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Shakespeare e Goethe: as bases da composição do Meister

No documento 2018MarcioLuisMarangon (páginas 61-65)

Embora todos os pensadores citados até aqui tenham um espaço especial no que diz respeito à construção da obra estudada, talvez nenhum deles seja tão significativo quanto William Shakespeare. O interesse sempre crescente com o qual Goethe estudava Shakespeare alargava de tal modo sua imaginação que ele não conseguia mais fechar-se em um “espaço estreito da cena, e sobretudo no tempo limitado por uma representação dramática” (GOETHE, 1948a, p. 271). Era preciso descrever todas suas ideias e teorias em uma obra como o Wilhelm Meister.

Shakespeare era, para Goethe, muito mais do que um mero poeta ou escritor, era, como menciona Lukács (2006, p. 583):

[...] um grande educador para a humanidade e personalidade totalmente desenvolvida; seus dramas são, para ele (Goethe), modelos do modo como o

98 “Thus it is not far-fetched a kantian aesthetic model at word in Wilhelm Meister the narrative structure of the novel resembles less the organic tragectory of development from particular to whole, matter to spirit, that we identified with Herder and the Abbé, than the fragile convergence of two separate terms we found in Kant's aesthetic judgment. As in kant's construct, empirical moments in the novel are at once singular and independent and always already bound within an indeterminate whole. We will see that moments of encounter and discovery in Wilhelm's life have an inconclusive, dual status: it is often undecidable whether his experiences are accidental and unique or part of a prior plan on the part of The Tower Society.”

desenvolvimento da personalidade atingiu a plenitude nos grandes períodos do humanismo e de como esse desenvolvimento deveria se completar no presente.

Em sua época, as obras de Shakespeare tiveram um papel importante na formação da “moderna literatura alemã”, principalmente porque, sob o aporte de Lessing99, tornaram-se

como “antídoto” à má interpretação dos preceitos de tempo, espaço e ação de Aristóteles, abrindo caminho para novos rumos à formação e à cultura do público alemão.

Quanto ao jovem Goethe, é possível perceber em suas próprias palavras que, ao deparar-se com a obra de Shakespeare, sentiu-se extremamente identificado, como menciona em seu Discurso para o dia de Shakespeare: “A primeira página dele que li foi uma identificação por toda a vida, e quando tinha terminado a primeira peça, fiquei como um cego de nascença a quem um gesto milagroso dá, num instante, a visão” (apud MAAS, 2008, s/p).

Tal identificação transformou-se em uma clara influência, a qual pode ser percebida ao longo das obras de Goethe, principalmente da expressão e da tragédia da vida de Werther e das exposições e colocações da interpretação de Wilhelm Meister em seus anos de aprendizagem.

É mister ressaltar, por exemplo, que a base da primeira versão do Wilhelm Meister (A

missão teatral - 1777) tem como fundamento o teatro, claramente pela crença que Goethe

tinha na possibilidade de que um teatro – com a profundidade das obras de Shakespeare – pudesse servir de parâmetro para a formação do povo alemão. Essa ideia não foi abandonada por completo na versão final (1796).

Na versão final de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, o desejo de atuar como uma “pessoa pública”, negada ao personagem por sua origem burguesa, impele Wilhelm Meister para o teatro, onde, segundo ele, expressando as palavras de Goethe, poderia “ser e parecer” ao mesmo tempo, dando-lhe também acesso e interpretação do “grande mundo” e a formação de suas capacidades.

Assim, é visível a influência de Shakespeare em Goethe, principalmente sobre seu Meister. Durante a obra, vale lembrar, Goethe faz uma alusão à dimensão do poder das palavras de Shakespeare: quando descreve a primeira leitura de suas obras por parte do personagem Wilhelm Meister, diz que essas o conduziram “a um mar sem fim, no qual rapidamente se esqueceu de tudo e se perdeu” (GOETHE, 2006, p. 184).

Assim, do modo de descrever a expressão de seus personagens e os cenários em que esses apareciam, até a necessidade de fazer do teatro uma base para a primeira versão do

Wilhelm Meister (A missão teatral), ou ainda, de colocar seu próprio personagem principal como um intérprete de Hamlet, apontando para o fato de que ambos tinham muito em comum, Goethe busca demonstrar seu apreço pelo pensamentos do escritor inglês e o faz uma base de sustentação para sua formação estética, juntamente com os aspectos kantianos.

Diante de tal constatação, é possível ir delineando um caminho construtivo para a obra de Goethe, que inicia com as releituras apontadas por Herder, passa pelos ideais pedagógicos de Rousseau – voltados para a educação da natureza com base na educabilidade –, aprofunda- se em Espinoza – no aprofundamento da natureza e na necessidade da intersubjetividade para a sua potencialização –, e encontra, nos ideais estéticos de Kant, luz para a relação entre o particular e o universal, entre natureza e objeto, tudo isso sendo unificado e fortalecido pela força criadora dos ideais e dos escritos de Shakespeare.

3 OS ANOS DE APRENDIZAGEM DE WILHELM MEISTER: A CONSTITUIÇÃO DA OBRA

Após a análise da vida de Goethe em sua trajetória familiar e intelectual, e a análise sobre da experiência formativa que o influenciou na constituição da obra a ser aqui analisada, é chegado o momento de analisar o contexto social e de formação sob o qual a obra vai ser desenvolvida, “obrigando” Goethe a servir-se de todo seu conjunto de ideias e ideais, os quais constituiu por meio de seus estudos e de suas influências no decorrer de sua vida acadêmica e social.

Assim, este capítulo tem como objetivo analisar, hermeneuticamente, o contexto histórico e social de Goethe, principalmente entre os anos de 1777 e 1796 – período em que a obra fora escrita desde sua primeira versão –, buscando compreender como o “caldo cultural” da vida de Goethe, e do contexto em que vivia, ajudou a constituir a obra.

Pretende-se, com isso, perceber como Goethe buscava sentir as necessidades de sua época (em diferentes credos, classes e gêneros) e constituir aspectos de formação que respeitasse a natureza e as experiências de cada um, ao mesmo tempo em que buscava que essa formação fosse algo universal e “intertemporal”, ou seja, que fosse para além das necessidades de seu tempo e se mostrasse basilar à formação de indivíduos dos “novos tempos”.

Nesse sentido, será primordial também dar uma atenção especial para sua constituição “técnica”, buscando perceber que a grandiosidade da obra somente foi possível pela genialidade de Goethe, nesse caso não somente como pensador, mas principalmente como um poeta capaz de sentir o mundo à sua volta e expressá-lo, como poucos fizeram, em uma junção entre literatura e formação (característica básica de um Bildungsroman - romance de formação), construindo uma obra clássica, que caracteriza-se por sua ambientação em relação à época e à realidade em que se constitui a história, o que, definitivamente, contribui para que o leitor possa situar-se em seu tempo e atualizá-la conforme sua relação com cada época e cada característica.

No documento 2018MarcioLuisMarangon (páginas 61-65)