II – ANÁLISE DE TEXTOS DA ANTIGUIDADE
1. Palavras de Poder nos Papiros Mágicos Gregos
A antiguidade é testemunha de um sem-número de amuletos e textos mágicos que possibilitavam às pessoas negociar as agruras e alegrias do cotidiano. O interesse sobre o tema tem crescido desde o final do século XX, gerando novas abordagens e uma crescente publicação de fontes primárias para o estudo do tema. Faraone e Obbink sintetizam a ques- tão da seguinte maneira:
Em qualquer campo de pesquisa, o progresso é atingido por dois aconteci- mentos: ou a quantidade de dados é aumentada significativamente ou melho- rada de alguma outra maneira, de forma que provocam novas investigações de acordo com as aproximações existentes; ou os refinamentos e (r)evoluções na metodologia provocam os pesquisadores a olharem os dados existentes “através de lentes de cores diferentes”. No estudo da religião e magia gregas antigas ocorreram ambos os acontecimentos.205
De fato, a lista de “aplicações mágicas” é vasta. Numa listagem feita a esmo, poderí- amos observar – apenas levando em conta a coleção dos Papiros Mágicos Gregos206 – Feiti- ços como PMG I. 232 – 247, “feitiço para memória”, PMG V. 447 – 458, sem título, mas são “instruções acerca de um anel mágico”, PMG VII. 211 – 212, “para febre com tremo- res”, PMG XXXVI. 69 – 101, “feitiço do amor para atração”, PMG XII 365 – 375, “encan- tamento para causar separação”, PMD xiv. 428 – 450, “duas poções do amor”, PMD xiv. 985 – 992, “gota (receita)”. Um exemplo bastará para ilustrar a extensão das preocupações refletidas nos PMG/ PMD:
PMD lxi. 58 – 62 [PMG LXI. vi.x (não está na Preisendanz)]
Para ter uma ereção: A planta pastel cresce no oásis em abundância; é tanto
feminina quanto [masculina]. Ferva estas em uma panela e as macere [em vinho com] pimenta; / passe a mistura nos [seus] genitais. [Se desejar] rela- xar novamente, [forneça] a decocção. ...207
Talvez por isso ainda se insista, vez ou outra, na distinção entre magia e religião, se- gundo a qual a primeira compeliria os deuses e a segunda suplicaria humildemente.208 Mas também não é possível negar que, diante de um texto como o que veremos a seguir, tal dico- tomia religião-magia parece fazer pouco sentido:
A reclamação de uma mulher sobre negligência
É Esrmpe (filha) de Kllaouj quem reclama <sobre> Hor (filho) de Tanesne- ou. Meu Senhor Osíris, (senhor) de Hasro, a ti apelo, faça justiça a mim e a Hor (filho) de Tanesneou pelas coisas que fiz a ele e as coisas que fez a mim. Ele não <me> considera (?), eu não tendo poder, eu não tendo um filho de- fensor. Não pode ser diferente; sou uma mulher estéril. Não há quem apele <em> meu favor <perante> ele, por causa de Hor ..., eu apelo a [você ...] ó grande (?), Osíris, ouça meu clamor ... muitas são as coisas que ele fez para mim. Abra caminho para sua [...]s, [... O]siris, (senhor) de Abydos, Osír[is ...] Ìsis ... Wepawet, Hathor, a ama-seca [de] Anúbis filho de Osíris, o va- queiro de ..., faça-me justiça.209
O apelo é, essencialmente, por justiça. A mulher se apresenta como vulnerável e esté- ril, sem ninguém por ela. É evidente que não é possível entrar no mérito da veracidade de tais afirmações. Porém não podemos deixar de observar uma linguagem que, em alguns as-
206 BETZ, Hans Dieter. The Greek Magical Papyri in Translation. Referir-nos-emos a esta coleção como PMG.
É importante observar que ela também contém os Papiros Mágicos Demóticos, os PMD.
207 BETZ, Hans Dieter. The Greek Magical Papyri in Translation. pp. 287 – 288. 208 Como vimos, por exemplo, na obra de John Meier, analisada no primeiro capítulo. 209 MEYER, Marvin. Ancient Christian Magic. p. 21.
pectos, poderia se confundir com as invectivas dos profetas do antigo testamento em prol das viúvas, dos órfãos, etc.
Faraone e Obbink, neste sentido, apresentam uma postura semelhante à de John Do- minic Crossan210 quanto à dicotomia magia-religião:
Os trabalhos mais recentes (particularmente, apesar de não exclusivamente, influenciados pelos desenvolvimentos na sociologia e antropologia) lança- ram desafios incisivos contra estas distinções. Muitos agora percebem a ma- gia como um tipo de desvio religioso, e tratam as práticas mágicas como va- riações não-dicotômicas no procedimento ritual, argumentando que a antíte- se entre magia e religião separa arbitrariamente um spectrum contínuo de fe- nômenos religiosos inter-relacionados.211
De fato, nos textos já citados começamos a encontrar dois elementos inter- relacionados que são constantes ao longo do corpus dos PMG. Trata-se, em primeiro lugar, do uso de invocações aos deuses de diversas culturas e, em segundo lugar, do uso de plan- tas, raízes, etc., nos rituais e feitiços. Passemos, pois, a mapear estes dois elementos.
Vejamos este texto:
Invocação de divindades egípcias e judaicas para revelação
SAPHPHAIOR
BAELKOTA KIKATOUTARA EKENNK LIX, O grande daimon e o inexorável,
... IPSENTANCHOUCHEOCH
--- DOOU SHAMAI ARABENNAK ANTRAPHEU BALE SITENGI ARTEN BENTEN AKRAB ENTH OUANTH BALA SHOUPLA SRAHENNE DEHENNE KALASHOU CHATEMMOK BASHNE BALA SHAMAI,
No dia de Zeus, na primeira hora,
Mas no (dia) da libertação, na quinta hora, Um gato;
No oitavo, um gato. Salve, Osíris, rei do submundo,
Senhor do embalsamamento, Que está ao sul de Thinis, Que dá resposta em Abydos
Que está sob a noubs tree em Meroe, Cuja glória está em Pashalom. Salve, Althabot;
Traga Sabaoth até mim.
Salve, Althonai, grande Eou, muito valente; Traga Miguel até mim,
O poderoso anjo que está com Deus. Salve, Anúbis, do distrito de Hansiese,
Você que está sobre sua montanha. Salve, deusas,
Thoth a grande, a grande, a sábia.
210 Cf. a discussão de sua obra no capítulo um deste nosso estudo.
Salve, deuses,
Achnoui Acham Abra Abra Sabaoth Porque Akshha Shha é meu nome,
Sabashha meu nome verdadeiro, Shlot Shlot muito valente meu nome. Então que aquele que está no submundo
una-se àquele que está nos ares Que se ergam, entrem, e me dêem resposta
Com respeito à questão que lhes faço O usual. 212
É evidente que um texto como este dificilmente se encaixará em classificações dico- tômicas como as que as vezes se aventam. Isso é magia ou religião? Até que ponto há tenta- tiva de compelir os deuses, ou ainda, até que ponto há submissão e humildade diante dos deuses? Ou ainda, até que ponto este texto representa uma cultura tipicamente egípcia, ou tipicamente judaica? Afinal, o autor invoca, lado a lado, divindades egípcias como Anúbis, Osíris e Thoth e o deus judaico, designado como “Althonai”, Sabaoth, Eou, etc. Aliás, se- quer podemos ter a certeza de que o deus dos judeus seja considerado como um só; é possí- vel que cada pseudônimo, na percepção do autor desta invocação, seja referente a uma di- vindade diferente.
Hans Dieter Betz coloca a problemática questão cultural muito apropriadamente:
Nesse sincretismo, a religião egípcia antiga autóctone em parte sobreviveu, em parte foi profundamente helenizada. Em sua transformação helenística, a religião egípcia da era pré-helenística parece ter se reduzido e simplificado, sem dúvidas para facilitar sua assimilação à religião helenística como refe- rência cultural predominante. Está bastante claro que os magos que escreve- ram e utilizaram os papiros gregos tinham tendências helenísticas.
A helenização, no entanto, também inclui a egiptianização das tradições reli- giosas gregas. Os papiros mágicos gregos contém várias instâncias de tais transformações egiptianizantes, que assumem formas bastante diferentes em textos diferentes ou camadas distintas da tradição. Novamente, elucidar a na- tureza mais exata desta interação cultural e religiosa permanece uma tarefa para pesquisas ulteriores.213
De fato, a lista de nomes e características dos deuses de diversas culturas é própria dos PMG. Curioso é perceber, no entanto, que o nome do “deus dos hebreus” seja considerado secreto. Vejamos um trecho do PMG XXIIb. 1 – 26.
Oração de Jacó
[...]
212 MEYER, Marvin W.; SMITH, Richard. Ancient Christian Magic: Coptic Texts of Ritual Power. Pp. 22 – 23. 213 BETZ, Hans Dieter. The Greek Magical Papyri in Translation. p. xlvi.
“Eu te invoco, ó tu que dás poder [sobre] o Abismo [àqueles] acima, àqueles abaixo, e àqueles sob a terra; ouça aquele que tem [esta] oração, Ó Senhor Deus dos Hebreus, EPAGAĒL ALAMN, a quem pertence [o] poder eterno, ELŌĒL SOUĒL. Sustente aquele que possui esta oração, que é da linhagem de Israel e daqueles / que foram favorecidos por ti, Ó Deus dos deuses, tu que tens o nome secreto SABAŌTH ... I ... CH, Ó Deus dos deuses, amém, amém. [...] Me fortaleça, Mestre; encha meu coração de bem, Mestre, como um anjo terrestre, como alguém que se tornou imortal, como alguém que re- cebeu este dom de ti, Amém, amém”.214
Além disso, encontramos aqui exemplos do que se denominam voces magicae, “pala- vras mágicas”, que devem ser proferidas durante a execução do ritual associado ao feitiço. Além disso, trata-se de uma “oração possuída” – isto é, provavelmente algo que se utilizava como um talismã ou amuleto. Voltaremos adiante, também, a expressão enigmática “anjo terrestre” quando discutirmos a identidade mítica.
Além do uso de nomes de divindades de diversas culturas – entre as quais está a di- vindade judaica –, observamos que vários rituais e feitiços do PMG são acompanhados pelo uso de ingredientes diversos: plantas, ervas, raízes, etc. De fato, há um exemplo de feitiço que desdenha o uso de outros ingredientes além das palavras na execução dos feitiços. Ve- jamos