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CAPÍTULO 2 O BRASIL DOS GENERAIS

2.6 General João Baptista Figueiredo (1979 a 1985)

Em 15 de março de 1979, assume o Gal. João Baptista Figueiredo, nascido no Rio de Janeiro, o último dos generais. Seu governo foi marcado por reformas, onde extinguiu o sistema bipartidário, surgindo então vários partidos, declarou anistia dos militares e perseguidos políticos, devolveu o direito pleno aos exilados.

Segundo Bosco (2008, p.306), o general Figueiredo assumiu a presidência da República reafirmando o projeto de abertura política iniciado no governo anterior e uma série de compromissos:

[...] manter os ideais (sociedade livre e democrática) da Revolução de 1964; fazer do Brasil uma democracia; prosseguir

com as reformas de Geisel; sustentar a independência dos poderes; garantir os direitos constitucionais a todos; conciliar-se com todos os brasileiros; propiciar vida digna aos cidadãos; dar prioridade para o desenvolvimento agropecuário; combater a inflação; promover o equilíbrio das contas internacionais; fazer das cidades locais habitáveis; garantir a cada trabalhador a remuneração justa; garantir direitos de assistência (saúde, educação, previdência) aos brasileiros.

O caminho da redemocratização foi aberto com a aprovação da Lei de Anistia (Lei 6683/79) que, apesar das restrições (excetuam-se os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal), reverteu punições aos cidadãos destituídos de seus empregos, presos políticos, parlamentares cassados desde 1964 e permitiu a volta de exilados ao país. Também, trouxe benefícios aos militares, pois anistiou os responsáveis pelos excessos cometidos em nome do governo e da segurança nacional. Do ponto de vista moral essa Lei era considerada injusta por alguns movimentos, pois, isentava de qualquer responsabilidade os militares e aqueles que colaboraram com os órgãos repressores do regime, até mesmo os excessos que incluíam desde torturas até mortes. Por outro lado, entendia que guerrilheiros envolvidos em mortes, denominados de crime de sangue, não estariam inclusos na Lei. As famílias dos desaparecidos durante a repressão também não se viam contempladas por essa Lei, em virtude de que os órgãos repressores não assumiam a responsabilidade pelo paradeiro daqueles que estiveram detidos em suas dependências.

Outro importante passo para a redemocratização foi a Reforma Partidária, aprovada em novembro de 1979, pelo Congresso Nacional, a reforma extinguia Arena e MDB e restabelecia a formação de novos partidos. Formaram-se então, o Partido Democrático Social (PDS), que reunia a maior parte dos governistas, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), constituído pelos militantes do antigo MDB; o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Democrático Trabalhista (PDT) liderado por Leonel Brizola, o Partido do Trabalhadores (PT), liderado por Luís Inácio Lula da Silva e o Partido Popular (PP) tendo como principal liderança Tancredo Neves. Os partidos comunistas continuaram na ilegalidade.

Também em novembro, foi aprovado o projeto do governo que previa para 1982, eleições diretas para governadores, deputado federal e estadual, prefeito

e vereadores e ainda extinguia a figura do senador eleito indiretamente (senadores biônicos).

Para Maria Helena M. Alves (2005, p.324), o objetivo da reforma partidária era enfraquecer a oposição:

Ao mesmo tempo que procurava fragmentar e dividir a expressão política dos setores mais conservadores da ampla aliança oposicionista, a nova Lei Orgânica dos Partidos esforçava-se para excluir totalmente as vozes mais radicais do novo movimento popular. Líderes sindicais e membros das organizações e comunidades de base já se empenhavam na criação de um Partido dos Trabalhadores (PT). A nova Lei tentou impedi-lo com a redação do Parágrafo 3º, Item III do Artigo 5º. “Não se poderá utilizar designação ou denominação partidária, nem se fará arregimentação de filiados ou adeptos, com base em credos religiosos ou sentimentos de raça ou classe”. Esperava-se que o Superior Tribunal Eleitoral recusasse o registro do Partido dos Trabalhadores sob a alegação desses “elementos de classe”, mas o PT teve êxito em sua argumentação de que incluía entre seus filiados camponeses e membros da classe média, além de operários, e de que sua arregimentação baseava-se no programa partidário, e não em motivação classista.

A década de 1980 representou um momento de fronteira na política e na vida social do povo brasileiro. Havia basicamente dois caminhos onde um era o retorno da democracia e o outro era a manutenção da ditadura militar. A maioria da população clamava pelo retorno da democracia, mas ainda havia um grupo de militares radicais que pretendia manter a ditadura militar, colocando obstáculos ao processo de abertura do regime e que organizou um conjunto de ações violentas para intimidar a organização da sociedade civil no processo de abertura política. Em São Paulo, bancas de jornais foram incendiadas, e no Rio de Janeiro, foram enviadas cartas-bombas à Câmara Municipal e ao presidente da Ordem dos Advogados no Brasil (OAB).

Mas, em abril de 1981, se instalou uma grave crise militar no governo de Figueiredo, quando num ato terrorista, duas bombas explodiram nas imediações do Riocentro, Rio de Janeiro, numa comemoração antecipada do Dia do Trabalho54. Com enorme repercussão pública, a oposição exigia do governo uma

investigação, visto que os suspeitos eram um sargento e um capitão do Exército, mas o inquérito não apontou responsáveis e encerrou-se as investigações.

Em relação à política econômica, o governo de Figueiredo esteve em meio a uma grave crise, efeito ainda da instabilidade do petróleo iniciada na década de 1970. No início da década de 1980, o Brasil enfrentava uma alta recessão econômica com elevadas taxas de inflação, desvalorização da moeda nacional, arrocho salarial e elevação do custo de vida.

Concomitantemente com a crise econômica, desde 1978, os trabalhadores insatisfeitos se aliaram aos sindicatos com greves eclodindo nas mais diversas categorias profissionais, destacando a paralisação dos metalúrgicos do ABC paulista, em 1980. Essa greve estendeu-se por 41 dias, e como resultado houve demissões, confrontos com policiais militares e do Exército. O governo buscou respaldo na Lei de Segurança Nacional (LSN), processando líderes sindicais e intervindo em sindicatos.

Em novembro de 1982 realizaram-se eleições diretas para o Congresso e os governos estaduais. A oposição obteve maioria na Câmara dos Deputados, e o PDS, no Senado e nos governos estaduais.

Em 1984 cresceram as manifestações com a campanha “Diretas Já” com o objetivo de pressionar o governo e o Poder Legislativo a aprovar as eleições diretas para a presidência da República. Milhões de brasileiros foram às ruas e participaram de comícios com o objetivo de apoiar a Emenda Constitucional das diretas, de autoria do deputado peemedebista Dante de Oliveira. Essa emenda foi apresentada e rejeitada no mesmo ano, pela Câmara dos Deputados. Entretanto, mesmo sem conseguir a quantidade suficiente de votos no Congresso Nacional, a emenda enfraqueceu o bloco de apoio ao governo militar. Ocorreu então uma eleição indireta para a escolha do novo chefe do Poder Executivo, isto é, feita pelos representantes do povo, os deputados federais que compunham o Congresso Nacional naquele momento.

Através da eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985, foram eleitos para presidência Tancredo Neves e para vice-presidência José Sarney, derrotando os candidatos governistas Paulo Maluf e Flávio Marcílio.