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Gerd Theissen é um autor com contribuições importantes para nossa temática. Primei- ramente, difundiu a idéia de “carismatismo itinerante” como um modelo para o cristianismo primitivo.140 Isto é importante, porque coloca os milagres e seus praticantes, os carismáticos itinerantes, no arcabouço de uma teoria sociológica da origem do cristianismo. Além disso, estas obras estão traduzidas em português já há bastante tempo, motivo de sua difusão por aqui.

Interessa-nos também a discussão do autor acerca das histórias de milagres propria- mente ditas. Já em 1973 Theissen publica seu livro Urchristliche Wundergeschichten, tra- duzido em 1983 para o inglês como The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. Pensamos ser esta uma obra interessante para quem quiser aprofundar-se no assunto dos milagres, uma vez que discute extensivamente a forma literária história de milagre, abrindo possibilidades interessantes ao se trabalhar com este tipo de texto. As três grandes partes da obra tratam sucessivamente das histórias de milagres como formas estruturadas – uma perspectiva sincrônica, portanto –,141 como narrativas reproduzidas – isto é, a perspectiva diacrônica, da tradição –,142 e finalmente como ações simbólicas – uma perspectiva funcio- nalista.143

Importante também é esta advertência de Theissen no final da obra:

... exegetas modernos ao invés disso dão a impressão de que o milagre é a criança ilegítima da fé, cuja existência tentam, por vergonha, oferecer des- culpas. O orgulho da Igreja Antiga com relação aos milagres tornou-se seu oposto. Um ‘protestantismo cultural filológico’ os acha primitivos demais; a

139 CORNELLI, Gabriele. “Introdução: Metodologia e Resultados Atuais da Busca pelo Jesus Histórico”. In.

CHEVITARESE, André Leonardo; CORNELLI, Gabriele; SELVATICI, Monica. Jesus de Nazaré: Uma Ou- tra História. pp. 23 – 24.

140 THEISSEN, Gerd. Sociologia da Cristandade Primitiva. Cf. também THEISSEN, Gerd. Sociologia do Mo-

vimento de Jesus.

141 THEISSEN, Gerd. The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. Pp. 43 – 121. 142 THEISSEN, Gerd. The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. Pp. 125 – 228. 143 THEISSEN, Gerd. The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. Pp. 231 – 302.

profundidade hermenêutica os suspende, os ‘explica’ e os enterra com louvo- res.144

Conclui dizendo que

O importante das histórias de milagres é a revelação do sagrado nos mila- gres, em milagres de salvação tangíveis, materiais. O respeito pelos homens e mulheres do cristianismo primitivo, que contavam-nas e se vinculavam a elas, nos obriga a admitir isso e nem todas as perplexidades modernas sobre estes textos justificam modificá-los.145

Este respeito para com as histórias de milagres, bem como os resultados obtidos por esta obra com relação à forma literária aparecem novamente no posterior O Jesus Histórico:

Um Manual. Também retorna a percepção sociológica apurada com relação aos primórdios

do cristianismo. Isso possibilita que o capítulo dez desta obra, intitulado “Jesus Como A- quele que Cura: os milagres de Jesus”146 logre ser uma discussão muito ponderada e interes- sante sobre todos os autores que discutimos até aqui. Isso se dá, também, devido a ser o mais recente dos textos aqui considerados: é uma obra de 1996, traduzida para o português em 2002. Theissen acaba por ser um mediador entre as posições de Crossan e de Meier. Trata ainda dos “tipos ideais”, e traça dois perfis paralelos de operadores de milagres: os “milagres mágicos” e os “milagres carismáticos”, não muito diferente do de Meier. Todavia, ainda preserva o jogo social ambíguo de rotulação, uma vez que pode-se acusar taumatur- gos carismáticos de magos e, inversamente, reconhecer-se em um mago um taumaturgo ca- rismático – um eco da ironia de Morton Smith sobre os “homens divinos” e o jogo de rotu- lação social desenvolvido por Crossan.147 Afirma Theissen: “Deste modo, Jesus foi, em par- te, admirado como taumaturgo profético e, em parte, atacado como aliado do demônio”.148

Ainda assim, Theissen não chama Jesus de mago. É enfático: “A autocompreensão de Jesus era profética, não mágica”.149 O distintivo nos milagres de Jesus, segundo Theissen,

Como taumaturgo carismático apocalíptico, Jesus ocupa uma posição singu- lar na história das religiões. Ele une dois mundos conceituais que nunca ha- viam sido unidos dessa maneira: a expectativa apocalíptica da salvação uni- versal no futuro e a realização episódica da salvação no presente por meio de milagres (G. Theissen, Wundergeschichten*, 274). Em nenhuma outra parte encontramos um carismático taumaturgo cujos milagres deveriam ser o fim

144 THEISSEN, Gerd. The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. Pp. 299.

145 THEISSEN, Gerd. The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. P. 300. Tradução própria. 146 THESSEIN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus Histórico: Um Manual. Pp. 305 – 340. Tradução própria. 147 Cf. o breve excurso sobre o tema, com tabela comparativa, em THESSEIN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus

Histórico: Um Manual. Pp. 331 – 332. Perceba-se que as duas notas de rodapé são, justamente, sobre a obra

de Crossan e Meier.

148 THESSEIN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus Histórico: Um Manual. p. 332. 149 THESSEIN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus Histórico: Um Manual. p. 330.

de um mundo velho e o começo do novo, o que põe um acento extraordiná- rio sobre os milagres (é a-histórico relativizar sua significância para o Jesus Histórico).150

Assim, na obra de Gerd Theissen encontramos uma atenção bastante grande voltada às narrativas de milagres e seus aspectos formais, bem como a percepção de que a atividade curandeira e exorcista de Jesus é fundamental para a sua adequada compreensão.