2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.11. Gestão de recursos hídricos e sustentabilidade
As condições de acesso aos recursos hídricos é dada através de uma boa gestão e adequado processo político.
Gestão de recursos hídricos é a forma pela qual se pretende equacionar e resolver as questões de escassez relativa dos recursos hídricos e a garantia de usos múltiplos, entre outros, bem como fazer o uso adequado, visando a otimização dos recursos em beneficio da sociedade. A gestão de recursos hídricos é realizada mediante procedimentos integrados de planejamento e de administração, é decisão política, motivada pela escassez relativa de tais recursos e pela necessidade de preservação para futuras gerações, para garantia da sustentabilidade do processo de gerenciamento (Setti et al., 2001).
A FAO tem oferecido diversas ferramentas auxiliares na gestão dos recursos hídricos e a otimização dos processos agrícolas, através de soluções práticas a problemas comuns em sua coletânea de documentos. A série de documentos Irrigation and Drainage
Papers tem contribuído para o desenvolvimento de um processo de gerenciamento claro e
acessível pela utilização de tecnologias básicas (Tabela 2.4). Entre os mais citados, estão: FAO nº 24 (Doorenbos e Pruitt, 1977); FAO nº 29 (Ayers e Westcot, 1985); FAO nº 56 (Allen et al., 1998) e FAO nº 61 (Tanji e Kielen, 2002).
33 Tabela 2.4. Série de documentos Irrigation and Drainage Papers produzidos pela FAO e
suas contribuições à solução de problemas em ambientes agrícolas.
Documento da FAO Problema Considerações
FAO 24 FAO 56
Necessidade hídrica da planta
Precipitação efetiva, evapotranspiração de referência,
coeficiente de cultura Kc.
FAO 56 Produção da cultura Fator de produção relacionado ao stress hídrico.
FAO 24 FAO 56
Planejamento da irrigação Conceitos de ponto de murcha, capacidade de campo.
Tipos de irrigação, demanda hídrica para irrigação e eficiência de irrigação.
FAO 61 Irrigação em áreas áridas e
semi-áridas
Identificação de problemas e propostas de soluções.
Essas ferramentas propostas pela FAO objetivam de forma indireta a sustentabilidade hídrica e têm provado eficiência e grande importância ao gerenciamento de áreas agrícolas por sua facilidade de entendimento.
A Lei Federal nº 9.433, de 08 de janeiro de 1997, institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e instrumenta todas as ações nacionais de gerenciamento desse recurso. No Estado de Pernambuco, a política e gerenciamento de recursos hídricos é gerida sob as Lei Estadual nº 11.426/1997 que dispõe sobre a política de gestão de águas superficiais; a Lei Estadual nº 11.427/1997 que discute a política das águas subterrâneas e a Lei Estadual nº 12.984/2005, a Lei das Águas, que dispõe sobre a política estadual de recursos hídricos e o sistema integrado de gerenciamento. A Agenda 21 (SECTMA/PE, 2002) do Estado de Pernambuco propõe a sustentabilidade dos recursos hídricos através da garantia de qualidade e quantidade hídrica.
Num cenário de escassez hídrica como no semi-árido nordestino, os recursos hídricos, em seu contexto ambiental e ecológico rural, têm seu uso destinado a múltiplos usos, atendendo às demandas na agricultura, consumo humano e, ou dessedentação animal. Para o gerenciamento desse sistema de usos múltiplos e sob as condições em que a oferta é sempre inferior a demanda, é importante frisar que o uso dos recursos não é uma opção proposta pelo planejador, mas realidade enfrentada com desenvolvimento econômico e
34 social (Setti et al., 2001), corroborado pelas características culturais (Fraser et al., 2005). As alternativas existentes são integrar tais usos de forma harmônica, em que seja considerada a complexidade administrativa local, ou de certa forma a não causar interferências deixando o sistema desarticulado e, que em futuro próximo haverá o comprometimento da eficiência do uso pela geração de conflitos entre os usuários (Hofmann e Mitchell, 1998).
Para garantia da sustentabilidade hídrica, a gestão de recursos hídricos deve considerar a garantia dos usos múltiplos do recurso hídrico e o envolvimento de entidades diversas que atendam aos diferentes consumos, entre eles os usuários diretos de água (Lei 9.433/97). Experiências internacionais demonstram que o agrupamento de usuários de água em grupos consultores e tomadores de decisão junto à política institucional de gestão hídrica têm apresentando bons resultados quando comparadas a ações de gerenciamento estritamente governamental (Stacey, 1999; Fraser et al., 2005; Tanaka e Sato, 2005; Thomson, 2005).
Em 1999, Stacey propôs um novo conceito de agrupamento de usuários inserindo novas diretrizes organizacionais através da reorganização de cooperativas de usuários de água por áreas limitadas hidraulicamente; da cobrança pelo uso da água independente de outros insumos; da transferência de responsabilidades gestoras aos usuários diretos de água em sistemas onde organização e manutenção (O&M) são geridos conjuntamente; e do desenvolvimento de políticas e estratégias para irrigação sustentável. Outros autores, recentemente provaram a garantia da sustentabilidade hídrica pela implementação de sistemas de gestão O&M e de modelos sistêmicos de integração participativa (Tanaka e Sato, 2005), reafirmando os princípios de Stacey (1999).
2.11.1. Gestão participativa
A degradação ambiental oriunda da prática agrícola em áreas rurais tem excedido a capacidade natural ecológica de reversão. Reaver de forma prática essas tendências negativas é tarefa difícil por não estarem apenas relacionadas a fatores ecológicos, mas também a fatores sociais, econômicos e políticos. Dessa forma, a análise tem que ser cautelosa e a ação focada na execução prática. É aplicado que a análise deva ocorrer de forma integrada para proposta de uma solução prática (Bouma, 2002).
35 A sustentabilidade do meio rural é discutida dentro da ciência do solo e da agronomia, e suas diretrizes propostas pela FAO (1993), listando quatro critérios para o gerenciamento sustentável da agricultura. O primeiro critério garante a conservação da produção, e é seguido pela garantia que os riscos não aumentarão, a qualidade do solo e da água deverá ser mantida e os sistemas devem ser economicamente viáveis e de aceitação social. Nessa definição de gerenciamento sustentável da agricultura, FAO (1993) claramente foca a produção agrícola. Entretanto, esse gerenciamento possui implicações maiores que a manutenção da produção agrícola por si só. É necessário acrescer a idéia de qualidade do solo, onde os ecossistemas são citados, mas também é relevante a qualidade de vida dos usuários, das comunidades locais. É reconhecido que a FAO define gerenciamento sustentável no meio rural, e não sustentabilidade rural. Dessa forma, deve- se atribuir destaque a ações práticas, integrando à gestão os membros envolvidos, e não a conceitos pré-definidos. Assim, é criado um meio atrativo de integração à gestão, onde os gestores da terra em pequena escala, ou seja, os agricultores locais, são atores na execução de sistemas agrícolas sustentáveis.
Esse é o processo de gestão participativa ou gestão coletiva. A participação individual no gerenciamento dos recursos hídricos é a etapa inicial para que a sociedade passe a integrar o processo decisório com vistas à adequada utilização desses recursos na atualidade e com a preocupação da disponibilidade hídrica, com boa qualidade, para as gerações futuras: o uso sustentável dos recursos hídricos (Hofmann e Mitchell, 1998; Stacey, 1999; Kleemeier, 2000; Doran, 2001; Fraser et al., 2005; Tanaka e Sato, 2005; Thomson, 2005).
A integração da participação da comunidade em processos de gerenciamento é um modo de selecionar indicadores relevantes a proverem um número de benefícios pré estabelecidos. O primeiro benefício é pragmático: uma vez que os indicadores de gestão são desenvolvidos por especialistas não locais, não há garantias que a relevância em escala aplicada seja igual ou condizente com a realidade da população. Logo, a contribuição local leva a uma representatividade real dos indicadores importantes para o grupo de ação. A participação regular da comunidade na gestão irá garantir a possibilidade de variação dos indicadores iniciais em caso de alterações das condições iniciais de estudo do cenário (Morse, 2004). Como também, com o envolvimento dos componentes locais é possível haver a promessa de continuidade do processo após o afastamento dos especialistas e, ou,
36 financiadores (Fraser, 2002). É assim traçada a garantia de sustentabilidade das ações executivas. De forma indireta, as ações participativas também interagem com ações de educação da comunidade, atendendo à base cultural em que o sistema sócio-econômico encontra-se apoiado (Doran, 2001)
De outra forma, o engajamento e integração de membros da comunidade permite desenvolver a capacidade gestora de forma autônoma do grupo em gerenciar problemas futuros, quando ocorrer a ausência de especialistas gestores ou do sistema público, que nem sempre estão presentes. Esse talvez seja o mais significante e possível resultado do processo participativo: o empoderamento. É formar e dar à comunidade o poder de tomada de decisão através de ferramentas e indicadores destacados pelos membros participantes, valorizando os conhecimentos e as experiências locais. (Branco et al., 2004; Fraser, 2005).