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Gestão do conhecimento: uma visão crítica

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2 REVISÃO LITERÁRIA

2.3 Gestão do Conhecimento

2.3.1 Gestão do conhecimento: uma visão crítica

Por ser um tema que vem cada vez mais ganhando visibilidade, principalmente por ser apresentado como fonte de vantagem competitiva (SVEIBY, 1999), faz-se necessário ressaltar

que a GC está sujeita a questionamentos e críticas, que devem fazer parte de um processo pedagógico contributivo.

Partindo do pressuposto de que a atual economia é baseada no conhecimento (CASTELLS, 1999) e que as práticas gerenciais relacionadas ao conhecimento provêem do esforço humano, não é improvável considerarmos como necessário um questionamento sobre o papel deste novo capital, o chamado capital humano.

Para Dowbor (2004, p. 65) o que estamos vivendo é uma transformação social tão ampla, que gera uma sociedade do conhecimento, da mesma forma como tivemos uma sociedade agrária e uma sociedade industrial. As implicações são profundas: as diversas sociedades agrárias se estruturaram politicamente e em termos de relações de produção em torno do controle do fator chave: a terra. A sociedade industrial se estruturou politicamente e em termos de relações de produção em torno do controle dos meios de produção: a máquina. Neste sentido, questiona-se qual estrutura política e quais relações de produção estarão implícitas nas sociedades onde o fator chave passa a ser o conhecimento. Enquanto que para a terra, delimita-se o feudo e para a fábrica, colocam-se os “muros e a portaria”, o autor pergunta o que se pode fazer em relação ao conhecimento e aponta para a necessidade de se definir o acesso ao produto na nova sociedade que se estrutura.

Gorz (2005) analisa que a geração de valor encontra hoje sua fonte na inteligência e na imaginação. Segundo o autor, o saber do indivíduo conta mais que o tempo da máquina. O homem, carregando consigo seu próprio capital, carrega igualmente uma parte do capital da empresa.

Para o autor, o saber que se tornou a fonte mais importante da criação de valor é, particularmente, o saber vivo que está na base da inovação, da comunicação e da auto-

organização criativa e continuamente renovada. O trabalho do saber vivo não produz nada materialmente palpável. Ele é, sobretudo na economia de rede, o trabalho do sujeito cuja atividade é produzir a si mesmo – “o trabalhador do imaterial”. Acrescenta ainda que a informatização da indústria tende a transformar o trabalho em gestão de um fluxo contínuo de informações. Para o autor o que existe hoje é uma metamorfose do capitalismo, que criou um novo paradigma de reprodução dos modelos industriais, agora sob a forma de domínio da produção do conhecimento, onde há privação por parte do trabalhador no seu meio de trabalho, do poder sobre a natureza e sobre as condições do trabalho, e do poder sobre os produtos, ficando para as organizações o controle total do processo produtivo e da riqueza gerada.

Quandt, Terra, Batista (2006) corroboram para esta visão, quando afirmam que para alguns autores, GC é entendida como uma contradição em termos, sendo um resquício de uma era industrial onde predominava uma visão controladora. De acordo com World Bank (1998), conhecimento não é simplesmente uma “coisa” explícita e tangível como a informação, mas informação combinada com experiência, contexto, interpretação e reflexão. Conhecimento envolve a pessoa como um todo, integrando os elementos de pensamento e sentimento. Portanto, a sugestão implícita de que o conhecimento pode ser gerenciado revela um erro fundamental na compreensão da sua natureza. Algumas organizações, como o próprio Banco Mundial, enfatizam a noção de “compartilhamento de conhecimento” como a melhor descrição do que elas se propõem a fazer do que “gestão do conhecimento”. Outras, preferem enfatizar “aprendizagem” porque o desafio maior na implementação da GC está nos processos de criar sentido, entendimento e na capacidade de agir com base nas informações disponíveis.

Para Stacey (2001) gestão do conhecimento é “inconcebível”. No seu ponto de vista:

o conhecimento emerge numa conversação entre humanos, não é uma coisa em si. É um processo contínuo de entendimento, em que este só surge se houver interação. Não é possível por isto, controlar o saber, nem gerí-lo. Conhecer é uma ação corporal, e ninguém

pode ser proprietário dela. Seria o mesmo que dizer que alguém pode ser proprietário do meu modo de andar (Entrevista à Universidade Lusíada – Portugal nov, 2001).9

O autor entende que é impossível transformar conhecimento tácito em conhecimento explícito e que a discussão sobre gestão do conhecimento é um modismo. Vasconcelos (2001) observa que para se gerir conhecimento seria imprescindível antes a gestão da ignorância, ou seja, antes de se gerenciar o conhecimento seria salutar a gestão do que não se sabe (ignorância). Tal pensamento segue a filosofia socrática de que sábio não é o que conhece respostas e sim o que sabe fazer perguntas.

Outro pensamento afirma que a GC possui uma veia totalitarista, gerando uma excessiva visibilidade do indivíduo (LÉVY; AUTHIER, 2000), o que acarretaria um entrave ao aprendizado e, conseqüentemente, à inovação (ARGYRIS, 1994). Essa vertente aproxima- se da abordagem de Foucault (1979) sobre o exercício do poder disciplinar nas instituições pelo uso de estruturas centrais, irradiando saber, poder e controle. O mapeamento da cognição coletiva poderia, nesse modo de ver, transfigurar-se em um circuito de controle que impede a emancipação e a criatividade dos sujeitos, contrariando o objetivo inicial de catalisar inovações (TELLES; TEIXEIRA, 2002).

As críticas apresentadas, certamente, não diminuem a importância do tema, pelo contrário, possibilitam aos pesquisadores e praticantes o questionamento e a reflexão. Além disso, apontam para o caminho a ser percorrido, corrigindo visões e rotas para que a GC contribua no estabelecimento de fundamentos para a teoria administrativa.

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