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Gerenciamento dos direitos de propriedade

2.6 POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO DIGITAL

2.6.2 Gerenciamento dos direitos de propriedade

Dentro do contexto estratégico de criação e preservação de recursos digitais, o relatório da Arts and Humanities Data Service (AHDS) da Inglaterra ressalta o contexto das políticas aplicáveis para os três estágios dentro do ciclo de vida de um recurso digital: criação, administração/preservação e uso (BEAGRIE; GREENSTEIN, 1998). Uma das principais conclusões foi a de que as decisões que podem afetar a disponibilização dos materiais digitais precisam ser tomadas no início do ciclo de vida do objeto digital.

Para os materiais digitais, a ligação entre sua criação e a preservação é muito mais importante devido a que decisões sobre a forma como os objetos digitais são criados influenciam a maneira como eles podem ser preservados. Do mesmo modo, as decisões tomadas no momento da preservação podem influenciar como esse material será acessado no futuro.

O gerenciamento dos direitos de propriedade intelectual de materiais digitais tem um significado mais argüível do que na mídia tradicional, pois deve considerar não apenas o conteúdo, mas também qualquer assunto relacionado ao software. Qualquer ação (cópias, encapsular conteúdo, emulação de software, migração de conteúdo) envolve atividades que podem infringir permissões específicas dos que mantêm os direitos.

Esse tipo de gerenciamento cobre todos os processos que envolvem a definição e a propriedade dos direitos dos depositantes e os direitos dos usuários dos centros de informação. Greenstein (1997) define direitos autorais como aqueles que incluem direitos de propriedade intelectuais e assuntos legais relacionados com a proteção dos dados e confidecialidade. Ele assegura que os direitos inseridos em um recurso podem não apenas determinar como ele pode ser acessado e usado, mas também determinar o como e se eles podem legalmente ser preservados por terceiros.

No que se refere ao direito autoral, dois grandes acordos regulam a questão: a Convenção de Roma, que é o principal tratado internacional em direito conexo, e a Convenção de Berna, que é o tratado autoral do direito internacional principal. Esta última não faz uma isenção específica para copiar todos os tipos de trabalho para finalidades da preservação (BERNE, 1986). Fornece, sim, uma regra geral sobre o direito de reprodução:

1. as isenções relativas ao direito de reprodução não devem ser demasiadamente amplas, devem ser incorporadas na lei para um alvo específico e devem servir ao interesse público. Se uma isenção estatutária fosse adotada especificamente para finalidades da preservação, tais circunstâncias seriam satisfeitas;

2. uma isenção não deve se opor à exploração normal do trabalho (WIPO, 1996).

No Brasil, a lei que trata desta questão é a de nº 9.610, sancionada em 19 de fevereiro de 1998 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Para as unidades de informação, a definição de publicação, constante do art. 5º, é primordial: “I - publicação - o oferecimento de obra literária, artística ou científica ao conhecimento do público, com o consentimento do autor, ou de qualquer outro titular de direito de autor, por qualquer forma ou processo”.

Preservar significa copiar de alguma maneira, e o artigo 5º desta lei define reprodução como:

“VI - a cópia de um ou vários exemplares de uma obra literária, artística ou científica ou de um fonograma, de qualquer forma tangível, incluindo qualquer armazenamento permanente ou temporário por meios eletrônicos ou qualquer outro meio de fixação que venha a ser desenvolvido”.

Já o art. 29 afirma que depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por quaisquer modalidades, tais como “I - a reprodução parcial ou integral [...]”, e o art. 33 completa mostrando que ninguém pode reproduzir obra que não pertença ao domínio público, a pretexto de anotá-la, comentá-la ou melhorá-la, sem permissão do autor.

No caso do armazenamento de documentos digitais em bases de dados, a lei 9.610 confirma a determinação existente de que depende da autorização prévia do autor, pelo fato de, ao serem incluídos, transformar-se em uma forma de disseminação e reprografia (GANDELMAN, 1997).

Na Koninklijke Bibliotheek (KB) em Haia, a comissão do Institute for Information Law da Universidade de Amsterdã examina os problemas relacionados ao direito autoral que poderiam impedir esforços para preservar e manter a acessibilidade de dados eletrônicos, uma vez que a preservação implica a reprodução em grande parte dos casos.

De acordo com as diretrizes da KB, há dois métodos para garantir a preservação de longo prazo de publicações eletrônicas:

1) assegurar sua acessibilidade: a publicação pode ser retida em seu formulário original junto com o hardware e a tecnologia necessários para acessar, isto é construindo uma "passagem" entre a velha e a nova tecnologia;

2) transferir a publicação às gerações mais novas de configurações do hardware e software do computador, assim que a mais velha ameaçar se tornar obsoleta. Isso envolve um número das técnicas e procedimentos (incluindo conversão e transferência de dados) geralmente conhecidos pelo termo geral "migração".

Se a primeira opção for escolhida, a publicação eletrônica ainda assim precisará, eventualmente, ser copiada para ser preservada, já que, como todas as mídias existentes, as publicações eletrônicas estão suscetíveis à deterioração. A conclusão final do Preservation of New Technology, um estudo compilado a pedido da American Commission on Preservation and Access of the Council on Library and Information Resources, é que preservação significa copiar (BOERES; MÁRDERO, 2005).

Em 2003 a NARA (U.S. National Archives and Records Administration) adotou a norma ISO 15489 para o gerenciamento dos registros eletrônicos em todo o ciclo de vida dos documentos digitais de caráter oficial do governo americano. Essa norma surgiu na Austrália (AS 4390) e está sendo usada como base para políticas de preservação de documentos digitais de várias instituições daquele país. A norma considera a gestão dos “registros” como uma seqüência integrada de processos, que vai desde quem usa para criação até seu acesso contínuo, ampliando as responsabilidades dos criadores e gerentes desses registros para todos os empregados da instituição mantenedora.

O pré-requisito de preservabilidade pode ser alcançado unicamente mediante uma estratégia organizacional. Para a maioria das instituições de ensino

superior, a carência de tempo, recursos e conhecimentos necessários para garantir a preservação de sua produção intelectual de longo prazo, bem como a adoção de uma política de preservação poderiam facilitar o entendimento dos gestores sobre as principais conclusões a que chegam os estudos atuais sobre o tema (BOÊRES, 2004; ERPANET, 2003; FEATHER, 2004; FOOT, 2001):

1. a preservação de informação digital requer colaboração entre organizações e pessoas envolvidas na criação e no gerenciamento; 2. a preservação começa no design de sistemas que darão suporte à

criação de objetos digitais;

3. deve ter-se claro o papel de cada um dos envolvidos no processo para identificar e apontar responsabilidades;

4. a preservação deve ser parte integrante de qualquer estratégia que inclua o uso de tecnologia de informação;

5. as estratégias de preservação e seus métodos deverão estar integrados em todas as atividades ou sistemas que criam ou usam informação digital.

Uma política aceitável de preservação digital implica observar e aplicar procedimentos que podem ser inclusive aceitos como estratégias de preservação. Entre eles estão os relativos à tecnologia da informação, mais especificamente no tocante à compatibilidade de hardware, software e migração dos dados (conversão para outro formato físico ou digital, emulação tecnológica e “espelhamento” dos dados), à observação da integridade do conteúdo intelectual a ser preservado; à análise dos custos envolvidos no processo; ao desenvolvimento de uma criteriosa política de seleção do que será preservado e, intimamente atrelada a isso, a observação das questões mencionadas sobre direito autoral.