• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 4 – GESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS E FLEXIBILIDADE EM

4.2 A abordagem da Gestão da Cadeia de Suprimentos (GCS)

4.2.4 Gestão de risco em cadeias de suprimentos

“O risco é um aspecto sempre presente da vida organizacional” (KHAN e BURNES, 2007, p.211). “A natureza e a grande complexidade das cadeias de suprimentos as tornam particularmente vulneráveis a riscos” (WATERS, 2007, p.11). Como resultado, as empresas ficam expostas a uma enorme gama de eventos incertos que podem afetar suas operações inesperadamente.

O risco é um conceito geral cujo escopo é amplo. Ele tem sido objeto de extensiva análise em diferentes contextos, sob diferentes perspectivas (CUCCHIELLA e GASTALDI, 2006; PIMPÃO, 2009). Em algumas áreas, como a financeira, o tema é bastante explorado (KHAN e BURNES, 2007).

Khan e Burnes (2007) discutem, com o apoio da literatura, que a pesquisa sobre o risco é antiga, tendo a sua origem no século dezessete com o desenvolvimento da teoria da probabilidade. No entanto, foi apenas nas décadas de 50 e 60, com desenvolvimentos na tecnologia e o crescimento e a internacionalização das organizações, que o risco e sua gestão passaram a ser uma preocupação da comunidade mais ampla de negócios. Os autores citam ainda que, embora seja possível identificar o interesse sobre o tema no âmbito da função compras em trabalhos das décadas de 60 e 70, apenas recentemente a gestão de risco no contexto das cadeias de suprimentos ganhou importância.

A atenção sobre o tema vem crescendo (JUTTNER, PECK e CHRISTOPHER, 2003), inclusive com edições especiais nas principais revistas acadêmicas (ver OLSON e WU, 2010). “A importância que a gestão de risco em cadeias de suprimentos tem ganhado pode ser observada através do número crescente de estudos sobre o tema e é um sinal do seu impacto no desempenho das organizações” (PIMPÃO e FERREIRA, 2010, p.2).

A definição de risco varia em função da área, do autor e até do contexto (RITCHIE e BRINDLEY, 2009). Na literatura, muitas definições encontradas incluem duas importantes características de um risco: a probabilidade (frequência) da sua ocorrência e o seu potencial de impacto (magnitude das consequências). É o caso de Squire, Chu e Lee (2010), que o definem como a ameaça de interrupção do fluxo de materiais, financeiro ou de informação,

medido pelo seu impacto e probabilidade9.

Uma questão interessante é que o risco tanto pode envolver o lado positivo, quanto o negativo (KHAN e BURNES, 2007; RITCHIE e BRINDLEY, 2009). O investimento em um novo negócio, por exemplo, tem o risco de ser bem-sucedido ou não. Assim, ao risco está relacionado um conjunto de resultados possíveis que formam uma distribuição em torno de um valor médio. Porém, na literatura sobre a gestão de risco em cadeias de suprimentos a definição de risco costuma considerar apenas o lado negativo: ele geralmente é tratado como um perigo ou ameaça, não como uma oportunidade (SQUIRE, CHU e LEE, 2010).

Cada membro de uma cadeia de suprimentos está sujeito aos seus próprios riscos, aos riscos dos outros membros da cadeia e até aos riscos de fora da sua cadeia (WATERS, 2007). Assim, há uma infinidade de fontes de risco e, consequentemente, de tipos de risco. A literatura apresenta vários deles (ZSIDISIN, PANELLI e UPTON, 2000; KHAN e BURNES, 2007; McCORMACK, 2007; WATERS, 2007; BLACKHURST, SCHEIBE e JOHNSON, 2008; ZSIDISIN e RITCHIE, 2008; FAISAL, 2009; PIMPÃO, 2009; OLSON e WU, 2010):

• Riscos internos à empresa: problema com as tecnologias de informação; segurança (acidentes envolvendo os trabalhadores); falha humana; dificuldade no atendimento das ordens dos clientes (exemplo: devido aos requisitos de customização); problema com um equipamento; problema com a armazenagem dos materiais.

• Riscos internos à cadeia: problema no abastecimento (ruptura); imprevisibilidade do

lead-time de trânsito10; situação financeira do fornecedor; falta de qualidade dos

materiais fornecidos; preço da matéria-prima; restrições de capacidade; oportunismo de um membro da cadeia ou conflito entre os membros; falta de acuracidade na previsão da demanda; flutuação da demanda; aumento da expectativa dos clientes; mudança no projeto dos produtos.

9 Há outras definições de risco, englobando ou não estas duas características, em: Juttner, Peck e Christopher

(2003); Zsidisin et al. (2004); Khan e Burnes (2007); Waters (2007).

• Riscos externos: flutuação cambial; preço do combustível e da energia; mudança na legislação (exemplo: ambiental); instabilidade política; crises econômicas; conflitos armados; mudanças na tecnologia (de produto ou processo), tornando obsoletas as existentes; desastres naturais (furacões, enchentes, terremotos, incêndios).

A gestão de risco, em essência, é uma abordagem proativa para gerenciar os riscos antecipadamente, visando evitar ou minimizar suas consequências potenciais indesejáveis (LI e BARNES, 2008; RITCHIE e BRINDLEY, 2009).

Narasimhan e Talluri (2009) consideram a gestão de risco uma “atividade de gestão estratégica” (p.114). Kumar e Tewary (2007), nesta mesma linha, defendem que a forma como uma empresa gerencia os riscos determina o seu sucesso ou fracasso.

Na literatura, alguns autores apresentam ou discutem modelos para o processo de gestão de risco em cadeias de suprimentos, tais como Harland, Brenchley e Walker (2003), Sinha, Whitman e Malzahn (2004), Cucchiella e Gastaldi (2006) e Olson e Wu (2010). A Figura 12 mostra um modelo genérico, baseado em Hallikas et al. (2004), Waters (2007) e Blackhurst, Scheibe e Johnson (2008). As etapas do modelo estão descritas a seguir.

Avaliação do risco implementação da Definição e resposta ao risco

Monitoramento Identificação do

risco

Figura 12 – Etapas do processo de gestão de risco em cadeias de suprimentos

• Identificação do risco: tem como objetivo tornar a empresa ou a cadeia consciente sobre cenários, eventos, fenômenos ou situações que podem afetá-la. As diversas fontes potenciais de risco são consideradas.

• Avaliação do risco: cada risco identificado é avaliado em termos de seu potencial de impacto e probabilidade de ocorrência. Isto permite uma priorização.

• Definição e implementação da resposta ao risco: a identificação e a avaliação dos riscos permitem definir a melhor estratégia a ser usada em cada caso. Algumas das estratégias possíveis são: a redução do potencial de impacto ou da probabilidade de ocorrência do risco, por meio de ações colaborativas e coordenadas na cadeia; a transferência do risco de um membro da cadeia mais diretamente envolvido com o risco para outro membro, mais preparado para enfrentá-lo.

• Monitoramento: pelo fato dos riscos serem dinâmicos, é preciso monitorar se houve mudanças em sua tendência, probabilidade de ocorrência ou potencial de impacto, bem como monitorar se as estratégias e ações implementadas na etapa anterior estão sendo eficazes.

No próximo item é apresentado um panorama da literatura sobre GCS.