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1.2) Teologia do Pluralismo Religioso

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A teologia do pluralismo religioso é uma resposta oportuna diante de inúmeros conflitos e tensões com motivação religiosa presentes nos dias atuais. Ela mais se aproxima do nosso interesse na construção de uma teologia do ER. Essa teologia emerge a partir do diálogo inter-religioso. A afirmação da Divindade, do Sagrado, do nome de Deus, serve de fundamento na busca da união de todas as religiões no serviço da promoção da paz e da justiça no mundo; e, em tempos de crise ecológica e aquecimento global, da preservação da natureza (TEIXEIRA, 1995, p. 59).

Nessa perspectiva teológica, o diálogo assume um importante papel. O diálogo é, em primeiro lugar, uma atitude e, posteriormente, um método. Ele permite o reconhecimento da alteridade e da reciprocidade da outra religião. A postura de diálogo parte do pressuposto de que seus agentes estão em um plano de igualdade. Não há privilégios e nem concessões. Todos se reconhecem como filhos/as de um mesmo Deus. Portanto, a teologia do pluralismo religioso pede que se vá além do diálogo a fim de que todas as religiões se empenhem em um efetivo serviço à humanidade. Ela pede um compromisso social para a vida planetária.

Resgata a força ética das religiões para a promoção da paz e do bem entre os seres humanos18.

Essa visão teológica enfoca as diferentes tradições religiosas em uma perspectiva de unidade e comunhão. Não se trata de uma visão fragmentada das religiões, mas de uma interconexão entre as partes. Uma religião não é compreendida isolada da outra. Essa é a beleza desse novo paradigma teológico. O diálogo é possível, mas mais que isso, a fraternidade, a ética mundial é possível. Assim, no ER, esse ambiente de liberdade se torna imprescindível para o estudo, respeito e apreciação das diferentes religiões no ambiente escolar e também fora dele.

Na teologia do pluralismo religioso o diálogo torna possível porque uma verdade (seja ela religiosa, ética, cultural, social, etc.) não é compreendida isolada de outras verdades. Ou seja, o que estamos indicando, em outras palavras, é que a busca desenfreada e angustiada pela verdade, tende a criar fundamentalistas; isso porque uma vez que se se imagina ter descoberto a verdade ― seja a verdade religiosa, ou política, ou existencial, ou de qualquer natureza ―, de alguma maneira o individuo se sente em superioridade àqueles que não a descobriram; e a partir daí, mesmo que seja nominalmente por amor, ou por fundamentalismo assumido, se tenta de alguma forma colonizar o outro e fazer com que o outro descubra a verdade, cuja verdade, é claro, é aquela imaginada ter sido descoberta pelo fundamentalista. Todavia, ainda que os indivíduos compartilhem da mesma visão, a mesma religião, as mesmas crenças, as mesmas filosofias, os mesmos símbolos, a mesma fé, no entanto, ainda assim haverá distinções entre as pessoas; existirão diferenciações entre a verdade de um indivíduo em relação à verdade do outro. Ao passo que, dois indivíduos, podem ter em comum a crença na mesma expressão de fé, ter a mesma religião, o mesmo partido político, a mesma filosofia, contudo, ao caminharem com convívio cotidiano, as diferenças e disparidades se manifestarão ― os casais o sabem muito bem! ― Esse fenômeno não acontece porque a verdade de um individuo seja melhor ou pior em relação

18 São teólogos do pluralismo religioso: John Hick, Paul Knitter, Raimundo Panikkar, Hans Küng, Julio de Santa

Ana, Claude Geffré, André Torres Queiruga, Roger Haight, Jacques Dupuis, José Maria Vigil, entre outros. Para uma visão geral da teologia do pluralismo religioso sugerimos uma investigação sobre as obras: “A Teologia das Religiões em foco: um guia para visionários”, de Claudio de Oliveira Ribeiro e Daniel Souza (Paulinas 2012); e “Teologia das Religiões”, de Faustino Teixeira (Paulinas, 1995).

ao outro, mas porque cada cidadão é um ponto de vista; tudo o que um indivíduo vê, ele o vê a partir da perspectiva de sua cosmovisão; ele é o mundo; ele é um ponto de vista; ele é a

vista de um ponto; o ponto é ele. E é deste ângulo que o individuo alimenta o seu olhar, o

seu entendimento, a sua interpretação daquilo que ele próprio, no fim das contas, chamará de verdade.

Portanto, mesmo que a verdade do indivíduo A seja assimilada pelo indivíduo B, o qual considere que essa verdade faça sentido para ele, ao entender assim, essa verdade do indivíduo A se adaptará a verdade do indivíduo B, porque a sua verdade tem a ver com a sua história, com o seu caminho, com as suas impressões, com a sua cultura, com a geografia onde ele nasceu, com os pais que o criaram, com a educação que ele teve, com os significados que ele projetou nas experiências que ele teve durante a vida, portanto, é inteiramente dele, é o seu olhar, é a sua construção, é a sua perspectiva, é o seu ponto de vista.

Assim, o entendimento de que a verdade é algo absolutamente relativizado (incluindo aqui a verdade religiosa), pode promover grande liberdade para o ER escolar. Nesse viés, defendemos a ideia de que o a teologia do pluralismo religioso pode se configurar num método adequado no contexto do ER nas escolas públicas na atual configuração social no Brasil. Consideramos que parte dos processos de intolerâncias, desrespeitos, aviltamentos, alienações, etc., que tanto são promovidos, nascem dessa perspectiva (verdades absolutizadas), onde ainda hoje, grande parcela dos indivíduos que constituem a sociedade concluem que descobriram a verdade, e ao pensar que descobriram a tal verdade, iniciam os movimentos de tentativa de colonização do outro. Deste mote nascem os proselitismos e os fundamentalismos religiosos; são as verdades com suas tonalidades, suas variações, suas interpretações, tentando se impor sobre o pensamento do outro.

Contudo, esse novo paradigma teológico apresenta a proposta de que o indivíduo anda em liberdade e ele cresce quando a sua verdade se soma a do outro numa relação interpessoal; e mesmo que as verdades sejam, a priori, absolutamente antagônicas entre si, há nelas componentes que podem agregar cada indivíduo e fazer com que suas verdades se expandam, ampliem.

Ademais, a ideia da teologia das religiões é de que a consciência não é um movimento individual, como se o cidadão por adquirir maior conhecimento esteja mais “consciente”. Pelo contrário, a compreensão é de que a consciência é um movimento coletivo. Por exemplo: Alguém, isolada e individualmente, sabe menos; por isso, inclui o outro; e ao incluir o outro eles passam a saber mais. Consequentemente, não sou eu, somos nós, e o nós expande a nossa possibilidade de entendimento (embora, individualmente, jamais os seres humanos cheguem a um entendimento pleno da verdade; porque a mente humana individual é fragmentada; cada ser humano vê através da cronologia do tempo – do seu tempo – ; todo indivíduo se baseia, se limita, pelo tempo, pelo espaço. Isto posto, como alguém pode dizer que sabe a verdade?).

O que discorremos no parágrafo acima é o conceito de alteridade. É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível (posto que se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou) a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.

Não obstante suas vantagens, a teologia do pluralismo religioso apresenta uma série de questionamentos às religiões. O primeiro deles se dirige à teologia enquanto tal, isto é, à fé religiosa de uma determinada denominação. O exclusivismo sai de cena para dar lugar a uma postura mais humilde diante das outras religiões. Todas as religiões são iguais, verdadeiras, reveladas e fundadas por um mesmo Deus ou Divindade (QUEIRUGA, 1997, p. 59). O ER contempla as dimensões da pluralidade e diversidade religiosa presentes em nossa sociedade. A Igreja Católica Romana no Brasil, por exemplo, mesmo com suas

contradições internas, afirma a configuração pedagógica do ER como algo que se distancia da catequese.

Há grande preocupação em estabelecer a identidade do Ensino Religioso escolar, distinto da catequese, principalmente nas escolas da rede oficial, frente ao pluralismo de crenças dos alunos/as, das famílias e dos professores/as. Nota-se também uma busca de precisão nos seus objetivos, métodos, conteúdos e linguagem que permitam um referencial básico a fim de que os temas não sejam apresentados de forma vaga, neutra, imprecisa ou confusa, sob pretexto de atender à pluralidade de religiões dos educandos/as (CNBB, 1992, n.º42).

A preocupação com uma teologia que responda à configuração do ER como disciplina escolar na rede pública de ensino emerge do fundamento epistemológico da disciplina. Os estudos e pesquisas sobre a identidade pedagógica do ER prosseguem. O perfil pedagógico parece mais claro. A prática se distancia da catequese. Aliás, realizar catequese na escola pública seria uma transgressão da lei, e, portanto, ocasionaria crime, uma vez que contraria o dispositivo legal que proíbe o proselitismo religioso na escola pública.

Uma teologia do ER se apoia no teocentrismo do pluralismo religioso atual. É preciso afirmar Deus como Pai/Mãe da humanidade e de toda obra da criação. Desse modo, o nome mais utilizado entre as religiões para expressar reverência à Fonte originária de todo ser, ou seja, Deus, é Senhor. Dizer que Deus é o Senhor, não significa afirmar uma imagem autoritária, patriarcal e machista de Deus. Um dos sinônimos para o termo Senhor, pode ser

Abbá, expressão utilizada por Jesus para chamar Deus carinhosamente de Pai.

Aplicado a Deus, Senhor quer dizer Criador do Céu e da Terra porque tirou todas as coisas do nada para serem expressões de sua superabundância de vida e de amor. Pelo fato de ser Criador, Deus sempre está presente em cada coisa, em sua raiz mais íntima. Se, por absurdo, suspendesse por um momento sua vontade criadora, todos os seres voltariam ao nada (BOFF, 1999, p, 24).

Na configuração de uma teologia para o ER não há que se insistir em uma imagem já superada de Deus. O Deus “Todo-Poderoso”, da “onipotência arbitrária” é deixado de lado para que o Deus do amor “ágape”, da “compaixão” e da “misericórdia” tome o seu lugar. Deus tem muitos nomes e é celebrado através de vários cultos nas diferentes religiões. Na Bíblia, Deus é chamado com o nome hebraico de Javé, na versão grega é Kyrios, que quer dizer Senhor. Um mesmo Deus, com nomes e expressões diferentes. No livro sagrado dos cristãos/as, Deus, sobretudo no Antigo Testamento, possui vários nomes: Javé, El, El

Shadai, Elohim, Asherá, Goel, entre outros. Isso nos dá margem para defender um

politeísmo na própria Bíblia. Deus possui formas e teologias diferenciadas na Sagrada Escritura.

O nome Senhor impõe respeito. Tem forte sentido político. No Brasil, por muito tempo, vigorou a política dos senhores de engenho e dos coronéis. Eles foram senhores em nossas terras. Deixamos claro que chamar Deus de Senhor não tem mais esse sentido. O problema é re-significar esse conceito. Não desejamos que a relação senhor/escravo, seja transferida para o relacionamento entre Deus e a humanidade. No sentido que defendemos, afirmar o teocentrismo no pluralismo religioso, e particularmente no Brasil, considerando a tradição teológica latino-americana, é defender uma nova ordem política e social em nosso país.

Há uma luta entre os vários senhores no mundo para ver quem é mais senhor. Entretanto, as pessoas religiosas de todos os credos negam o título de “senhor” a esses pretensiosos títeres dos povos. Em nome do verdadeiro Senhor do Céu e da Terra, desmascaram-nos como falsos senhores, porque seu poder se constrói à custa do empobrecimento das grandes maiorias e da pilhagem sistemática dos recursos da Terra. Numa perspectiva global, são mais produtores de morte que de vida (BOFF, 1999, p. 25).

Afirmar o primado de Deus entre as religiões significa promover a reconciliação e a fraternidade entre os seres humanos. Mais ainda, significa rejeitar o projeto dos destruidores da obra da criação, e se empenhar em um projeto de libertação integral do ser humano. Trata-se de uma re-fraternização da humanidade. Isso não significa a eliminação das diferenças, mas a comunhão íntima e o profundo respeito entre as religiões (QUADROS, 2004, p.73-86).

Os grandes mestres espirituais como Buda, Moisés, Cristo, Krishna e outros eram tidos como senhores pelos discípulos e pelas multidões. Entretanto, eles se consideravam simples servos de Deus e de toda a criatura humana. Essa atitude de serviço que rompe barreiras e que inclui a todos traz como efeito a paz, a paz verdadeira que todos ansiamos (BOFF, 1999, p. 26).

Uma nova imagem de Deus será construída, considerando a teologia da criação e do pluralismo religioso. Essa imagem de Deus será rica, diversa e promoverá a comunhão entre as diferentes religiões.

2) Ensino Religioso e Ética Mundial: a formação para a paz

Vimos na primeira parte deste capítulo que o pluralismo religioso é capaz de promover o enriquecimento da compreensão das diferentes expressões de divindade num contexto social cada vez mais plural, globalizado e secularizado. Nesse viés, nos ocupamos em compreender o que consiste a teologia do pluralismo religioso para avaliar sua utilidade no que diz respeito ao seu fundamento epistemológico para a disciplina escolar do ER — uma vez que nesta perspectiva teológica o diálogo assume uma importante atitude e também um método, que permite o reconhecimento da alteridade e da reciprocidade da outra religião. A partir desses pressupostos, foi possível observar a pertinência da teologia do pluralismo religioso para o ER no atual contexto plural e globalizado.

Agora, na segunda parte deste capítulo, vamos nos dedicar ao diálogo inter-religioso pelo prisma da ética. Será elucidado o ethos e os direitos humanos como um legado da diversidade cultural e religiosa, para posteriormente analisarmos a educação na perspectiva do ethos.

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