CAPÍTULO 2 – REFERENCIAL TEÓRICO
2.6. Gestão do conhecimento, vantagem competitiva, visão baseada em
2.6.3. Gestão do conhecimento e visão baseada em recursos
Com a finalidade de consolidar ainda mais as relações desse trabalho com pesquisas já realizadas, pôde-se encontrar ainda, na revisão da literatura, trabalhos que relacionam a gestão do conhecimento, a visão baseada em recursos, e em alguns casos, a vantagem competitiva. Dentre os internacionais, pode-se citar Almor e Hashai (2004), Chuang (2004), Paiva, Roth e Fensterseifer (2007), Wang, He e Mahoney (2009), Vinekar e Teng (2012).
Almor e Hashai (2004) utilizam uma abordagem baseada em recursos modificada para examinar a vantagem competitiva que se beneficia de conhecimento intensivo, em multinacionais de porte pequeno e médio, examinando as capacidades superiores e inferiores, e sua resultante vantagem competitiva sustentável. Os resultados mostram que as empresas internalizam as atividades de P&D, que são os seus principais recursos, e externalizam as atividades de produção, que são as capacidades não essenciais. Além disso, compensam suas capacidades inferiores em atividades de marketing através do uso de um modelo de negócio único, que se concentra em repetir as vendas para os clientes com os quais um baixo número de transações de alto valor podem ser mantidas.
Chuang (2004) desenvolve o conceito de gestão do conhecimento como uma capacidade organizacional e examina empiricamente a associação entre a capacidade de gestão do conhecimento e vantagem competitiva. Para tanto, através da visão baseada em recursos da empresa, reconhece explicitamente a importância de recursos específicos de gestão do conhecimento, classificados como recursos sociais e recursos técnicos, e capacidades. Pesquisas coletadas de 177 empresas foram analisadas e testadas. Os resultados confirmaram o impacto dos recursos de gestão do conhecimento sociais sobre a vantagem competitiva, enquanto que os recursos técnicos são negativamente relacionados com a vantagem competitiva. Além disso, as capacidades de gestão do conhecimento estão significativamente relacionadas com a vantagem competitiva.
No trabalho de Paiva, Roth e Fensterseifer (2007) é feita uma integração de algumas abordagens baseadas no conhecimento, que procuram compreender como os aspectos relacionados à orientação multifuncional, novas tecnologias e o aumento do acesso à informação afetam a estratégia de manufatura. Neste trabalho, “know-what” (onde encontrar a informação necessária) e “know-how” (como executar operações sem problemas) são considerados os principais componentes de conhecimento organizacional no processo de formulação da estratégia de manufatura. Considerando que o acúmulo de conhecimento pode levar a uma vantagem competitiva, os autores propõem um modelo de processo de estratégia de produção a partir de uma perspectiva baseada em recursos. Foi utilizado um questionário para coleta de dados de campo de 104 empresas. Os resultados indicam que as atividades interfuncionais integram o conhecimento de produção e contribuem para a criação das características dos produtos valiosos e raros.
Os autores Wang, He e Mahoney (2009) consideram que a implantação de recursos de conhecimento específicos da empresa muitas vezes exige que os funcionários-chave façam investimentos de capital humano especializados que não são facilmente implementáveis para outras configurações, e que, por este motivo, os funcionários são relutantes em fazer tais investimentos especializados. Dessa forma, o estudo explora os mecanismos de governação econômica com base nos relacionamentos que possam mitigar este problema de subinvestimento. Os resultados empíricos apontam que o uso efetivo desses mecanismos de governança permite que uma empresa obtenha um melhor desempenho de seus esforços para implantar recursos de conhecimento específicos das empresas.
Enfim, o trabalho de Vinekar e Teng (2012), a partir de dados coletados em grandes empresas de tecnologia da informação com mais de sete anos de funcionamento, se baseia na teoria de que não há suporte para a visão baseada em recursos postular que os investimentos em tecnologia da informação não geram vantagem competitiva direta, mas que estes investimentos devem ser combinados com investimentos em outros setores para melhor desempenho da empresa. Ao contrário do que a teoria da visão baseada em recursos postula, os resultados práticos sugerem que os investimentos em tecnologia da informação pode ser sim uma fonte de direta de vantagem competitiva, ou seja, os investimentos em tecnologia da informação e os dispêndios de capital tem efeitos diretos independentes sobre a receita da empresa, bem como com o lucro da empresa. Os autores consideram que o motivo disso pode ser porque um sistema de tecnologia da informação tem o conhecimento incorporado, bem como cria conhecimento, tornando-o raro e imperfeitamente imitável.
Os trabalhos nacionais relacionados à gestão do conhecimento e à visão baseada em recursos que podem ser citados são os de João e Fischmann (2004), Nadai e Calado (2005), Jacques (2006), Castro (2009), Junges (2010), Ricciardi (2006) e Popadiuk e Ricciardi (2011).
João e Fischmann (2004) apresenta um estudo empírico tendo por método um estudo de caso a partir de um construto teórico da visão baseada no conhecimento, tendo por objeto de estudo a Embraer, através de uma análise dos ativos de competência individual, de estrutura interna e de estrutura externa. O trabalho analisa a transferência e conversão do conhecimento entre essas estruturas. O resultado apresentado é a maximização da criação de valor resultante
da interação de nove forças, indicando que em uma empresa onde o planejamento é confundido com o desenvolvimento de projetos é possível a aplicação desse modelo de visão baseada no conhecimento.
Nadai e Calado (2005), a partir da consideração de que o conhecimento deve ser avaliado como um recurso estratégico valioso para o estabelecimento de uma vantagem competitiva sustentável nas organizações, principalmente nas intensivas em conhecimento, provoca uma discussão em seu trabalho sobre o que de fato determina que uma organização seja denominada intensiva em conhecimento. Para tanto, apresenta algumas características organizacionais que poderiam determinar esta classificação, ou seja, atividades desempenhadas, pessoas da organização, mercado de atuação, produtos e serviços, bem como práticas de gestão, e a partir destas características, os autores salientam que é possível definir organizações intensivas em conhecimento.
O objetivo geral do estudo de Jacques (2006) foi analisar o processo estratégico, na percepção dos gestores das especialidades médicas, onde os recursos, no caso os protocolos médico-assistenciais, são construídos e implementados, utilizando como base teórica a visão baseada em recursos e a criação do conhecimento. A partir de entrevistas que buscaram saber o conteúdo do processo estratégico, as características favorecedoras e dificultadoras do contexto, bem como os meios e formas utilizados para criação e compartilhamento do conhecimento, os resultados principais apontaram não haver barreiras importantes à legitimação de uma nova linguagem trazida por novos paradigmas através dos protocolos. Entretanto, ficou evidente a pouca participação da alta direção junto às especialidades no momento de tratá-las como uma unidade de negócio, e a dificuldade de compartilhamento de ideias entre a equipe como um todo e essas com as operadoras dos planos de saúde.
Castro (2009), através de um censo junto a 337 empresas associadas a ABAD – Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores, teve como objetivo evidenciar de que maneira a gestão do conhecimento é utilizada como recurso estratégico e fonte de vantagem competitiva sustentável na perspectiva da resource
based view (RBV). Apesar do baixo retorno de apenas 11 questionários
respondidos, percebe-se que, embora a gestão do conhecimento seja utilizada pelos gestores à um nível preliminar, os mesmos possuem uma postura favorável, utilizam
medidas e procedimentos, e veem a gestão do conhecimento como fonte de vantagem competitiva sustentável na perspectiva da RBV.
Junges (2010), se propõe a analisar de que forma a gestão do conhecimento contribui para a geração de vantagem competitiva sustentável, sob o paradigma estratégico da resource based view (RBV), em empresas de tecnologia da informação do Rio Grande do Sul, através da realização de um survey com as empresas de tecnologia da informação do estado, apoiada pelas entidades representativas do setor. O autor sugere que os resultados podem ser utilizados como contribuição ao Programa de Tecnologia da Informação do Rio Grande do Sul, que tem como principal objetivo agregar valor para as entidades e para o desenvolvimento do setor de tecnologia da informação no estado.
Outros trabalhos citados e muito importantes para essa dissertação são os de Ricciardi (2006) e Popadiuk e Ricciardi (2011), pois analisam se o modelo SECI de conversão do conhecimento de Nonaka e Takeuchi é avaliado pelos gestores organizacionais como uma fonte de vantagem competitiva sustentável, segundo a perspectiva da visão baseada em recursos. Mas ao invés de aplicar à IES, como feito nessa dissertação, faz uma pesquisa mediante a aplicação de um questionário estruturado fechado junto a 200 gestores de empresas variadas, por meio de um estudo de campo. Concluiu-se que, enquanto a literatura afirma que o modelo SECI é gerador de vantagem competitiva sustentável, os gestores o qualificam como fonte de vantagem competitiva, contudo não sustentável.
2.6.4. Gestão do conhecimento, visão baseada em recursos e instituições de ensino superior
É importante destacar que foi encontrado apenas um trabalho nacional relacionado à gestão do conhecimento, visão baseada em recursos e à IES, das autoras Gohr, Christiano, Toscano e Gomes (2013), o qual foi publicado em um Simpósio e compõe uma prévia dessa dissertação. Nesse sentido, as autoras Gohr, Christiano, Toscano e Gomes (2013) propõem, no trabalho, verificar por meio da visão baseada em recursos, se o modelo SECI de conversão do conhecimento é considerado como uma fonte de vantagem competitiva em um departamento de uma Instituição Federal de Ensino Superior do Município de João Pessoa/PB, e cujo resultado demonstra que, de acordo com o modelo SECI, a socialização está
presente nas rotinas de trabalho de forma mais expressiva dentro da organização e que é considerado um componente que agrega valor à instituição. Por meio da pesquisa constatou-se também que o conhecimento não é tratado como fonte de vantagem competitiva, segundo o modelo VRIO, dentro da organização objeto de estudo. Isso ocorre porque os aspectos de valor, raridade, não imitação, não substituição e organização dos componentes do modelo SECI, não ocorrem de maneira simultânea.