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CAPÍTULO 2 O BRASIL DOS GENERAIS

2.1 Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1964 a 1967)

Em 15 de abril de 1964, o Congresso Nacional elege o cearense Mal. Castelo Branco como o primeiro presidente militar da Ditadura. Seu governo foi marcado por autoritarismo, contrariando o que defendia em seus pronunciamentos, a exemplo de seu discurso de posse, como nos mostra João Bosco Bonfim (2008, p.270):

Defenderei e cumprirei com honra e lealdade a Constituição do Brasil, inclusive o Ato Institucional que a integra. [...] Nossa vocação é a liberdade democrática, governo da maioria com a colaboração e respeito das minorias. [...] caminharemos para a frente, com a segurança de que o remédio para os malefícios da

36 Durante o regime civil-militar o Brasil teve sucessivamente militares como Presidente da República: Gal. Castello Branco, Gal. Costa e Silva, Gal. Médici, Gal. Ernesto Geisel e Gal. Figueiredo, respectivamente.

37 VANDRÉ, Geraldo. Pra não dizer que não falei das flores. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=A_2Gtz-zAzM

extrema esquerda, não será o nascimento de uma direita reacionária, mas o das reformas que se fizerem necessárias.

Para o Chagas (1985), o articulador que promoveu a eleição de Castelo Branco foi o Gal. Golbery do Couto e Silva, mentor principal do IPES e da conspiração, e que logo depois da posse do novo presidente recebeu a incumbência de criar o Serviço Nacional de Informações (SNI)38.

O SNI, criado e administrado pelos militares, tinha como objetivo principal o de preservar a Segurança Nacional. Seu alvo eram os denominados movimentos comunistas, desde sindicatos da classe trabalhadora até movimentos estudantis, que passaram a ser constantemente monitorados. Com isso, os centros de ensino superior do país passaram a ser rigorosamente vistoriados por autoridades do regime, pois eram vistos como a maior ameaça pelos militares. Para que pudesse exercer seu poder contou com uma legislação especifica voltada a lhe dar amplos poderes de ação.

No primeiro momento de sua fundação, o SNI, foi comandado pelo General Golbery e contou com ajuda dos Estados Unidos, mais especificamente da CIA americana, que designou um agente para vir ao Brasil e ajudar no processo de estruturação do órgão.

O governo de Castelo Branco foi marcado por promulgação de atos e emendas institucionais, que permitiam ao poder executivo manter total e exclusivo controle sobre o Estado.

Em julho de 1964, foi aprovada a Emenda Constitucional nº 9, que prorrogou o mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967 e mantinha a eleição direta para governador de estado. Na eleição para governador, em 03 de outubro de 196539, houve uma expressiva vitória da oposição nos estados:

Guanabara, Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Norte. Em outubro de 1965, Golbery, se utilizando da estrutura do SNI, a pedido do então presidente Castelo Branco que por sua vez capitulava diante de pressão das alas mais radicais das Forças Armadas, ajudou a redigir mais um Ato, o chamado Ato Institucional nº 2 (AI-2).

38 O SNI foi criado através da Lei 4341 de 13 de junho de 1964 e substituiu por completo o SFICI. 39 Essa eleição era para os onze estados, cujos governadores exerciam mandato de cinco anos, tais como: Alagoas, Goiás, Guanabara, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e Santa Catarina.

O AI-2, assinado em 27 de outubro de 1965, aboliu o sistema político pluripartidário vigente até aquele momento. Para manter uma aparente democracia, foi permitida a criação de dois partidos políticos, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) que representava o governo ou situação, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) que abrigaria todos os partidos da oposição.

O AI-2 também tinha como objetivo a submissão do Congresso Nacional, pois o poder executivo poderia a qualquer momento fechar e colocá-lo em recesso, sempre que esse não estivesse alinhado às decisões do governo.

A isso se seguiu quase imediatamente o AI-3, assinado em 03 de fevereiro de 1966. Criado para combater a derrota maciça da ARENA nas eleições estaduais, estabelecendo a eleição indireta para prefeitos de capitais40 e para governadores, efetivamente destruindo a democracia no Brasil.

O AI-4 permitiu o preparo de uma nova carta constitucional, que foi posta em vigência no ano de 1967. É outorgada, em janeiro de 1967, a nova Constituição do Brasil, imposta pelo governo militar. Aprovada em março do mesmo ano, institucionalizou e legalizou o regime militar oriundo do golpe de 1964. Foi o último Ato Institucional assinado por Castelo Branco.

Em relação à área econômica, com o objetivo de combater a inflação, retomar o crescimento econômico e normalizar o crédito, Castelo Branco implementou o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG). Segundo a doutrina do PAEG, as facilidades para o investimento estrangeiro no país eram necessárias para acelerar o crescimento da economia, com isso incentivou a entrada do capital estrangeiro, revogando para isso a lei de remessa de lucros41 que estabelecia restrições à remessa de lucros ao exterior, atraindo investimentos externos.

O último ato legal, assinado por Castelo Branco foi o Decreto-Lei nº 314 de 13 de março de 1967 que define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social entre outras providências.

40 O art. 4º determinava que os prefeitos dos municípios das capitais seriam nomeados pelos governadores de estado, mediante prévio assentimento da Assembleia Legislativa ao nome proposto. O § 1º tratava da eleição dos prefeitos dos demais municípios, que seria por voto direto e maioria simples.

41 A Lei 4.131/1962, que disciplina a aplicação do capital estrangeiro e as remessas de valores para o exterior, foi sancionada pelo presidente João Goulart, cujo projeto de lei já havia sido enviado ao Legislativo ainda no governo Vargas. A Lei da Remessa de Lucros, como ficaria conhecida, desfavorecia as empresas estrangeiras instaladas no país.

Alguns meses depois de deixar o governo, precisamente no dia 18 de julho de 1967, Castelo Branco morreu em um acidente aéreo ocorrido no Ceará, onde o pequeno avião em que se encontrava foi atingido pela asa de um jato de treinamento da Força Aérea Brasileira, próximos do aeroporto de Fortaleza. As investigações precárias da época determinaram que o piloto do pequeno avião fora o culpado pelo acidente. Mas o local do acidente não foi devidamente preservado para que uma perícia apontasse as causas, criando até hoje, uma suspeita de que o governo da época tivesse interesse no acidente.