Parte 2 | Caracterização das áreas estudadas e métodos
4. Monumento Natural Cuevas de Fuentes de León
4.3. Geomorfologia
O MNCFL apresenta características muito peculiares na sua geomorfologia em relação a outras áreas da Península Ibérica. Uma vez se localiza próximo da cordilheira da Serra Morena (Espanha), que separa a depressão do rio Guadalquivir da Meseta Ibérica (BARRIENTOS ALFAGEME et al., 1985; Figs. 47 e 48). Tal cordilheira torna-se uma barreira física aos ventos de influência mediterrânica, expondo a área aos ventos do setor sudoeste, tornando-se um lugar com maior pluviosidade (FONT TULLOT, 2007). O posicionamento geográfico do MNCFL na Extremadura espanhola torna-o numa região de "fronteiras" no que se refere aos aspectos climáticos e biogeográficos extremamente dinâmicos (BARRIENTOS ALFAGEME et al., 1985).
Os processos de intemperismo e erosão desta área são típicos de superfícies calcárias, verificando-se com recorrência que a rocha exposta origina numerosos campos de lapiás e outras formações exocársticas, havendo acumulação simultânea de depósitos de “terra rossa” (ALGABA et al., 2000; FERNÁNDEZ et al., 2007)
Fig. 48. Mapa da geomorfologia de Extremadura espanhola com destaque para a posição do MNCFL numa zona de fronteira.
4.4. Hidrologia
Os rios da Extremadura espanhola instalam-se em leitos de rochas calcárias e dolomíticas fraturadas, que originam inúmeros sumidouros e ressurgências com caudais que atravessam todo o conjunto cárstico (ALGABA et al., 2000; FERNÁNDEZ et al., 2007). O conjunto de cavernas principais do MNCFL está localizado junto à confluência das ribeiras Montemayor e Santa Cruz (Fig. 50). Estas ribeiras fazem parte da bacia hidrográfica do rio Guadalquivir.
4.5. O clima atual
Na ausência de estudos detalhados sobre o clima da região do MNCFL, adota-se as informações constantes para a baixa Extremadura, que se localizada dentro da região mediterrânica, mais propriamente no piso bioclimático mesomediterrânico (VÁZQUEZ PARDO et al., 2001), classificada como zona parda de clima mediterrânico continental atenuado (FONT TULLOT, 2007).
Trata-se de uma região com invernos suaves e chuvosos, com apenas cerca de 5 a 10 dias no ano onde são registradas temperaturas abaixo de 0 °C. O verão é seco e quente chegando a registrar-se temperaturas de até 45 °C (FONT TULLOT, 2007). A média das temperaturas anuais medidas para a região da Extremadura são muito mais amenas demonstrando, numa pesquisa de 1961-1990, temperatura média mínima à volta de 19.03 °C e temperaturas média máxima de 27.85 °C (PÉREZ FERNÁNDEZ et al., 2011).
4.6. Bioma mediterrânico
A vegetação desta zona é caracterizada por otimizar a conservação de água, sendo essencialmente constituída por plantas xerófilas, com folhas pequenas e duras para evitar a perda de água através da evaporação, ou com estômatos que se fecham durante os períodos mais quentes. Muitas plantas segregam substâncias oleosas (óleos essenciais) que impermeabilizam as folhas ajudando-as a diminuir a evaporação (tomilho, orégão, alecrim, etc). Muitas plantas perdem suas folhas não no outono, mais sim no verão que é a época mais quente, diminuindo a superfície de evaporação e poupando energia. As raízes são muito desenvolvidas para chegar às camadas do solo onde existe mais umidade. As copas são mais abertas que altas, pois não interessa crescer muito e sim cobrir o máximo de solo possível de modo a reduzir a insolação para diminuir a evaporação. Sendo estas algumas das características das plantas xerófilas (ALCARAZ, 1995; VÁZQUEZ PARDO et al., 2001).
A área do MNCFL é uma área de carvalhal e de soutos, com alguma vegetação de bosque de ribeira, próximo da confluência dos rios. Atualmente, a vegetação é muito antropizada, com a presença de espécies arbóreas como Quercus ilex, Quercus suber, Olea sylvestris e de arbustos como Cistus ladanifer, Pistacia lentiscus e Pistacia sp. (ALCARAZ, 1995; Fig. 50).
Na região são encontrados no estado selvagem javalis, cervos, gato montês, lagartos, etc.
Fig. 50. Mapa da vegetação encontrada na região da Extremadura espanhola. Adaptado de ALCARAZ, 1995.
4.7. Dados paleoclimáticos
Ao contrário das condições climáticas amenas que se observam na atualidade, as pesquisas efetuadas nesta região demonstram que as condições climáticas no Neolítico eram muito diversas das atuais afetando tanto a prática de caça e pesca, como a prática de coleta (LOPEZ, 1988; HODDER, 1982).
Numa pesquisa de antracologia, realizada nas cavernas desta região, obtiveram-se cerca de 3 100 fragmentos de carvão, que possibilitaram a identificação de diversos taxa que foram divididos em gimnospermas (Pinus nigra-sylvestris e Juniperus sp.), angiospérmicas dicotiledóneas (Alnus glutinosa, Arbutus unedo, Cistaceae sp., Erica sp., Fraxinus sp., Labiatae sp., Leguminosae sp., Olea europaea, Phillyrea sp., Rhamnus alaternus, Pistacia lentiscus, Pistacia terebinthus, Populus sp., Salix sp., Quercus sp., Rosacea t. maloidea, Rubus fruticosus e Viburnum tinus) e angiospérmicas monocotiledóneas (ESPINO, 2011). Desta forma, os dados anteriores sugerem a existência no passado de um panorama de vegetação complexa, composta por coníferas e maior diversidade de carvalhos com elementos ciliares do que a vegetação encontrada hoje neste
ambiente, que é caracterizada por carvalhos mesofilos e sobreiros (RIVERA NUÑEZ et al., 1988; ESPINO, 2011 MAGRI & PALOMBO, 2011).
Entre os dados obtidos especificamente na caverna de Los Postes, observa-se que nas unidades estratigráficas UE 12 e 11, há um predomínio de uma vegetação esclerófila- evergreen3, onde se destacam as espécies Olea sp. e, em menor extensão, Quercus ilex- coccifera. Estas unidades apresentam datações absolutas de 7 360 ± 50 anos BP (ESPINO, 2011). Nas unidades estratigráficas UE 10 a 8, datadas de há 7 000 a 5 445±40 anos BP, encontra-se uma nova fase que é marcada pela ausência de Pinus nigra-sylvestris, Quercus sp. e pouca percentagem de Juniperus sp. As UE 7 a 5 estão relacionadas com a idade do cobre, observando-se um drástico declínio da espécie de Olea sp. e menos acentuado noutras espécies, tal como o Quercus suber, e um notável aumento de arbustos como Arbustus, Pistacia, Cistaceae e Leguminosae, entre outras que estão associadas a transformação do ambiente pela sociedade (ESPINO, 2011).
No estudo efetuado na caverna de Los Postes foi notória uma mudança clara de uma vegetação arbórea para um tipo de vegetação arbustiva no período pesquisado. Tal informação encontra respaldo nos dados polínicos realizados na caverna, que demonstra uma paisagem muito diferente da atual, com espécies mais típicas de um clima muito mais frio a volta do 9.5 ka BP.
Apesar de existirem poucos dados para o sudoeste de Espanha, a presença de uma vegetação esclerófila-evergreen não parecer ser única, tendo sido encontrada correspondência em vestígios antracológicos no Tejo português e em polens da região de Cáceres, datadas do Holoceno inical a médio.
Em relação à fauna da área do MNCFL, foram identificadas algumas espécies através da morfologia dos ossos encontrados dentro da caverna Los Postes. Os restos de animais encontrados pertenciam ao calcolítico e Neolítico tardio, correspondendo a mamíferos, aves, répteis e anfíbios, alguns com possíveis marcas antrópicas, num cenário semelhante à de outras ocupações da Extremadura e outras parte de Espanha (LOPEZ & MOLERO, 1984; GONZALES CORDERO et al., 1988).
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Entre as estratégias adaptativas deste tipo de vegetação, salienta-se o facto de terem folhas serrilhadas e rígidas, com uma superfície pouco a muito espinhosa, apresentando, por vezes, tricomas e ainda glândulas produtoras de óleo, capazes de criar uma película que reduz a evaporação, tornando-a resistente a períodos quentes e secos.
Para além da pesquisa acima citada, foram enviados para estudos isotópicos alguns fragmentos de ossos de animais encontrados na caverna, que foram identificados, com o auxílio do Prof. Doutor Bruno Colaço do Departamento de Zootecnia da UTAD, como pertencentes a leporinos, caprinos e canídeos. Dos ossos observados identificou-se um, como sendo de caprino (na primeira unidade estratigráfica), que apresentava possíveis marcas de manipulação antrópica (Fig. 51). Contudo, serão necessários mais estudos para responder a quetões relativas à domesticação da espécie encontrada e a sua funcionalidade em contexto ritualístico (RUSSEL, 2002).
Fig. 51. Possíveis marcas de manipulação antrópica em osso de caprino, encontrado na caverna de Los Postes.
4.8. Arqueologia
Das cinco cavernas que constitui o MNCFL, até ao momento apenas nas cavernas de El Caballo, Los Postes e Del Agua foram encontrados vestígios antrópicos pré-históricos (ALGABA et al., 2000; FERNÁNDEZ et al., 2007).
De acordo com as informações do Centro de Interpretação do MNCFL a zona foi largamente ocupada pelo Homem desde o paleolítico, a exemplo de outras partes da Extremadura espanhola (BARRIENTOS ALFAGEME et al., 1985). Os vestígios de ocupação da caverna inserem-se no modelo de subsistência dos grupos que habitaram a região na pré-história, há aproximadamente 9 ka BP (epipaleolítico).
No sítio Los Postes os estudos realizados sobre o espólio ósseo encontrado na caverna caracterizam o local como "ritualístico", sem indícios de habitação (HODDER, 1982; TOMÉ, 2010; BERROCAL-RANGEL, 2004; GIBAJA et al., 2012).
A ocupação em períodos históricos também estão registrados na cultura e na paisagem da região, com a presença de assentamento na idade do ferro no alto da Sierra del Castro, presença de espólio e de uma vila romana e a presença do Castillo del Cuerno, uma fortificação medieval do século X e XIV (GIBELLO BRAVO & GÓMEZ HERNÁNDEZ, 2007; COLLADO GIRALDO, 2014).
Nas escavações observou-se pelo menos 40 cm de sedimentos muito perturbado, seja por ação antrópica (escavações clandestinas em busca do "ouro" romano), seja por animais à procura de abrigo e alimento (SAN NICOLÁS, 1985; COLLADO GIRALDO, 2014). A presença de arte rupestre foi identificada até o momento apenas nas paredes da Cueva de la Agua, com formato em zig-zag (Fig. 52).
Fig. 52. Gravura encontrada com forma em "zig-zag" na caverna de Cueva del Agua.