2. MÍDIA E IMAGEM CORPORAL
2.1. Mídia e Imagem Corporal
2.1.3. Gordura e Fracasso
troféu, podendo ser comparado a uma vitória em relação a aqueles que não se enquadram dentro do padrão em vigor.
O crescimento da indústria, as novas frentes e trabalho, a necessidade de mão-de-obra maior e melhor qualificada, a otimização do tempo e dos espaços, exige corpos mais ágeis, mais aptos. Assim, o excesso de peso começa a atrapalhar, lembrando o ócio e a imobilidade e não combinando com a modernidade e os ares cosmopolitas do novo século (ANDRADE, 2003, p.127)
As pessoas na angústia de encontrar uma saída para seus corpos “imperfeitos”, se submetem a uma dura e controlada disciplina física, caraterizada pela realização de exercícios repetidos mecanicamente, acompanhada de uma alimentação rígida, como se tais atitudes pudessem garantir seu “espaço ao sol”, independentemente de suas condições sociais, emocionais, intelectuais ou profissionais (ANZAI, 2000). O fitness emerge então como uma alternativa menos tirana e mais saudável a essa padronização, preocupando-se com o desenvolvimento do bem-estar físico, psicológico, social, intelectual e emocional dos indivíduos.
Na cultura da atualidade, marcada por valores dominantes como competição, consumismo, o corpo é um corpo pautado no individualismo, “contido pela musculatura”, é um “corpo mercadoria”, um “corpo aparência”, um “corpo-ferramenta”, é um “corpo-consumidor”, um corpo com função de promoção social, que pode trazer um retorno, um corpo que deve expressar saúde [...]
(VASCONCELOS; SUDO; SUDO. 2004, p.76)
Partindo desse pressuposto o gordo foge a norma, sendo visto como “sem saúde”, e é estigmatizado pelo excesso. Ter alguns “quilinhos a mais” marca o sujeito negativamente por apresentar um tributo que o torna diferente dos demais. Por outro lado, ser magro, além de enaltecer o indivíduo, se manifesta como sinal de equilíbrio e felicidade. O controle da aparência física se transformou em uma questão de boas maneiras, visto que o corpo é agora entendido como símbolo da própria felicidade, sendo o resultado de um esforço, um cartaz de como o sujeito é internamente (VASCOCELOS; SUDO; SUDO, 2004 apud BUCKNER, 2002).
Logo, a imagem corporal passa a ser influenciada por esse culto à magreza e se torna uma medida do desempenho individual de cada pessoa. Portanto, mídia tem um papel crucial na divulgação e na construção de uma realidade homogênea. Por meio de discursos que misturaram a declaração de médicos, especialistas, psicólogos, nutricionistas, personal trainers e o próprio sujeito, ela faz com que essa discussão abranja vários outros domínios além da saúde, como o social e o moral.
Vasconcelos, Sudo e Sudo (2004) apontam que nem sempre é necessário que os veículos classifiquem os sujeitos como gordos, através da divulgação do peso e da altura da pessoa eles deixam o leitor visualizar o excesso. Além disso, é comum a associação da gordura a indivíduos desajustados socialmente, que buscam preencher seu vazio com a comida. As autoras nos apresentam uma série de comentários, presentes em notícias analisadas por elas, que ilustram tal ideia: “Todo gordo é ansioso, tem um vazio na alma que tenta preencher com a comida”
(Fernanda Fernandes, gerente-geral dos Vigilantes do Peso) ou “Eu já vou para geladeira aos prantos. Sei que não vou conseguir parar. Sinto um enorme vazio e, quanto mais eu como, mais me sinto vazia - desabafa” (Bianca Barbosa, 22, estudante) (VASCONELOS; SUDO; SUDO, 2004, p.80).
Tais reportagens parecem seguir um padrão: tentar ser uma importante fonte de informações, trazendo descobertas inovadoras e palavras de especialistas sobre o assunto em questão. “De qualquer forma, estar fora do peso ideal, independente de vaidades, requer, em muitos casos, cuidados médicos. Às vezes, por trás de alguns inocentes quilinhos a mais, pode
estar escondida alguma grave patologia” (VASCONELOS; SUDO; SUDO, 2004, p.83) é outro exemplo apresentado pelas autoras que ilustra a constatação anterior.
Vemos então que a mídia, embasada em falas de profissionais ou resultados de pesquisas, acaba reforçando um estilo de vida que se ampara no discurso da saúde para conquistar notoriedade. Consequentemente, o corpo deve ser comedido, comportado e controlado, uma vez que o excesso é visto como um risco ao bem estar e, dentro dessa perspectiva, o desleixo e/ou a falta de cuidado consigo mesmo traria como resultado a doença.
Assim, ideias como exercitar-se, cuidar-se e ter uma rotina saudável ganham força, destacando ainda mais um ideal a ser seguido.
Nessa cultura em que o corpo é a essência da identidade dos indivíduos, seus adeptos são esmagados pela proliferação de imagens homogêneas, por ideologias dominadoras e pelo consumismo. A aparência física e os cuidados estéticos se tornam elementos centrais nesse estilo de vida, e a preocupação com o belo é carregada de investimento pessoal. Com os novos cosméticos, cirurgias, exercícios físicos, suplementos alimentares e artifícios da elegância, cria-se a ideia de que só é feio e está “fora de forma” quem quer. Somos pressionados em numerosas circunstâncias a concretizar, em nós mesmos, o corpo ideal de nossa cultura (TAVARES, 2003).
A indústria da saúde, apoiada pelos meios de comunicação, torna-se responsável pela criação de desejos e pelo reforço de imagens, padronizando assim as silhuetas. Silhuetas estas que, ao estarem fora da medida certa, deixam o sujeito insatisfeito e pressionado a entrar no padrão. Russo (2005) ressalta que o reforço dado pela mídia em mostrar corpos atraentes, faz com que uma parte de nossa sociedade se lance na busca de uma aparência física idealizada.
Seguindo essa linha de pensamento, podemos concluir que o belo não é mais considerado um “dom” da natureza, e sim o resultado de um esforço pessoal do indivíduo, portanto a beleza não é algo dado, mas construído. “Devido à mais nova moral, a da “boa forma”, a exposição do corpo, em nossos dias, não exige apenas dos indivíduos o controle de suas pulsões, mas também o (auto) controle de sua aparência física” (GOLDENBERG;
RAMOS, 2002, p.25).
Novaes (2005) discorre sobre a linha tênue que separa a feiura e a beleza na atualidade.
Hoje, diferentemente do passado no qual se valorizava um todo harmônico, a estética do corpo é dividida em recortes da anatomia humana. Vivemos em um momento ressaltado pela
“fiscalização do olhar”, expressão utilizada pela autora para descrever atenção minuciosa que
se faz sobre o corpo com o aval da ciência. Esse mesmo olhar contribui para regulamentar diferenças e determinar padrões estéticos em termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado, normal ou anormal.