2. Arte Funcional – Seleção dos Casos de Estudo 63
2.2 Campo Empírico 67
2.2.3 Gestão em Arte e Design: Victory Gardens 2007+ A Plan
Urban Gardens
Victory Gardens 2007+ A Plan for Subsidized Urban Gardens de Amy
Franceschini42 é um projeto concebido no âmbito da sua seleção, em 2006, para o prémio da Society for the Encouragement of Contemporary Art Art Award (SECA), um prémio de carreira criado para estimular a produção de jovens artistas locais e que é organizado pelo SFMOMA desde 1967.43 Franceschini viu nesta nomeação uma oportunidade de produzir um novo projeto. Victory Gardens 2007+ consistiu em criar e estabelecer um programa piloto para a transformação de espaços urbanos privados abandonados em áreas de cultivo agrícola.
O projeto da artista, do ponto de vista da sua caracterização enquanto obra de Arte Funcional, está implicado na estratégia conceptual de apropriação e utiliza metodologias de trabalho características da área de gestão em Arte e Design na sua concretização. Victory Gardens 2007+ inspira-se no histórico programa agrícola
Victory Gardens, que será descrito já de seguida, e tanto se apropria como
modifica intencionalmente a estrutura desse programa para criar um conjunto de eventos e de novos objetos relacionados. A estratégia de apropriação, uma estratégia em arte que ganhou um novo significado em meados do século XX, utilizada recorrentemente por artistas conceptuais a partir da década de 1960 animados com o desenvolvimento das tecnologias de informação e os meios de comunicação de massa, é assumida por Franceschini ao aplicar o título Victory
42 A artista completou a sua licenciatura em artes plásticas na San Francisco State University em 1992 e realizou o seu mestrado em artes plásticas na Universidade de Stanford em 2002. Presentementemente vive em S.Francisco onde colabora com os coletivos que ajudou a fundar Futurefarmers (f.1995) e Free Soil (f. 2004).
43 SECA foi fundada como parte do SFMOMA, em 1961, com o intuito de apoiar a carreira de artistas da Bay Area. O grupo reúne colecionadores, curadores, profissionais de artes e artistas que promovem eventos relacionados com a valorização de arte contemporânea e da comunidade artística local. Constituíram o comité do “SECA award” em 2005-‐2007, Ron Casentini, Phyllis Cooper, Richard Drossler, Paul Eveloff, Jerri Sue Gienger, Marjory Graue, Joan Hammer, Peggy Heineman, Heather Jain, Dimitriy Kustov, Terry Kwiatek, Mary Napier, Alan Ratliff, Joan Roebuck, Jane Scott, Winsor Soule e Joanne Vidinsky. Desde 1988 a frequência deste prémio é bianual.
Gardens ao seu projeto. A artista refere que criou “uma proposta utópica para um
programa de Victory Gardens reinventado” (Franceschini citada em Sardar 2013) que pudesse ser adaptado à cidade do presente.
Para além da declarada estratégia de apropriação desenvolvida em Victory
Gardens 2007+, Franceschini recorre também às áreas de Gestão na Arte e no
Design, para planear e realizar as atividades que contribuem para o desenvolvimento do seu programa e serviços associados. Segundo Emilio Távora Vilar (2014), a gestão no Design, “constitui-se como um mecanismo coordenador de todos os elementos projetáveis”, o que não é distinto daquilo que acontece em arte, tornando-se a àrea “responsável pelo interface físico entre a organização e os seus públicos preferenciais” (Vilar 2014, 38). Com o projeto Victory Gardens
2007+, Franceschini pretendeu principalmente “intervir de uma forma real no
mundo e afetar uma população mais ampla do que apenas a multidão da arte” (Franceschini citada em Sardar 2013).
O programa agrícola Victory Gardens foi inicialmente desenvolvido durante a I Guerra Mundial (1914-1918) sob a presidência de Woodrow Wilson com o propósito de combater a escassez de alimentos.44 Este programa agrícola foi criado a nível nacional para ser implementado localmente, segundo as características específicas de cada região e localidades do país. Regressou com a II Guerra Mundial (1939-1945), com ajustes e adaptações, através de um programa associado ao New Deal, com o intuito de criar cozinhas e jardins comunitários para combater o desemprego.45 Implementado pelo Departamento de Agricultura e o Departamento de Defesa Civil dos EUA, várias cidades aderiram a esta iniciativa que passou a designar-se por “Food Fights Freedom” (M. Davis 2008). Segundo Mike Davis (2008) o programa Victory Gardens suplantou todas as
44 Woodrow Wilson foi Presidente dos EUA entre 1913 e 1921.
45 Na sequência da Grande Depressão nos EUA, em 1929, foram criados vários programas sociais e liberais com o intuito de recuperar a sua economia e reformar o seu sistema financeiro. O New Deal esteve em vigor entre 1933 e 1939 (Leuchtenburg 2009).
expetativas e produziu alimentos que excederam em muito as necessidades de fornecimento previstas, permitindo que a produção agrícola industrial fosse conduzida para a alimentação das forças armadas (M. Davis 2008, 38).
Fig. 23 Esq. Família Norte-Americana junto da sua produção agrícola no âmbito do primeiro programa Victory Gardens, ca. 1917-1919.
Fig. 24 Dir. Parcelas de terra para cultivo no âmbito do segundo programa agrícolaVictory
Gardens no Golden Gate Park, São Francisco, 1943.
Apesar das hortas nos ambientes rurais serem bastante mais produtivas, foi na cidade que se sentiu um maior entusiasmo e adesão, dando origem aquilo que Davis designa por “uma visão ecológica espontânea e auto suficiente” (M. Davis 2008, 39). Nesta altura, segundo Franceschini, a participação da sociedade civil no cultivo de alimentos, a partir da transformação dos seus quintais em hortas como forma de providenciar comida tanto para a sociedade civil como para os militares em combate, teve um impacto fortíssimo no país. A artista refere que em 1943, existiam mais de 20 milhões de zonas verdes e que foram produzidas cerca de 8 milhões de toneladas de alimento (Franceschini 2008, 3). Segundo Franceschini, no auge de Victory Gardens, São Francisco “tinha o sistema mais vibrante do país” (Franceschini citada em Schmelzer 2009).
Fig. 25 Esq. Cartaz de propaganda do programa agrícola Victory Gardens, ca. 1918 © OFM.
Fig. 26 Centr. Cartaz do programa agrícola Victory Gardens, ca. 1941-1945 © United States Office of Emergency Management.
Fig. 27 Dir. Brochura criada para encorajar a aplicação do programa agrícola
Victory Gardens nas várias cidades da América do Norte © OFM.
Foi precisamente na cidade de São Francisco que Franceschini começou a desenvolver a sua ideia de criar Victory Gardens 2007+ A Plan for Subsidized
Urban Gardens. Este consiste num projeto piloto para o desenvolvimento de um
sistema de produção alimentar, apoiado por instituições públicas, que visa transformar parcelas de terra subutilizadas em zonas sustentáveis de produção de alimentos. A abordagem de Franceschini foi planear e desenvolver métodos que lhe permitissem alcançar “um conjunto amplo e diversificado de pessoas” para colaborar (Schmelzer 2009). Assim à semelhança de procedimentos de gestão e de design estratégico, a obra de Franceschini consistiu em conceber estratégias de planeamento para a recuperação histórica do programa Victory Gardens e para a realização do seu projeto piloto, que incluiu a criação de vários produtos e serviços.
Fig. 28 Logotipo criado por Amy Franceschini para Victory Gardens
2007+ materializado em tecido e
sementes © A. Franceschini.
Fig. 29 Ciclo de vida de Victory Gardens 2007+ A Plan for Subsidized Urban Gardens de Amy Franceschini com áreas identificadas pela artista para intervir na cidade de São Francisco — Fog belt (N0.1) Transition belt (N0.2) e Sunbelt (n0.3) © A. Franceschini.
Amy Franceschini estudou as zonas climáticas de São Francisco e escolheu três (sunbelt, transition belt e fog belt) para intervir (Franceschini 2008, 14); colocou um anúncio, no dia 10 de outubro de 2006, na Craigslist de São Francisco, um
website americano de classificados, para convidar os habitantes da cidade a
inscreverem-se e participarem na iniciativa; de entre as 800 respostas que recebeu selecionou 10 para entrevistar (ibid.); selecionou três parcelas de terra de acordo com a diversidade geográfica, cultural e económica de São Francisco e o grau de compromisso dos seus proprietários com o projeto; fez cartazes, bandeiras com sementes e sacos de terra promocionais inspirados nos inúmeros materiais de propaganda dos anteriores Victory Gardens; construiu o Victory Gardens Trike para transporte do kit de jardinagem; criou duas ferramentas agrícolas engenhosamente modificadas para simbolizar o projeto — a Bikebarrow e o
Pogostick Shovel; construiu kits de iniciante a jardineiro — constituídos por 4 sacos de terra, sementes, vários tipos de nutrientes, um sistema de rega e materiais para construir uma “cama levantada”; um manual de instruções, com informações sobre como construir uma “cama levantada”, instruções de plantação, instruções
para instalar um sistema de irrigação de água, um temporizador e um manual sobre colheitas e poupança de sementes; os kits e o manual de instruções foram distribuídos por um jardineiro numa bicicleta com um atrelado especialmente concebido para o efeito — Victory Gardens Trike; organizou ainda três “Festas da Sementeira” (Planting Party) a pretexto da construção de cada uma das três hortas.
Fig. 30 Esq. Cartaz de Planting Parties de Victory Gardens2007+ © A. Franceschini e SFMOMA. Fig. 30 Dir. Victory Gardens Trike em São Francisco, 2007 © A. Franceschini.
O projeto piloto terminou em abril de 2007. A construção da primeira horta, realizou-se na casa de Shaggy e Nathan Cole a 29 de outubro de 2006. A área intervencionada foi um canteiro de 1,1m2, a festa de semeio reuniu 45 pessoas e semearam-se 60 plantas em duas horas. A construção da segunda horta realizou-se no dia 17 de dezembro de 2006, na casa de Vincent Wong e família. Foi uma intervenção numa área de 8,4m2, reuniu 23 pessoas e semearam-se 150 plantas em 4 horas. A construção da terceira horta ocorreu no dia 22 de abril de 2007 e realizou-se no centro de ocupação juvenil Bayview Healing Arts Center. Num espaço de um ano, Amy Franceschini conseguiu criar um projeto piloto para o desenvolvimento de um sistema de produção alimentar para vir a ser apoiado por instituições públicas.
Fig. 31 e Fig. 32 Planting Party de Victory Gardens 2007+ © A. Franceschini.
Em janeiro de 2008 o Department for the Environment da Câmara Municipal de São Francisco, acolheu a iniciativa de Amy Franceschini, e passou a apoiar associação Garden for the Environment com $60.000 para o desenvolvimento de uma rede de hortas urbanas. Foi realizada uma demonstração do projeto em frente à Câmara Municipal de São Francisco, com o envolvimento de várias comunidades da cidade, para celebrar o estabelecimento dessa rede e que incluiu a criação e distribuição de kits de jardinagem, atividades educativas, programas públicos, sítios digitais e a criação de um banco de sementes doadas pelos habitantes de São Francisco, que contribui para a manutenção e diversidade do stock de sementes desta cidade, e que presentemente está ao cuidado da Garden for the
Environment. Este novo projeto estabeleceu-se como uma nova instituição
cultural que apoia a manutenção do projeto Victory Gardens com uma parcela de terra no Golden Gate Park, onde decorrem os programas educativos que o projeto promove (Franceschini 2008, 14).
De facto, e na perspetiva de Claire Bishop, a dimensão simbólica do projeto de Amy Franceschini, e segundo a própria artista, privilegia sobretudo a dimensão social — os encontros que se geram entre o seu trabalho e a comunidade a que se dirige (Salaysay 2012). A materialização é uma unidade bastante informal e efêmera, tanto se materializa nos encontros como, nas hortas que se criaram durante as “Festas da Sementeira” que por sua vez podem ser representados pelos objetos funcionais e esculturais que a artista criou, como o Victory Gardens Trike
ou a Bikebarrow. Franceschini é clara quando refere que o seu trabalho artístico “tem um papel funcional” (Salaysay 2012) mas que não deixa de se preocupar com a dimensão estética dos seus projetos porque considera que “é a dimensão que atrai mais às pessoas” (Schmelzer 2009).
Seguindo a noção de Arte Pósconceptual de Peter Osborne (2013), o domínio conceptual de Victory Gardens manifesta-se nas palavras da própria artista é um projeto que “é simultaneamente uma obra de arte e democracia” (Franceschini 2008, 8). O domínio estético desta obra materializa-se “através de práticas e colaborações desenvolvidas on e off-line, que estimulam novos formatos para o envolvimento e criação” (Franceschini 2010) e do desenvolvimento de estratégias “que pretendem aproximar as pessoas da natureza” (idid.). O domínio antiestético aparece na sequência da sua “atividade artística [geral] interdisciplinar que trata de questões e desafios relativos aos sistemas sociais, culturais e ambientais” e que exige “um compromisso de longo prazo” com os seus participantes (Franceschini s/d.). A unidade distributiva radical desta obra é ter o seu conceito desmaterializado em estratégias de planeamento, gestão e manutenção, típicos de uma sociedade globalizada, que envolvem ferramentas e meios de comunicação digitais mas também objetos híbridos, como a Bikebarrow e o Pogoshovel (Schmelzer 2009). A dimensão da permeabilidade histórica revela-se através da função simbólica de Victory Gardens, que se corporiza através de “imagens de crescimento” (Schmelzer 2009), de momentos imprevistos e improvisados e “como uma metáfora para valorizar e nutrir os nossos próprios recursos criativos” (Franceschini s/d.).