O processo de globalização está provocando uma profunda e talvez definitiva mudança no mundo todo. Processo este que criou rede de comunicações instantâneas e fez nosso mundo encolher (WILFRED, 2002, p.33). Entretanto, a facilidade de comunicação e o acesso das culturas entre si não tendem a convergir numa cultura mundial universalizada, mas, sim, fazer surgir um cenário para a expressão de diferenças (PRANDI, 1997, p. 68). É o que sugere o sociólogo Reginaldo Prandi: “Se, de um lado, estão em curso processos de
integração cultural no plano global, de outro a situação vem tendendo ao pluralismo ”
(PRANDI, 1997, p. 68). Daí o apontamento nessa pesquisa quanto a pertinência e a importância do ER nesse contexto plural e globalizado.
O ocidente tem sentido fortemente o impacto do pluralismo, como também de duas outras correntes coexistentes na pós-modernidade, que perfazem o trio de embate: globalização/pluralização/secularização. A secularização é uma consequência direta da pluralização, que só se toma efetiva e nos atinge de forma significativa em nível de globalização. Como muitos se tornaram os representantes religiosos devido à pluralização trazida pela globalização, a secularização passou a ser, então, uma tentativa de desvincular o poder político e social da religião. Principalmente porque a opulenta diversidade não mais permitiria que o domínio político ficasse em detenção de uma única religião ou confissão religiosa.
Desde o advento da cultura moderna, o modelo pluralista tem causado uma grande mudança no pensamento do ocidente, até então norteado principalmente pela religião. O pluralismo secularizou a sociedade e, desta forma, “diversas religiões podem coexistir porque a ordem social e a política não precisam da religião para legitimar-se e fazer-se respeitar” (OLIVEIRA, 2002, p.18).
A partir destas mudanças ocorridas e em processo, pode-se ter ideia do impacto da pós-modernidade sobre a religião (mais especificamente o cristianismo no ocidente) como até hoje conhecida17. Porém, muito mais do que apenas a influência da pós-modernidade, o
pluralismo é primeiramente “uma condição existencial do ser humano ― existimos em uma realidade múltipla e complexa de cores, diversidades e dimensões que constituem a própria natureza de um modo geral. Ser humano é existir numa multiplicidade de possibilidades, dimensões e visões da realidade” (SCHOCK, 2012, p. 49). O pluralismo está presente de muitas formas, em muitos lugares. Há o pluralismo como parte da economia e da política, da ciência e da ética, da cultura e da religião. Ser humano é ser plural. Assim, o ER se constituiu num instrumento social importante na possibilidade da construção de uma ética global e formação da cidadania.
Devido à estreita relação com a cultura, o fator religioso do pluralismo precisa ser estudado e compreendido a partir de suas raízes histórico-filosóficas e o contexto social e ideológico de onde emerge.De outra forma, a expressão religiosa pode ser deslocada do seu eixo identitário, deixando-a, assim, até mesmo desprovida de significação, sem razão de ser e sem explicação para quem, de fora para dentro, procura compreender determinada expressão religiosa. Por isto, uma atitude simplista para com esta realidade não levará a uma compreensão satisfatória. Deste modo, cabe ao ER mais uma atitude sensível à pluralidade, consciente da complexidade sócio-cultural da questão religiosa, se quisermos, de alguma forma, compreendê-la.
E para fins pedagógicos, esclarecedores e norteadores em nossa pesquisa, vale conceituar o que se compreende por pluralismo religioso. Consideramos, pelo menos, três visões convergentes: A primeira entende o pluralismo religioso como “o grande número de expressões e crenças religiosas existentes [...], que se mantém vivas como expressão e manifestação de fé de um determinado grupo de pessoas” (BOBSIN, 2002, p. 22). Ou, a ideia do pluralismo religioso que está relacionada “à necessidade que o ser humano tem de atribuir sentido à sua vida” (OLIVEIRA, 2002, p. 18). Por último que “a pluralidade de
17 Apesar de que este quadro não esteja perfeitamente definido, no sentido de estarmos vivendo aspectos da pós-
modernidade, estando ainda ligados à era moderna (há quem diga que ainda estamos em plena modernidade com apenas tendências pós-modernas – MARTINS, 2002), muito no cenário mundial está mudado ou mudando. A insegurança gerada no mundo religioso devido a este processo de mudança é justificável.
religiões pode ser inclusive compreendida como consequência da liberdade humana e da diversidade do ser humano na busca de uma resposta ao impulso divino [...]” (PIVA, 1996, p. 14.).
O pluralismo religioso, em seus vários aspectos, pode ser abordado a partir de duas perspectivas fundamentais:
[...] primeiramente, o pluralismo religioso na perspectiva sociológico- antropológica se apresenta como realidade histórica e cultural que condiciona e dá legitimidade a vários aspectos da realidade social e individual da vida humana. A religião aparece dentro desta perspectiva como o coração da cultura. Ela oferece à visão do mundo a questão do sentido último e ao ethos sua motivação mais profunda. E age sobre a pessoa semelhante aos padrões culturais. Em segundo lugar, o pluralismo religioso como enfoque teológico se apresenta como busca do transcendente, da divindade, do sagrado que dá significado e responde as questões fundamentais da existência humana, presente nas várias tradições religiosas. Nesta procura de ‘unidade na diversidade’, há um reconhecimento de que em todas as religiões se aspira por uma Realidade Última, que está além dos limites da história, que possa conceder libertação ou salvação para os diversos males da condição humana (SCHOCK, 2012, p. 50-51.).
O ser humano sempre procurou uma expressão, uma afirmação religiosa, algo em que pudesse fundamentar sua vida, mesmo que a isto ele não chame de religião. Ele procura por algo que não seja tão mutável, algo que lhe possa dar alguma certeza, alguma referência ao absoluto. Nesta busca ele precisa descobrir o que é suficientemente bom para ele e, por questão de identidade, ele procurará o que é o melhor ― o que ele julga ser o melhor, o certo, o absoluto. No pensamento do mundo pós-moderno, o que se tornou fator diferenciador na mente daqueles que já o assimilaram é que “o que é plural não pode ser estruturado numa sequência evolucionária, ou ser visto em estágios inferiores ou superiores; nem pode ser classificado como ‘certo’ ou ‘errado’” (SCHOCK, 2012, p.52) ― para o
pluralismo/pluralista não é mais uma questão de ser melhor ou pior religião, mas, sim, questão de ser apenas mais uma expressão religiosa entre tantas.
É ainda relevante mencionar que há uma preocupação de que o pluralismo tenha intenção, ou que, mesmo não intencionalmente, venha a dar vazão a uma corrente de pensamento que busque através de elementos como a equiparação das religiões transformá - las numa só religião mundial (este mesmo temor já foi verificado quanto à cultura diante da globalização). No entanto, ao mesmo tempo surge a preocupação por parte de alguns
pensadores em delinear alguns traços do pluralismo, contrários a este temor. Segundo Eduardo Rosa Pedreira, o pluralismo não tem o interesse de “fundir as diferenças inerentes a cada religião em um pacote multirreligioso” (PEDREIRA, 1998, p. 123). SCHOCK descreve que a “Pluralidade não deve ser confundida com formas de sincretismo que combine as diferenças históricas e culturais das religiões para que seu centro comum possa ser institucionalizado” (SCHOCK, 2012, p.52).E, para Elói Dionísio Piva, “a pluralidade das religiões não é de fato um fenômeno que deve desembocar necessariamente numa religião única” (PIVA, 1996, p. 14). Dado esses panos de fundo, podemos observar o quanto o ER pode ser salutar nas escolas públicas, quando utilizado numa epistemologia fenomenológica (modelo das Ciências da Religião), perpassado por uma fundamentação transdisciplinar, em diálogo com a teologia do pluralismo religioso, através da prática transreligiosa, por uma ética global, objetivando a cidadania, a tolerância, o respeito, a paz e o convívio harmonioso nesse atual contexto social globalizado e plural.