Uma primeira influência a ser considerada é a de Herder. Mesmo não sendo uma influência direta na constituição dos Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, é difícil imaginar o trajeto da história intelectual e literária de Goethe sem a ajuda de Herder.
As indicações de leitura e releitura feitas por Herder – desde os clássicos até o pensamento de Rousseau – foram de extrema importância para a formação de Goethe. Isso se dá de tal forma que, o novo traçado de estudos que Goethe desenvolve (através dos ideais românticos) após o contato com Herder, o levaram, por exemplo, a escrever o Werther e o influenciaram ainda na primeira versão dos Anos de aprendizado.
Para recordar, foi a retomada do curso de Direito que colocou Goethe na cidade de Estrasburgo, onde encontrou-se com Johann Gottfried von Herder, que chegaria em Estrasburgo para cumprir o cargo de preceptor do príncipe Holstein-Eutin. Herder já tinha certa fama na Alemanha, de forma que Goethe, assim que soube da chegada de Herder à cidade, logo tratou de apresentar-se e buscou uma forma de começar a frequentar a casa desse, tentando estabelecer relações de aprendizado.
Johann Gottfried Von Herder (1744-1803) nasceu na Prússia Oriental, e, em Riga, chegou a exercer a função de pastor (1769), mas exercia a profissão de médico, filósofo e teólogo. Sua formação emanava de excelentes raízes; em sua juventude, havia cursado
72 Dentre essas influências, decidiu-se também por não acrescentar a relação com Schiller. O motivo é que,
embora Schiller tenha sido um leitor assíduo do Meister antes de sua publicação – e por esse motivo muitos autores o colocam como importante influência na obra –, ao ler as cartas trocadas entre ambos (Goethe e Schiller) durante o período de desenvolvimento final do Meister até sua publicação (1794-1796), é possível perceber que as contribuições de Schiller se deram em caráter textual e estrutural, mas não em termos teóricos. Assim sendo, embora importante para a constituição estrutural da obra, optamos por não relacionar suas contribuições, primando por contribuições que ajudaram a constituir o conceito formativo do Meister (ver GOETHE; SCHILLER, 2010).
filosofia em Königsberg onde foi aluno de Kant73 (KLEIN, 2012), o qual, por ser admirador de Rousseau, encorajou Herder a ler as obras desse autor e buscar novas formas de conceber a formação dos indivíduos: individualizada e com ênfase nas experiências de cada um, ou, a chamada pedagogia moderna (HAMMER JR.74, 1973).
Esses contatos com a nova pedagogia teriam possibilitado a Herder expandir também sua cultura sobre pressupostos orientais, bem como ampliar sua compreensão sobre os ideais do Pietismo, movimento que conheceu pelas apresentações de seu tutor Johann G. Hamann75 (O mago do norte).
De Hamann veio também a busca pelo equilíbrio do dualismo kantiano entre razão e sensibilidade através da linguagem, buscando demonstrar que todo progresso humano aconteceu pela possibilidade de a linguagem fazer essa síntese, bem como a influência da religiosidade desprestigiada pelo Iluminismo. Contudo, para Herder, a religiosidade determinou as questões da história, já que essa é vista como um processo de concretização dos planos da Providência divina76.
Para Nicolau (2014), toda essa formação de Herder contribuiu para que ele percebesse que a influência do pensamento francês estava em declínio, e ainda, que novos horizontes deveriam ser buscados para a Alemanha.
Herder se tornou um dos principais críticos do Iluminismo e, “no intuito de conhecer os homens e suas virtudes humanas, procurou recolher informações de todas as épocas para que assim pudesse correlacioná-las com a atualidade e finalmente cumprir sua missão: ensinar e formar (bilden)” (GÓMEZ, 2011, p. 03). Com isso, buscava constituir uma reformulação da educação Alemã, propondo um currículo mais realista e prático e uma formação menos iluminista e mais voltada para as emoções77.
73 Herder ajudou Goethe a compreender e apreciar a Crítica da Razão Pura de Kant.
74 Para Hammer Jr. (1973, p.13), o poema “O homem” de Herder expressa os ideias de Rousseau, embora, mais
tarde, Herder vai discordar de algumas ideias do genebrino.
75 Hamann foi um dos mais ferrenhos críticos do Iluminismo, principalmente pela sua defesa à religiosidade que o Iluminismo vinha deteriorando com seus pensamentos. Goethe chegou a chamá-lo de “o Fauno socrático” pelo modo irônico com que fazia suas críticas. Em Hamann, é possível ver também uma tentativa de unificação ao dualismo kantiano entre razão e sensibilidade: a linguagem é a razão que se fez sensível, “o verbo que se fez carne” (REALE, 2005).
76 Esse ponto é superado por Hegel quando esse apresenta a visão de a história ser construída pela dialética das ações do homem. Essa superação vai significar também, com o tempo, certo afastamento do pensamento de Goethe em relação a Herder, visto que, como será mencionado posteriormente, Goethe vai perceber que a história humana tinha muito pouco de divino, e muito de intrigas e interesses humanos, expressados principalmente através das guerras que determinam muitas relações da história.
77 Diferente de Kant, Herder acreditava que intelecto e emoção não poderiam estar separados, pois, assim, o
esclarecimento estaria ameaçando a natureza humana, o que o levou a fazer algumas críticas a alguns ideias Kantianos (NICOLAU, 2014). Porém, aqui, é difícil fazer um julgamento adequado, pois, para tanto, seria importante uma busca histórica, vendo se tal crítica de Herder não se dá antes do lançamento da Crítica da
Seu projeto educacional era de formação de uma humanidade-nação, um despertar para a humanidade baseada na representação viva das imagens de todas as épocas (costumes, povos), e desenvolvida ao longo dos momentos da vida78. A formação abrangeria, então, a totalidade das experiências com a ideia de um indivíduo sendo desenvolvido por inteiro, em cada fase, como em Rousseau.
Assim, Herder representa o princípio de uma proposta inovadora que propôs a junção de sentimento (natureza) e razão (Iluminismo) como ideal de formação da alma (CORREIA, 2013)79, proposta essa que influenciaria Goethe80 tanto em sua formação quanto na expansão de sua visão de educação.
Ao que parece, tais pensamentos seduziram Goethe. Segundo o poeta – falando sobre Herder –, “sua conversação era tão instrutiva, que cada dia ele esclarecia a minha inteligência por algum novo traço de luz [...] Herder me iniciou de repente no movimento que esperava, e ao qual ele tinha poderosamente contribuído com os seus Fragmentos sobre a nova literatura alemã” (GOETHE, 1948a, p. 215). Em outra passagem de suas memórias, Goethe faz questão de demonstrar como Herder foi um potencializador de seu talento, um “esteio inicial”, em quem ele (e outros jovens pensadores do Romantismo) se apoiou para iniciar uma nova caminhada:
Em meio a tantas preocupações, Herder tinha vindo rasgar a cortina que escondia a pobreza da literatura alemã. Graças a ele, eu não via mais no céu da minha pátria senão estrelas cadentes, e teria chegado a desesperar de mim mesmo, se depois de me ter esclarecido não me tivesse poderosamente soerguido, afim de me fazer caminhar na bela e larga estrada que ele próprio seguia (GOETHE, 1948a, p. 234).
E assim, Herder o foi guiando por entre reflexões sobre a natureza e a poesia, lapidando Goethe aos poucos, em cada contato, em cada diálogo e instrução, como mostram as próprias declarações de Goethe:
É verdade que feriam minha vaidade ao vivo, mas eu sabia apreciar o que podia me esclarecer sobre o perigo das opiniões e das inclinações que tinham alimentado a minha primeira mocidade; também não se passava um só dia sem que eu aproveitasse alguma coisa na sociedade de Herder. Iniciando-me na poesia dos Hebreus, da qual já se ocupava com ardor, e lavando-me a recolher os poemas
Faculdade do Juízo, que Kant lança somente em 1790, quando já havia passado o período de formação de
Herder.
78 Goethe vai ampliar essa ideia de Herder, demonstrando em suas obras que as experiências acontecem no
cotidiano, na sociedade.
79 Os dois pressupostos devem complementar-se em um processo de perfectibilidade, entendendo que o essencial
não é a possessão, mas, sim, a progressão até o final da vida (NICOLAU, 2014).
80 Também fomentaria mais tarde o movimento Sturm und Drang em prol da construção de novas maneiras de
populares da Alsácia, ele me fez compreender que a poesia, longe de ser uma propriedade exclusiva de alguns homens de talento, é o patrimônio universal do mundo e dos povos. Eu devorava tudo o que ele queria me ensinar [...] descobri nele o germe de tudo o que ele fez de extraordinário em seguida, e aprendi a me apropriar finalmente dos conhecimentos adquiridos, a completa-los e a liga-los tendo em vista um fim elevado (GOETHE, 1948a, p. 217).
Herder também foi importante para Goethe em outros dois pontos no que refere ao desenvolvimento intelectual de Goethe: na reflexão sobre o Iluminismo e no aprofundamento dos ideais pedagógicos de Rousseau, um dos pilares de seus futuros ideais sobre a formação.
O Iluminismo, de início, havia causado em Goethe uma reação positiva (e voltaria a utilizar alguns conceitos iluministas ao final de sua vida), de interesse e expectativa, pelo modo como tratava da formação do homem e da sociedade, ancorando-a na liberdade e na possibilidade de cada indivíduo constituir seu próprio saber.
Aos poucos, no entanto, o Iluminismo pareceu tender com mais força para a racionalidade – o que ocasionou críticas fortes de Herder aos sistemas de compreensão histórica do Iluminismo (FELIPE, 2012) – e então, sob a influência de Herder, o Romantismo passou a ganhar mais espaço na vida de Goethe, principalmente após a constituição do movimento Sturm und Drang (no qual Goethe se tornaria um dos nomes mais importantes).
As bases na Filosofia de Rousseau que moviam o movimento Sturm und Drang, e a própria concepção do pensamento pedagógico de Herder com base nesse mesmo autor, fizeram Goethe perceber o excesso de racionalidade para o qual o Iluminismo tendia. Desse modo, procurou expressar tal reflexão no povo alemão e recuperar nesse a sensibilidade e a expressão subjetiva. Tal fato foi por ele alcançado com louvor através de seu Werther (1774), ou, até de uma maneira exagerada, dado que sua obra levou vários jovens ao suicídio.
Entretanto, talvez o “novo olhar” sobre os ideais pedagógicos de Rousseau seja a maior contribuição de Herder para Goethe. Para recordar, Goethe, ao ler de maneira errônea a interpretação da natureza contida nas obras de Rousseau, havia adoecido com gravidade. Porém, amparado no que havia aprendido com Kant, e em seus próprios estudos, Herder consegue dar a Goethe uma nova interpretação de Rousseau, a qual se tornaria basilar para a construção do pensamento pedagógico de Goethe, como por exemplo, a busca pelo equilíbrio entre razão e sensibilidade, com o indivíduo sempre trabalhado de modo integral81.
É certo também, que nem só de “amores” desenvolveu-se a relação entre Goethe e Herder. Longe da relação de amizade e reciprocidade do início, a mudança de Goethe para Weimar foi significando, aos poucos, uma mudança na relação entre ambos.
81 Contudo, mesmo entre os interpretes e biógrafos de Goethe, ainda não ficam claras algumas questões sobre até onde vai essa contribuição.
Quando retornou de sua segunda viagem à Itália, entusiasmado pelo que viu no país vizinho e imaginando poder partilhar isso com seus amigos – e quem sabe até mesmo desenvolver algumas mudanças políticas e estruturais na Alemanha, tendo como exemplo o que vira na Itália –, encontrou em seus amigos muita resistência, entre eles o príncipe Carlos Augusto, que pensava na guerra que rondava seus portões, e, Herder, o qual chegou a escrever uma carta à sua mulher dizendo que não queria mais relacionar-se com “aquele” Goethe que estava de volta à Alemanha, a quem assim caracterizou:
Aquele grande artista, com aquele único. Tudo que reflete o Tudo da Natureza, o qual considera até mesmo seus amigos, e tudo o que lhes acontece, apenas como um pedaço de papel sobre o qual escrever, ou como uma cor da palheta com a qual pintar (apud CITATI, 1996, p. 25).
Da mesma maneira, se Herder foi importante para expandir o conhecimento cultural e filosófico de Goethe – principalmente no que diz respeito a Rousseau –, a escrita dos Anos de
aprendizagem não foi muito bem recebida por Herder (assim como para outros membros do
movimento Tempestade e Ímpeto). Isso se justifica, em primeiro momento, pelo distanciamento de Goethe com alguns dos ideais românticos e burgueses e por sua aproximação com a cultura da Aristocracia. Em decorrência disso, certo “mal estar” implantou-se entre eles: não era o que o movimento queria, e, de certa maneira, os integrantes sentiam-se um pouco traídos por Goethe82.
Mas, para Herder, outro ponto em especial colocava-se de forma repulsiva: a maneira como Goethe tratava as relações (casamentos e romances) desde a escrita do Werther. Herder, como cristão e seguidor dos preceitos cristãos (seguidor de Hamann na percepção da obra divina sendo realizada na terra), acreditava que tudo o que aqui acontecia e era unido pela igreja deveria perdurar. Assim, as virtudes e as bênçãos deveriam ser levadas a sério.
Em sentido contrário, Goethe criticava duramente os “casamentos arranjados” pela burguesia, e, por isso, colocava seus personagens em relações “desaconselhadas” – o próprio
Wilhelm Meister nunca chegou a concretizar seu casamento, nem mesmo na segunda obra, os Anos de peregrinação – e isso levou Herder a criticar duramente a obra de Goethe, como é
possível ver em uma carta de 1796 à Condessa Baudissin, na qual comenta o que achou da leitura do quarto livro da obra:
As Marianes e Philines, toda essa confusão é-me odiosa. Eu creio que o autor também deve ter desejado torná-las desprezíveis, como talvez a sequência do livro
82 O que contribuiu para seu isolamento, dado que muitos de seus amigos do tempo da juventude e do
deverá demonstrar. Infelizmente, ele não nos deu essa sequência, apresentando apenas a primeira parte. Mas também aqui Goethe agiu conforme sua própria vontade. Qualquer que seja a dita sequência, o protagonista não poderá livrar-se de sua mácula; com que tipo de criatura ele desperdiçou seu primeiro amor! (MAAS, 2000, p. 107).
Ainda é possível, vasculhando intérpretes de ambos autores, compreender um terceiro ponto: a utilização de uma concepção iluminista de educação no papel desenvolvido pela Sociedade da Torre83. Embora Goethe exaltasse uma filosofia da natureza, como em Rousseau, não via na educação pelo erro uma forma adequada de conduzir a educabilidade dos indivíduos,84 ao contrário, insistia, na formação conduzida e acompanhada, com ênfase no papel do educador.
Assim, Goethe e Herder, ao final de suas vidas, viram-se afastados. O próprio Goethe ao final de suas memórias chega a afirmar que, quando entregara os últimos escritos de seu
Wilhelm Meister, já não tinha mais contato com Herder. Porém, mesmo ambos tomando
caminhos distintos, é inegável a notoriedade da passagem de Herder pela vida de Goethe, tornando-se uma das influências mais importantes85, seja por sua colaboração direta, em
relação à ampliação das leituras de Goethe, seja em relação indireta, através dos questionamentos que faziam Goethe refletir melhor sobre suas obras e seus ideais.