, após ouvir o relato do fato, me disse: “Mas é verdade o que o senhor está dizendo?” Eu disse: “É verdade, estou aqui à paisana, acabei de ser praticamente expulso.”
Ele então me disse: “Isso é uma coisa muito grave, vou dar ciência ao General Castello – o General Castello era o Chefe do Estado-Maior do Exército. Ele entrou, falou com o General Castello, voltou, e disse: “O General quer conversar com o senhor.”
Entrei no gabinete, ele me olhou, “com aquele jeito dele”, sem pescoço e disse: “É verdade o que eu acabei de ouvir?” Respondi: “Sim senhor, é verdade.” E ele: “O senhor está à paisana e veio...” E eu: “Sim senhor, já expliquei que eu trabalhava à paisana e, nas circunstâncias em que as coisas se puseram, tive que...”.
Ele continuou: “Não, o senhor fez muito bem, eu só queria perguntar se o senhor confirma tudo isso que o Coronel me disse.” Respondi: “Confirmo sim senhor”. Ele então disse: “Coronel, o senhor providencie um lugar aqui no Estado-Maior para o Major servir.” O Coronel disse: “Vai para a 1a Seção.” E o General Castello: “Então, amanhã o senhor se apresente aqui, mas fardado”. Ainda fez questão de dizer isso. Fiquei no Estado-Maior do Exército de setembro de 1963 até a eclosão da Revolução, tendo ali assistido ao Comício da Central do Brasil no dia 13 de março e à Reunião dos Sargentos no Automóvel Clube do Brasil, no dia 30 de março, episódios que culminaram na Revolução. Esses são os acontecimentos que vivi, com relação aos pródromos; foi o que aconteceu comigo. A partir daí, é claro, não poderia ter outra perspectiva de ação do que ser contra tudo aquilo que estava acontecendo, pois comigo mesmo acontecera aquele absurdo: ser expulso de uma Unidade, de um Estabelecimento, de uma Organização, da ma-neira que fui.
Passado esse tempo, veio a Revolução. Na noite de 31 de março para 1o de abril, estava na minha casa, na Tijuca, ouvindo as notícias pelo rádio. A televisão naquele tempo ainda era meio difícil...
Ao saber que o General Castello estava reunindo um comando da Revolução na Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME), pensei: “Bom, vou me apresentar lá”, mas sabia que para sair da Tijuca, no meu carro – que, aliás, era uma Kombi – com um outro colega, eu teria – naquele tempo não havia o Túnel Santa Bárbara – que passar pela Avenida Presidente Vargas.
Quando estávamos chegando, vi aquele alvoroço, uma turba, o pessoal na Central, gritando o nome do Jango, com aquelas bandeiras vermelhas, foice e mar-telo, e eu disse: “Bom, para eu passar agora, vou ter que imaginar um meio”. A maneira encontrada foi gritarmos, eu e meu colega, das janelas da Kombi: “Jango, Jango”, e, devagarzinho, conseguimos passar, e fomos para a ECEME, chegamos lá já escurecendo, era 1o de abril, no fim do dia.
Apresentamo-nos na Escola, à paisana, porque tinha essa circunstância de ter de passar pelo Centro do Rio de Janeiro. O fato é que o General Castello estava na Escola, chefiando grupos, para fazer a Revolução aqui no Rio de Janeiro.
O Comandante era o Mamede.
Exatamente. Após a apresentação, anotaram de onde eu vinha: “Sou do Esta-do-Maior do Exército”. O fato é que, passadas algumas horas, eu e esse colega recebemos uma missão de ir até a Avenida Pasteur, no bairro da Urca, a pé, à paisana, para verificar indícios da chegada de um pequeno navio da Marinha que, segundo diziam, vinha com fuzileiros para atacar a Escola. Saímos andando e nada
vimos, encontramos até um coronel, cujo nome não me lembro, a memória é ruim, que disse: “O que é que vocês estão fazendo aqui?” Respondi: “Nós estamos com ‘tal’ missão.” E ele: “Não, eu já estive por ali também, não tem nada não.” Então, volta-mos, demos a notícia, e continuamos lá na Escola.
À noite, não sei a que horas, um emissário me disse que o General Castello estava querendo falar comigo, então fui lá; ao chegar ele olhou para mim e disse: “O senhor à paisana.” Respondi: “Sim senhor, as circunstâncias são as mesmas, estou pronto para receber qualquer missão.” Ele disse: “Bom, quero o seguinte: o senhor foi lá do Conselho de Segurança, e conhece bem aqueles meandros.” Res-pondi: “Conheço tudo.” E ele: “Então a sua missão é ir lá, retomar o prédio do Conselho, o senhor pode, está autorizado a recrutar oficiais, alunos da ECEME.” Peguei uns 15, não me lembro mais, com outros companheiros que tinham condu-ção, enchi a Kombi, e tocamos, de madrugada, para o prédio da Casa da Borracha. Chegando lá, tudo fechado e apagado, bati na porta, demorou um pouco, acendeu uma luz, e veio um sargento, que me conhecia bem, pois eu tinha servido lá com ele. Abriu aquela portinhola de vidro, me viu, e disse: “Major, o senhor?” Eu disse: “Sou eu, vim retomar esse prédio aqui, tem alguém aí?” “Não senhor, me deixaram aqui sozinho, disseram que tinha não sei o quê, mas que eu ficasse aqui, que eu estou de serviço.” Eu continuei: “Então abra”. Ele abriu, eu disse: “Você vai resistir, alguma coisa?” E ele: “Deus me livre Major, contra o senhor”, e fez menção de tirar o revólver, porque ele estava armado. Os companheiros disseram: “Olha, cuidado que ele está armado.” Eu falei: “Não, ele não vai fazer nada.” De fato, ele disse: “Não, o senhor quer o meu revólver? Então respondi: “Não, quero entrar aí.”
Com isso cumpri a missão que era tomar o Conselho de Segurança. Telefonei para a Escola, dizendo que tinha cumprido a missão e estava aguardando ordens. Disseram: “O senhor aguarde ordens aí na Secretaria do Conselho, fique com uns três ou quatro oficiais e dispense os outros.” Esses foram os fatos, e, no dia 06 de abril, retornei para o Conselho de Segurança, através de classificação oficial, lá perma-necendo e continuando com a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI).
O senhor voltou ao lugar de onde fora expulso?
Fui expulso, mas voltei, deu-me uma satisfação muito grande, “lavei a alma”. Esse foi o início da minha participação na Revolução. Nessa mesma noite, soube que o então Coronel Montagna, naquela época, depois General, foi quem recebeu a missão de ir retomar o QG da Costa (Quartel-General da Artilharia de Costa), em Copacabana.
Quais, no seu entender, foram às raízes da Revolução de 31 de Março de 1964?
Essas raízes, no meu entender, por tudo que sei, vêm de bastante tempo atrás, daquelas revoluções antigas, da Revolução da Escola Militar de 1922, 1924, 1926, do tenentismo, até 1935, quando houve a Intentona Comunista, primeira tentativa dos comunistas de implantar a ditadura marxista-leninista no Brasil.
Atacaram seus companheiros que morreram dormindo. Foi uma vil traição. Aí, começou o ódio contra aqueles homens, que foram traidores...
Ódio contra o comunismo, é claro, exacerbado ainda mais com esses fatos. Então, para mim, essas são as raízes mais profundas, acho que são dessa época.
Tivemos também outros períodos, já mais para frente um pouco, na época do Juscelino Kubistchek, depois começou aquele negócio dos sargentos pleitearem a possibilidade de serem eleitos deputados... E começou a haver, então, uma certa transformação na hierarquia, porque aquilo tudo trazia, em conseqüência, fatos que feriam a disciplina. No Exército sempre se disse: “As Forças Armadas são apolíticas, não pode haver partidos dentro do Exército”, e tendo sargentos deputados, ou qualquer coisa que o valha, já se começava a subverter esse princípio. Então, no meu entendimento, as raízes são essas.
O senhor acha que a guerra fria teve alguma influência na nossa Revolução?
Acho que teve, porque, depois da Segunda Guerra Mundial, veio a guerra fria, e com uma intensidade muito grande, a propaganda esquerdista, vermelha ou bolchevista, que vinha da Europa, em particular, chegou até Cuba. Durante a guerra fria a dicotomia de ideologias – comunismo contra democracia – cresceu exatamente por causa do aumento da propaganda. A execução de atos aqui dentro e as infil-trações ocorreram por influência dessa propaganda. A Revolução foi uma maneira de se antepor a essa influência do Movimento Comunista Internacional, chamado MCI.
Havia, naquela época, um clima de insatisfação contra o Governo João Goulart? Esta-va bem caracterizado isso?
Havia, fora de qualquer dúvida, pela maneira como o Governo João Goulart estava conduzindo as suas ações, admitindo esses descalabros que feriam a discipli-na, admitindo manifestações contra autoridades, demonstrando falta de vontade política de conter os excessos e a influência comunista, cada vez maior, com enor-me infiltração nos sindicatos e confederações de trabalhadores, que passaram a ser entidades a serviço da subversão.
Os Ministros, inclusive os militares, temiam o CGT, o Comando Geral dos Trabalhadores, que mandava mesmo, tendo como secretário-geral Dante Pelacani,
cujas ordens faziam curvar-se o Ministro do Trabalho, Amauri Silva, que não reali-zava nenhuma nomeação para cargo de direção sem a aprovação de Pelacani.
Consta que usou o seu poder para a demissão do Ministro da Marinha, Silvio Mota, porque mandou prender aqueles marinheiros sublevados, após a vergonhosa rebelião feita no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, em Triagem.
Exatamente, e o Dante agia assim: “Não, esse não queremos, coloca esse.”
E colocaram o tal de Paulo Mário, que era um decrépito e que se fez presente à reunião do Automóvel Clube do Brasil, a reunião da indisciplina.
Foi chamado para ser ministro, desmoralizado, fazendo questão de cum-primentar aquele cabo Anselmo na frente de todas aquelas autoridades. Imagine isso, chegamos a uma época de completa subversão da ordem e da hierarquia, indicando, claramente, que a intenção de João Goulart era transformar o nosso País numa república sindicalista, marxista-leninista.
Paralelamente, ativavam-se organismos que tinham um papel no processo de comunização do País. Refiro-me aos “grupos dos onze”, criados pelo senhor Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, e que se espalharam pelo Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás etc., e as “Ligas Camponesas”, do senhor Francisco Julião, no Nordeste, em Pernambuco principalmente.
E até no Centro-Oeste.
Além disso, o movimento de cultura popular, que foi uma criação do Miguel Arraes, do Gregório Bezerra, que era o homem que mandava nesse negócio, fazen-do cartilhas preparadas no sentifazen-do de “fazer a cabeça” daquela juventude; in-clusive, uma das publicações dessa cartilha se chamava “O tijolo”, e nela constava o seguinte: “Como é que é feito o tijolo? É tirado da terra, a terra é do agricultor, que é pobre. E esse tijolo é feito por quem? É feito pelos operários, pobres. E para quê? Para fazer a casa dos ricos”. É tudo uma seqüência para “colocar na cabeça” dos pobres que eles estavam sendo explorados pelos ricos; então, o exemplo era o tijolo, as coisas eram concebidas dessa forma.
Na época, qual era a posição da Igreja?
Uma parte da Igreja, uma minoria de pouca expressão era simpática aos comunistas, e por quê? Por causa da infiltração também nos quadros da Igreja. Na época, inclusive, ela organizou movimentos de juventude – a Juventude Operária Católica (JOC), a JUC, que era a Juventude Universitária Católica –, todos com uma finalidade muito nobre, mas que foram sendo infiltradas por elementos que passa-ram justamente a subverter tudo aquilo que ela tinha de bom em termo de religião, que é um fator de peso para a nossa sociedade.
E muita gente entrava ali enganada, os inocentes úteis.
Inocentes úteis. A grande maioria da Igreja temia a comunização do País. Os religiosos em geral eram contrários à agitação característica daquele período, a qual era incitada pelo próprio Governo.
O Olavo de Carvalho citou que ele começou sendo iludido numa organização que era católica, toda infiltrada, e a pessoa que realmente doutrinava nada tinha a ver com religião.
Exatamente. Muita gente de boa fé foi ludibriada.
Uma grande parte da Igreja que estava conosco, participou das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, o senhor se lembra?
Foi uma coisa sublime, porque a religiosidade do povo brasileiro falou mais alto. Então, foram organizadas essas Marchas da Família com Deus pela Liber-dade, um fato muito positivo que levou o Exército a se conscientizar de que o povo estava nas ruas exigindo uma inadiável tomada de posição.
Importante, porque despertou as Forças Armadas, porque o povo ali se posicionara definitivamente.
Ficou claro que o povo não estava compactuando com aquilo que o governo tentava fazer crer com a sua propaganda.
Existiam cisões dentro das Forças Armadas? Como era o ambiente dentro dos quartéis?
Na época, eu estava na Secretaria do Conselho ou no Estado-Maior do Exérci-to (EME), não lidava diretamente com os corpos de tropa, mas tínhamos informa-ções de que o ambiente nos quartéis, em primeiro lugar, era de perplexidade, com a juventude militar se perguntando: “Para onde vamos, onde vamos parar?” Havia uma clara infiltração esquerdista com o mesmo discurso de 1961, utilizado por ocasião da renúncia de Jânio Quadros, no sentido de defender a legalidade do Go-verno, considerando que ele deveria permanecer, apesar da anarquia reinante. En-tão, havia divergências, mas eram pequenas, com relação aos efetivos tendentes a apoiar o governo. Essas minorias é que criavam atritos dentro dos quartéis, para testar o comandante, se ele teria ou não a capacidade de se fazer impor. A grande maioria não suportava mais a situação caótica que perdurava em todo o País.
Quais os fatos determinantes do desencadeamento da Revolução de 1964?
Em primeiro lugar, todos que se interessassem pelo Brasil, não só pela função que pudessem estar exercendo, mas como patriotas, analisassem a situação nacional, veriam que ela estava em franco declínio, porque a sua economia estava se destroçando nos três setores, primário, secundário e terciário, ou seja, na agricultura, na indústria e
nos serviços. A agricultura, dominada pelos sindicatos rurais e pelas “Ligas Campone-sas”, a indústria pelos sindicatos das classes, não podia produzir, ninguém podia traba-lhar, era greve de todo lado, todo dia; a pior situação era nos serviços, sobretudo nos transportes que não funcionavam, tudo paralisado a toda hora, pela ação do CGT e do PUA, onde as facções mais comprometidas com os desvarios eram a dos ferroviários e dos estivadores, os quais impediam a todo momento, respectivamente, o trabalho nas ferrovias e nas atividades de carga e descarga dos navios nos portos.
Então essa era a situação do País que o povo estava custando a entender ou admitir. Como é que um Brasil tão grande, com tanto potencial para crescer e desenvolver-se, chegava a esse ponto? Era a pergunta que se fazia.
Depois, para colocar mais fogo na caldeira prestes a explodir, tivemos o Comício da Central do Brasil. Naquele comício, eu estava na janela lá da frente (o entrevistado se refere ao Palácio Duque de Caxias, onde funcionava o então Ministério da Guerra), assistindo àquele negócio: foi um estrondo, uma coisa, confusões, faixas, até a mulher do Presidente, Maria Tereza, estava no palanque, gente gritando “morte aos gorilas”, referindo-se a nós militares contrários àquela baderna, mas com a presença, o que é o absurdo maior, do Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro, que disse que não ia àquele ato e acabou indo. O General Castello foi convidado e mandou dizer que não ia. Embora fosse ainda major, sabia que muitos generais estavam chegando para o Castello e dizendo: “Mas General, como é que vai ser isso aí?” Então, ele distribuiu aquele manifesto, aquela circular, mandando que a gente se contivesse porque não era ainda chegada a hora, mas que ia chegar.
Depois tivemos a revolta dos marinheiros, onde a desordem atingiu as raias