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ALIENAÇÃO E AUTOALIENAÇÃO NO CAPITALISMO FLEXÍVEL

2 GIG ECONOMY , UBER E O CAPITALISMO FLEXÍVEL

O “modelo Uber” de organização do trabalho deve ser situado no interior do movimento da totalidade concreta do capitalismo global e do novo regime de acumulação fl exível (HARVEY, 1992). Ele represen- ta a concatenação das novas tecnologias informacionais (aplicativos em rede) e o processo de exploração capitalista da força de trabalho nos ser- viços. Estamos apenas no limiar dos efeitos econômicos, sociais, cultu- rais e psicológicos da revolução informacional em rede iniciada na década

de 1990, primeiro com a Internet e depois, na década de 2000, com a disseminação em massa dos telefones celulares e depois smarthphones/ tablets conectados à Internet. A revolução das redes sociais, que surgiu

com a economia da Internet na década de 2000, alterou não apenas pa- drões de sociabilidade e consumo, mas também os modos de organiza- ção e de regulação/controle do trabalho humano. O movimento tardio da propriedade privada lastreado na nova base tecnológica informacio-

nal revoluciona as condições de produção e existência social, ocultando o trabalho alienado e seu sociometabolismo estranhado. Nas condições históricas do turbocapitalismo4, dissemina-se o novo (e precário) mundo

do salariato hiperfetichizado baseado na economia gig do século XXI5.

4 O turbocapitalismo é outra denominação do capitalismo fl exível, o capitalismo global do século XX, capitalismo da crise estrutural do capital, no qual impera a hipervelocidade e a sociedade em rede capaz de aprofundar a redução do tempo de vida a tempo de trabalho alienado (o fenômeno da “vida reduzida”), a compressão do espaço-tempo (HARVEY, 1992) com efeitos nefastos no processo de subjetivação humana (BIFO, 2003).

5 De acordo com Lipovetsky (2004), vivemos em tempos hipermodernos. Deste modo, podemos conceber que na etapa do turbocaptalismo que instalara a hipermodernidade, ao invés da pós-modernidade, desenvolve-se um modo de salariato hiperfetichizado que oculta por meio do fetiche tecnológico a relação de emprego ou subalternidade estrutural entre o trabalho vivo e o capital (LIPOVETSKY, 2004).

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Economia dos bicos ou Gig Economy, também conhecida como

“Freelance Economy“ ou “Economia sob demanda”, é o ambiente ou o mercado de trabalho que compreende, de um lado, trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício (freelancers, “autônomos”), ou

melhor, vínculos empregatícios ocultos pelo salariato hiperfetichizado;

e, de outro, empresas que contratam esses trabalhadores independen- tes, para serviços pontuais, e fi cam isentas de regras trabalhistas. O termo não é novo, mas se tornou tendência mundial na era digital e virtual do capitalismo fl exível, impulsionado por empresas como Uber e Amazon.

A gig economy expressa com vigor o novo (e precário) mundo do

trabalho informacional. O glamour das novas tecnologias digitais (e vir-

tuais) disruptivas6, oculta não apenas o vinculo de subalternidade estru-

tural entre o trabalho e o capital, mas a nova precariedade salarial em sua forma extrema. Enquanto na “economia tradicional” no Brasil, o trabalhador assalariado é contratado via Consolidação das Leis do Tra- balho (CLT) e, dessa forma, tem assegurado direitos como pagamento regular de salário e benefícios, 13º salário, férias, salário desemprego, aposentadoria etc.; na gig economy, os contratos são independentes e

possuem cláusulas específi cas (MENA, 2016, p. 2). “Na Gig Economy não costuma haver qualquer tipo de benefício ou direito trabalhista. Terminado o objeto do contrato ou o projeto, a relação entre empresa e empregado chega ao fi m.” (MURER, 2016 apud MENA, 2016, p. 2).

A Reforma Trabalhista de 2017 no Brasil legalizou o trabalho intermi- tente, que expressa, em termos jurídicos, a nova modalidade de contra- tação da força de trabalho na gig economy.

6 No livro “Infoproletários: degradação real do trabalho virtual”, organizado por Ricardo An- tunes e Ruy Braga, não existe artigo tratando, por exemplo, dos “infoproletários” dos serviços de transporte privado, organizados pelo aplicativo e-healing. Talvez na concepção dos organi- zadores, “infoproletários” seriam principalmente os trabalhadores de call centers/teleatividade onde o vínculo empregatício está bastante explícito (o que não ocorre, por exemplo, com os trabalhadores da Uber); ou ainda, em 2008 a empresa Uber não existia e o surgimento do infotrabalho virtual por aplicativos não estivesse tão disseminado nos países do capitalismo global (ANTUNES; BRAGA, 2009). Nesse caso, ao examinar-se os novos infoproletários, a problemática ideológica do autoempreendedorismo seria colocada de modo candente.

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A Revista Wired referiu-se à gig economy como o novo paradigma

salarial do século XXI. Diz ela que, num estudo feito pelo JP Morgan Chase Institute revelou-se que o número gig workers nos Estados Uni-

dos cresceu 10 vezes desde 2012; e que 4% de adultos já trabalhou, ao menos uma vez, nesse mercado (MENA, 2016). Um outro estudo, da

Intuit Research, prevê que até 2020 a gig economy compreenderá 40%

dos trabalhadores americanos” (ALBA, 2015). No artigo “Uber is just the tip of the iceberg: the gig economy is leveraging the human cloud”, Blikre (2016) observa que a gig economy caracteriza-se pela fl exibilidade laboral: empregadores podem contratar a força de trabalho de acordo

com demandas pontuais; e os trabalhadores assalariados não precisam fi car num local de trabalho e cumprir horário. As novas tecnologias informacionais permitem a desterritorialização do local de trabalho (teletrabalho) e a fl exibilização da jornada laboral, reduzindo-se, des- te modo, tempo de vida a tempo de trabalho. Altera-se a forma como os trabalhadores assalariados veem seus trabalhos, tanto em termos de

planos de carreira, como em relação ao que esperam das empresas para as quais prestam serviços. A gig economy implica a “captura” da subjeti-

vidade do trabalho vivo pela nova lógica do capital. O novo e precário mundo do trabalho lastreado nos aplicativos virtuais e teletrabalho é o “paraíso” do espirito do toyotismo. A idéia do “patrão de si mesmo” representa o salariato hiperfetichizado, dominado pela ideologia do au-

toempreendedorismo) (ALVES, 2011).

3 O MODELO UBER E A NOVA FORMA DE