• Nenhum resultado encontrado

Ginga embarcado

No documento Download/Open (páginas 126-131)

1. Implantação da TVD aberta no Brasil

1.1 Ginga embarcado

Por determinação dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Portaria Interministerial, N° 140/2012 determinando porcentuais de aparelhos de TV fabricados no B rasil que tragam o G inga, a p lataforma de interatividade do sistema brasileiro de TV digital, incorporado trouxe ânimo aos entusiastas do middleware até então pouco explorado pelos players de rede.

PORTARIA INTERMINISTERIAL Nº 140, DE 23 DE FEVEREIRO DE 2012.

OS MINISTROS DE ESTADO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR e DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO, no uso das atribuições que lhes confere o inciso II do parágrafo único do art. 87 da Constituição Federal, tendo em vista o disposto no § 6 o do art. 7 o do Decreto-Lei n o 288, de 28 de fevereiro de 1967, e considerando o que consta no processo MDIC n o 52000.001749/2002-48, de 29 de janeiro de 2002, resolvem:

Art. 1

A Portaria Interministerial MDIC/MCT n o 233, de 16 de setembro de 2011, que estabelece o Processo Produtivo Básico para o produto TELEVISOR COM TELA DE CRISTAL LÍQUIDO, industrializado na Zona Franca de Manaus, fica acrescida do art. 9 o - A, com a seguinte redação:

Os TELEVISORES COM TELA DE CRISTAL LÍQUIDO deverão incorporar a capacidade de executar aplicações interativas radiodifundidas, de acordo com as N ormas ABNT NBR [...] obedecendo ao seguinte cronograma, tomando-se como base a quantidade total produzida nos respectivos períodos:

I - até 30 de junho de 2012: dispensado;

II - de 1° o de julho até 31 de dezembro de 2012: opcional;

III - de 1° o de janeiro até 31 de dezembro de 2013: 75% (setenta e cinco por cento) dos televisores; e

IV - a partir de 1° o de janeiro de 2014: 90% (noventa por cento) dos televisores.

§ 1 - Todos os modelos de televisores que disponibilizarem suporte à conectividade IP e q ue implementem o middleware interativo deverão garantir o acesso das aplicações interativas aos canais de comunicação. [...]

§ 4 - O recurso de que trata o caput deste artigo deverá vir instalado, pré- configurado e habilitado de fábrica. (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR, 2012). Para aprofundamento sobre os projetos de interatividade desenvolvidos no laboratório de pesquisa da EBC, este pesquisador fez contato pessoal com o gerente executivo da TV

Digital da empresa pública Delorgel Valdir Kaiser, durante o II Simpósio Brasil Japão sobre Avanços em Televisão Digital, que foi organizado pelo Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da Escola Politécnica da USP (EPUSP), com o apoio do L aboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico (LSI-TEC), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). No entanto, após diversos contatos posteriores via telefone, o gerente nos indicou André Barbosa Filho, como “o funcionário mais apropriado” segundo o m esmo, para responder a entrevista98 sobre o

assunto.

No ano em que as TVs conectadas se alastraram pelo país, o governo federal já sentia que uma mudança de rota deveria ser executada imediatamente para que não fosse perdido todo o trabalho e investimento de orçamento público no projeto e na implementação da TV digital interativa brasileira. A estratégia mais intensa adotada pelo Ministério das Comunicações foi rever as possibilidades de acesso da população via TVD. Para isso, criou o que ficou conhecido como PAC da TV digital em 2012, que prevê a retomada do projeto tendo os canis de TVs públicas como instrumentos de difusão de aplicações para prestar serviço público. No mesmo período, Barbosa Filho publica em seu blog99 o artigo intitulado

“Vale a pena lutar pelo Ginga?”. O autor discorre sobre os desafios de investimento público pela inclusão digital e social e a contraposição dos interesses comerciais privados.

Fazer inovação neste País não é tarefa fácil. Ideias brilhantes e promissoras saem dos laboratórios e dos centros de pesquisa com expectativas altas de solucionar questões complexas, apresentar respostas para demandas em diversos setores, tornar-se benchmarketing em implementação exitosa de suas especificações. Entretanto a distância entre o desejo de se estabelecer e a realidade fria e p erversa dos números orçamentários das empresas, a disputa fratricida entre os projetos para merecer investimentos se so ma a miopia de controladores e gestores em não perceber a q ualidade destas inovações e suas potencialidades. [...] O Middleware Ginga venceu grande parte desta corrida. Foi escolhido como elemento vital de interface entre diversas linguagens de programação, solução esta inteiramente nacional. Tornou-se padrão UIT (União Internacional de Telecomunicações) tanto no campo das plataformas IP como no da radiodifusão. Portanto, segue sendo um produto Inter operável disponível. Talvez o único já recomendado pela instituição internacional. Mas isto basta? Não, senhores. O Ginga ainda não acreditado no mercado pelos interesses enviesados das propriedades intelectuais de outros padrões que mesmo com menor eficiência e amplitude, são defendidos, neste momento em que o setor discute padronizações universais. E o mais grave. Por aqui, ainda não deslanchou. (BARBOSA FILHO, 2012)

98 Relacionada no Anexo 5.

99 Disponível em <http://abfdigital.blogspot.com.br/2012/11/vale-pena-lutar-pelo-ginga.html>. Acesso em: 11

O questionamento de Barbosa Filho sobre a preferência do r adiodifusor do s etor privado em ignorar o Ginga em opção ao modelo de negócio pelo pagamento de acesso a conteúdo em outras plataformas é latente na afirmação a seguir:

Políticas de implementação das smart TV, globais e principal produto das montadoras de dispositivos eletroeletrônicos, por serem em mercados onde as c ircunstâncias econômicas de infraestrutura são bem diferentes das que apresentam a g rande maioria dos países do chamado 'mundo em desenvolvimento' não incluíram o Ginga [...] apenas, o encapsulamento de aplicativos. Nada de vídeos interativos, que reproduz própria linguagem televisiva e q ue tanto sucesso faz, inclusive pela Internet através das redes sociais [...] Outras explicações aparecem para que, aos poucos se v á minando esta possibilidade. Entre estas a que defende a hegemonia do tráfego IP para audiovisual, com soluções pagas. E baseadas em argumentos da concentração e verticalização desta realidade broadcasting. Será que o modelo de TV pública se encaixa nisto? Tenho certeza que não (BARBOSA FILHO, 2012).

A interatividade por meio do G inga, sem custo para a população não emplacou no Brasil até a conclusão desta pesquisa, no segundo semestre de 2013. A expressão da certeza de que o middleware brasileiro é u ma solução tecnológica robusta, democrática e co m finalidade cidadã, leva Barbosa Filho, (2012) a discutir, através do b log pessoal100 que

mantêm no ar, temas de políticas e inclusão social e digital no Brasil. O agente público faz um apelo aos empresários de radiodifusão para que estes percebam o reconhecimento histórico futuro do Ginga em todas as potencialidades e possibilidades de inclusão social, investidas ao longo de anos em pesquisas em algumas instituições públicas e privadas de reconhecida competência internacional.

Valer a pena apostar no Ginga. Mesmo que seja para que, no futuro, possamos contar aos nossos netos que existiu uma solução maravilhosa feito no Brasil para resolver a questão convergência das mídias, mas que morreu como despareceram tantas outras ideias maravilhosas que não encontram guarida no mundo real. Espero que quanto a isto, eu esteja totalmente equivocado (BARBOSA FILHO, 2012).

100 Disponível em: <http://abfdigital.blogspot.com.br/2012_11_01_archive.html>. Acesso em: 29 nov. 2012,

Com os testes sendo executados em campo, André Barbosa reconheceu que o processo de interatividade, mesmo em canais públicos, requer grande aprofundamento técnico e de conceito para o telespectador.

Quando iniciamos nossa trajetória em busca de soluções para a introdução de vídeos interativos no projeto de TV Digital que ora iniciamos em João Pessoa, na Paraíba, em conjunto com oito empresas mais três universidades, esbarramos nas dificuldades de disponibilizar vídeos de 04 ou 05 minutos com interatividade, [...] Percebemos durante a ação de João Pessoa o quanto não nos preparamos para programar o Ginga para a linguagem televisiva. E, deste modo durante as produções apanhamos muito. Desenvolvedores, produtores, radiodifusores públicos, arregaçaram as mangas para vencer os desafios de proporcionar esta entrega de benefícios públicos oferecidos pelos níveis de governo à população. E ainda testar o canal de retorno via 3G. [...] vídeos interativos com conteúdos voltados para saúde, previdência social, documentação pessoal, bolsa de emprego e um programa de movimentação bancária (BARBOSA FILHO, 2012).

Os testes foram feitos utilizando transmissão broadcasting pelo canal 61 UHF, duas produções em HD, da TV Brasil e da TV Câmara Federal, ainda um canal One Seg (para dispositivos móveis e portáteis) e por último um canal de dados. Segundo Barbosa Filho, os testes de João Pessoa foram aplicados no mesmo formato que “serão apresentados às autoridades brasileiras quando das discussões do Projeto do Operador da Rede Nacional de Radiodifusão Pública Digital” (BARBOSA FILHO, 2012), a s er gerenciado pela EBC. Os vídeos interativos versaram sobre os itens a seguir:

1 – Trabalho - Foram produzidos três programas-piloto desenvolvidos pelo polo multimídia da Universidade Federal da Paraíba, com apoio do M inistério do Trabalho, abordando assuntos sobre a o btenção de documentos como carteira de trabalho, CIC e C arteira de Identidade, além da bolsa de empregos;

2 – Saúde - suporte do Ministério da Saúde. Projetos: Saúde em Família, Farmácia Popular, Vacinação e Aleitamento Materno;

3 – Benefícios Sociais - apoio do M inistério do Desenvolvimento Social e Ministério da Previdência, benefícios do governo Federal como o Bolsa Família e o Cadastro Único.

As cem famílias que participaram do projeto eram formadas, na maioria por analfabetos, moradores de quatros bairros pobres de João Pessoa, estado da Paraíba. A infraestrutura utilizada foi conversores de TVD, com os aplicativos já encapsulados. Concomitantemente, aos testes foram aplicadas pesquisas sobre uso do equipamento de

interatividade e a absorção apreendida pelo público participante. Este último item foi pelos consultores do Banco Mundial, incluídos no projeto.

Ainda que possa ser questionada a p ossibilidade de utilização benéfica pelas comunidades com restrito acesso a bens e serviços de tecnologia, a convergência tecnológica é uma exigência natural na sociedade do c onhecimento. Brennand (2007) nos relata a existência de uma linha de pesquisadores sociais na França que estudam comunidades com limitações de acesso a tecnologia e a definem de ‘sociedade cognitiva’ em constante estado de aprendizagem, que de forma gradativa vai marcar uma nova fase na história de quem esteja nela envolvida.

O fato é que a população brasileira ainda desconhece profundamente o projeto de TV digital interativa pensado pelo poder público federal para o país. As organizações criadas (Fórum SBTVD e DTV) para auxiliar no pr ojeto também não demostram poder de comunicação eficaz com a parcela da população que mais assiste TV aberta, as classes sociais C, D e E.

Um dos caminhos viáveis para o n ão descarte do pr ojeto de TVDI nacional é a integração dos padrões Hbb (Hybrid Broadcast and Broad Band TV) 101 disponibilizada pela

Rede de TV Digital Pública Federal. Os Broadcasters oferecem conteúdos gravados e ao vivo, com interatividade pela TV, já os Broad band TVs utilizam a linguagem fria dos aplicativos com fins comerciais ofertados pela plataforma IP. O PNBL é uma possibilidade de aperfeiçoamento do projeto de inclusão digital pela televisão. Seja ele conectado ou aberto em UHF digital. Aos canais de televisão públicos é possível ofertar aplicativos com finalidade de promover inclusão. Essa possiblidade bidirecional é real se utilizada o smart grid, que provê acesso Broad band pela rede elétrica e viabiliza o canal de retorno para efetivação da interatividade. A harmonia desse sistema é plenamente viável nos canais públicos, que por princípio constitucional e social tem a finalidade de prestar serviços à comunidade.

As possibilidades de avanço ao acesso de ferramentas tecnológicas são possíveis com a diversificação de projetos e programas por via pública. A grande barreira não superada pelo governo federal, de disponibilizar aplicativos de serviços públicos por meio de canais de TV privados, tem seu grau de complexidade acrescido pela necessidade de uma terceira via na rede de conexão: um conversor digital (embarcado no aparelho de TV ou set-top box externo) que suporte a solução de acesso e operacionalização de aplicativos. Para que clientes do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, segurados da Previdência Social e a população

101 Termo utilizado pela EBU - European Broadcasting Union, composta pelos principais radiodifusores da

em geral acessem os aplicativos de prestação de serviços públicos é necessário que os aparelhos de TV tragam no middleware embarcado soluções de interatividade capaz de rodar aplicações dos órgãos públicos. Por enquanto, está claro que o processo de acesso ao cidadão é mais complexo do que foi propagandeado pelo governo federal ao apresentar oficialmente o modelo de TV digital interativa para o país. O processo é complexo por que requer anuência das emissoras geradoras em rodar aplicações que serve uma instituição financeira, por exemplo, ou órgão público, mas sem que a emissora seja remunerada para tal. Até a conclusão desta pesquisa, nenhum radiodifusor privado brasileiro se dispôs a liberar seu canal para prover acesso aos serviços públicos básicos como pretendia o g overno federal. Em 2010, somente o Banco do Brasil informava ter 50 milhões de clientes no país. No Maranhão, em 2011 o ba nco atendia 844 mil clientes, sendo 797 mil pessoas físicas e 47 mil empresas. Como constatado, os canais de TV privados não mostraram interesse em prover acesso de qualquer aplicação, sem receber pagamento pelo serviço. O plano seguinte do governo federal foi recorrer aos canais públicos de televisão, por meio da Rede Nacional de Canais Públicos, mas que também ainda não mostrou resultados práticos.

Excluindo o canal de TV ou um conversor externo desenvolvido por empresas de TI, a terceira opção seria o usuário comprar um aparelho de TV que traga o conversor. Acontece que as marcas de aparelhos de TV, como as emissoras também só disponibilizam aplicativos que sejam de seu interesse comercial. Até maio de 2013, apenas as cidades de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro tinham acesso ao aplicativo do Banco do Brasil, por meio dos canais da TV Brasil em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

Ainda que o C ódigo Brasileiro de Telecomunicações em vigor seja de 1962, não justifica que empresas de radiodifusão públicas e, especialmente as privadas não apliquem na prática o p ropósito fim estipulado pelo Artigo 221 da Constituição brasileira, que é a “preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”, o que passa pela prestação de serviços básicos a s ociedade com aplicações interativas de inclusão digital e social.

No documento Download/Open (páginas 126-131)