2. MÍDIA E IMAGEM CORPORAL
2.3. Identidade e Identidade fitness
Segundo o levantamento, desses brasileiros que acessam as redes, 41% compartilham conteúdos com o intuito de promoverem alguma causa e 21% têm como objetivo manter contato com amigos.
Vivencia-se um processo que está em franca ascensão: a era da revolução do “eu”, na qual o indivíduo é narrador, produtor e receptor de conteúdo. O sujeito ganha cada vez mais voz e engaja-se de forma ativa nas diversas redes sociais, sejam elas on ou off-line.
Separação de tempo e espaço: a condição para a articulação das relações sociais ao longo de amplos intervalos de espaço-tempo, incluindo sistemas globais.
Mecanismos de desencaixe: constituem fichas simbólicas e sistemas especializados (em conjunto = sistemas abstratos). Mecanismos de desencaixe, separam a interação das particularidades do lugar.
Reflexividade Institucional: o uso regularizado do conhecimento sobre as circunstâncias da vida social como elemento constitutivo de sua organização e transformação (GIDDENS, 1938, p. 26).
Essas três influências dinâmicas nos ajudam a entender o que viriam as ser as mudanças estruturais apontadas pelo autor, como por exemplo: a fragmentação das paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade, etc. Nesse contexto, já não é mais viável sustentarmos a ideia de um indivíduo unificado, tendo em vista o abalo dos fatores que no passado forneciam uma estabilidade social. Assim, completa Hall (2005), as identidades pessoais, acompanhando esse processo de fragmentação, também mudam, afetando a ideia tradicional que temos de nós mesmos como sujeitos integrados.
A modernidade acaba por introduzir um dinamismo elementar nas coisas e nas relações humanas. Por consequência, o “eu” acaba sendo explorado e construído como parte de um processo reflexivo que conecta as mudanças pessoais e sociais vivenciadas pelo indivíduo.
Corroborando com esse pensamento, Giddens (1938, p. 27) completa: “em tais circunstâncias, os sistemas abstratos passam a estar centralmente envolvidos não só na ordem institucional da modernidade mas também na formação e continuidade do eu”.
Nota-se que a contemporaneidade é marcada pelo quebra de paradigmas e tradições, sendo caracterizada pelo rompimento e pela substituição do referencial protetor da pequena comunidade para a instauração de organizações maiores e mais impessoais (GIDDENS, 1938).
Tal transformação caminha ao encontro dos pensamentos de Hall (2005) ao afirmar que, por definição, as sociedades modernas são de mudança constante, rápida e permanente.
Portanto, é possível dizer que as diferenças identitárias são o que distinguem a atualidade do passado. Hoje, múltiplas identidades são construídas e reconstruídas ao longo do tempo, isto é, elas se desenvolvem em conjunto com a sociedade. Conclui-se então que “as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alternando, assim, constitutivamente, seu caráter” (HALL, 2005 apud GIDDENS, 1990). Logo, questões como tempo e espaço são coordenadas básicas para todos os sistemas de representação (escrita, desenho, pintura, arte, fotografia, etc.).
Tendo em mente esse amplo cenário, Hall (2005, p. 11 - 13) propõe três concepções distintas de identidade: o sujeito do Iluminismo, o sujeito Sociológico e o Sujeito Pós-Moderno.
1. Sujeito do Iluminismo: baseado em uma concepção da pessoa humana como um indivíduo centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação. A identidade estaria situada em um núcleo interior do sujeito, nascendo e se desenvolvendo com ele, ainda que permanecendo essencialmente a mesma - idêntica - ao longo de sua existência. O centro indispensável do eu seria a identidade de uma pessoa.
2. Sujeito Sociológico: essa concepção reflete a complexidade do mundo moderno e a consciência de que esse núcleo interior do sujeito não é autônomo e autossuficiente, sendo formado, também, pela interação entre o eu e a sociedade.
O homem ainda possui sua essência interior, seu “eu real”, mas este é formado e modificado em um diálogo continuo com os mundos culturais exteriores a ele.
A identidade, nesse caso, preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior”, entre o mundo pessoal e o público. Assim, ao mesmo tempo em que projetamos
“nós mesmos”, também internalizamos diferentes significados e valores, tornando-os “parte de nós”. Conclui-se então que o sujeito previamente vivido, como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado;
composto não apenas de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas.
3. Sujeito Pós-Moderno: nesta concepção o indivíduo é visto como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. Ele assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu”
coerente. Fica claro o caráter móvel das identificações, ou seja, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos apresentados a uma multiplicidade de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar, mesmo que temporariamente.
Depreende-se dessas explicações que atualmente as pessoas procuram se identificar com aquilo que lhes agrada no momento presente, não se prendendo a ele de forma definitiva. No futuro outras opções interessantes de significação podem surgir, fazendo maior ou menor sentido para os sujeitos, o que gera esse caráter temporário das identidades. Ao mesmo tempo em que possuímos um núcleo individual, aquilo que nasce e se desenvolve junto conosco ao
longo de nossas vidas, também somos influenciados e moldados de acordo com o ambiente cultural em que estamos inseridos. Assim, somos o resultado da união entre um eu “individual”
e um eu “coletivo”. Por consequência, estamos em constante reformulação, não havendo uma identidade única e imutável.
Nesse sentido, cada indivíduo busca adotar um estilo de vida que se adapte às suas necessidades pessoais. Giddens (1938) define a expressão “estilo de vida” como um conjunto mais ou menos integrado de práticas que uma pessoa abraça, não só porque essas práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular de auto identidade. Percebe-se que esse termo não é aplicável em sociedades tradicionais, uma vez que implica a escolha dentro de uma pluralidade de opções. Logo, os estilos de vida são práticas de rotina incorporadas em hábitos de vestir, comer, modos de agir e lugares preferidos de encontrar os outros. Entretanto, deve-se destacar o fato das rotinas estarem abertas a mudanças, tendo em mente o caráter mutável das identidades.
Assim, “todas essas escolhas (assim como as maiores e mais importantes) são decisões não só sobre como agir, mas também sobre quem ser. Quanto mais pós-tradicionais as situações, mais o estilo de vida diz respeito ao próprio centro de auto identidade, seu fazer e refazer”
(GIDDENS, 1938, p. 80). Nesse mundo de inúmeras opções e alternativas, o planejamento estratégico da vida assume um papel de extrema importância. Em suma, ele é reflexo organizativo do “eu”.
Logo, planejar nossa rotina nada mais é do que preparar um curso de ações mobilizadas em termos da biografia do eu. Definimos horários para acordar, comer, sair, ir à academia, dormir, etc. Tudo é pensando de acordo com as práticas que adotamos, da menor a maior escolha. Vemos então que a disposição de tempo a ser investido em cada uma dessas escolhas é proporcional aquilo que consideramos importantes, ou seja, é um reflexo de nosso estilo de vida.
Agora, após havermos trilhado todo esse percurso que teve início nas discussões sobre as apropriações do corpo ao longo da história, do que é imagem corporal, a relação existente entre o corpo e a saúde e de como esse assunto vem sendo abordado na mídia, chegamos em um momento crucial para que possamos dar continuidade a esta pesquisa: o esboço do que vem a ser uma identidade fitness.
A praxes fitness, conforme visto, é o resultado da adoção de hábitos saudáveis (cuidados com a higiene corporal, a suspensão do uso do tabaco e a limitação de ingestão de álcool,
práticas de relaxamento e meditação, execução de exercícios físicos na dosagem correta, etc.), em conjunto com um equilíbrio emocional, intelectual e social. Nessa perspectiva, a preocupação com a ecologia do corpo seria o núcleo interior desse estilo de vida, enquanto a atenção aos hábitos saudáveis seriam as influências externas à ele.
Consequentemente, a identidade fitness pode ser caracterizada como a consonância entre o corpo e a mente, na busca por resultados que são específicos ao indivíduo, isto é, cada pessoa possui uma visão pessoal do que viram ser os mesmos. Enquanto alguns podem considerar o corpo hipertrofiado como sua maior conquista, outros são depositam seu resultado na construção de uma rotina saudável. Ressalta-se o caráter subjetivo das identidades, sendo elas uma representação pessoal de cada sujeito, o que os une são as práticas e comportamentos adotados por eles.
Depreende-se então que os indivíduos dão forma a suas personalidades de maneiras específicas. Apesar de todos estarem dentro de um mesmo grupo, o fitness, cada um reflete o seu “eu” dentro de uma perspectiva. Isso fica claro ao analisarmos as 10 contas selecionadas para estudo. Os perfis escolhidos apresentam suas rotinas de modo individual, ainda que todos propaguem o mesmo estilo de vida.
Nesse contexto, as mídias sociais emergem como o espaço no qual as identidades ganham materialidade. Por meio de suas diferentes ferramentas, sejam elas textos, fotos, vídeos, colagens, áudios ou quaisquer outros instrumentos, elas dão vida a algo intangível. Dessa forma, as linhas do tempo se tornam o ambiente ideal para o compartilhamento de informações acerca de si, sendo elas o reflexo organizativo de nossa identidade.
CAPÍTULO III